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II. A subversão humorística em Gaspard, Melchior et Balthazar 156 

3. O burro “branco”: riso lúdico e reverência

A obra de Tournier encontra-se pejada de elementos subversivos face ao texto parodiado. Este pressupõe um recuo e um narratário capacitado para descortinar sentidos adormecidos nas entrelinhas, como o defende Philippe Hamon (1996), que considera que a ironia suscita a construção de um leitor ativo, capaz de restaurar sentidos implícitos, elipses, alusões, convocando na íntegra as suas capacidades hermenêuticas e culturais.

Neste âmbito, Hamon (1996) considera a ironia como sendo um discurso da anti- frase e dos mundos às avessas, discursos que vêm acompanhados de “ (…) la mise en dissymétrie (clin d’oeil ou regard oblique) de la figure de l’ironisant” (p.11). Tal como Arlette Bouloumié (2000), considero que, na definição de humor, é possível vislumbrar uma ideia de afastamento, de receção dupla e antagónica, uma discordância favorável ao distanciamento do leitor, por oposição a uma literatura séria que implique adesão e identificação.

Os animais constituem presença assídua nos romances de Michel Tournier e, tal como o afirma Koopmann-Thurlings (1995), acabam, irremediavelmente, por desapossarem-se de toda e qualquer roupagem realista. No caso do jerico tournieriano, estamos perante um ser palrador, sábio e subversivo, que surge, como o faz notar Serge Koster (1986), imediatamente após a narração do rei Herodes, numa antítese repleta de humor. Irei, pois, deter-me no capítulo tournieriano, “Le dit de l’âne” (pp. 157-170), dedicado ao discurso do burro, para aí detetar simbologias e processos suscitadores do riso. O facto de o burro ser apresentado com o pelo branco, não só se prende com a sua idade avançada, mas também pode constituir-se enquanto pequeno clin d’oeil autoral, segundo o qual indicia estarmos perante uma personagem detentora de uma personalidade antinómica face ao negro Herodes, um ser de luz ao invés da negritude psicológica do tirano da Judeia. Após o ambiente castrador instaurado pelo rei Herodes, eis que, num volte face espirituoso, Michel Tournier dá a palavra aos animais que aqueceram o Menino, na noite mais longa do ano. Na apresentação que faz de si, a imodéstia do burro não passa despercebida ao leitor, pois o jerico sublinha que os seus donos, desde cedo, se mostraram

sensíveis ao seu ar de sapiência que o distinguia dos demais, sublinhando, de igual modo, que no seu olhar existe algo de grave e subtil que impressiona. É digno de nota, ainda, o seu nome “Kaddi”, e o jogo polissémico subjacente. O riso lúdico está presente: certas palavras, em Tournier, são, como relembra D.G. Bevan (1986), fugidias e subtis. Sabemos que “cadi” é, como o observa o burro, um juiz e um religioso, o que o leva a ter outro assomo de imodéstia e humor imperdível: “c’est-à-dire un homme qui se recommande doublement para sa sagesse” (Tournier, 1980, p. 157). Sabemos que Tournier pretende virar do avesso o expectável, deitando, na tessitura narrativa, sentidos implícitos. Ora, como não aproximar, de igual modo, o nome do burro, que se afadiga transportando víveres, com o carrinho de supermercado, o “caddy”?

Mais adiante, o burro informa que, sendo pobre, teve em tempos um vizinho. Vemos nele o gémeo às avessas: o vizinho era rico, usava selas, estribos e pompons. Por despeito, talvez, Kaddi julga estar perante uma imagem de carnaval. Torna-se patente a aproximação dessa imagem com a carnavalização bakhtiniana e o riso ridicularizador. O burro relembra, então, a infância grotesca do vizinho, pois, apesar de estar acima na hierarquia social, se comparado com ele, o cavalo, a quem chama “âne de riches” (Tournier, 1980, p. 158), vive uma miserável existência, na qual sangue, lâminas de barbear, orelhas cosidas, pernas apertadas em ligaduras são o seu quotidiano. Posição social às avessas, portanto. O autor aproveita para, pelo viés da ironia, instaurar a crítica: “Les hommes sont ainsi faits qu’ils trouvent moyen de faire souffrir plus encore ceux qu’ils aiment et dont ils sont fiers que ceux qu’ils détestent ou méprisent” (Tournier, 1980, p. 158).

Porém, Kaddy crê que as compensações recebidas pelo burro rico são lucrativas, pois, para além de boa comida, também tem direito a abundantes envolvimentos sexuais. Kaddi sublinha que a altivez do burro rico não invalida, contudo, que não passe de um asno: os burros acasalam com éguas, surripiando, portanto, as fêmeas ao burro rico. A ambiguidade risível torna-se mais clara a seguir, quando se operacionaliza uma alteração de perspetivas. Efetivamente, o discurso prolixo do burro continua, levando-o a confidenciar que não tem grande propensão a envolvimentos de cariz sexual, porém, considera a vida injusta:

Je ne suis pas excessivement porté sur le sexe, et si j’ai des ambitions, elles se situent ailleurs. Mais je dois avouer que certains matins, le spectacle de Yaoul revenant de ses prouesses équestres, épuisé et saoulé de plaisir, me faisait douter de la justice de la vie. (Tournier, 1980, p. 160)

Dá-se a reviravolta da situação: após o enunciar de alguns privilégios do seu nobre gémeo, surge o cómico. Pobre burro que, tão perto do sagrado, sofre as agruras, na carne, de uma vida terrena, implorando alimento de luxo para o seu pobre ventre, assinalando, assim, a influência da corporalidade na existência, a proximidade da derisória morte, a transitoriedade da existência:

Il est vrai qu’elle ne me gâtait pas, la vie. Toujours battu, insulté, écrasé de fardeaux plus lourds que moi, nourri de chardons – ah cette idée d’hommes que les ânes aiment les chardons! Mais qu’on nous donne donc une fois, une seule fois du trèfle et des céréales pour que nous puissions faire la différence! – et quand vient la fin, la hantise des corbeaux, lorsque, tombés d’épuisement, nous attendrons au revers d’un fossé que la mort miséricordieuse vienne mettre un terme à nos souffrances ! (Tournier, 1980, p. 160)

Tournier oferece, assim, a perspetiva de um jerico, que observa a sua triste condição e a ancoragem do seu ser às agruras da existência, dando-lhe o privilégio de narrar o nascimento de Jesus, bem como o de refletir com graça e suprema sabedoria. Trata-se, sem dúvida, de uma postura subversiva por parte do autor que, ao narrar o nascimento do Salvador pelo entendimento de um burro, acaba por empalidecer a soberania da Palavra Sagrada. Impossível se torna, contudo, não estabelecer o paralelismo com a condição humana tornada tão irrelevante, perante o milagre que a Humanidade está prestes a presenciar.

A passagem dedicada ao nascimento do Menino é antecedida por um momento descritivo, em que toda a natureza é personificada, sendo apresentada sustendo a respiração. Imediatamente a seguir ao nascimento do Salvador, o autor oferece uma descrição do estremecimento de alegria que abalou céu e terra. O jerico, humilde servidor dos homens, tem o privilégio de ser testemunha do nascimento de Jesus e de narrar os momentos a que assistiu. Fiel à representação do momento, e em nítida postura de reverência, o autor apresenta, na fala do burro, numa passagem de grande lirismo, o animismo do cosmos que rejubilou. Após a belíssima descrição panegírica, que nos propicia o burro, o leitor fica algo desconcertado e, certamente, esboça um sorriso, quando o burro exclama: “Que s’était-il passé? Presque rien” (Tournier, 1980, p.163). O sorriso é ainda mais rasgado, quando o

burro, referindo-se ao Anjo Gabriel, nos informa que nele se destacavam a prontidão e grande atividade, usando uma expressão familiar que, como o relembra Bouloumié (2000), aplicada ao mundo divino, assinala o rebaixamento carnavalesco, tanto mais que “ le rire comme l’ironie ou l’humour impliquent un recul critique un sens de la relativité et un refus de dogmatismes” (p. 223). Senão vejamos:

On ne pouvait que saluer l’efficacité de Gabriel. Ah, sauf le respect que l’on doit à un archange, on peut dire que depuis un an il n’est pas resté les deux pieds dans le même sabot, Gabriel! [sublinhado nosso] (Tournier, 1980, p. 163)

É pela voz do burro, que Tournier procede à desconstrução das coordenadas cristãs, mediante o diálogo socrático travado entre o pastor Silas e o anjo Gabriel. O primeiro sente- se dilacerado pelos costumes da sua sociedade e pelos ritos da religião, pelo que interroga o Anjo acerca do sacrifício de Abraão, considerando que “le bois, le feu, le couteau…” (Tournier, 1980, p. 165) constituem os malditos atributos do destino do homem. Estamos, sem dúvida, perante mais um cúmplice do “caim” saramaguiano, que procede a uma meticulosa desconstrução da benignidade do poder divino. Na mesma passagem, e em tom inflamado, visível na pontuação, o pastor Silas alude às ofertas que Abel e Caim concediam a Deus e conclui, tal como o faz Saramago, em Caim ( 2009), que Deus é sanguinário:

Or Jéhovah se détournait des offrandes de Cain et agréait celles d’Abel. Pourquoi? Pour quelle raison? Je n’en vois qu’une: c’est parce que Jéhovat deteste les legumes et adore la viande! Oui, le Dieu que nous adorons est résolument carnivore!” (Tournier, 1980, p. 166).

O anjo acaba por concordar com Silas e promete que, com a chegada do Menino, jamais será derramado sangue, sendo que o único cordeiro sacrificial é Deus. O discurso angélico é seguido por uma pausa de profundo recolhimento, em que todos procuram imaginar como serão os novos tempos. O silêncio reverente é, contudo, interrompido por um “terrible et magnifique bouleversement” (Tournier, 1980, p. 167), um riso grotesco, o formidável zurrar do burro incapaz de conter “un rire sanglotant, gauche et grotesque” (Tournier, 1980, p.167), que acarreta o riso coletivo de todos quantos, na gruta, se encontram. Este riso público apaga o lado sério da esfera oficial, mergulha o sagrado na

profanação galhofeira, constituindo uma pequena, mas alegre, indecência. O leitor também se torna cúmplice e ri, pois o discurso puríssimo do anjo é submetido a ridículo, colocado às avessas, diante da escrita oblíqua do autor. Estamos perante a explosão de riso, que subentende o distanciamento crítico tournieriano, já que o zurrar e a reação das demais personagens assinalam uma mudança repentina de perspetiva e a comicidade face ao discurso, cego e tão pouco plausível, de Gabriel. O carnavalesco torna-se ainda mais patente, porque se todos se entregam ao prazer libertador do riso, numa atividade que une os homens, o burro assinala que o menino Jesus também riu alegremente, à semelhança da vaca, embora esta desconhecesse o motivo pelo qual todos riam.

A alegre relatividade do carnaval invade a tessitura narrativa, as personagens morrem de rir e realiza-se a antropofagia da seriedade da esfera oficial, e como assinala Bakhtin (1998) estabelece-se “ un nouveau mode de rapports réciproques de l’homme avec l’homme opposé aux rapports tout-puissants de hiérarchie sociale que connaît la vie en dehors du carnaval” (p. 144). O riso branco, alegre, puro, dá morte à seriedade e suscita vida, pelo caminho do corpo, propiciando um trilho vertical rumo ao nível espiritual, tal como afirma Colette Quesnel (1991): “ le rire opère un transfert vers le haut,vers la vie de l’esprit. Le rire touche l’âme” (p. 8).

No capítulo dedicado à narrativa do jerico, o riso não é encarado como ameaçador ou pecaminoso, mas antes constitui um espaço amistoso de diálogo com o divino, trata-se, pois, de um riso que faz explodir de alegria e esquecer o riso negro de Herodes. A alienação eclipsa-se e dá lugar ao verdadeiro humanismo do riso franco e festivo que une todos na gruta sagrada.

Como comenta o burro a presença da vaca? Não o faz com os termos mais abonatórios. Para além de ter uma existência de sofrimento, ao burro é-lhe impingida a companhia de um ruminante, na noite mais longa do ano. É com nova expressão familiar, de grande sinceridade, e próxima do registo oral espontâneo, portanto, que comenta: “C’est là qu’on m’attacha à côté d’un bœuf qu’on venait de dételer d’une charrette. Il faut vous dire que j’ai toujours eu les bœufs en horreur” [sublinhado nosso] (Tournier, 1980, p. 161).

O burro prossegue com os comentários efusivos, aproveitando para criticar os que possuem privilégios na escala social: “ou bien on prend le large à travers champs et collines. C’est que, voyez-vous, les petits que nous sommes n’ont rien de bon à attendre des grands. Il vaut mieux pour eux qu’ils ne s’y frottent pas” (Tournier, 1980, p. 170).

Em reconhecimento das capacidades de trabalho, espírito de sacrifício e humildade do jerico, o anjo tece um hino laudatório voltado para o palrador bicho, ficando ainda mais claro o motivo pelo qual esta personagem adquire um lugar de destaque, na noite triunfal de nascimento do Menino. O efeito parodístico surge, devido aos mecanismos da sobreposição do maravilhoso mitológico e do registo familiar inerente ao conto tradicional, sempre vizinho da oralidade. Assim, cósmico e cómico unem-se. Como se vê, a ironia de Tournier e a de Saramago encontram-se ancoradas a processos advindos da literatura carnavalesca de Bakhtin, para quem “ le carnaval rapproche, réunit, marie, amalgame le sacré et le profane, le haut et le bas, le sublime et l’insignifiant” (Bakhtin, 1998, p. 250). Arlette Bouloumié (2000) acrescenta que “le monde renversé, l’abolition des distances au profit d’un contact libre et familier, l’excentricité et la mésalliance, la profanation même – car la parodie de textes ou paroles sacrés peut paraître sacrilège – semblent des constantes de l’écriture ironique tourniérienne” (pp. 227-228).

Tournier retoma, pelo discurso do burro, a sátira menipeia, uma vez que as antinomias estão presentes: liberdade/escravidão, alto/baixo. O riso lúdico inerente à personalidade do burro também está presente. Alegre e espirituoso, apesar da consciência das agruras da existência, investido de autoridade na hierofania do amor absoluto, Lorna Milne (1994) lembra:

Le nom de l’âne-raconteur est significatif. Il s’appelle Kadi Chouia. “Le sage-de- rien-du-tout”, oxymore qui reflète au niveau lexical les paradoxes (…) de la Nativité: un roi naît dans une étable, la naissance du Messie est racontée par un âne. (…) Tournier (…) dépeint l’enfant (…) surtout comme une union des opposés. (…) la révélation de chacun comporte un dépassement des dichotomies et une union harmonieuse des contraires, “car cet Héritier du Royaume mêle des attributs incompatibles, la grandeur et la petitesse, la puissance et l’irrévérence, la plénitude et la pauvreté” (GMB, 185). (p. 66)

Em Michel Tournier, Jesus reúne e promove a reconstrução do ser fragmentado, que partiu em demanda da hierofania apaziguadora.