No contexto da presente pesquisa, podemos entender o bilinguismo como a ação de reconhecimento e respeito pela língua nativa de determinada comunidade. Assim, mesmo que exista uma escola neste local, o que já é intervenção do não indígena, a língua portuguesa deve ser ensinada concomitantemente com a língua local daquele povo, levando em consideração não apenas as questões relativas à escrita e leitura, mas principalmente, os elementos que concernem à cultura e tradição desse povo. De acordo com o RCNEI (1998),
[...] as tradições culturais, os conhecimentos acumulados, a educação das gerações mais novas, as crenças, o pensamento e a prática religiosos, as representações simbólicas, a organização política, os projetos de futuro, enfim, a reprodução sociocultural das sociedades indígenas são, na maioria dos casos, manifestados através do uso de mais de uma língua. (BRASIL, 1998, p. 25).
E ainda, para a linguista brasileira Terezinha Maher (2005), o bilinguismo é um fenômeno multidimensional, e como tal, levando em consideração uma definição ampla que consiga abarcar as diversas situações sociolinguísticas existentes nas comunidades indígenas, pode ser definido como a capacidade de fazer uso de mais de uma língua. (MAHER, 2005).
A partir da experiência in loco durante as visitas à aldeia, observamos que no próprio ambiente escolar da EMEF Kaiapó há a presença do bilinguismo, mas apenas em turmas mais avançadas, do 4º e 5º ano. Essa é uma realidade que carece uma atenção especial, pois o bilinguismo no ambiente escolar pode contribuir tanto para a manutenção da língua nativa quanto para o seu processo de extinção, depende de como o mesmo é pensado e praticado.
Quando perguntamos aos alunos a respeito do falar a Língua Portuguesa percebemos que as respostas variam de acordo com a idade dos entrevistados. Se ainda são bem pequenos a resposta é que não sabem. Só obtivemos a resposta sim daqueles alunos maiores, que são alfabetizados em LP e possuem uma convivência mais direta com os não indígenas que frequentam ou visitam a aldeia. Eles afirmaram que o que sabem da LP foi aprendido dessa forma, a partir desse contato.
Segundo eles, na maioria das vezes que alguém conversa com eles em português conseguem compreender claramente, o que pode ser constatado durante a própria entrevista, pois algumas questões quase nem precisaram ser traduzidas para o idioma nativo. Somente os alunos das séries iniciais apresentam muita dificuldade na compreensão das falas.
Gráfico 4 – Alunos que compreendem a Língua Portuguesa
Fonte: A autora.
No gráfico acima, os 13% que afirmaram compreender a Língua Portuguesa de forma razoável são todos alunos do 1º ano. Sabemos que a aquisição do vocabulário ocorre paulatinamente em qualquer idioma, e na Tekrejarôtire, as palavras indígenas também são incorporadas no vocabulário não só no ambiente escolar, mas durante o convívio diário, principalmente dos membros mais velhos que acabam mostrando com palavras o valor de sua cultura e de sua história.
De acordo com todos os entrevistados, no convívio da aldeia existe por parte de todos uma grande preocupação em manter viva a cultura nativa, e uma das maiores preocupações é com o idioma, pois afirmaram só utilizar a língua materna nas comunicações cotidianas entre eles. Assim, quando perguntados sobre “Qual língua você usa mais para se comunicar em casa?”, 100% afirmaram ser a língua Mebêngôkre.
Sim 87% Mais ou menos
Quanto às conversas com os amigos, pudemos notar que um pequeno grupo utiliza o português, mas afirmaram que isso ocorre somente quando estes amigos são não indígenas. Ao conversar com os amigos da mesma etnia, disseram que conversam apenas na língua materna. Assim, temos a seguinte situação:
Gráfico 5 - Língua que os alunos utilizam para conversar com os amigos
Fonte: A autora.
Desse modo, podemos concluir que as relações sociais na aldeia como um todo favorecem e reforçam a utilização e preservação da língua nativa.
Quanto à aplicação da língua portuguesa na escola, ressaltamos que há preocupação por parte dos professores em preservar a língua materna. Mesmo com os materiais didáticos impressos em português, eles ministram suas aulas no idioma nativo, utilizando como exemplos elementos do dia-a-dia, conforme podemos observar no gráfico a seguir:
Gráfico 6 - Língua utilizada pelos alunos para comunicação na escola
Fonte: A autora.
Em sala de aula existem duas situações na comunicação com os professores: os alunos nas séries iniciais conversam apenas na língua materna, favorecidos pelo fato do professor ser
Mebêngôkre 87% Português 13% Mebêngôkre 75% Português 25%
indígena e da aquisição da escrita ser nessa língua. Na série final, observamos que a presença do português ocorre com frequência, isto se dá porque também os materiais utilizados são os mesmos adotados em todas as demais escolas do município de Pau D’arco e, portanto, são escritos em português.
A realidade deste município quanto à questão da educação escolar indígena não difere das demais regiões do país:
[...] é de uma escola que nada tem de diferenciada, e sim de modeladora e uniformizadora. As escolas situadas nas aldeias indígenas seguem programas estabelecidos para a educação básica geral. Se tais programas já são deficitários para as crianças da própria sociedade nacional envolvente, quanto mais para uma etnia diferenciada em que seus problemas ficam à margem. O modelo de educação escolar oferecido, ainda se centra na aculturação. (BROSTOLIN, 2003, p.98).
Quando questionamos aos professores qual língua utilizam durante as aulas, metade afirmou que utiliza a língua Mebêngôkre e a outra metade informou que utiliza a Língua portuguesa. Foi possível observar que as respostas também coincidem com as séries em que atuam, pois os professores que utilizam a língua materna são do 1º e 2º anos. Quando indagamos aos alunos sobre qual língua mais usam para conversar com o professor, obtivemos as seguintes respostas:
Gráfico 7 – língua mais utilizada para conversar com o professor
Fonte: A autora.
O gráfico evidencia que a língua nativa é a mais utilizada no ambiente educacional, pois se somados os que falam apenas Mebêngôkre com os que falam Mebêngôkre e LP, temos uma porcentagem de 63%, revelando a predominância da língua nativa, apesar da LP ter sido fortemente notada neste contexto.
5.6 Contribuições da língua nativa para a valorização da cultura Mebêngôkre no