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O bem como não-objeto : suportes outros

No documento 2. Bem cultural ... 40 (páginas 34-41)

4. A discussão do conceito

4.3 O bem como não-objeto : suportes outros

6 “Do ponto de vista da relação com o tempo, esta proliferação patrimonial foi e ainda é sinal de quê? Ela é sinal de ruptura, certamente, entre um presente e um passado. [...] O patrimônio é uma forma de viver as cesuras, de reconhecê-las e de reduzi-reconhecê-las, localizando, elegendo, produzindo semióforos” (HARTOG, 2013, p. 242-243).

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A crítica que nos traz François Hartog sobre a postura contemporânea com relação à história e à patrimonialização incide sobre o conceito do bem, na exploração de seus limites e em outra questão que levantamos anteriormente: estaria o bem preso à sua condição de materialidade?

Há alguns aspectos a serem explorados nessa dissolução dos limites do bem e de sua função unitária, semiofórica fechada (que não é a única unidade da memória e da preservação).

Chamaremos a essa nova condição do bem de não-objeto, na tentativa de diferenciá-lo de sua função tradicional ligada a de “objeto rememorador” (e não “de rememoração”, como nos ensina Muñoz Viñas) e remetê-lo a outras formas possíveis de patrimonialização.

A categoria de bens imateriais já permite uma oportunidade a essa nova abordagem, embora ela ainda sofra dos problemas trazidos pela categorização, de recortes e reduções da realidade.

Essa abertura é mais significativa quando tratada na subcategoria “lugares”, bem mais do que nas outras, Saberes, Celebrações e Formas de Expressão, as quais, embora tratem de coisas intangíveis, utilizam recursos muito similares aos da preservação de bens materiais, com foco fechado no objeto de preservação. Os “lugares” são mais múltiplos e abertos e, embora tratados com recursos de objetivação, permanecem como fonte de diferentes possibilidades de apreensão.

Quanto à sua capacidade de abertura, podem se aproximar da experiência Les lieux de memoires, empreendida nos anos 1984-1993 na França por Pierre Nora:

[...] partir dos lugares topográficos, monumentais, simbólicos, funcionais, onde a sociedade deposita voluntariamente suas lembranças e fazer história desses memoriais. O objetivo é claro: “A análise das memórias coletivas pode e deve tornar-se a ponta de lança de uma história que se pretende contemporânea” (HARTOG, 2013, p. 158).

Em sua concepção, esses lieux estabelecem uma concepção retórica do lugar e da memória, não apenas como dado, mas sujeito a construção e reconstrução, na forma de imagens agentes, como “um entroncamento onde se cruzaram diferentes caminhos da memória”. Essa é uma das formas em que o bem perde sua materialidade unitária de qualificação prévia para sua nova função de lugares evocadores e de inventários. A história contemporânea se desfaz do preconceito quanto à indeterminação da memória que o positivismo repudiava.

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A busca dos lugares da memória se fundamenta no inventário, prática que, em si, tecnicamente, não se configura como um bem, mas que é também um exercício de preservação.

Embora o resultado mais visível dessa prática seja a busca e a identificação de bens, por si só ela, como prática, já se traduz em uma forma distinta de bem.

Também na tradição japonesa se assiste à libertação do bem de sua prisão material. Já é sobejamente conhecida na literatura patrimonial a prática de reconstrução dos templos japoneses tradicionais de madeira, como o de Isis e outros, a cada 20 anos. Embora essa questão tenha sido muito abordada nas discussões sobre autenticidade, ela cabe perfeitamente na avaliação das fronteiras do bem: trata-se de um bem material, o templo em si, restaurado, embora em réplica

“tradicional” ou de um bem imaterial, da subcategoria dos Saberes, representada pelo ancestral conjunto de técnicas construtivas? Talvez nem uma coisa nem outra. O bem aqui estaria representado pelo ritual, mas não o ritual apenas como descrição ou manifestação ocasional, mas como fato rememorador. O objeto está presente, mas o bem não se confunde com a matéria e nem com a imaterialidade da tradição: reside em sua prática.

As ruínas7 também se apresentam como outra ampliação de limite identificável no exame do conceito, porém, não quando elas se classificam como coisas dotadas de significado, pois há muitas ruínas “tombadas” no mundo, mas quando elas se mostram como ausência e não como presença, neste caso evocando outro tipo de memória, não aquela ligada a fatos históricos, mas à condição existencial humana.

A recente abordagem patrimonial ligada ao conceito de “paisagem cultural” também vem se apresentando como uma alternativa ao bem tradicional, apesar dos esforços conservadores da Unesco e de outras instituições de preservação de tratá-las como um bem material convencional, catalogando as diferentes paisagens culturais, dando-lhes um nome, definindo seus limites físicos e estabelecendo diretrizes de tratamento e sobrevivência. Perde-se com essa atitude o que talvez o conceito tenha de mais precioso: a integração de seus elementos de composição em uma união dinâmica e inter-relacionada, em diálogo com o tempo e as sociedades nas diferentes camadas da

7 “[...] ruína – curiosamente inexistente para os gregos – interessa aos latinos apenas como imagem material do Destino:

ela não é a presença, mas a ausência, ou um vazio, a demonstração de uma grandeza desaparecida, a marca negativa da grandeza destruída” (MORTIER, Roland apud HARTOG, 2013, p. 202).

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história. Se entendermos as possibilidades que esse novo conceito de bem nos apresenta, poderemos também compreender que a catalogação de bens não é a única estratégia possível de operacionalização da preservação: é possível que o bem não esteja mais preso à matéria ou ao passado, mas que interaja com o tempo e o espaço, dentro da vida, na plenitude formadora da cidadania que é, em última análise, a função social do patrimônio histórico.

O novo bem comum resultante dessa prática não seria mais a posse de uma imaterialidade editada, associada a um objeto ou a um monumento em redomas, como uma coleção de semióforos só acessíveis quando evocados, mas uma sociedade sustentável, na qual os valores e as coisas estivessem em interação constante com a vida, integrados entre si e com o homem, aí sim, em unidade.

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Ficha Técnica:

Flávio de Lemos Carsadale Arquiteto urbanista, doutor em Arquitetura, professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/MG) nos períodos 1996/1997 e 1998/1999, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) de 1999 a 2002, secretário municipal de Administração Regional Pampulha, Prefeitura de Belo Horizonte (2003 a 2007), professor visitante na Universidad Politécnica de Madrid, Espanha, na University of Washington, Seattle, USA, e na Hochschule Ostwestfalen-Lippe University of Applied Sciences/Detmolder Schule für Architektur und Innenarchitektur, Detmold, Alemanha. Atualmente é membro do Conselho Consultivo do IPHAN, do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte. Autor de vários artigos e livros na área do patrimônio cultural.

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