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2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.2 O BEBÊ, O LIVRO E A LEITURA: INAUGURANDO UMA RELAÇÃO

2.2.1 O BEBÊ, SEUS CONHECIMENTOS E RELAÇÕES COM O AMBIENTE

Em relação aos outros mamíferos, uma característica particular dos bebês é o seu inicial estado de dependência que, como sabemos, é muito mais intenso nos seres humanos. A princípio, enquanto ainda não desenvolveram a linguagem oral, os bebês expressam suas necessidades, emoções e relacionam-se com o mundo principalmente através dos gestos, do choro e expressando sorrisos (SEIDL, et. al.,2004; AQUINO e NUNES, 2014)

Suas formas de expressão, próprias dos primeiros momentos de vida, tem íntima ligação com o relacionamento bebê-adulto, numa situação em que os pequenos progressivamente avançam na interação com o mundo. Conforme Klaus e Klaus (apud RÖSING e TUSSI, 2001, p.1):

o bebê nasce pronto para interagir com o meio e com as pessoas que o cercam. Durante a vida intrauterina, um bebê ouve, sente e faz experiências, reconhece a voz da mãe, diferentes tipos de sons, e é sensível a determinados padrões silábicos. Os cinco sentidos já estão presentes e tudo isso é uma forma de preparação para enfrentar o mundo exterior e interagir com os pais. Essa interação acontece já nas primeiras horas de vida.

Desse modo, entendemos que ao falar dos bebês estamos pensando em seres ativos que desde os primeiros momentos interagem com o mundo à sua volta, construindo suas percepções e comportamentos a partir da relação com o outro (ANJOS, et al., 2004; BUSSAB, CARVALHO e PEDROSA, 2007; GUIMARÃES,2008).

Vale notar, no entanto, que essa forma de enxergar o bebê como ser que interage e pode envolver-se em situações de aprendizagem dentro do convívio social no qual está inserido é algo recente. Como nos mostra Pedrosa (2009):

Há poucas décadas, a criança, no primeiro ano de vida, era considerada um ser imaturo. Pelo fato de não andar, não correr, não falar, pensava-se que ela não sabia outras coisas. Fazia-se uma generalização inadequada, pois se estendia essa incompletude para todos os outros processos! Enfatizava-se também a comunicação linguística sobre a não-verbal, a cognição sobre o afeto, e se estudava a criança sozinha, em situações de exames, seguindo-se parâmetros de escalas de avaliação. (PEDROSA, 2009, p.17)

Ainda de acordo com Pedrosa (2009) estudiosos de diversas áreas (psicologia, educação, sociologia) que, antes, lançavam sua visão sobre as crianças individualmente passaram a estudar os pequenos em outra situação: a coletividade.

Com isso, as crianças e, especificamente, os bebês, também passaram a ser observados no lugar da interação social. Segundo Carvalho, Império- Hamburger e Pedrosa (1996) a interação social é:

Um processo efetivo ou potencial de trânsito de informação em um campo cuja natureza é definida pela natureza de seus componentes e dos princípios que descrevem suas relações; os componentes constituem o campo e são simultaneamente constituídos pela efetivação do processo interacional. Interação é um estado potencial e um processo. (CARVALHO, IMPÉRIO- HAMBURGER & PEDROSA, p. 22, 1996)

As autoras complementam o conceito dizendo que a interação pode ser efetivada através da regulação entre os componentes envolvidos, de modo que o comportamento de um componente só pode ser entendido considerando o comportamento dos outros componentes (CARVALHO, IMPÉRIO- HAMBURGER & PEDROSA, 1996).

Nesse contexto, as ações de cada bebê são observadas, na interação com o grupo, ou seja, na relação com o comportamento de outros bebês. Costa & Amorim (2015), inspiradas nas autoras supracitadas, apontam ainda que, na interação, o comportamento pode ser regulado de maneira implícita, não intencional, à distância e ainda mesmo que os participantes não saibam que seu comportamento regula o comportamento dos outros.

Com esse avanço na percepção das possibilidades interativas dos bebês, não só a linguagem verbal passa a ser considerada, mas todas as possibilidades comunicativas como o olhar, as tentativas de aproximação e o interesse pelo outro.

Assim, já no início de sua vida, o pequeno ser afeta e é afetado pelo mundo e pelas pessoas que o cercam. Para Carvalho, Pedrosa & Rossetti-Ferreira (2012):

O bebê nasce, portanto, preparado para o reconhecimento do ambiente social imediato e para a comunicação com ele. E esse ambiente está preparado para acolhê-lo e entrar nesse jogo comunicativo. (Carvalho, Pedrosa & Rossetti- Ferreira, p. 113, 2012).

Assim como Ramos (2014), entendemos que o bebê é dotado de competências sociais reveladas em suas vivências interativas com o outro. Portanto, o bebê não é, simplesmente, passivo diante das ações dos adultos, mas tem habilidades sócio - comunicativas que vão, progressivamente, se desenvolvendo e revelam-se através das múltiplas linguagens de que são dotadas as crianças (AQUINO & SALOMÃO, 2011; EDWARDS, GANDINI, FORMAN, 1999).

Com o desenvolvimento das habilidades sócio – comunicativas, os bebês vão aprofundando suas formas de expressão. Um exemplo disso é o comportamento de imitação. Wallon destaca importância das emoções e da imitação na comunicação dos bebês. Para o autor, a emoção realiza a mediação entre o biológico e o social, desenvolvendo o psicológico, através da imitação – mote para o desenvolvimento, como sinaliza Matwijszyn (2003).

E a imitação, em Wallon, é um processo afetivo que constitui o psiquismo da criança. Por meio da imitação, para o autor, importantes trocas sociais são estabelecidas inclusive na direção do pensamento interpretativo e representativo (Vasconcellos, 1996). Ainda de acordo com Vasconcellos (1996), sobre a teoria de Wallon, é na imitação que a criança vai formando sua subjetividade pela capacidade de “participar do outro e diferenciar-se dele”.

Logo, o bebê aprende a imitar os outros à medida que com eles convive e interage e “usa por empréstimo uma consciência mais diferenciada do que a sua” (ROSSETTI-FERREIRA, et al., 2000, p.19). Assim:

Neste processo, copiar o comportamento do adulto, dentro das próprias habilidades motoras e de simbolização, desafia a criança a transformar o modelo original, enriquecendo sua apropriação dos mediadores apresentados para a execução da tarefa. (ROSSETTI-FERREIRA, et al., 2000, p.19)

Em outras palavras, imitar não é apenas repetir a ação do outro em gestos ou movimentos sem nenhum sentido ou intenção. Imitando, o bebê tem a possibilidade de criar e recriar simbolizações a partir de sua própria experiência. Consequentemente, como também apontam Rossetti-Ferreira et al. (2000), os sentidos decorrentes da imitação não são lineares para todos os bebês, mas são individualmente significativos nas vivências de cada um.

Além das discussões da Psicologia que trouxemos, o reconhecimento do lugar social ocupado pela criança encontra amparo, também, nas contribuições dadas pela Sociologia da Infância. Para os estudiosos da área, os bebês, mais que um “vir a ser”, já são “agentes sociais” (ROCHA, 2008, p.46). Ou seja, Corsaro (2009) considera a socialização da criança a partir da ideia de “reprodução interpretativa” termo que, para o autor, indica que as crianças reproduzem e internalizam os elementos da cultura ao mesmo tempo que os recriam e modificam de acordo com seus interesses próprios

enquanto crianças. Esse olhar para as crianças enquanto produtoras de culturas desde o nascimento é um comportamento relativamente recente, para Cruz (2008):

Acreditar que mesmo crianças ainda bem pequenas têm o que dizer deriva de algumas ideias que vêm sendo construídas nas últimas décadas. Entre elas têm destaque o reconhecimento de que, desde a mais tenra infância, nas suas interações sociais, as pessoas vão somando impressões, gostos, antipatias, desejos, medos etc., desenvolvendo sentimentos e percepções cada vez mais diversificados e definidos, atribuindo significados, construindo a sua identidade. (CRUZ, 2008, p.13)

Tal qual a autora, acreditamos que as crianças têm muito a dizer. Mesmo as que não falam verbalmente, como é o caso dos bebês que compõem os agrupamentos que investigamos, através das formas de comunicação que já utilizam, “conversaram” conosco no sentido de ajudar a entender seus conhecimentos e relações.

Os estudos aqui discutidos convergem no sentido de ver o bebê como ser dotado de potencialidades comunicativas e competente ser social. Nossa perspectiva, no presente estudo, fundou-se na concordância com essa visão, uma vez que entendemos que os bebês, mais que “alvos” de uma prática pedagógica, são dela ativos constituintes. Com isso, ao nos interessarmos pela prática da professora, não a desvinculamos da participação dos bebês com suas posturas interativas.

Assim, explicitada nossa perspectiva acerca das potencialidades dos bebês, nos concentraremos, a seguir, nas interações e aprendizagens que acontecem na situação em que a professora lê para eles, num contexto escolar. Em tais situações, é possível explorar as interações entre bebês e seus pares de idade, a professora e entre eles e o objeto-livro.

2.2.2 O BEBÊ, SUAS APRENDIZAGENS E RELAÇÕES COM OS LIVROS E A