2. A CIDADE COMO NARRATIVA – O CAMINHAR COMO
2.1 O CAMINHAR COMO FORMA DE APROPRIAÇÃO DA CIDADE
Esse tópico tece, a partir de um conjunto de autores, a importância do andar a pé, fazer-se presente na cidade, expandir os horizontes, ir ao encontro daqueles que
18 A obra “Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo” foi escrita entre os anos de 1937 e 1939.
O trabalho compilado e traduzido para o português tem a primeira edição em 1989.
19 João do Rio é um dos pseudônimos de João Paulo Barreto. A obra “A alma encantadora das ruas (1908)”
de João do Rio, concede suporte à presente pesquisa. O autor perfazia seus caminhos no Rio de Janeiro do início do século XX. A capital fluminense e do Brasil encontrou na figura do prefeito Pereira Passos, influenciado pelas transformações parisienses de Haussmann em meados do século XIX, a operacionalização das modificações em seu traçado urbano.
estão à margem do sistema. Ressalta-se que a temática do presente estudo não se trata de propor uma metodologia de práticas erráticas, mas sim de um caminhar orientado com enfoque na discussão do patrimônio cultural. Parafraseando o arquiteto italiano Francesco Careri (2017), o caminhar pode ser compreendido como uma atitude democrática de reintegrar-se ao espaço público, ocupar a cidade, proporcionando de alguma maneira uma revolução. A seguir, será elaborado um panorama abordando o percurso histórico da questão do andar no espaço urbano.
A prática do caminhar nas cidades foi uma experiência que ocorreu ao longo de todo o século XX. No ano de 1921, um movimento ligado ao dadaísmo organizou na França um conjunto de “visitas-excursões” aos espaços mais triviais de Paris. Esse se constitui o primeiro momento em que a arte rejeitou os espaços mais nobres da cidade e foi ao encontro da alteridade urbana (CARERI, 2013b).
A temática adquiriu novos enfoques na década de 1950, no contexto da Internacional Situacionista em 1957, onde se legitimou que a ação de “deambular-se e perder-se” na cidade era uma possibilidade da antiarte e uma forma de subversão do sistema capitalista do pós-guerra. Para eles, o caminhar sem rumo conduziria a uma “construção consciente e coletiva de uma nova cultura” (CARERI, 2013b). Desse movimento, surgiu um grupo que materializava a experiência do deambular através de mapas psicogeográficos. Ressalta-se que essa cartografia não expressava a descrição fidedigna dos percursos vivenciados, mas as emoções e sentimentos que o flanar suscitava nos participantes (CARERI, 2013b).
Dessa forma, pode-se inferir a importância dessas experimentações para o conhecer áreas da cidade que são objetos tradicionais de “repulsa e preconceito”; as trilhas urbanas são estabelecidas a partir dos arquétipos do que seria o ideal ou a boa imagem do lugar. Ao conduzir os caminhantes para espaços de alteridade (à deriva da cidade tradicional), permite-se a construção de um novo olhar e compreensão do significado dessas zonas para a cidade. Essa prática é conhecida como errância urbana.
Francesco Careri e Paola Jacques criticam o modelo do urbanismo tradicional, em que o urbanista elabora estudos a partir de diagnósticos (desconsiderando
valores culturais e especificidades locais), mapas zenitais20, zoneados e estáticos. Há uma proposição do método deambulatório. Este é uma metodologia mais participativa, pois se trata de “[...] relato fenomenológico evolutivo, descrito de um ponto de vista horizontal, colocado em movimento graças ao caminhar por entre as dobras da cidade: o survey walk.”(CARERI, 2017, p.102). Entretanto, Jacques (2012) esclarece que a errância não substitui a forma tradicional de intervir nas cidades, ela seria uma atualização do tema, ou seja, um outro olhar sobre a cidade, complementando a visão urbanística de planejamento urbano. Ainda nessa reflexão, o caminhar seria um fio condutor para o desenvolvimento de projetos de cidades vivas e democráticas (SANTOS, 2017).
Mais recentemente, observou-se que há uma inquietação por parte de alguns pesquisadores em retornar ao campo de estudo, não se afastando do objeto empírico, mas indo ao encontro dele, ou seja, “colocar o corpo em campo” 21(THOMAS, 2012).
E uma das formas de ter esse resultado é retomar o caminhar como metodologia de apreensão da cidade, tornando-se uma espécie de “sala de aula de maiores proporções”. Na perspectiva de compreender a relação da cidade como uma sala de aula, é preciso refletir a priori sobre qual a área adequada para a elaboração de uma atividade de campo, qual o espaço interessante para proporcionar a relação com o Outro. Entender que o “parar” e “andar” não são funções divergentes, mas estão dentro do mesmo processo/percurso, ou seja: “[...] parar é, de fato, uma grande oportunidade para continuar a agir com o mesmo espírito do andar, mas num espaço do estar” (CARERI, 2017, p.113).
Francesco Careri, na disciplina de Artes Cívicas do curso de Arquitetura, da Universidade Roma Tre, na Itália conduz os estudantes a ter contato com a cidade,
20 São representações cartográficas vistas de cima da superfície terrestre.
21 Rachel Thomas utiliza a expressão “faire corps, prendre corps, donner corps aux ambiances urbaines”
(Fazer corpo, pegar corpo, dar corpo às ambiências urbanas - tradução nossa), que significa trazer o pesquisador/observador para o contato com o objeto de estudo. Para a autora, essa aproximação com a pesquisa agrega outros valores, dentre os quais pode-se destacar a questão da percepção da ambiência urbana.
permitindo a reapropriação dos espaços, modificando pessoalmente a cidade. Careri (2017) aprofunda mais a questão, afirmando que:
O curso de Artes Cívicas pede aos estudantes e aos cidadãos que se encontram ao longo do percurso de agir na cidade em escala 1:1, como ação física de seus corpos no espaço. Tem o objetivo de reativar suas capacidades inatas de transformação criativa, de lembrá-los que eles têm um corpo que lhes permite se posicionar dentro da cidade; pés para caminhar e mãos para modificar o espaço o espaço que habitam. Durante cada aula são percorridos cerca de dez quilômetros, caminhando do almoço ao pôr do sol. De vez em quando paramos para ler alguns textos, para comentar os espaços em que conseguimos penetrar, para raciocinar sobre a cidade, sobre a arte e sobre a sociedade. (CARERI, 2017, p.102-103)
A errância urbana, além de ser uma das formas de apreender a cidade em uma escala mais próxima, sentindo e afirmando suas qualidades e problemas, é uma maneira de poetizar o urbano e de narrá-lo. Em outras palavras, significa trazer a temática da cidade como uma narrativa, característica que está se perdendo com a pragmatização da análise urbana utilizada nos métodos mais tradicionalmente trabalhados nos projetos e estudos urbanos. Como afirma Tiago Carvalho no artigo “Errar é urbano. Para uma hodologia em Lisboa (2014)”:
O caminhar confere um controlo relacionado com o ritmo natural em que a paisagem atravessada se revela demoradamente. Este ritmo é mais ou menos a velocidade para a qual os seres humanos estão sintonizados para aceder experiencialmente as suas redondezas imediatas; esta condição preserva ainda um sentido equilibrado de controlo de um indivíduo perante a realidade, quer esteja na sua pequena esfera privada do lar ou do trabalho, ou na área mais extensa de uma praça ou avenida familiares. (CARVALHO, 2014, p.114).
No que se refere ao método errático, Paola Jacques afirma que: “A experiência de errar pela cidade pode ser uma ferramenta de apreensão da cidade, mas também, de ação urbana, ao possibilitar microrresistências dissensuais que podem atuar na desestabilização de partilhas hegemônicas e homogêneas do sensível” (JACQUES, 2012b, p.192). Para a autora, o caminhar é uma forma de resistência urbana, pois vai ao encontro da alteridade (o Outro urbano), esta que é constante alvo dos planos urbanos que visam à assepsia, controle, limpeza social (gentrificação) da cidade, especialmente no contexto de grandes eventos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016) em que recentemente o Brasil se encontrou (JACQUES, 2012b).
Francesco Careri na obra “Walkscapes: o caminhar como prática estética” vai ao encontro de Paola Jacques ao afirmar que o caminhar é útil à prática da arquitetura como uma metodologia de cognição de projeto, pois é uma forma de “[...] se reconhecer dentro do caos das periferias uma geografia e como meio através do qual inventar novas modalidades de intervenção nos espaços públicos metropolitanos, para pesquisá-los, para torná-los visíveis” (CARERI, 2013b, p.32). O autor defende que o método errático é capaz de narrar e transformar os espaços urbanos, que possuem lugares a serem analisados e “[...] preenchida de significados, antes que projetada e preenchida de coisas”. (CARERI, 2013b, p.32).
Outra ferramenta soma-se ao caminhar como metodologia: o desenho a mão livre. Um observador atento à forma urbana é capaz de perceber no espaço às contradições, permanências e modificações pela qual a cidade passa (NASCIMENTO, 2013). A elaboração de croquis sobre um lugar faz com que o desenhista possa apreender a cidade a um tempo mais lento, possibilitando compreender e expressar texturas, cores, escalas, elementos construídos etc. (BAPTISTA, 2015, KUSCHNIR, 2012).
O desenho carrega em seus traços a intencionalidade do seu autor, em que se busca enfatizar algum objeto e conduzir através do seu olhar e de seu conhecimento a construção de novas narrativas e registros documentais do lugar, corroborando com a “ampliação das chaves de leitura acerca da história cultural de nossas cidades” [...]. (NASCIMENTO, 2017, p.3). Todo desenho é único, apesar de que o elemento representado permaneça apto para outras experimentações e interpretações, concordando com Joaquim Brito (2009): “Cada olhar tem a sua própria história, feita de construção intelectual, experiência, sensibilidade e do próprio devaneio em que procura os seus limites” (Brito, 2009, p. 4-5 in Kuschnir, 2012, p.296).
Os croquis podem se constituir como um documento histórico e contribuir para o conhecimento da cultura e das transformações urbanas ocorridas em diversos tempos históricos. Mesmos com os avanços tecnológicos ao longo do século XX e a praticidade de registrar o momento, atualmente o desenho de observação da cidade possui novos significados (KUSCHNIR, 2012). Nesse sentido, destacam-se o trabalho e as
experimentações do grupo Urban Sketchers (USk).22 Este consiste em um grupo internacional de desenhadores, que visa registrar pontos específicos de uma cidade a partir da observação in loco.
Ao reconhecer o método errático como uma maneira de ensino e prática de formação de urbanistas, pode-se compreender que o caminhar, apesar de não ser propriamente uma intervenção física na área, conduz à mudança de percepção do espaço e de sua significância, ou ainda:
A presença física do homem num espaço não mapeando – e o variar das percepções que daí ele recebe ao atravessá-lo – é uma forma de transformação da paisagem que, embora não deixe sinais tangíveis, modifica culturalmente o significado do espaço e, consequentemente, o espaço em si, transformando-o em lugar. O caminhar produz lugares. (CARERI, 2013b, p.51, grifo nosso).
O autor entende que os lugares de alteridade possuem sentidos distintos para as pessoas. Para os sedentários, esses espaços são simplesmente vazios, sem significado. Para os nômades, esses “vazios” não são tão vazios, pois possuem traços invisíveis, para eles: “[...] toda deformidade é um evento, é um lugar útil para orientar-se e com o qual construir um mapa mental desenhado com pontos (lugares específicos), linhas (percursos) e superfícies (territórios homogêneos) que se transformam no tempo”. (CARERI, 2013b, p.42).
A experiência do caminhar pela cidade é vista como uma atividade de um afastamento voluntário do que é rotineiro em busca do esquecido. Essa ferramenta de apreensão urbana está paulatinamente se perdendo nas cidades. Para o autor italiano, nas cidades sul-americanas essa experiência é mais complexa, pois caminhar representa enfrentar diversos medos.
Na América do Sul, caminhar significa enfrentar muitos medos: medo da cidade, medo do espaço público, medo de infringir as regras, medo de apropriar-se do espaço, medo de ultrapassar barreiras muitas vezes inexistentes e medo dos outros cidadãos, quase sempre percebidos como inimigos potenciais. Simplesmente, o caminhar dá medo e, por isso, não se caminha
22 Desenhadores urbanos (tradução nossa). Em algumas das vivências acompanhadas na pesquisa foram
relatadas memórias associadas a eventos do USk no Centro de Fortaleza, especialmente na Praça dos Leões (Praça General Tibúrcio).
mais; quem caminha é um sem-teto, um mendigo, um marginal. Ali o fenômeno antiperipatético e antiurbano é mais claro que na Europa, onde me parece que está apenas em via de formação: nunca sair de casa a pé, nunca expor o próprio corpo sem um envoltório, protegê-lo dentro de casa ou no carro, sobretudo não sair depois do anoitecer, encerrar-se [...].(CARERI, 2013a, p.242-243).
Esse “medo do outro” ou esse “medo da cidade”, de uma forma geral, é um reflexo dos problemas urbanos e ocasiona o efeito de indiferença discutido por Georg Simmel em “A metrópole e a vida mental (Die Großstädte und das Geistesleben)” de 1903. Jacques (2012b) destaca que Simmel conceitua o chamado “homem blasé”, ou seja:
[...] aquele que para se proteger da vida urbana nas grandes cidades [...] se torna blasé, distanciado, anônimo - o oposto daquele habitante dos vilarejos, onde todos se conhecem, onde todos tem nome e sobrenome, possuem uma “identidade” e um rosto próprio.” (JACQUES, 2012b).
Careri (2013a) alerta que essa atitude de afastamento do contato direto com a realidade urbana, embora haja a justificativa dos problemas de violência nas cidades, poderia acarretar um comprometimento da formação dos urbanistas. O autor argumenta essa preocupação ao questionar sobre o tipo de cidade que esses futuros profissionais irão propor, na medida em que não conhecem ou evitam a prática do caminhar. Careri defende que “hoje, a única categoria com a qual se desenham as cidades é a da segurança. Pode ser algo banal, mas o único modo para se ter uma cidade segura é que haja gente caminhando pela rua.” (CARERI, 2013a, p.242).
Priscila Santos (2017) defende que, ao unir a prática do caminhar à reflexão sobre a vivência do lugar, torna-se possível para o urbanista reconhecer quem são os responsáveis por atuar no espaço, quais os desafios para execução do projeto, além de possibilitar o desenvolvimento de um pensamento mais crítico sobre a cidade. O resultado são propostas mais adequadas à realidade, com soluções que não se prendem à visão homogeneizante sobre o modelo de cidade ideal, vista muitas vezes como um mercado, um objeto de valor lucrativo, “[...] reproduzindo e consolidando desigualdades, num urbanismo cenográfico e espetaculoso, cheio de marcos simbólicos visando o controle social.” (SANTOS, 2017, p. 329 - 330).
Para além do papel do andar como instrumento de ensino, a experimentação do espaço a partir do corpo é essencial para os demais cidadãos. Percorrer as ruas das
cidades é uma das ações capazes de reduzir o medo e desvelar a propaganda midiática da insegurança (CARERI, 2013a). Nesses termos, Francesco Careri defende que se devem reinventar as visões convencional e preconceituosa sobre cidade, arte, arquitetura e lugar que se ocupa no mundo. Através desse novo olhar:
Ocorre a libertação de convicções postiças e começa-se a recordar que o espaço é uma fantástica invenção com a qual se pode brincar, como as crianças. Um mote que guia as nossas caminhadas é “quem perde tempo ganha espaço”. Se, de fato, se quer ganhar “outros” espaços, é preciso saber brincar, sair deliberadamente de um sistema funcional-produtivo e entrar num sistema não funcional e improdutivo. É preciso aprender a perder o tempo, a não buscar o caminho mais curto, a deixar-se conduzir pelos eventos, a dirigir-se a estradas impraticáveis onde seja possível “topar”, talvez encalhar-se para falar com as pessoas que se encontram ou saber deter-se, esquecendo que se deve agir. Saber chegar ao caminhar não intencional, ao caminhar indeterminado. (CARERI, 2013a, p.242-243)
Recomenda-se, portanto, que se deve:
Flanar. Perambular sem destino certo. Perceber os passos e as sensações do caminhar. Parar. Deter-se não por ter alcançado o destino final, não existe o fim, mas sim devido a uma folha que cai no trajeto. Perceber o tempo lento. (LIMA, 2013,p. 202, grifo nosso).
Francesco Careri (2017, p.113) pondera sobre a contribuição do parar na atividade do caminhar: “estamos acostumados a raciocinar sobre um espaço ‘enquanto parados’, sem a consciência que naquele ‘estar parado’ encontra-se sempre uma relação instável com o andar. Se estamos parados, é porque antes estávamos andando”.
O caminhar “despreocupado” que Eduardo Lima (2013) aborda na passagem anterior remete ao flâneur de Walter Benjamin que, no livro “Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo”, mostra o errante urbano indo ao encontro do outro, entrando em conflito consigo mesmo, diante das transformações urbanas impostas pela modernidade no desenho das antigas ruas medievais. O errante urbano, portanto, ao contrário da maioria que tende a se proteger do contato direto com o “caos urbano”, está constantemente em busca da experiência do contato com a alteridade (JACQUES, 2012a). O termo “tempo lento” a que Lima (2013) se refere na passagem acima é remetido aos estudos do geógrafo Milton Santos. Santos (2006), no livro “A natureza do espaço (2006)”, defende que na cidade existe dois tempos: o acelerado e o lento. O autor parte da proposta de Fernand Braudel (tempo rápido e tempo acelerado) para definir o seu
conceito de tempo. Segundo Santos (2006) os tempos são relativos. Eles expressam as ações que animam os objetos. Só há tempo rápido ao compará-lo ao tempo lento. Os tempos (rápidos e lentos) se distribuem pelo território da cidade e por toda a sociedade ao mesmo tempo. Desse modo, a cidade possui os dois tempos na sua realidade presente. Enquanto o tempo rápido se relaciona com o tempo das instituições e indivíduos hegemônicos, ao contrário do tempo lento, este corresponde aos hegemonizados.
Jan Gehl, autor de “Cidade para pessoas”, também faz uma reflexão sobre essa velocidade nas cidades, embora com enfoque em outro viés, distinto dos escritos de Milton Santos. Gehl analisa o dinamismo dos espaços em que há uma velocidade reduzida. Ele defende que “[...] há mais vida nos bairros onde as pessoas se deslocam lentamente” (GEHL, 2013, p.71). Para Gehl, elaborar cidades onde há áreas que permitem e incentivam as pessoas caminhar ou a pedalar, acarretará uma maior vivacidade aos espaços urbanos. A cidade será pensada para a escala das pessoas, ou seja, com ênfase no tráfego lento, oferecendo uma experiência mais enriquecedora para os seus habitantes.
Adentrando na reflexão de Milton Santos acerca do debate das temporalidades na cidade, destaca-se a noção de que na cidade atual está presente o sentido de periodização. Essa demarcação de tempos é vista ao longo da história urbana, pois cada período possui sua origem em características intrínsecas, relacionadas ao contexto do momento. Santos (2001) defende que o espaço é formado por dois elementos: a materialidade e as relações sociais. A materialidade se constitui por uma combinação do passado com o presente e que:
[...] basta passear por uma cidade, qualquer que seja, e nos defrontaremos nela, em sua paisagem, com aspectos que foram criados, que foram estabelecidos em momentos que não estão mais presentes, que foram presentes no passado, portanto atuais naquele passado, e com o presente do presente, nos edifícios que acabam de ser concluídos, esse presente que escapa de nossas mãos. Na realidade, a paisagem é toda ela passado, porque o presente que escapa de nossas mãos, já é passado também. Então, a cidade nos traz, através de sua materialidade, que é um dado fundamental da compreensão do espaço, essa presença dos tempos que se foram e que permanecem através das formas e objetos que são também representativos de técnicas. (SANTOS, 2001, p.21).
Retoma-se, portanto, a questão da rugosidade definida por Milton Santos (2006). O conceito faz-se presente quando se trata de apreensão da cidade, pois a
“rugosidade” consiste nessa herança do passado impressa na materialidade do tempo presente. Isto permite o (re) conhecimento das técnicas construtivas, características da sociedade, dentre outras reminiscências da história da cidade.
Dialogando nessa perspectiva de leitura das rugosidades de uma cidade, pode- se aliar o instrumento metodológico do caminhar como forma de reconhecer o patrimônio cultural. Nesse viés, discute-se o artigo, “Urbanos como prática patrimonial no CPC: relato da experiência de 2015” (2016), de autoria de Gabriel de Andrade Fernandes. O estudo aproxima-se metodologicamente 23 do que se pretende analisar na presente
pesquisa. O artigo é fruto de itinerários elaborados por um grupo do Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo (CPC), em que a partir de caminhadas com roteiros estruturados discutiu-se “a respeito dos potenciais, limites e problemas do ato de caminhar como experiência inserida no processo de patrimonialização de bens culturais” (FERNANDES, 2016, p. 174).
Fernandes (2016) defende que a caminhada urbana possibilita o contato mais profundo e diversificado com as referências culturais que são vivenciadas no cotidiano da cidade, ao contrário das visões tradicionais, que reconhecem como patrimônio somente os monumentos e documentos isolados ou conjuntos urbanos homogêneos. Em outras palavras, “Tais reflexões permitem inclusive vislumbrar possibilidades de fruição do patrimônio que ultrapassem a problemática cisão entre as dimensões material e imaterial
23 A metodologia utilizada por Fernandes (2016) consistiu na realização de itinerários pelo bairro histórico