3. MATERIAL E MÉTODOS
3.2. O cálculo da pegada hídrica da cultura da soja
Para a determinação da pegada hídrica da soja (PHsoja), foi adotada a mesma
metodologia originalmente introduzida por Hoekstra (2003), e que posteriormente foi utilizada por Hoekstra e Chapagain (2008) e Hoekstra et al. (2011) para a contabilização da pegada hídrica de uma cultura e em estudos sobre uso de água de agricultura por Rost et al. (2008) e Fader et al.(2011). A pegada hídrica total (PHtotal) de uma cultura consiste na soma
das suas componentes verde, azul e cinza do processo de crescimento da cultura e é calculada para cada componente dividida pela produtividade da cultura. Assim, a PHtotal expressa a
quantidade de água envolvida dentro da produção da cultura, representando a quantidade de água, em m³, necessária para produzir uma tonelada de rendimento colhido e é calculado pela Eq.1:
(Eq. 1) em que:
PHsoja = Pegada hídrica da cultura da soja (m³ t-1);
PHverde = Pegada hídrica verde da cultura da soja (m³ t-1);
PHcinza = Pegada hídrica cinza da soja (m³ t-1).
3.2.1. A pegada hídrica verde
A pegada de água verde refere-se ao consumo de água armazenada no chão como resultado da precipitação. A água provinda da precipitação infiltra-se no solo e permanece por períodos curtos, e caso essa água seja usada pela planta é considerado como água verde.
A componente verde da pegada hídrica PHverde foi calculada com na base
evapotranspiração diária acumulada durante o ciclo completo da cultura da soja. Dessa forma, a PHverde foi obtida com base na Eq.2, envolvendo a Demanda Hídrica da Cultura verde
(DHCverde) e a produtividade da cultura da soja (Prvt) da área de estudo.
(Eq. 2)
em que:
PHsoja,verde = Pegada hídrica verde da cultura da soja (m³ t-1);
DCHverde = Demanda de água verde da cultura da soja (m³ ha-1);
Prvt = Produtividade da soja (t ha-1).
A DHCverde da componente da PHverde é relevante apenas para produtos e atividade
agrícola e florestal (grãos, madeiras, etc.), correspondendo ao total de água da chuva que sofre o processo de evapotranspiração. Assim, de acordo com a Eq. 3, seu cálculo é realizado apenas através do somatório do volume de água da precipitação, que é evapotranspirada diariamente pela cultura (ETverde), durante todo o período de cultivo, ou seja, desde o primeiro
dia de plantio (d=1) até o fim da colheita (pdc).
∑ (Eq. 3) em que:
DHCverde = Demanda de água verde da cultura da soja (m³ ha-1);
10 é o fator de conversão, que visa converter a lâmina de água proveniente da chuva em milímetros para litros de água por superfície terrestre, em m3 ha-1;
ETverde = Evapotranspiração diária de água verde (mm dia-1).
A evapotranspiração de água verde (ETverde) como o mínimo entre os valores da
evapotranspiração total da cultura (ETc), obtida através do produto entre a
evapotranspiração de referência (ETo) e o coeficiente de cultivo (Kc), e a precipitação
(Eq. 4) e se:
(Eq. 5) (Eq. 6)
3.2.2. A pegada hídrica azul
A pegada de água azul refere-se ao consumo de água azul, ou seja, água que tem origem nos rios e lagos, ou é extraída do subterrâneo, e não é derivada diretamente precipitação durante a estação de cultivo (ROST et al., 2008; FADER et al., 2011). O consumo neste caso faz referência à perda de água disponível em corpos d'água superficiais ou subterrâneos.
A componente azul da pegada hídrica da cultura da soja (PHazul) é calculada de forma
parecida com a PHverde, porém considerando o consumo diário da água aplicada na irrigação,
pela evapotranspiração da cultura (ETazul, m³ ou L), durante todo o período de cultivo
(CHAPAGAIN et al., 2011; MÜLLER, 2012). A PHazul foi obtida através da razão entre a
Demanda Hídrica da Cultura azul (DHCazul) e a produtividade dessa cultura (Prvt) conforme a
Eq. 7.
(Eq. 7)
A DHCazul é calculada através do somatório do volume de água irrigada, dada pela
equação (8), que é evapotranspirada diariamente pela cultura (ETazul, m³ ou L), durante todo o
período de cultivo do primeiro dia de plantio (d=1), ao fim da colheita (pdc).
∑ (Eq. 8)
em que
DHCazul = Demanda de água azul da cultura da soja (m³);
10 é o fator de conversão, que visa converter a lâmina de água irrigada de milímetros para litros de água por superfície terrestre, em m3/ha;
A ETazul foi calculada a partir do máximo entre a diferença da evapotranspiração
total da cultura (ETc), obtida através do produto entre a evapotranspiração de referência
(ETo) e o coeficiente de cultivo (Kc), e a precipitação efetiva (Pref), como mostra a Eq.
9:
(Eq. 9) e se:
(Eq. 10)
(Eq. 11)
3.2.3. A pegada hídrica cinza
A pegada hídrica cinza é um indicador do grau de poluição da água doce, sendo definida como o volume de água doce necessário para assimilação da carga de poluentes com base nos atuais padrões de qualidade ambiental da água. Segundo Hoekstra et al. (2011), o cálculo dessa componente da pegada hídrica, no caso deste trabalho a pegada hídrica cinza da cultura da soja, (PHsoja,cinza), é calculada pelo produto entre a taxa de aplicação por hectare dos
agroquímicos no campo (TAQ), e a fração de lixiviação/escoamento (α), dividido pela diferença entre a máxima concentração aceitável (cmax) e a concentração natural do poluente
em questão (cnat), divididas então pela produtividade da cultura (Prtv), como mostra a Eq. 12.
(Eq. 12)
em que:
α = fração de lixiviação/escoamento do fertilizante;
TAQ = taxa de aplicação por hectare do composto agroquímico em campo kg ha-1; Cmax = concentração máxima aceitável de poluentes no sistema (t m-3);
Cnat = concentração natural num corpo de água (t m-3). No caso de concentrações naturais não
conhecidas com precisão, mas estimativas que sejam baixas, admite-se que a concentração natural da massa de água receptora é nula (Cnat = 0);
Hoekstra et al. (2011) recomendam que se considere no cálculo da pegada hídrica cinza, somente o „fluxo residual‟ para os corpos d‟água, que geralmente corresponde a uma fração da aplicação total de fertilizantes (nitrogênio, fósforo etc) ou pesticidas no campo. Não sendo necessário contabilizar todos os poluentes que afetam o sistema, mas apenas aquele, poluente mais críticos que os que geram o maior volume de água após o cálculo da pegada hídrica cinza.
No caso da lavoura de soja, a fonte de poluição adotada foi o fertilizante nitrogenado, que é empregado no processo de adubação da cultura de soja. Segundo Lamond e Wesley (2001), para soja de alta produtividade, a aplicação de nitrogênio recomendada é de 22 kg.ha-
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. O valor limite aceitável dos fertilizantes nitrogenados seguiu o padrão da Resolução CONAMA 357/2005, classe 3 para águas doces que é de 10 mg L-1. Como nesta pesquisa não houve avaliações, análise e espacialização de corpos hídricos em entorno das áreas agrícolas, atribuiu-se o valor 0 (zero) para a concentração natural do nitrogênio no corpo hídrico. Para a fração de lixiviação, adotou-se o valor de 10% da lixiviação para fertilizantes nitrogenados, de acordo com Chapagain et al. (2006).