3. ENSINO/APRENDIZAGEM E SOCIOLOGIA: A NECESSIDADE DA
3.3 Teorias da aprendizagem: perspectivas da outra dimensão do processo
3.3.1 O Behaviorismo ou a observação do comportamento
À sugestão do próprio nome dado a esta concepção de aprendizagem, o behaviorismo ou comportamentalismo firma suas interpretações na observação dos comportamentos do homem em seu meio, ou, nos comportamentos observáveis humanos. Esta teoria surge no início do século XX, inicialmente como uma reação ao mentalismo presente na psicologia europeia, liderada pelo seu fundador John B. Watson (1878-1958). Segundo Marques (2013, p. 5)
Mediante o pensamento behaviorista entende-se que pela observação e experimentação sistemática e cuidadosa, é possível desenvolver um conjunto de princípios que podem explicar o comportamento humano. O objeto da Psicologia que até então tinha sido a alma, ou a consciência, a mente e a partir do behaviorismo passa a ser uma ciência do
comportamento humano, não pode mais ser considerada como ciência pura da consciência.
A Psicologia fica restrita, pelo behaviorismo em sua fase mais clássica, a uma ciência natural, onde os aspectos mentais ficavam relegados, enquanto deveriam ser objeto de estudo daquela ciência apenas o comportamento objetivo, aquilo que pudesse ser observado e controlado. Essa observação e experimentação explicariam o comportamento do homem e, portanto, sua relação com aquilo que aprendia. Nessa teoria a aprendizagem fica centralmente ligada à ideia de estímulo e resposta, indicando uma previsibilidade/determinismo do comportamento humano, baseada justamente na observação dos fatos. Segundo Ostermann e Cavalcanti (2010, p.6) Watson rejeitava os processos mentais como objeto de pesquisa, posto que ele não considerava como passível de ser objeto de estudo aquilo que não fosse consensualmente observável.
Noutra vertente menos radical, temos a figura de Burrhs Frederic Skinner (1904-1990) que considerava, ao contrário de Watson, os processos mentais também como mensuráveis. Aqui no Brasil, a teoria behaviorista de Skinner foi bastante utilizada na educação, servindo de subsídio ao tecnicismo, com métodos de ensino programado, controle e organização das situações de aprendizagem. Em Moreira (1999) reitera-se a ênfase aos comportamentos passíveis de observação e controle, além das respostas a estímulos externos como características do comportamentalismo. No mesmo autor, como já elucidamos, também há menção ao uso das perspectivas behavioristas no que ele chama de “instrução programada” no Brasil dos anos 60 e 70.
Neste quadro, ao analisarmos as concepções comportamentalistas de ensino/aprendizagem, podemos notá-las, ainda, no campo da educação formal. Esta teoria trabalha sob a perspectiva de estímulo e resposta, com o objetivo de observar determinados comportamentos e, quiçá, prevê-los. Entendemos que nesse contexto o estudante “aprende” para alcançar objetivos propostos – seja pelo professor, pelo currículo ou mesmo pelo livro didático. Essa aprendizagem acaba acontecendo de modo mecânico, pois, segundo Marques (2013, p. 8)
A aprendizagem seria fruto de condicionamento operante, ou seja, um comportamento é premiado, reforçado, até que ele seja condicionado de tal forma que ao se retirar o reforço o comportamento continue a acontecer. A
aprendizagem é um comportamento observável, adquirido de forma mecânica e automática através de estímulos e respostas.
Sumariamente, podemos dizer que o professor, o currículo, o livro didático ou mesmo os recursos utilizados em sala de aula servem como estímulos para as respostas almejadas, para alcançar aquilo que está exposto como objetivo do ensino. Esses objetivos devem ser bem definidos, pois, segundo Moreira (2009), diante da demarcação dos objetivos é que o alcance destes pelos alunos pode ser verificado e, reforçado positivamente no caso dos estudantes aprenderem “da maneira correta”. A própria avaliação, no caso, funciona como um termômetro da aprendizagem estudantil, além de ser previamente estabelecida de modo que reflita aquilo que é esperado que o discente aprenda. Assim, o erro na filosofia behaviorista não é pensado como um elemento que pode auxiliar a aprendizagem, já que esta só acontece quando o estudante aprende da maneira esperada.
Como cogitamos no início desse tópico, embora rejeitada por educadores e pesquisadores, podemos pensar a presença da teoria behaviorista em sala de aula até a contemporaneidade. Talvez, traçar objetivos, medir seus alcances e organizar o ensino para tal fim sejam ações muito próximas do cotidiano escolar/professoral. Contudo, como já feito uma vez, a forma como o ensino behaviorista organiza-se não provoca uma aprendizagem, mas sim um treinamento. Decodificadores, prontos a repetir determinados comportamentos dentro da escala estímulo-resposta. Não há significado, não há preocupação com o que compreende o intervalo entre o estímulo e a resposta, não há espaço para autonomia, não há possibilidade de pensar os tempos de aprendizagens dos discentes. O professor atua de maneira técnica, ainda que não consciente, ele modifica, cria ou (quase sempre) reforça os padrões de comportamento, por meio de condicionamentos. Há aprendizagem mecânica, repetição, “decoreba”. Há, ainda, modelos formativo-educativos e profissionais da educação que concebem suas práticas com base nessa perspectiva de ensino/aprendizagem. A Sociologia, como as demais disciplinas, não está salvaguardada disso. Inclusive, um dos problemas que apresentamos com relação à disciplina refere-se a sua mediação didática e, portanto, a necessidade de compreender que para que o estudante aprenda o “salto epistemológico” torna-se essencial. Além de tornar palatável o conteúdo sociológico, compreendemos este salto, também, como uma forma de atribuir significado ao que esta sendo ensinado,
para que o estudante consiga conferir sentido aquilo que ele está aprendendo e, portanto, para que a aprendizagem não seja mecânica.
O comportamentalismo pensa a aprendizagem como uma mudança no comportamento. Contudo, essas mudanças comportamentais não são pensadas de modo a considerar os processos cognitivos que acontecem concomitantes a elas, já que o objetivo primordial é fazer com que o aprendiz forneça respostas certas, não interessando o percurso até essas respostas. As perspectivas relacionadas ao behaviorismo foram, mais tardiamente, sendo ratificadas nos currículos e por políticas educacionais que tomaram por base de suas (re)elaborações outras compreensões sobre o que é aprendizagem.