4 O CONSTRUCTO TEÓRICO: UM REFERENCIAL ORIUNDO DE INÚMEROS
5.2 As práticas propostas: um mundo todo dentro da sala de aula
5.2.8 O Caderno de Escrita do Projeto “hashtags”
A prática da escrita de “hashtags” surgiu pelo fato de notarmos que os alunos faziam um uso muito intenso da rede social Facebook, inclusive no horário das aulas, via celular. A ideia foi a de apresentar a eles um uso do Facebook que eles não tinham o hábito de utilizar, que era o dos “textões” com hashtags temáticas. Pretendíamos com isso, estimular os alunos a compartilhar um pouco mais de si, de suas ideias e de sonhos, via rede social, de modo que eles pudessem se dar conta de que não estão sozinhos e que muitos outros adolescentes também passam pelos mesmos sentimentos, dúvidas e vivências, só que tudo isso mediado pela escrita. Tal prática também estava relacionada à grande temática da nossa proposta pedagógica, a saber, a da construção de identidade. Para isso, criamos três hashtags, que orientariam a escrita das turmas.
A primeira delas, destinada ao sétimo ano, era a #deixaeutecontar. Ela surgiu por conta de termos observado que os alunos dessa faixa etária chegavam à aula com muita vontade de contar aos amigos o que tinha lhes acontecido, seja na escola ou fora dela, dificilmente conseguindo se controlar e esperar o fim da aula para conversar.
A ideia aqui foi a de canalizar essa vontade para que fosse explorada via escrita, trazendo isso ao encontro do que deveria ser abordado na primeira etapa da temática, que era justamente o “eu” em foco. Ao escrever, orientados pela #deixaeutecontar, os alunos podiam falar de si, de suas vidas e do que lhes acontecia, seja as coisas mais corriqueiras até fatos mais marcantes. Essa hashtag abria um espaço, em aula, para que eles pudessem compartilhar algo do seu interesse e, ao mesmo tempo, auxiliava em todo o processo de racionalização acerca de si, propiciando um momento de autoconhecimento e construção desse “eu”.
A segunda hashtag, destinada ao oitavo ano, era a #esefosseeu. A ideia aqui estava novamente ligada à temática maior que, nessa etapa, era a do “outro”. Como os trabalhos, nessa etapa, eram direcionados a fazer com que a turma se desse conta desses outros a sua volta, o exercício aqui era o de refletir, via escrita, como seria esse processo de se colocar no lugar do outro, num exercício de compreensão e aceitação do diferente.
Como os alunos já haviam passado pela primeira etapa de falar sobre si (visto que no ano anterior tinham escrito orientados pela outra hashtag), eles já estavam prontos para esse novo passo, até porque, durante o ano anterior, eles já tinham ouvido as histórias dos colegas e percebido as diferenças entre eles mesmos, além de já terem superado aquele primeiro momento mais intenso e eufórico do início da adolescência.
Essa etapa era enriquecida pela prática 4.2.10, a seguir descrita, que trazia gêneros textuais/discursivos que focavam outros mundos e possibilidades, proporcionando aos alunos, maiores condições para essa escrita e esse olhar para as diferentes possibilidades para além do “eu”.
A terceira hashtag, desenvolvida no nono ano (o terceiro da proposta pedagógica), era a #suavidaevcqescreve. Essa etapa correspondia ao momento em que a temática estava voltada para o “mundo”, para o “eu” agora enquanto cidadão do mundo. Aqui o ponto era estimular os alunos a assumir a identidade construída até
então e pensar os modos como poderiam se inserir no mundo, no sentido que eles se dessem conta de que poderiam mudar sua realidade de origem.
Esse foi um movimento muito importante porque respondia às inquietações dos alunos, no sentido de que, nessa etapa da adolescência, dentro do contexto em que viviam, eles traziam para a sala a angústia e o medo de não se sentirem em condições de continuar os estudos ou de poderem competir no mercado de trabalho. As falas muitas vezes giravam em torno de que o futuro deles já estaria escrito e que acabariam no tráfico.
A hashtag em questão vinha ao encontro disso, construindo um processo de fortalecimento do trabalho desenvolvido até então e permitindo, mais uma vez via escrita, que eles sonhassem e visualizassem que podiam, sim, escrever sua história e reivindicar seu espaço na sociedade como cidadãos preparados para circular nos diferentes espaços sociais.
Em termos de desenvolvimento desse trabalho, a dinâmica era a seguinte: como não seria adequado, nem possível de acompanhar – em termos de desenvolvimento de escrita –, os textos não podiam ser escritos diretamente no Facebook, afinal, todo texto precisava ser escrito, reescrito e reeditado até que estivesse pronto para ser compartilhado de forma pública.
Para resolver essa questão e acompanhar os processos de escrita de cada aluno, adotamos a prática do Caderno de Escrita, em que cada aluno recebia um caderno, no início do ano letivo. Esse caderno podia ter sua capa personalizada, de modo que ficasse com o estilo próprio de cada aluno. Após, era explicado aos alunos de cada etapa sobre a hashtag que os guiaria na escrita, bem como que o caderno ficaria com eles, de modo que, sempre que tivessem algo a compartilhar, pudessem fazer isso via escrita, livremente. A única condição que não podia ser esquecida era a de que o caderno deveria vir sempre para aula, pois, regularmente, teríamos momentos de roda de leitura desses textos para o grande grupo, bem como a professora recolheria os mesmos, sistematicamente, para contribuições na reescrita. Quando um texto estivesse pronto (após as críticas, contribuições dos colegas e reescritas), ele seria publicado no Facebook do aluno com a hashtag correspondente. Também havia a possibilidade de alguns textos serem escolhidos para edição conjunta, em sala, edição essa conduzida pela professora e realizada entre todos os alunos. Outro ponto esclarecido aos alunos é que nem todos os textos precisavam ser publicados ou compartilhados para o grande grupo. Essa ressalva era
importante, pois, em alguns momentos, os alunos usavam o caderno para desabafar, quase como um diário, e era complicado expor tudo aos colegas. Diante disso, era permitido escolher alguns dos textos produzidos e solicitar à professora que eles não fossem compartilhados.38