Um dos diferenciais da subcultura hip hop é a sua manifestação através de diversos canais de interação, entre eles, já foi apresentado aqui a sua música característica, o rap e agora
veremos sua dança específica: o break. É extremamente difícil datar as origens dessa expressão, uma vez que é uma expressão urbana espontânea praticada inicialmente por poucos, mas que se torna popular quando assimilada por um grupo. Pesquisas realizadas por José Carlos Gomes da Silva e João Batista de Jesus Félix localizam a criação do gênero no final dos anos 1970 e sua expressão é derivada da palavra em inglês break que significa interromper algo. No contexto do hip hop a ideia seria valorizar as quebras entre uma música e outra, valorizar as mixagens realizadas pelo DJ e aproveitar as experimentações rítmicas para demonstrar as possibilidades de movimentações corporais.
Figura 11. Breakdance.
Disponível em: <http://balletshoesandbobbypins.com/boys-in-dance>. Acesso em 17 de janeiro de 2015.
Devido à ausência de lazer nos bairros periféricos, os espaços de sociabilidade disponível às comunidades marginalizadas eram as próprias ruas. Nesse cenário ocorriam inúmeras festas onde se apresentavam os cantores de rap e os b. boys. O break consolidava dessa maneira a chamada street dance, a dança das ruas, a dança da periferia urbana. É interessante considerar o fato de que esta não foi a primeira manifestação cultural ocorrida em vias citadinas. Há relatos históricos, dos tempos da Grande Depressão Econômica dos anos 1930, de dançarinos negros que perderam seus empregos em cabarés e que foram demonstrar
nas ruas sua arte. Podemos concluir então que as construções culturais vinculadas ao hip hop possuem sua raiz em um passado comum dos marginalizados socialmente. Devemos ter em mente que sempre é possível elaborar ressignificações a partir de gestos e ações já conhecidos e até mesmo desenvolvidos anteriormente. Segundo José Carlos Gomes da Silva, o break ganhou expressão como dança de rua a partir dos guetos de Nova Iorque. O autor pontua três conjuntos característicos da dança que servem como identificadores da mesma:
Breaking: é o aspecto ginástico e acrobático da dança (...) estes movimentos teriam
sido incorporados a partir dos anos 1980. [...]
Up Rock: representa o lado competitivo do break, com os dançarinos muito próximos
um do outro, mas não se tocando. [...] São passos rápidos e ritmados, que devem ser executados em perfeita sincronia com a música. [...]
Eletric boogie: é a parte da breakdance onde mais se percebe a influência de outras
danças. É um pouco de tudo: jazz, mímica, comédia, ilusão [...] (grifo meu) (SILVA, 1998, p. 47).
O breakdance é executado através de gestos ríspidos, bruscos, que muitas vezes aparecem como acrobáticos. Como ocorre em todo fenômeno contemporâneo artístico popular, não existem regras que limitem a criatividade desses bailarinos das ruas, o ritmo é que determina as interferências a serem feitas. Conforme pondera Silva, conseguimos destacar alguns movimentos específicos do gênero como as ondulações feitas com o corpo, a rotação do mesmo utilizando apenas as costas ou a cabeça e a utilização dos pés de maneira arrastada, tal como o passo popularizado por Michael Jackson, o moonwalk. Por ser uma arte nascida do improviso, as possibilidades de criação de passos e de movimentação são infinitas. O fato é que o break foi sendo desenvolvido entre e dentro das músicas, formando um corpo rítmico no interior das mesmas e levando o público a visualizar sempre uma nova abordagem, uma forma de reconstruir os próprios movimentos (CONTADOR; FERREIRA, 1997). E foi justamente nos bailes organizados por Kool Herc que os primeiros adeptos do estilo break conseguiram visibilidade dentro de seu grupo. Os trabalhos de Hermano Vianna e José Carlos Gomes da Silva apontam que nos intervalos entre as músicas, Herc chamava os dançarinos de break boys, (b. boys) e os convocava a se apresentarem individualmente ou em grupo, o que gerava algumas disputas interessantes.
Durante os anos 1970 havia muita rivalidade entre os grupos étnicos que habitavam as áreas periféricas dos grandes centros urbanos norte-americanos.
Essa situação se agravou no final da década de 1960 com o intenso fluxo migratório de pessoas para os EUA, vindas do México e do Caribe. Como esses imigrantes já eram egressos de uma precária realidade econômica e social em seus países de origem,
a tendência natural era que se mantivessem afastados das regiões mais caras das cidades estadunidenses, razão pela qual procuravam os distritos do Bronx e do Brooklyn para se instalar, contribuindo para desencadear diversos problemas de ordem social, como o desemprego, a pobreza, a violência, o racismo, o tráfico e o consumo de drogas (RIGUI, 2011).
Embora a maioria dos problemas existentes nessas áreas fosse comum a todos, negros e latinos disputavam a supremacia sobre os territórios em uma disputa que em alguns momentos chegava a conter grande dose de violência. As comunidades jovens de etnias diferentes se organizavam muitas vezes para se enfrentar, pois era necessário que se estabelecesse o grupo dominante. Não demorou muito para que esses grupos se aproximassem da cultura hip hop e a utilizassem como instrumento de disputa.
Alguns jovens que organizavam bailes, festas de rua, quarteirões, escolas, na periferia, resolveram criar disputas dentro dos bailes, por meio da dança, no intuito de conter as brigas que aconteciam nas ruas. Assim, incentivavam a dançar o break, no lugar de brigar, e a desenvolver o grafite como forma de arte, e não para demarcar territórios. As gangues transformavam-se em grupos de dança e grafitagem, e procuravam destacar-se entre as outras gangues (FOCHI, 2006).
Afrika Bambaataa aparece novamente como um nome importante na construção das bases do hip hop. O DJ e sua organização, a Zulu Nation, lutavam contra as manifestações violentas e buscavam apoiar a resolução de conflitos através das disputas simbólicas. Em sua página na internet41, Bambaataa deixa bem claro a filosofia que inspira a subcultura:
consciência, conhecimento, sabedoria, compreensão, liberdade, justiça, igualdade, paz, unidade, amor, respeito, responsabilidade, recreação, verdade e fé, superando desafios da economia, da matemática e da ciência. O break era então, uma maneira dos jovens ressaltarem suas individualidades, mostrarem o domínio sobre o corpo e desafiar as leis da física através dos movimentos. Ao reconhecer o papel social do hip hop, Bambaataa se colocava como uma liderança local, sendo um nome importante até os dias atuais, na defesa da cultura negra produzida nas periferias americanas.