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2. DIVERSIDADE E DIFERENÇA NA PERSPECTIVA RACIAL E ÉTNICA

2.3 O Brasil e as políticas públicas afirmativas

As políticas públicas afirmativas são necessárias no Brasil para fazer cumprir o papel da promoção da igualdade racial e étnica entre os indivíduos e para promover iguais oportunidades entre todos. O Brasil foi um dos últimos países que aboliram a escravidão, entretanto, mesmo negros estando “libertos”, ainda sofrem um processo de desvalorização, discriminação e exclusão em sociedade, o que evidencia o percentual de desigualdade entre negros e brancos. Desde o período quilombola, os negros já se reuniam para lutar por seus direitos. Segundo Sanger (2006, p. 265), “[...] na verdade, as ações na atualidade são fruto de uma luta que se iniciou desde a constituição dos quilombos como forma de libertação e construção de algo novo em termos de organização social”.

Entende-se por ações afirmativas, conforme Guimaraes (2006, p. 273) apud Sanger (1999) os “[...] programas voltados para acesso de membros de minorias raciais, étnicas, sexuais ou religiosas a escolas, contratos públicos e postos de trabalho” para promover o acesso aos excluídos no mundo carregado de estereótipos. Ações afirmativas também se caracterizam como um conjunto de políticas públicas que combatem a discriminação racial e outras discriminações, cujo objetivo é a igualdade de acesso às necessidades básicas humanas.

Sobre a diferença entre políticas e ações afirmativas, Vieira (2003, p. 89) acredita que,

[...] devemos considerá-las tanto como políticas de ação afirmativa (emanadas do estado e das diversas instituições e instâncias governamentais), quanto como iniciativas de ação afirmativa (criadas sobretudo pelas diversas formas de organização da sociedade civil), pois, por mais que conceitualmente estejamos lidando com uma mesma ação afirmativa, em sua dimensão prática, essa diferenciação tem consequências bem marcadas e fundamentais para uma maior compreensão desse mecanismo de combate às desigualdades raciais.

Historicamente, depois das organizações do século XX, chegou-se a um período de luta contra o abismo social que separa os negros dos brancos. O dia 13 de Maio, no Brasil era evidenciado como um dia de festa e comemoração – data da abolição da escravatura no ano de 1888 - A partir da década de 1970, o escritor e ativista negro Oliveira Silveira, ousou romper com este paradigma, a partir de suas pesquisas, acreditava que o dia homenageava a “princesa portuguesa” e não a luta negra. Segundo Pompeu (2009), Oliveira Silveira a partir do ano de 1971 se reuniu com seu grupo chamado Grupo Palmares, que tinha por objetivo tornar o dia 20 de novembro, o dia da morte do grande líder Zumbi dos Palmares, como data significativa na sociedade, ainda segundo Pompeu (2009) em entrevista com Oliveira Silveira, ele relata que

“Não o chamávamos ainda de Dia Nacional da Consciência Negra, continuou Oliveira. O feliz nome seria dado, sete anos depois, numa assembleia do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCRD), pelo ativista Paulo Roberto dos Santos.”. Desde então, se tem o dia 20 de novembro como alusivo ao dia da consciência negra no país.

Desde então, homens e mulheres negras levantaram a sua voz (Pompeu, 2009), e movimentos negros passaram a exigir o seu valor social. Nos anos 80 se tem a implementação do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (CODENE) no Rio Grande do Sul, cujo objetivo é desenvolver estudos relativos à condição da comunidade negra e à sua integração plena na vida socioeconômica, política e cultural. Segundo Vaz (2007, s.p.), o CODENE é “[...] produto da inspiração criadora de um grupo de idealistas que buscavam uma nova frente de luta contra as discriminações, um espaço de articulação de ações voltadas ao desenvolvimento e à ascensão do povo negro”.

Após a década de 80, segundo Nunes (2013), crescem os movimentos sociais e, entre eles, o movimento negro – que realiza uma reinterpretação da democracia racial. Ele amplia os canais de interlocução com o Estado nacional, fortalecendo a identidade afro-brasileira, por meio da constituição de novos espaços de sociabilidade e de luta social das populações negras.

Nos anos 90, surgem espaços governamentais para tratar de questões étnicas e raciais:

secretarias, coordenadorias, assessorias, em âmbito municipal, estadual e federal. Depois, foram implementadas duas secretarias que se fazem atuantes até os dias de hoje: a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) que foi incorporada ao ministério dos Direitos Humanos, e a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD). As duas, em suas diferentes funções, têm como missão a promoção da igualdade racial.

Munanga, no ano de 1996, destaca a insuficiência de politicas publicas antirracistas. “É preciso, pois, incrementar estratégias e políticas públicas de combate à discriminação nos campos onde ela se manifesta concretamente, ou seja, nos domínios da educação, cultura, lazer, esportes, leis, saúde, mercado de trabalho, meios de comunicação, etc.” (p. 12). Ainda em Munanga (2001, p. 35), sobre o racismo.

Não era possível imaginar as propostas de ação afirmativa num país onde há pouco tempo se negavam os indícios de preconceitos étnicos e de discriminação racial.

Dezenas de anos, os movimentos sociais negros lutaram duramente para arrancar da voz oficial brasileira a confissão de que esta sociedade é também racista. Embora o racismo esteja ainda muito vivo na cultura e no tecido social brasileiro.

Nos anos de 2003 e 2006, registrou-se notório avanço. As políticas públicas de implementação de cotas raciais nas universidades e a Lei 10.639/03 para as escolas de ensino básico demonstram ser um grande passo, pois tornaram obrigatório o ensino da História e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, públicos e privados. Portanto, as políticas públicas afirmativas servem para dar voz a quem se mantinha invisível – no caso, os negros. Junto à Lei, incorporam-se diretrizes: as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

Sposati (2002) apud Gomes (2011, p. 114) aborda o fortalecimento das políticas públicas educacionais e de equidade entre etnias.

Nesse contexto, o debate sobre o direito à educação como um componente da construção da igualdade social passa a ser interrogado pelo Movimento Negro brasileiro e é recolocado em outros moldes. Esse movimento traz à cena pública e exige da política educacional a urgência da construção da equidade como uma das maneiras de se garantir aos coletivos diversos – tratados historicamente como desiguais – a concretização da igualdade. Uma igualdade para todos na sua diversidade, baseada no reconhecimento e no respeito às diferenças. A equidade é entendida como:

[...] o reconhecimento e a efetivação, com igualdade, dos direitos da população, sem restringir o acesso a eles nem estigmatizar as diferenças que conformam os diversos segmentos que a compõem. Assim, eqüidade é entendida como possibilidade das diferenças serem manifestadas e respeitadas, sem discriminação; condição que favoreça o combate das práticas de subordinação ou de preconceito em relação às diferenças de gênero, políticas, étnicas, religiosas, culturais, de minorias, etc.

Para Nunes (2013), o multiculturalismo – enquanto movimento ideológico – estimulou o debate sobre a necessidade de implementação de políticas públicas, atendendo às necessidades das minorias. Nunes (2013, p. 167) trata dessa questão da polêmica em torno de políticas públicas raciais em países como o Brasil, comentando que “[...] as políticas

afirmativas exigem que os Estados Nacionais viabilizem tratamentos diferenciados para que determinados grupos alcancem uma igualdade de fato”.

Silva (2007, p. 493) segue dissertando sobre a multiculturalidade na sociedade brasileira e sua construção a partir da diáspora e imigração em suas peculiaridades em se aceita-la.

A sociedade brasileira sempre foi multicultural, desde os 1500, data que se convencionou indicar como de início da organização social e política em que vivemos.

Esteve sempre formada por grupos étnico-raciais distintos, com cultura, língua e organização social peculiares, como é o caso dos povos indígenas que por aqui viviam quando da chegada dos portugueses e de outros povos vindos da Europa. Também os escravizados, trazidos compulsoriamente para cá, provinham de diferentes nações e culturas africanas conhecidas por pensamentos, tecnologias, conhecimentos, inclusive acadêmicos, valiosos para toda a humanidade. No entanto, esta diversidade não foi e hoje o é, com muita dificuldade, aceita. Fala-se e pensa-se como se a realidade fosse meramente uma construção intelectual; como se as desigualdades e discriminações, malgrado as denúncias e reivindicações de ações e movimentos sociais não passassem de mera insatisfação de descontentes.

Atualmente, nas universidades, existem centros que buscam acolher a diversidade, dialogando na busca de igualdade de oportunidades, esses grupos e núcleos são frutos das políticas públicas dos anos 90 e começo dos anos 2000. Esses grupos são chamados de NEABI (Núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas). Na Universidade Feevale, no que se refere à extensão, existem programas e não núcleos, com o intuito de dialogar com essas políticas afirmativas e estabelecer e promover uma igualdade de oportunidade. No ano de 2001 a Universidade Feevale fundou o Núcleo de Identidade, Gênero e Relações Interétnicas, o NIGERIA, que, mais tarde, passou a ser considerado um programa de extensão. No ano de 2016, fundou-se o Programa de Extensão NIARA4 – Nutrindo Identidade e Afirmações Raciais.

Sanger (2006, p. 272) destaca que:

[...] com os avanços obtidos na academia e na sociedade de uma forma geral, a respeito da discussão das ações afirmativas, o Brasil está se movimentando para construir um país com justiça social e igualdade de oportunidades, independente da raça/etnia do cidadão. Talvez, demore mais quinhentos anos para alcançarmos esta meta, mas pelo menos estamos caminhando em direção à democracia da sociedade.

Tal esta meta, objetiva que tenhamos cidadãos mais conscientes de um mundo plural.

Silva (2007, p.490) destaca as contribuições de uma educação das relações étnico e raciais.

A educação das relações étnico-raciais tem por alvo a formação de cidadãos, mulheres e homens empenhados em promover condições de igualdade no exercício de direitos sociais, políticos, econômicos, dos direitos de ser, viver, pensar, próprios aos diferentes pertencimentos étnico-raciais e sociais.

4 O NIGERIA e o NIARA serão abordados no capitulo 4.2.2

Por esse viés, não podemos retroceder a uma educação que não reconhece a pluralidade cultural. Precisamos tratar com igualdade seres que são diferentes em suas particularidades.

Esse debate deve sempre ser disponível a todos, enquanto cidadãos de direitos. Toda efetivação de políticas públicas afirmativas envolve uma longa caminhada de passos lentos, mas que recompensa com a conquista de uma sociedade mais justa.