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PARTE II VOSSA EXCELÊNCIA O BRANCO

3. O branco Narciso

O branco Narciso ou narcísico é aquele que enxerga, porém, com um detalhe, enxerga somente a si (Bento, 2002a,b). O seu espelho é a uma imagem de fotografia. Uma imagem congelada. Ele é a expressão do divino, do belo, da inteligência. Com efeito, o branco Narciso somente tem olhos para si. Ele é enamorado por si. E como o branco Drácula, faz com que todos os outros não-brancos sejam apaixonados por ele. Somente o branco é passível de se apaixonar por si mesmo. Nos termos que poderemos considerar como sadio. Somente ao branco é possível, “beber-se”, “devorar-se”, ser Narciso. Seria uma característica restrita ao seu grupo a possibilidade de amor-próprio, porque ele é desejo. Enquanto, os Outros são repulsivos, feios, patológicos (Ramos, 1995[1957]b).

A hipótese do não-branco apaixonar por si, explica-se como uma manifestação da demência, uma manifestação de amor ao que é feio (Fanon, 1983). O caminho “natural”, “o normal”, o “sadio” seria amar o belo, somente há um belo, “o belo ideal” (Platão, 2011; Russell, 2001). Ele é o branco. Por isso, é desejado por todos. O espelho é seu melhor amigo. Um presente. Ele é humano, único. Enquanto os Outros são no máximo imitações mal- acabadas de si. Quanto mais próxima à cópia do modelo, menos repugnante torna-se.

O amor engrandece, humaniza, amar a si, potencializa. E somente um amor “ideal” é possível. O amor ao homem branco. Neste caso, não se ama a mulher branca, ela se encontra numa hierarquia inferior, sua função social consiste em contribuir com a “fabricação” de mais homens. O amor ideal somente é possível de ser destinado ao Narciso da mitologia, Javé e Adão da Capela Sistina, de Michelangelo, assim como a sua escultura Davi, o Jesus de Leonardo Da Vinci, O Pensador de Rodin “etc e tal” todos “homens brancos” (Shwanitz, 2006), no caso de uma beleza feminina branca, citemos a Helena de Tróia11 (Commelin, 2011). São essas as personalidades estéticas que povoam o imaginário de todos nós que

pertencemos à cultura ocidental (Dussel, 2005). Levando-nos ao ódio quando nos encontramos distantes desse modelo.

Se não podemos ser Narciso e desejamos sê-lo, seremos, “podemos ser”, imitação. Será nessa direção que destinaremos as nossas forças, o nosso empenho. Na construção de uma imagem que se aproxima daquele que nos ignora, nos subalterniza. Ele que somente ama a si e é amado por todos nós não-brancos, por isso impossibilitados de ser Narciso. Essa ideia do branco narcísico aparece em algumas das falas como a de Alice.

(Os brancos devoram a si mesmos)

Lourenço: Nestas hierarquias entre os brancos será que o branco estadunidense é aquele que se considera o maior de todos?

Aline: Eu fiquei em Portugal, nunca fui à Inglaterra, por exemplo. Mas, fui à França, fui à Espanha, nunca estive na Alemanha. Não tenho este parâmetro para dizer. Mas, arriscaria dizer, sem nenhum rigor científico, que, nunca vi tanto “topete”, tanta “crista” na minha vida. Alguns brancos, nos Estados Unidos, dão a impressão que estão flutuando na sua própria existência de superioridade. É algo incrivelmente perceptível, pelo menos, para mim foi. Eu não vi isso, por exemplo, na França, digamos, nos países imperialistas, talvez, o mais imperialista depois dos Estados Unidos, talvez, tenha sido a França que estive. Nos EUA, fiquei impressionada. É de rir, é de rir. É incrível! Eles fazem mesmo a “antropofagia” deles mesmos, se gostam tanto, se acham tão altamente superiores.

O branco, verdadeiramente, se ama. Neste caso o branco estadunidense12, todavia,

podemos estender a todos os brancos. O amor do branco por si é tamanho, que o leva a “devorar a si mesmo”. O Narciso em sua prática antropofágica se alimenta do que é superior. O que equivale dizer é que ele jamais devorará “o diferente”, o “não-branco”, por mais “valente” (Andrade, 1990), inteligente, porque não se trata de carne saudável, “de primeira”, é inferior. Assim o Narciso somente alimenta de si, pois como destacou a Alice, ele “flutua na sua existência de superioridade”. A Mara tratará de outros pontos do narcisismo branco (Bento, 2002b).

(O branco e o resto)

Mesmo entre brancos ainda existe uma questão hierárquica que vem desta ideologia da supremacia racial que acabou contaminando tudo, para mim, isso é muito claro. Aquela frase, para quem estuda nas escolas de inglês, eu estudei, e sempre se aprende aquela frase... “nós somos os melhores e esqueça o resto”. O que é isso? Para mim isto é a nata da supremacia racial branca, é a lógica, a essência, é uma frase característica da cultura norte-americana. Os Estados Unidos acham que são melhores que todo mundo, apesar de ser “super-miscigenado”, de viver um monte de gente lá de todo canto do mundo. Mas, os Estados Unidos, enquanto país, eles se acham mais do que todo mundo e é verdade, não estou falando nenhuma fantasia (Mara).

12 A questão do branco estadunidense em sua comparação com outras branquitudes será recolada no Capítulo 5 e

O branco, especialmente, o estadunidense13, seria aquilo que Edward Said (2004)

pontuou: “eles” e o “resto”. Isto é, os “Dráculas”, os “Narcisos” e os não-Dráculas, não- Narcisos, eles são os melhores e não se discute, a Mara destaca “esqueça” “o resto”. Eles realmente são “esquecidos”, “naturalizados” em funções subalternas (Ellison, 2006). O conflito somente será instalado caso objetive condições de igualdade entre “ele” e o “resto” (Said, 2004), “o branco e o não-branco”. Nesta questão, o Clayton destaca a exaltação da branquitude centro-europeia, em detrimento, inclusive, da branquitude nacional. Nisto o Narciso brasileiro não é tão bonito quanto o estrangeiro.

(Os prédios e a exaltação da memória branco centro-europeia)

Uma coisa que sempre comento com um amigo, ao andar por estes bairros mais nobres e você observa um prédio, por exemplo, prédio Charles Lindemberg, os nomes dos prédios, Mondrian. O prédio exalta a cultura que vem de fora. E a gente pensa, quando o europeu vem para cá, como vamos querer que eles nos enxerguem com o mesmo patamar? Lógico que vão olhar de cima para baixo, com tanta exaltação a cultura europeia. Acredito que o privilégio já está dado aí. Você tem um padrão e quanto mais você se afasta do padrão, você vai perder com isso (Clayton). O verso de Caetano Veloso “É que Narciso acha feio o que não é espelho14”, provavelmente, não caiba aos brancos europeus que vêm ao Brasil, em particular São Paulo, e se deparam com seus nomes homenageados nos prédios mais glamourosos. Pode ser que considerem “de mau gosto15” a atitude de o colonizado vir a homenagear o colonizador. “Mau gosto” porque se trata de uma homenagem ao seu carrasco. No entanto, podem se sentir bem ao se reconhecerem naqueles prédios. A sensação de bem-estar pode acontecer por se reconhecer numa terra estrangeira, por encontrar a valorização de sua cultura num espaço que não é seu. Mesmo que aquilo que se apresenta para si seja uma reprodução de Europa, isto é, uma imitação de si. Afinal, o Narciso nacional sempre será uma cópia do Narciso estrangeiro. O Narciso dos Estados Unidos e dos países da Europa do Norte. Efetivamente, ele é belo somente aqui16 (Brasil).

O nosso branco Narciso possui o padrão estético do colonizador, ele não ambiciona ser classificado como igual (Ramos, 1995[1957]a), o fato de ser branco, mesmo que brasileiro, já é uma vantagem, superioridade. Desse modo é possível observar que o branco Narciso brasilis possui complexo de inferioridade (id, op. cit; Fanon, 1983). A identidade branca para ele é um valor, mesmo que inferior a branquitude internacional, a título ilustrativo,

13 Idem.

14 Verso da Música Sampa de Caetano Veloso composta em 1978.

15 Referência a outro verso da música de Caetano Veloso “Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau

gosto”.

estadunidense, francesa, alemã. Aliás, o branco pode valorizar mais sua origem europeia, seu vínculo a sua branquitude (ancestralidade étnico-racial), do que a identidade nacional contemporânea. Em resumo, eles valorizam a corporeidade branca e a cultura alemã, por exemplo, mais do que ser brasileiro. A Alice falou a respeito.

(valorização da identidade étnico-racial em detrimento a nacional)

Alice: No meu caso, a minha família é de origem alemã, e de onde a gente vem17, as

pessoas tendem a valorizar mais a cultura de origem alemã do que a cultura brasileira. Então as pessoas se afirmam mais socialmente alegando a sua condição de descendente de alemão do que a sua origem brasileira.

Lourenço: Sei, e o alemão se colocaria num patamar acima do italiano em termos de branquitude?

Alice: Sim, com certeza e acima do polonês também, o alemão ele “acha” ,“se acha” mais do que todo mundo, é impressionante!

Lourenço: É mais do que todos? O austríaco seria alemão também? Entrevistada: Sim, sim,

A Alice nos coloca que a ideia de quem é o mais “belo entre os belos”, não é consensual na identidade branca. O Narciso autêntico sempre se considerará “o mais belo”. Ser Narciso autêntico, aquele que se considera o melhor entre todos é uma característica que aparece no branco estadunidense e também no alemão. Ser Narciso autêntico é possuir o complexo de superioridade em patamar elevado (id, op. cit). O Narciso com complexo de inferioridade, no máximo, será uma imitação de Narciso. São esses Narcisos que caracterizam a identidade branca brasileira. Eles que podem optar pela branquitude em detrimento da identidade nacional. A branquitude de origem alemã coloca-se mais valiosa do que a identidade nacional. O valor da branquitude, no caso de origem alemã, faz com o que esse branco se posicione acima de outros brancos de origem polonesa ou italiana18.

Em seguida, em outros momentos da entrevista, a Alice dará maiores detalhes a respeito do narcisismo branco e do papel das teorias raciais nessa questão.

Lourenço: Qual o impacto das teorias raciais para o branco?

Alice: O impacto é grande, porque é um mecanismo de valorização deles próprios, então é um mecanismo de poder, de afirmação de poder.

Lourenço: Existe uma lacuna de estudos sobre o branco no Brasil?

Alice: Com certeza existe porque os brancos não se estudam, não veem necessidade por não se enxergarem como brancos, só enxergam o próprio umbigo, no mais,

17 Refere-se a Florianópolis. 18 Voltarei neste tema no Capítulo 5.

classificam as outras pessoas. Nem todas as pessoas fazem este exercício de se pensar, de não só de se rotular, mas de se pensar mesmo, de perceber seu próprio grupo e tal. Acho que isso é um exercício intelectual que nem todas as pessoas fazem, e este é o trabalho de um pesquisador acadêmico. Dependendo da sensibilidade da pessoa, ela faz isso, ela pode ou não fazer isso com facilidade. A Alice acabará por nos revelar que a própria teoria racial é um instrumento de valorização dos brancos. Isto não significa pensar sua identidade racial, e sim, falar a respeito da cultura ocidental. De certa maneira, amenizando os horrores praticados pelos europeus, nunca nomeados, como brancos. A lacuna da pesquisa sobre a branquitude no Brasil resulta na carência da crítica a respeito do branco Drácula e do branco Narciso. Mesmo quando este não é um Narciso autêntico. Em virtude de ser brasileiro, por mais que queira ser visto como alemão. A questão do branco se enxergar, autocriticar-se, enxergar o outro além de si na condição de igual. Acaba por ser, mais uma atitude individual por parte de alguns pesquisadores, do que uma questão coletiva referente ao conflito racial no Brasil. Além do mais, o dilema torna-se ainda mais preocupante por causa dos próprios pesquisadores da área, branco e negro, nos restringindo aos dois. O primeiro não têm se enxergado e o segundo somente tem observado a si, em regra.