2.1 “A INCLUSÃO COMO COLOCAÇÃO”: O DEBATE A CERCA DA INTEGRAÇÃO
4. A CONCEPÇÃO DE COMPETÊNCIAS ADOTADA NAS PRESCRIÇÕES CURRICULARES PARA OS CURSOS DE
4.1. A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA DEFENDIDA PELAS DIFERENTES CONCEPÇÕES DE APRENDIZAGEM
4.1.1. O Behaviorismo e a competência como adestramento do indivíduo
Não há a intenção aqui de realizar uma discussão epistemológica e histórica do behaviorismo46 enquanto teoria da aprendizagem e sua influência no
46 O termo Behaviorismo vem do termo inglês behavior
que significa “comportamento”. Essa tendência também é denominada de Comportamentalismo, Teoria Comportamental, Análise Experimental do Comportamento – AEC, Análise do Comportamento. O inaugurador do termo foi o estadunidense John Broadus WATSON (1878-1958) em artigo publicado no ano de 1913 de título “Psicologia: como os behavioristas a veem”. No entanto, os primeiros a propor o estudo da Psicologia a partir do comportamento foram Vladimir Mikhailovich BECHTEREV (1857-1927) e Ivan Petrovich PAVLOV (1849-1936). Após Watson, Burrhus Frederic SKINNER (1904-1990) foi o mais influente nos estudos sobre o comportamentalismo do século XX (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002).
âmbito educacional. Temos unicamente a intenção de identificar o uso da linguagem competência a partir dessa tendência teórica da aprendizagem.
A discussão sobre competência a partir do behaviorismo nos obriga a discutir e entrar no debate sobre habilidades e atitudes. O termo competência, segundo a etimologia latina é competentia que significa:
A soma de conhecimentos ou habilidades; capacidade objetiva de um indivíduo para resolver, problemas, realizar atos definidos e circunscritos; competência social: capacidade de um indivíduo se aproximar do outro; capacidade de um indivíduo expressar um juízo de valor [...]; gramática internalizada, [...] mentalizada (HOUAISS, 2001 apud KATO 2007, p. 32)
Com relação às habilidades, segundo Bolsoni-Silva, 2002; Del Prette e Del Prette, 2008, o termo habilidades, é usado comumente para designar um conjunto de capacidades comportamentais aprendidas que envolvem interações sociais.
Para Bandeira et al (2009), as habilidades são definidas como um conjunto dos desempenhos apresentados por um indivíduo a partir da demanda de uma situação interpessoal. Ainda a mesma autora, diz que o desenvolvimento das habilidades inicia-se no nascimento e vai progressivamente sendo elaborada ao longo da vida, por isso, afirma que é possível orientar intervenções visando a convivência e o ajustamento de indivíduos em diferentes culturas.
Por esta consideração, fica evidente a inserção do conceito de habilidades no campo educacional, já que é possível intervir nas habilidades educacionais de um indivíduo de acordo com o que se estabelece como perfil de aluno. Então, torna-se ideal como forma de ajustamento do indivíduo ao que se quer. Portanto, ajustar um indivíduo tanto pode ser para servir a manutenção do capital como para libertá-lo.
Competência e habilidade, ora são tratadas como sinônimas, ora como distintas, mas o que as torna semelhantes ou interligadas no beraviorismo é a possibilidade de observá-las, mensurá-las, avaliá-las, consequentemente, ajustá-las ao que se pretende, adestrando o indivíduo a partir de uma norma pré-estabelecida.
Com relação às atitudes, Serra (2007) diz que o termo foi introduzido na literatura psicológica por Thomaz e Znaniecki em 1918 para explicar diferenças de comportamento entre fazendeiros poloneses e estadunidenses e, ao longo do século
XX o tema se tornou alvo de muitos estudos dentro da psicologia social e da sociologia. A partir de então cresceu o número de definições em relação a “atitudes”47.
Segundo Fleury; Fleury (2001) a definição de atitudes está fortemente fundamentada a partir de duas vertentes teóricas da aprendizagem, o modelo behaviorista e o modelo cognitivista.
O modelo behaviorista tem sua orientação principal voltada para o comportamento, condicionando-o à observação e mensuração, considerando que a análise do comportamento significa determinar resultados a partir da relação entre eventos estimuladores e suas respostas, assim, no campo educacional, implicaria na possibilidade de planejar o processo de aprendizagem, ou seja, estruturar a aprendizagem em termos passíveis de observação, mensuração e réplica científica (FLEURY; FLEURY, idem).
O modelo cognitivista procura ser mais abrangente que o behaviorista, não limitando-se ao comportamento, procura trabalhar com dados objetivos, levando em consideração crenças e percepções do indivíduo, assim, parte para fenômenos mais complexos, como a aprendizagem de conceitos e a solução de problemas (FLEURY; FLEURY, ibdem).
Aroldo Rodrigues (1998, p. 343-345) enumera algumas das definições fundamentadas no modelo behaviorista e cognitivista:
“A atitude é considerada como a intensidade de afeto positivo ou negativo dirigido a um objeto psicológico. (THURSTONE, 1946). Atitude é postulada como uma resposta avaliativa em relação a um objeto (DOOB; LOTT, 1947).
Atitude é uma organização relativamente duradoura de crenças acerca de um objeto ou situação que predispõem uma pessoa a responder de uma determinada forma (ROCKEACH, 1969).
Atitude pode ser descrita como uma predisposição aprendida para responder de maneira consistente, favorável ou não, com respeito a um dado objeto (AJZEN; FISHBEIN, 1980).
47 Segundo Serra (2007), a atitude é composta por três dimensões: afeto, crenças comportamento e
intenções comportamentais. O afeto está relacionado aos sentimentos de uma pessoa em direção a um objeto, pessoa ou evento, a autora afirma que o afeto é o elemento mais importante do conceito de atitude. As crenças referem-se às informações que a pessoa tem sobre o objeto da atitude, em que vincula um objeto a um atributo. A intenção comportamental indica a probabilidade subjetiva que uma pessoa tem para desempenhar um comportamento. O comportamento é o aspecto visível da atitude, passível de observação e se materializa pelo o que efetivamente a pessoa faz.
Atitude consiste em uma tendência psicológica que expressa a avaliação de uma entidade específica, com algum grau de favorabilidade ou desfavorabilidade (EAGLY; CHAIKEN, 1983). Atitude é uma disposição pessoal idiossincrática presente em todos os indivíduos, dirigidas a objetos, eventos ou pessoas, que assume diferente direção e intensidade de acordo com as experiências do indivíduo, apresentando componentes de domínio afetivo, cognitivo e motor (BRITO, 1996).
Rodrigues (1998) também propõe uma definição de atitude, considerando como uma organização duradoura de crenças e cognições, em geral dotada de carga pró ou contra um objeto social definido, que predispõe a uma ação coerente com as cognições e afetos relativos a esse objeto.
Em relação às competências, a década de 1970 foi o marco inicial da discussão e, um dos trabalhos inaugurais foi o paper “Testing for Competence rather than Intelligence”, publicado em 1973 por McClelland iniciando o debate sobre competência (FLEURY; FLEURY, 2001).
Esse debate inicia-se entre os psicólogos, em que McClelland via na competência uma característica subjacente às pessoas que demonstram desempenho superior na realização de uma tarefa ou capacidade de responder de forma exitosa a situações complexas. Logo o tema competência passou a despertar forte interesse e fazer parte das discussões entre os administradores de empresas nos Estados Unidos sobre a relação entre competência, aptidão, habilidades e conhecimento e suas associações ao aumento da produtividade.
É importante destacar que o autor mencionado afirma que há diferenças entre competência, aptidão, habilidades e conhecimento. Competência, na perspectiva de McClelland, seria um desempenho superior para realizar tarefas e situações complexas; a aptidão seria um talento natural da pessoa, o qual pode ser aprimorado; habilidades, capacidade de desenvolver seu talento particular na prática; conhecimento, o que as pessoas precisam saber para desempenhar uma tarefa (FLEURY; FLEURY, idem).
Nos anos de 1980, nos Estados Unidos, Richard Boyatzis (apud FLEURY; FLEURY, ibdem) realizando estudos sobre competências gerenciais definiu competências como um conjunto de capacidades humanas, ou seja, um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que justificam um desempenho superior, já que os melhores desempenhos estariam fundamentados na inteligência e personalidade das pessoas de acordo com o cargo que possuem, em outras
palavras, as competências seriam um importante sinalizador do alinhamento do indivíduo ao cargo ou posições que apresentam dentro das organizações.
Como podemos perceber, nesse raciocínio das competências como capacidade humana para exercer um cargo, se reflete na aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes para os negócios. Fica evidente sua linguagem “modernosa” para consolidar um gerenciamento fundado nos princípios do taylorismo-fordismo, nada mais do que exercer controle sobre o trabalhador, estabelecer o ideal competitivo e o empenho para aumento da produtividade. Com isso, a organização do trabalho e as estratégias empresariais passam a se relacionar diretamente com a necessidade de se estabelecer competências profissionais, assim, o conceito de qualificação torna-se fundamental para rabalhar a relação profissional-organização (FLEURY; FLEURY, ibdem), todavia, quem fornecerá os saberes ou estoques de conhecimentos necessários para tornar uma pessoa qualificada será o sistema educacional.
Mais recentemente, especificamente no Brasil, tem-se reforçado a discussão e pesquisas sobre competências e habilidades como análise experimental do comportamento. Del Prette e Del Prette (2010) chamam de competência social, a capacidade do indivíduo em apresentar um desempenho que garanta, simultaneamente: a obtenção dos objetivos a serem atingidos de uma situação interpessoal e a manutenção ou ampliação da autoestima e dos direitos humanos socialmente reconhecidos. Também a condição de manter ou melhorar sua relação com o interlocutor, procurando sempre equilíbrio do poder e das trocas nessas relações. Assim se insere o constructo avaliativo, podendo o próprio indivíduo se autoavaliar, ou ser avaliado por outro(s).
Nessa perspectiva, o que se pretende enquanto educar por competências é o adestramento para o saber ser e o saber conviver48 para o desenvolvimento da corporação.
Da mesma forma a OCDE, pelo projeto DeSeCo, define o que chama de competências chave, considerando como habilidade para cumprir de forma exitosa as exigências complexas, para tal, mobiliza um conjunto de pré-requisitos psicossociais que são observáveis através dos resultados conseguidos pelos
48 O saber ser e saber conviver estão entre os quatro pilares da educação segundo a UNESCO. Ver
DELORS, Jacques (et al.). Educação: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da comissão internacional sobre educação para o século XXI. Paris: UNESCO, 1998.
indivíduos por meio da ação, seleção ou atitudes. O documento “A definição e seleção de Competências Chave: resumo executivo” define competências como:
[...] desenvolvimento de habilidades dos indivíduos para resolver tarefas mentais complexas, mas além de reprodução básica do conhecimento acumulado. As competências chave envolvem a mobilização de destrezas práticas e cognitivas, habilidades criativas e outros recursos psicossociais como atitudes. Apesar das competências evoluírem incluem mais que conhecimento ensinado, o Projecto DeSeCo sugere que uma competência em si pode ser aprendida dentro de um ambiente favorável para a aprendizagem. No centro do marco das competências chave se encontra a habilidade dos indivíduos de pensar por si mesmos, como expressão de uma maturidade moral e intelectual e de tomar responsabilidade por sua a aprendizagem e por suas ações. (OCDE, 2008, p. 9-10)
A citação acima estabelece duas definições que se completam, a primeira de ordem semântica em que concebe competência como habilidade de responder de forma exitosa situações complexas; a segunda trata competência, igualmente àquela estabelecida por Del Prette e Del Prette, definindo como um conjunto combinatório de habilidade prática, conhecimentos, motivação, valores éticos, atitudes, emoções, etc.
O behaviorismo tendo o comportamento como objeto observável e mensurável, cujos reflexos desse comportamento – competência, habilidade, atitude – podem, a partir de experimentos, ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002). Assim, os estudados do comportamento nessa perspectiva, seguem leis gerais ou leis comportamentais49.
Considerando o behaviorismo no âmbito educacional, a utilização da competência torna-se um instrumento de controle sobre o sujeito, ou adestramento do indivíduo como sugere Sacristán (2011) em sua crítica à competência.
49 Entre as leis comportamentais destaca-se o comportamento operante, sendo representado por R→S, sendo R resposta e S estímulo (do inglês stimuli) e a flexa significa “levar a”. O reforçamento caracterizando-se em reforço positivo (são respostas mantidas a partir de estímulos) e reforço
negativo (as respostas tendem a remover estímulos aversivos). Extinção e Punição, são outras leis
comportamentais, em que a extinção entende-se como um procedimento no qual uma resposta é abandonada de forma abrupta, já a punição é um procedimento que pretende mudar comportamentos indesejáveis a partir de punições, esta, bastante criticada por Skinner e outros autores. Controle de
estímulos, dividido em dois processos, discriminação e generalização. Discriminação de estímulos
quando as respostas obedecem aos estímulos, podendo sofrer extinção na presença de outro;
generalização de estímulos as respostas são semelhantes a um conjunto de estímulos percebidos
como semelhantes (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2002). Ver também: COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1996 e PENNA, 2004.
Como pode-se perceber, mesmo na perspectiva behaviorista, não há um consenso quanto a definição de competência. De uma forma geral, a definição será o de competências enquanto avaliação. Segundo McClelland (1973 apud ZABALA; ARNAU, ibdem) competência é uma forma de avaliar, ou, determinar a causa de um rendimento superior do trabalho. Essa definição se detém à competência enquanto função, deixando de forma subjetiva a relação rendimento e qualidade dos resultados esperados do trabalho.
Essa perspectiva de competência é muito presente no campo empresarial, tendo McClelland como o responsável pela criação do conceito e citado na maioria dos estudos sobre competências profissionais empreendedoras (FLEURY; FLEURY, 2001). Fica evidente a forma adestradora de competência estabelecida por essa tendência em que o propósito principal é funcional, ou seja, treinar os indivíduos para adquirir as competências que se quer profissionalmente. No campo educacional, pretende-se através de avaliações das competências, estabelecer treinamentos das habilidades, ou seja, ajustamentos a padrões culturalmente estabelecidos.
Os critérios de funcionalidade supõem, portanto, a capacidade do indivíduo em articular os componentes de seu desempenho (comportamentais, cognitivo-afetivos e fisiológicos) às demandas interpessoais da situação e da cultura, considerando, ainda, critérios mais abrangentes e universais (inclusive éticos) que deveriam nortear as relações interpessoais.
Por outro lado, é importante destacar o caráter relativista da competência social, uma vez que o julgamento de proficiências será sempre determinado por um conjunto de normas ou expectativas ligadas às características pessoais dos interlocutores e às características da situação e da cultura onde a interação ocorre. (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2010, p. 48)
Assim, na necessidade de moldar o indivíduo ao que se quer e estabelecer o “indivíduo ideal” enquanto norma torna-se oportuno a retomada do behaviorismo, que na verdade nunca esteve ausente, apenas em alguns momentos mais aplicado do que em outros.
Enfim, a retomada na escola das técnicas e estratégias de ensino- aprendizagem derivadas do Behaviorismo, bem como suas ideias sobre o ensino, só evidencia a necessidade de homogeneização do aluno, procurando conduzir o ensino para a formação daquilo que se pensa e pretende como aluno ideal, com isso
constituir um sujeito formado para o saber fazer, capaz de dar respostas pragmáticas, assim como preparado para a função técnica.
4.1.2. A psicologia genética e a competência como formação de capital