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O caleidoscópico conceito de angolanidade

Parte I – A consciencialização e o nacionalismo: projetos de individualização cultural

2. O papel da literatura: entre ideologia e cultura

2.3. O caleidoscópico conceito de angolanidade

A definição de angolanidade tem sido uma questão muito debatida, constituindo o maior desafio a esta mesma definição a multiplicidade de fatores constitutivos do conceito, uma vez que a angolanidade é, simultaneamente, a expressão dos fatores culturais que regulam a atividade imaginativa dos angolanos e, do ponto de vista literário, o elemento que reflete a genuinidade da produção criativa nacional. Neste sentido, em função do percurso literário da poesia estudada, definir este conceito torna-se importante, porque nos permite fixar uma unidade de medida necessária para incluir (ou não) as obras analisadas no corpus sobre o qual assenta a construção do cânone angolano. Sendo que vários aspetos concorrem para a definição de angolanidade, parece-nos oportuno abordar, em primeiro lugar, o conceito de cultura, intimamente ligado com o de identidade. Ora, considerando que no contexto colonial angolano, era difícil para a minoria negra exprimir-se, por causa da dificuldade de acesso ao ensino e por causa da censura, é de destacar o papel orientador assumido por uma elite maioritariamente branca ou mestiça que regulava a atividade no domínio literário e estabelecia as diretrizes na construção da identidade cultural angolana. Assim, o papel dos intelectuais torna-se portanto fundamental, pois é através da sua visão que se reflete a identidade do povo angolano. Realçando a complexidade do conceito de identidade, o sociólogo Zygmunt Bauman afirma:

Though all too often hypostasized as an attribute of a material entity, identity has the ontological status of a project and postulate. To say ‘postulated identity’ is to say one word too many, as neither there is nor can there be any other identity but a postulated one. Identity is a critical projection of what is demanded and/or sought upon what is; or, more exactly still, an oblique assertion of the inadequacy or incompleteness of the latter (Apud Hall & Gay, 1996: 19).

Esta aceção de identidade parece, de facto, aplicar-se ao percurso da literatura angolana, uma vez que, através dos textos das várias fases literárias, se verifica uma preocupação com a projeção da cultura nacional e de uma consequente afirmação identitária.

Luís Kandjimbo sublinha um aspeto fundamental que, por vezes, não é suficientemente explorado pela crítica exógena, salientando que Angola é um espaço cultural africano e que, portanto, não se pode deixar de ter em conta o substrato cultural

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que lhe subjaz, substrato este que o crítico e ensaísta angolano aponta como sendo de matriz maioritariamente bantu. Nesta perspetiva, os autores angolanos situam-se no panorama literário nacional em função da sua maneira de reatualizar a herança cultural africana, tornando-se a afirmação da angolanidade diretamente proporcional ao afastamento do modelo português (Kandjimbo, 1997: 21). O crítico angolano afirma a existência de uma angolanidade-pressuposto, que representa a bagagem cultural de cada indivíduo, a qual determina a identidade literária do escritor, bem como a dos textos produzidos. Esta perspetiva contrasta com a das teorias do hibridismo, que consideram a literatura angolana o produto da fusão entre o domínio literário português e o africano, porquanto, usando as palavras de Fernando Costa Andrade, «a literatura angolana nasce no centro de uma dramática realidade: o choque diário e violento de dois grupos profundamente antagónicos: colonizados e colonizadores» (Andrade, 1980: 45). De facto, alguns críticos, sobretudo africanos, assinalam o facto de a relação entre a literatura e a cultura portuguesa e a literatura e a cultura africana ter correspondido mais a um choque do que a uma interação, considerando-se mais «angolanos» os textos que se afastam da cultura portuguesa. Em função disso, Luís Kandjimbo recusa as teorias de Mário António ou René Pellisier, que defendem que «o nacionalismo africano [angolano] moderno é uma criação dos mestiços do século XIX» (Kandjimbo, 1997: 17).

Remete-se para outro capítulo24 uma análise mais aprofundada sobre a genuinidade dos textos e a sua relação com o modelo português, antecipando-se apenas neste momento o facto de a identidade literária e a biografia dos escritores influenciarem, como é óbvio, a sua escrita, sendo todavia a angolanidade-pressuposto de que fala Luís Kandjimbo o factor determinante. De facto, no plural panorama literário angolano temos que ter em conta também o papel dos radicados, que fizeram parte do processo de libertação e que produziram obras reconhecidas como peças importantes da literatura angolana, pois, neste caso, a angolanidade que promovem não é uma angolanidade de nascença, mas que envolve, de qualquer forma, sentimentos de pertença. Neste tipo de autores conjugam-se diferentes heranças culturais e podemos invocar, a título de exemplo, os casos de João- Maria Vilanova e Leonel Cosme, que manifestam uma sensibilidade para os problemas da terra comparável à de outros autores conceituados. Este aspeto põe de manifesto que não se é apenas angolano por nascença, mas também por aquisição. Os estudos pós-coloniais,

24 Veja-se o ponto «2.3. A presença de elementos etnográficos africanos e o uso do português, língua do poder», p. 168-181.

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aliás, orientam-se para a tendência para ultrapassar a visão historicista da literatura, considerando que esta não é a mais adequada para a análise das literaturas emergentes, uma vez que, neste caso, o processo literário adquire caraterísticas específicas. O texto torna-se o elemento central e constitutivo do sistema literário, funcionando também como determinante na constituição da identidade literária e nacional. Deste modo, Pires Laranjeira, dividindo a poesia angolana em duas espécies, a poesia oral e a poesia de expressão angolana em língua portuguesa, questiona-se, no que diz respeito à relação entre o uso da língua portuguesa e a afirmação de angolanidade, do seguinte modo:

O problema fundamental que se levanta é saber quando e como é que existe a angolanidade da poesia. Trata-se, portanto de investigar a legitimidade não do meio de expressão (língua portuguesa) mas do modo de diferenciação dessa expressão (Laranjeira, 1985: 24).

Entre os elementos que Luís Kandjimbo cita como requisitos para a inclusão de autores num determinado sistema literário nacional (Cf. Kandjimbo, 1997: 29), a língua é um factor de relevância. O crítico define, assim, como literatura angolana o «conjunto de textos que compreendem os textos orais, as versões escritas dos textos orais, em línguas nacionais, os textos escritos em língua portuguesa, produzidos por autores angolanos com recurso às técnicas da ficção narrativa, de outros modos de escrita desde que se verifique neles uma determinada intenção estética, crítica ou histórico-literária, veiculando elementos culturais angolanos» (Ibidem: 30). Nesta perspetiva, a língua portuguesa é só aparentemente a língua do outro, uma vez que, filtrada através da intenção do autor, assume um novo código25.

O escritor angolano Bonavena, citando também Lopito Feijoó, refere-se, justamente, à angolanidade como a um conceito que deve abranger na sua totalidade a cultura angolana, sem privilegiar regionalismos (Apud Laban, 1991: 897). Certo é que podemos observar uma certa fluidez do conceito, no sentido em que ele está sujeito à influência do processo de afirmação de uma identidade sufocada pelo colonialismo. Sem pôr em causa o absoluto da aceção, podemos considerar o conceito de angolanidade como algo versátil, uma vez que a sua definição muda ao longo da evolução histórica. Luís

25 Remete-se para o ponto «2.3. A presença de elementos etnográficos africanos e o uso do português, língua do poder» (p. 168-181) uma análise mais aprofundada sobre a questão do uso da língua portuguesa na produção poética estudada, como veículo de angolanidade.

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Kandjimbo, em Apologia de Kalitanji (Kandjimbo, 1997), faz um excursus sobre a teorização da angolanidade. O aparecimento do termo, em 1961, num ensaio de Alfredo Margarido (Apud Kandjimbo, 1997: 15), deu azo a um debate sobre a identidade angolana, par o qual deram o seu contributo, entre outros, Agostinho Neto, Fernando Costa Andrade, Mário António e José Carlos Venâncio. Este debate permite consolidar a existência de certos elos comunicantes entre a manifestação da autonomia das literaturas africanas de expressão portuguesa e a afirmação da angolanidade, na qual se distinguem duas correntes, uma que aponta para a perspetiva da crioulidade (Mário António e José Carlos Venâncio) e outra que defende a necessidade de uma volta às origens (Agostinho Neto e Mário Pinto de Andrade). De facto, no processo de afirmação da identidade angolana, o MNIA defendeu a necessidade de (re)afirmar os valores tradicionais africanos para «descobrir Angola», ao passo que a poesia da fase utópico-patriótica apontou para uma angolanidade ligada às experiências de guerra (ou do ghetto) e do fim do regime colonial, tendo, por último, a

moderna poesia angolana dado voz ao homem angolano em contexto pós-colonial. Ora, a

definição de angolanidade prende-se com a totalidade destes aspetos, em processo de transformação e elaboração ao longo do qual o homem angolano passa por várias fases, até à sua afirmação plena, na modernidade.

A aceção de angolanidade como elemento que carateriza o ser angolano, assim como os valores nos quais o termo assenta, está ligada ao conceito de cultura popular, igualmente sujeito, como se compreenderá, a contínuas reformulações ao longo do tempo. Como afirma Pires Laranjeira, no que diz respeito às literaturas africanas de língua portuguesa, é difícil definir o significado de cultura popular, pois esta envolve uma variedade de fatores sujeitos a inúmeras mudanças, quer no tempo quer no espaço (Cf. Laranjeira, 2009: 7-24), citando o autor vários tipos de tradições culturais, que se formaram com a evolução histórica e os contactos entre culturas. No que diz respeito ao caso angolano, o autor destaca os nomes de José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade que, no início dos anos 50, afirmavam já não existir uma tradição ancestral africana, pois a oralidade tinha sofrido perdas consideráveis, infligidas pela dominação colonial. Apesar disso, os autores citados defendiam que era necessário fazer um esforço para recuperar a tradição oral, pois esta representava os primórdios da cultura angolana. Devido também à pluralidade de tradições culturais ligadas às diferentes etnias presentes em Angola, resulta difícil elaborar uma definição unívoca e cultura popular. Não se trata, todavia, apenas da

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pluralidade de elementos subjacentes à angolanidade, mas também da sua convergência para a definição de uma visão que se pretende consolidar através dela. É justamente nesta questão que se insere o papel dos escritores, os quais proporcionam, através da produção literária, a reinterpretação e a «invenção» da cultura nacional, mediando desta forma na definição da angolanidade. Neste sentido, José Carlos Venâncio realça a versatilidade do conceito, no sentido em que é um elemento que muda conforme as circunstâncias, frisando ainda o autor que «a angolanidade não deve ser confundida com identidade. Entendo por angolanidade a interpretação que alguns (intelectuais, políticos, escritores, etc.) fazem da sociedade crioula angolana» (Venâncio, 1992b: 19).

Nos capítulos seguintes26 será abordada mais detalhadamente a questão da crioulidade no que diz respeito à literatura angolana; contudo, antecipamos já o facto de o conceito de angolanidade (que pressupõe a expressão da identidade cultural angolana, relacionada por José Carlos Venâncio com o adjetivo «crioula») nos parecer implicar uma contradição, sobretudo no que concerne a época estudada. É verdade que a angolanidade está sujeita a uma visão subjetiva e que derive do encontro entre a cultura angolana e a portuguesa. Porém, como mostraremos em seguida, não se pode considerar a cultura angolana uma criação crioula e a contradição decorre do facto de a angolanidade corresponder à expressão da cultura nacional, partindo do pressuposto de um confronto com a cultura portuguesa, embora através da utilização da língua portuguesa.

Não se deve, pois, confundir a liquidez do conceito de angolanidade com os termos de mestiçagem ou crioulidade (usando aqui o mesmo sentido de «líquido» que Zygmunt Bauman atribui à sociedade moderna (Bauman, 2001)), os quais são representados, no caso da angolanidade, por específicos momentos históricos ou determinadas circunstâncias literárias. Na ótica da invenção da nação, estamos em presença de dois aspetos: a realidade e a literariedade. No processo de afirmação da Nação angolana, durante a fase utópico- patriótica, existindo um estreito laço entre os acontecimentos políticos e a determinação do literário, observamos que o desenvolvimento do campo literário angolano se produz num processo de luta paralelo ao da luta de libertação.

José Carlos Venâncio, partindo do princípio de que a cultura angolana é fruto de uma sociedade crioula, afirma que o conceito de angolanidade corresponde «à coletivização das interpretações que alguns fizeram da sociedade crioula, do seu futuro e

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do futuro do espaço político-económico herdado pelo colonialismo» (Venâncio, 1992b: 20). A poesia da fase utópico-patriótica apresenta a preconização do espaço angolano, contudo, não se trata aqui de interpretações, mas sim de uma forma de exprimir a angolanidade em função das possibilidades e das circunstâncias da época, procurando sempre, ao longo das décadas, uma forma de afirmação da identidade e da autonomia. É evidente que o discurso muda do período colonial para o do pós-independência, pois é muito diferente afirmar-se perante um «outro» ou em contraposição a ele. Depois da independência, uma vez em que esta contraposição já não é necessária, a angolanidade adquire uma outra forma de expressão literária, não deixando de representar a visão do mundo angolano, com todas as suas contrariedades. Não se deve, assim, entender a angolanidade apenas como a presença na obra literária de elementos do património cultural africano tradicional, pois a cultura muda com o tempo e o processo de globalização. De facto, como salienta ainda José Carlos Venâncio, no que diz respeito à definição de angolanidade proposta por Fernando Costa Andrade e referente à época pré-independência, «havia a necessidade de acentuar a especificidade da realidade angolana, a singularidade da cultura angolana, em relação à então bastante apregoada portugalidade» (Ibidem: 21).27

Em conclusão, não se pode definir a angolanidade de uma forma estática, uma vez que este é um conceito que tem evoluído, ao longo do tempo, acompanhando o processo de afirmação da cultura e da literatura angolanas. Sendo assim, podemos questionar-nos relativamente à similitude existente entre a angolanidade defendida pela geração da

Mensagem e a angolanidade atual. Não é, talvez, o conceito de angolanidade por si

próprio que sofre mudanças, mas antes a sua perspetiva de afirmação, em conformidade com as mudanças histórico-políticas, a qual evidencia uma condição humana diferente, na medida em que o angolano se torna protagonista do seu próprio espaço.

27 Um exemplo da mudança de perspetiva, em relação à afirmação da angolanidade, coincide com o autor angolano João Melo, que nas suas obras faz uma crítica à sociedade e à política angolana e internacional da atualidade. Nos seus contos encontramos muitas referências a factos e personagens estrangeiras, mas sempre lhes subjaz uma visão angolana da realidade.

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Parte II – Da resistência à independência: estratégias de afirmação literária