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4 NEGRA/O FALANDO DE BRANCA/O: A “PROVINCIALIZAÇÃO” DA

4.2 O “branco-tema” e a “provincialização do branco”

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“Conhecer o inimigo e/ou adversário, desde dentro, significa atuar em autodefesa. Consequentemente devemos nos preparar para estudar o branco e seus impulsos agressivos” (NASCIMENTO, 1980, p. 265).

No Brasil há certo número de marcos no que diz respeito ao conceito de raça, sua concepção, aplicabilidade social e sociológica, dando-se a constituição de divergentes, ora correlacionáveis, escolas de pensamento55. O despertar científico acerca do branco enquanto sujeito racializável marca, especificamente, uma transição histórica entre os estudos das hierarquias raciais no Brasil, à medida que ao branco cabe também o papel de objeto de pesquisa, trata-se do “branco-tema”. O sujeito negro não é mais o único foco problemático, como condicionaram as análises sobre raça/racismo até o final do século XX, análises estas empreendidas quase em sua totalidade por “negrólogos”. Como nos diz Fernando Conceição, “os bem- intencionados intelectuais brancos que produziram impenetráveis teses sócio- antropológicas sobre o negro-objeto-de-estudo, sustentados por generosas bolsas da UNESCO, Santa Casa Ford e similares” (2005, p. 69).

Entre pesquisadores da temática é comum o entendimento de que o construto ideológico com enfoque sobre a hegemonia racial branca é uma perspectiva ligeiramente recente entre os estudos étnico-raciais no país. Desenvolve-se, sobretudo a partir da década de 1990, marcado pelo impulso dos Estudos Críticos da branquitude (Critical Whiteness Studies) que ocorreram nos EUA sob o contexto da luta pelos direitos civis e a entrada dos negros na universidade. Além desses estudos enquanto catalisadores, destacam-se produções em outros países, a citar: Inglaterra, África do Sul, Austrália e Brasil. Autores como Abdias Nascimento (1966), Albert Memmi (1957), Du Bois (1903), Frantz Fanon (1952), Steve Biko (1990) estão entre os precursores que evidenciaram os conflitos entre negra/os e branca/os elencando ainda a perspectiva acerca do lugar de privilégio subjetivo, objetivo e/ou simbólico da branquitude (CARDOSO, L., 2008).

No Brasil, Gilberto Freyre foi o primeiro a utilizar o termo branquitude, em 1962. A partir da perspectiva de desconstruí-lo, defendia também o desuso do sentido negritude, em prol da positivação da mestiçagem enquanto ideal de democracia racial (CARDOSO, L., 2008). Todavia, antes, em 1957, Guerreiro Ramos propôs uma discussão cientificamente elaborada acerca do lugar de privilégio do

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Ver: GUIMARÃES, 2009; HOFBAUER, 2006; IANNI, 2004; MAIO, 1977; MUNANGA, 2008; PINHO, 2010; SCHWARCZ, 1993.

branco, utilizando o termo “brancura” e apontando, inclusive, Freyre enquanto um dos espoliadores da cultura negra ao se valer de sua “patologia-protesto”, que consiste em: o “‘branco’, que não é branco segundo critérios europeus, afirmar-se por duas vias: lembrando ansiosamente seus antepassados europeus e estudando o negro, ao lado de quem sua brancura é ressaltada” (SOVIK, 2002, p 3-4).

Embora o tema passe a ganhar força no cenário acadêmico brasileiro somente a partir dos anos 2000, no cenário de militância do MN há certo número de discursos e projetos empreendedores desde a década de 1940, que demarcam as primeiras proposições críticas sobre a objetificação da/o negra/o por parte da/o branca/o pesquisador/a, além de outras perspectivas sobre o lugar social ocupado pela/o branca/o. O primeiro Congresso do Negro Brasileiro reuniu, em 1949, segundo Abdias Nascimento, cerca de 200 pessoas entre “militantes negros – de partido não, mas de várias entidades do país – e estudiosos brancos, todos juntos” (CONTINS, 2005, p. 27). Abdias afirma, em depoimento à Marcia Contins (2005), que ao convidar cientistas tradicionais que se engajavam nos estudos sobre o negro,

[...] o congresso, desde o começo, tinha também o sentido de desmascarar os estudos chamados afro-brasileiros, que eram estudos de brancos utilizando negros como objeto de pesquisa, objeto de estudo. [...] Queríamos mostrar que o negro não continuava sendo um elemento manipulável. Durante o congresso houve uma separação profunda entre os chamados cientistas tradicionais e os lutadores, militantes negros, que tinham uma posição completamente oposta. Houve uma cisão muito boa, uma vez que deu força à liderança para continuar num caminho independente (NASCIMENTO apud CONTINS, 2005, p. 27 - 42).

Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos foram lideranças negras históricas que, em especial entre as décadas de 1940 e 1960, também no papel de intelectuais acadêmicos, demonstraram especial preocupação com o lugar da/o negra/o e da/o branca/o no fazer científico. Já em 1980 Abdias Nascimento escreveu um documento – publicado em seu livro O Quilombismo – apontando sua disposição em formalizar as sugestões que Guerreiro Ramos retomou de Fernando Góes56, escritor, também militante no MN, no sentido de situar a/o branca/o como objeto. Propôs, para tal, a construção de um seminário em que os africanos deveriam promover um Congresso Internacional para estudar a/os branca/os da Europa e seu

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Fernando Ferreira de Góes nasceu no dia 27 de novembro de 1915, em Salvador-BA, e faleceu em 1979. Foi poeta, ensaísta, crítico literário, cronista, redator, editor, colunista, professor de jornalismo da Universidade Católica de São Paulo e membro do Centro Negro de Cultura Social. Atuou no Tribuna Negra e Alvorada, jornais da chamada imprensa negra.

prolongamento arianóide no Brasil. Seriam estudos minuciosos sobre a violência ideológica sutil, ou violência física, econômica e espiritual praticadas pela raça branca (NASCIMENTO, 2002). Proposição que, se efetivada, nos levaria a profundas reflexões a partir do olhar do outro sob uma relação historicamente inversa da Ciência – a/o branca/o objeto.

Hamilton Cardoso57 – figura emblemática no contexto paulista do MN contemporâneo, na sua função de jornalista já publicava artigos de opinião, reportagens e entrevistas com menção à branquitude desde a década de 1970. Em texto publicado em 1987, Hamilton nos diz: “o branco brasileiro não passa de um escravo – escravo da própria branquitude. A branquitude do europeu” (CARDOSO, H., 1987, p. 89). Isto, em referência as hierarquias globais da branquitude, em que a/o branca/o brasileira/o, conforme parâmetros europeus (da/os branca/os verdadeira/os, pura/os, legítima/os), encontra-se enquanto um/a branca/o de segunda classe, segundo o mesmo, desprovido de “branquitude”, sem dignidade racial. Conforme Hamilton Cardoso, que estende seu próprio pensamento a ativistas, militantes e intelectuais negra/os da época, “todo branco tem um pé na senzala...”. No limite da ideologia da supremacia racial, na sociedade brasileira o/a branca/o é “o capitão-do-mato de um sistema mais amplo e profundo, sobre o qual não exerce controle” (Ibidem). Neste caso, o que aponta como “branquitude” seria o que compreendo como “brancura”, ou seja, as demarcações (estéticas, fenotípicas, de poder, privilégios, etc.) da branquitude (a identidade racial branca). Conforme expressa Liv Sovik (2004):

[...] ser branco exige pele clara, feições europeias, cabelo liso; ser branco no Brasil é uma função social e implica desempenhar um papel que carrega em si uma certa autoridade ou respeito automático, permitindo trânsito, eliminando barreiras. Ser branco não exclui ter sangue negro (p. 366).

Entre colocações teórico-científicas em relação às pesquisas sobre a/os branca/os, em 2008 o historiador Lourenço Cardoso desenvolveu um “Estudo sobre

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Hamilton Bernardes Cardoso nasceu em Catanduva-SP em 10 de julho de 1953 e suicidou em São Paulo-SP no dia 5 de novembro de 1999. Foi jornalista, repórter e escritor, além de fundador e uma das principais lideranças do Movimento Negro Unificado (MNU), influenciando políticos, estudantes, trabalhadores e intelectuais a se engajarem na luta contra o racismo no Brasil. Hamilton Cardoso criou a revista Ébano, foi consultor de Comunicações da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Instituto da Mulher Negra - Geledés, cofundador da revista Lua Nova / Centro de Estudos e Cultura Contemporânea do Brasil (Cedec) e organizou atos independentes como a passeata antirracista do silêncio no campus universitário da Universidade Federal da Bahia – UFBA em 1991 e a Missa dos Quilombos, em 1991, na serra da Barriga, em União dos Palmares.

a emergência da branquitude nas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil”58 . Por meio deste, notificou a ausência da/o branco enquanto tema e sua recorrência enquanto pesquisador/a e, convencido de que isto não permanecera, conclui que, neste início de século, a branquitude se faz emergente na produção acadêmica.

Nos últimos 15 anos as produções foram ampliadas e é perceptível o início de um debate político a ser qualificado, além de desenvolvimentos acadêmicos. Começa-se a notar a influência destas discussões científicas – direta ou indiretamente, sobretudo entre os veículos de mídia e comunicação negra. O site do Instituto Geledés59 (www.geledes.com.br), uma das maiores páginas online de publicações sobre questões de gênero e raça, se não a maior, tem em seu banco de dados aproximadamente 540 produções textuais com a tag “branquitude”, datadas entre um período médio de dois anos – 2014 a 2016. Conforme Maria Toneli (2003), as organizações como o Geledés mantêm publicações que exercem a mediação entre movimentos sociais e a academia. Segundo a mesma,

Observa-se que, mesmo não sendo acadêmicas, essas publicações mantêm vínculos com as universidades através de vários tipos de parceria com pesquisadoras na condição de autoras, consultoras e conselheiras. Por outro lado, constituem fonte de consulta para estudantes e professoras/es universitárias/os, em especial no âmbito da pós-graduação (Ibidem, p. 266).

Para constatações mais profícuas, ressalto que esse tipo de produção sobre branquitude merece maior atenção, uma análise que leve em conta os sujeitos que as desenvolve, a abordagem e o conteúdo. Em certa medida, me questiono se são mais altercações sobre a “branco-vida”, do que de fato disposições no sentido mesmo de empreendimento de saberes a partir do “branco-tema”, ou seja, fazer da/o branca/o objeto de pesquisa. A meu ver, ambas as abordagens merecem o devido tratamento, mas é o “branco-tema” que, especialmente, se faz emergente60

. O número extensivo de publicações textuais e/ou citações, tendo em vista uma discussão que há pouco não se pautava ou priorizava expressa, por outro lado, parte dos resultados do exercício do MN contemporâneo em “provincializar” ou particularizar o branco, ou seja, sua influência e mobilização no sentido de apontar o

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Dissertação de Mestrado.

59“Geledés - Instituto da Mulher Negra foi criado em 30 de abril de 1988. É uma organização política de mulheres negras que tem por missão institucional a luta contra o racismo e o sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras, em particular, e da comunidade negra em geral” (GELEDÉS, 2015, online).

poder e privilégios inerentes à identidade racial branca, opondo-se à ideia normativa de naturalização da suposta humanidade exclusiva do branco, o sujeito universal (CARDOSO, L., 2008). Entende-se por “provincializar”, neste caso, o processo de descentralização do branco enquanto sujeito protótipo e da “visibilização” do seu aspecto racial quando o MN pauta a negritude, a identidade racial negra e aponta, em especial: Nós, negras e negros somos sujeitos de direitos, somos humanos. Resulta-se que “[...] o negro é pessoa e o branco também. O negro reivindica seu caráter de pessoa, luta pela igualdade com o reconhecimento da diferença e, ao fazê-lo, ingressa na categoria de pessoa universal, antes apenas ocupada pelo branco” (CARDOSO, L., 2008, p. 209).

Deste modo, podemos notificar que, conforme colocações de lideranças como Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos, Fernando Góes, Hamilton Cardoso, é evidenciado que o MN é o percursor das primeiras inquietações lançadas no Brasil sobre o lugar do branco no fazer científico e a necessidade de sua objetificação, sobre sua suposta invisibilidade e os seus privilégios sociorraciais como um todo, antes mesmo da veiculação dos Critical Whiteness Studies ou dos primeiros estudos sobre branquitude lançados no país – aqueles com o branco-tema ou o branco- objeto. Logo, ao assumir o protagonismo no processo de questionamento da suposta humanidade exclusiva do branco, o MN tende a “provincializá-lo” (CARDOSO, L., 2008). Não obstante, quando subscrevo um questionamento fundado a partir de uma perspectiva descolonial a respeito da identidade racial branca e, neste caso, sobre a possibilidade de construção de uma identidade racial branca antirracista, é a partir da intelectualidade do MN que busco respostas.