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O “caboclo genial” e a “Chanaan Sertaneja”

Pouco tempo após os textos de Chatô e Lima virem a público, outro escrito posicionou Gouveia como um civilizador. Concebido como palestra para a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), no Rio de Janeiro, “Delmiro Gouveia e sua obra” foi um ensaio escrito pelo médico Plínio Cavalcanti e lido em 19 de outubro de 1917. Na ocasião, o orador ofereceu frações das memórias da visita feita à Pedra: “Nunca mais se apagará dos meus olhos de excursionista deslumbrado, a risonha miragem d’aquella cidadesinha de Pedra (...), tão branca e limpa, que à primeira vista julguei-a um grande algodoal de capulhos alvejantes”122. Plínio Cavalcanti descreve a vila como uma “estranha flor de civilização” e Delmiro como “caboclo genial”. É sob o impacto do crime que o orador escolhe as suas palavras e talha a memória de seu homenageado, alguém que ele conhecera pessoalmente em 1914. Naquele ano, viajando pelo “Norte” do país, o jovem Cavalcanti percorreu aproximadamente 85 cidades, com o objetivo de escrever um livro sobre a região. Ali, nas redondezas do rio São Francisco, chegou à Pedra e tornou-se hóspede de Delmiro. O médico, então com apenas 23 anos, maravilhou-se ao presenciar “verdadeira civilização encravada na barbaria do sertão alagoano”.

A vila surgiu ao moço como algo único e, anos depois, ao proferir a palestra, ele reafirmou esta singularidade, concebendo a Pedra através de um oxímoro: tratava-se de um empreendimento tipicamente brasileiro e, ao mesmo tempo, “parece ter sido concebida à

121 SAID. Op. Cit. p. 52.

122 CAVALCANTI, Plínio. A Chanaan sertaneja da Pedra: escriptos sobre a obra realisada por

Delmiro Gouveia no Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro, 1927. O mesmo trabalho aparece antes nas

seguintes publicações: CAVALCANTI, Plínio. A canaan sertaneja. Saúde. Rio de Janeiro, dez.1918; CAVALCANTI, Plínio. A Manchester sertaneja do Norte. Revista Nacional. Rio de Janeiro, I (I) jun. 1919 e CAVALCANTI, Plínio. A Manchester sertaneja do Norte. Correio da Pedra. 15 jun.1919.

feição das peças de invento, cujos moldes são quebrados pelos inventores para que ninguém mais consiga completar o seu acabamento”. Isto pode ser explicado, pelo menos em parte, devido à força que a campanha pelo saneamento do país ganhou naqueles tempos. Como observam Nísia Lima e Gilberto Hochman, vivia-se uma época na qual o povo brasileiro era considerado “indolente, preguiçoso e improdutivo porque estava doente e abandonado pelas elites políticas. Redimir o Brasil seria saneá-lo, higienizá-lo, uma tarefa obrigatória dos governos”123. As viagens pelos sertões, crescentes no final do século XIX e nas primeiras décadas do XX, refletem uma tendência de valorização destes lugares tanto como espaços que deveriam ser incorporados ao “esforço civilizatório” das elites políticas do país quanto como referências da autenticidade nacional124.

Retomando imagens do passado, Cavalcanti atribui a Gouveia a transformação experimentada na pequena vila. Conforme as palavras do médico, o cearense arrancou “do sertão alagoano esta Pedra bruta para lapidá-la ao crysol de sua energia e da sua astúcia maravilhosa”. Deste processo, o que surge é um conjunto de práticas para reabilitar a visão que o palestrante tinha do povo brasileiro. A leitura positiva sobre o caráter nacional se ampara no próprio Gouveia que, conforme seu ex-hóspede, “poderia servir a um esculptor como modelo clássico da genuína raça nacional”125. Pode-se dizer que não um artista, mas o próprio Cavalcanti buscava um tipo ideal de brasileiro.

Pouco tempo depois da palestra sobre o negociante, o mesmo autor participou de outro evento celebrativo. Em fevereiro de 1918, o médico foi um dos que falaram na sessão inaugural da Liga Pró-Saneamento do Brasil126 na qual se realizou uma homenagem ao sanitarista Osvaldo Cruz (1872-1917). Em sua intervenção, Cavalcanti falou sobre a importância de iniciativas para sanear os sertões dos “papudos e dos idiotas”. Disse o Dr.Cavalcanti: “É uma campanha sociologica. É uma campanha patriótica em que todos os

123 LIMA, Nísia, HOCHMAN, Gilberto. Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da Primeira República. In: MAIO, Marcos Chor, SANTOS, Ricardo Ventura (Orgs.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz, Centro Cultural Banco do Brasil, 1996.

124 LIMA, Nísia. Um sertão chamado Brasil: inteletctuais e representação geográfica da identidade

nacional. Rio de Janeiro: Revan/IUPERJ, UCAM, 1999.p.65

125 CAVALCANTI, Plínio. A Chanaan sertaneja da Pedra: escriptos sobre a obra realisada por

Delmiro Gouveia no Nordeste do Brasil.Rio de Janeiro, 1927.p.06 e 09.

126 A LPSB teve como dirigente Belisário Penna, tendo promovido “conferências; palestras em escolas, entidades associativas de proprietários rurais e nas Forças Armadas; distribuição de folhetos de educação sanitária, entre outras ações”. Além disto, ocorreu a publicação de artigos do mesmo Penna incitando os brasileiros a participarem de uma campanha em prol do saneamento do país. Cf. LIMA & HOCHMAN.Op.Cit

brasileiros sem distincção de capacidades devem collaborar”127. A viagem que o médico fez ao interior do Brasil possivelmente estava ligada a uma ambição patrocinada pela SNA: contribuir para sanear os “vastos e enfermiços” sertões e tratar as “populações do interior dizimados por toda a casta de molestias infecciosas”128. Para profissionais como Cavalcanti, nada mais adequado que tomar homens como Delmiro (que até nos trajes brancos inspirava higiene) para representar suas idéias.

Era este, portanto, o sertanejo a ser estabelecido como padrão. O que ocorrera naquelas paisagens, anos antes, devido aos conflitos no arraial de Canudos e nas proximidades de Juazeiro, deveria ser superado. Era preciso então falar da missão cumprida por Delmiro, vindo de uma cidade litorânea, a erguer uma “florida chanaan de paz e trabalho para aquella gente exaltada, que como mestre-escolas só tivera Padre Cícero e Antônio Conselheiro”. Aqui, aparece um traço comum nas diferentes reflexões produzidas sobre a vida do Rei das Peles. Para muitos, ele funcionou como uma antítese a tudo que representavam o clérigo de Juazeiro e o beato. Ao contrário destes dois personagens, Gouveia esgrimava os problemas do sertão através dos ícones modernizadores. Eletricidade e higiene, principalmente, impressionaram Plínio Cavalcanti da mesma forma que parecem ter impressionado Oliveira Lima e Chateubriand. Ao mesmo tempo, como os antecessores, o médico se esforçou em isolar o coronel frente a qualquer outro nome conhecido da região. O fato de ter agido sozinho e em lugar inóspito tornava Delmiro singular. O mesmo autor lamenta que intelectuais como Alberto Torres (1865-1917) e Euclides da Cunha não tenham alcançado Gouveia pois, segundo Cavalcanti, “se houvessem conhecido sua obra teriam motivos picturaes para um livro empolgante”. Em sua exposição Cavalcanti acompanha a tendência interpretativa que, amparada em obras como Os Sertões (1902), criticava o abandono das populações do interior brasileiro pelas autoridades.

A devoção de Plínio Cavalcanti à causa de “sanear os sertões” acompanhava a argumentação de que era necessário intervir no interior do país, combater as endemias rurais e, deste modo, melhorar as condições físicas e sociais dos sertanejos. Em artigos

127 LIGA Pro- Saneamento do Brasil. A sua installação hontem. A glorificação da obra de Oswaldo Cruz. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, [12 fev. 1918]. http://www2.prossiga.br/Ocruz/textocompleto/imprensa_sobre/ligapro.html em 16/02/2007. Sobre os rumos que a tal liga tomou anos depois consultar: COSTA, Jurandir Freire. História da psiquiatria no Brasil: um

corte ideológico. 3ed. rev. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

escritos para revistas especializadas e jornais, a imagem do sertão era evidentemente estereotipada129. Pedra quebrava este estigma e Delmiro, coronel moderno, se posicionava como uma personagem-chave para as narrativas sobre as modificações possíveis de serem empreendidas naqueles locais. Era o antídoto às moléstias infecciosas, ao sertão doente física e mentalmente. Gouveia era a resposta do mundo moderno ao atraso e o fanatismo, ambos simbolizados por Padre Cícero e principalmente pela figura de Antônio Conselheiro.