2 O INSTITUTO DO JUS POSTULANDI NA ESFERA TRABALHISTA
2.3 O caminhar processual com a presença do Jus Postulandi
Dessa forma, o devido processo legal comporta importantes ferramentas processuais, desde a publicidade do processo, passando pela produção ampla de provas e destacando a defesa técnica.
Dessa forma, pode-se vislumbrar outra garantia constitucional sendo esbarrada pelo Jus Postulandi, Assim, faz-se necessário analisar de que maneira a parte não assistida por advogado irá realizar a ampla produção de provas e de que modo efetuará sua defesa técnica.
A insuficiência técnica da parte em fazer uso dessas faculdades constitucionais, poderá desfavorecer seus argumentos, pois, em rigor, a parte não possui entendimento jurídico que lhe permita compreender de que forma pode produzir provas a seu favor, visando o saneamento do litígio.
Tampouco detém conhecimento suficiente para elaborar sua defesa técnica, Assim sendo, o devido processo legal deixa de ser observado quando a parte, seja ela reclamada ou reclamante, resolve fazer jus ao direito legal contido no art. 791 da CLT.
Logo, o instituto do Jus Postulandi, ainda que seja uma prerrogativa legal, afronta, de maneira direta, as garantias constitucionais do processo, trazendo ainda sérios prejuízos às partes.
2.3 O caminhar processual com a presença do Jus Postulandi
Pode-se observar, na prática, que nos casos onde as partes postulam perante o juízo, sem a assistência de advogado, a audiência, por exemplo, facilmente se transforma numa discussão por desentendimentos pessoais, alheios ao processo.
Como bem destaca Francisco Antônio de Oliveira (2005):
Não se pode relegar ao obvio que o processo do trabalho no seu estagio atual recebe sopro benfazejo de ventos atualizantes para que possa cumprir a sua finalidade em consonância com uma nova realidade. E desconhecer
essa realidade em constante efervescência é cala-se no vazio e quedar-se em isolamento franciscano. A capacidade postulatória das partes na Justiça do Trabalho é ranço pernicioso originário da fase administrativa e que ainda hoje persiste em total discrepância com a realidade atual. O direito do trabalho constitui hoje, seguramente, um dos mais, senão o mais dinâmico ramo do direito, e a presença do advogado especializado já se faz necessária. Exigir-se de leigos que penetrem nos meandros do processo, que peticionem, que narrem fatos sem transformar a lide em desabafo pessoal , que cumpram prazos, que recorram corretamente, são exigências que não mais se afinam com a complexidade processual, onde o próprio especialista, por vezes, tem duvidas quanto a medida cabível em determinados momentos. E a esse mesmo leigo formular perguntas em audiências, fazer sustentação oral de seus recursos perante os tribunais.
(OLIVEIRA, 2005, p. 667).
Nesse entendimento transparece que o instituto do Jus Postulandi não mais atende ao cenário atual, perante a justiça do trabalho, uma vez que não se pode exigir da parte o conhecimento técnico sobre o que será abordado em arcabouço jurídico, ainda que no ato da distribuição de sua reclamação trabalhista seja auxiliado por um servidor da justiça.
Os argumentos de defesa restam prejudicados em uma audiência una, na qual o reclamante não está assistido por profissional com capacidade técnica. Com que instrução este poderá defender os seus direitos, com que conhecimento jurídico irá pleitear o que lhe cabe, desde o requerimento do depoimento pessoal da reclamada, a contradita de uma testemunha que venha em juízo indicada pela reclamada que possa trazer prejuízos aos fatos ali alegados. Outro ponto de complicada relevância, seria proceder com a impugnação da defesa apresentada, destacando tópico a tópico, exercendo o contraditório elencado na Constituição da Republica.
Aos trabalhadores leigos, que não possuem essa capacidade, o referido instituto não assegura os direitos constitucionais. Podendo, inclusive, serem surpreendidas por uma sentença improcedente perante fatos verídicos, mas que não alcançaram o convencimento do juiz, por falta de apresentação de provas e de argumentos.
E notório que o reclamante, na maioria das vezes, conhece alguns dos seus direitos.
Tem-se como exemplo, o trabalhador que excede sua jornada convencional de trabalho e tem o conhecimento do seu direito a horas extras, no entanto, nos casos em que essas horas passam a integrar sua remuneração, esse mesmo trabalhador desconhece o direito que essas horas podem refletir nas demais verbas. Assim,
1 6 direito a hora extra por esse intervalo suprimido.
São várias as possibilidades de supressão de direitos por ausência de conhecimento das leis trabalhistas, levando-se em consideração que, em homenagem ao princípio da inércia do juiz e da imparcialidade, este, ainda que como mantenedor da lei, não possa declinar em face de umas das partes com intuito de defesa por aquilo que ali não foi claramente demonstrado, o que nos leva a compreender que por mais relevante e necessária que seja a presença de um magistrado nas assentadas para discussões de direitos, não garante às partes a efetivação das garantias advindas das relações de trabalho.
Voltando ainda à hipótese de uma sentença que declara a improcedência dos pedidos pleiteados pelo reclamante, nos deparamos com uma dificuldade ainda maior no momento de recorrer daquele julgado, por meio do recurso ordinário, (conforme faculdade elencada no art. 895 da CLT). A começar pela contagem do prazo, fugindo ao leigo o conhecimento de que contra sentença caberá, no prazo de oito dias, recurso ordinário e, ainda que este soubesse os requisitos elencados no referido artigo, agora não mais será assistido por um servidor por meio de orientação para redigir tal recurso. Nesse contexto, pode-se vislumbrar que aquele reclamante, que de maneira oral não conseguiu alcançar o convencimento do magistrado quanto aos seus direitos, em tempo de audiência, dificilmente irá atingir a convicção da verdade dos fatos perante o Tribunal Regional do Trabalho, fazendo com que os desembargadores deem procedência ao seu recurso.
De outra forma, caso o reclamante tenha hipoteticamente alcançado a interposição de seu recurso ordinário, mas com a consequência de a segunda instância confirmar a sentença proferida em primeiro grau, depara-se, então, com a situação de, com fundamento no artigo 896 da CLT, optar pela interposição do Recurso de Revista,
no qual não são mais analisados os fatos, o que, de imediato, já torna o recurso mais complexo, e ainda tendo que observar todos os requisitos elencados nas alíneas A, B e C do mesmo artigo.
Ainda que o reclamante conseguisse formular tal recurso, o Tribunal Superior do Trabalho por meio da Súmula 425, veda, então, o acesso ao Tribunal Superior sem a assistência de um advogado, contrariando o disposto no artigo 791 da CLT, onde esclarece que os empregados e os empregadores poderão acompanhar sua reclamação até o final.
Mais uma vez então, o reclamante que opta por usufruir da faculdade exposta do artigo 791 da CLT se depara com prejuízos irreparáveis por ausência de um advogado.
Cumpre analisar também a situação das empresas que optam por ir a juízo perante reclamação na qual figura como reclamada, sem a mesma assistência de um profissional jurídico tecnicamente capacitado.
Ao receber a notificação da audiência a empresa, ali chamada de reclamada, já encontra dificuldade para identificar qual o tipo de rito trata-se a audiência, o que já se configura como um prejuízo, pois, caso tratar-se de audiência UNA, este será o momento processual de apresentar suas testemunhas.
Após identificar o tipo de audiência, passa-se para a produção da defesa do que lhe foi imputado por meio da petição inicial. O reclamante que, neste caso, encontra-se assistido, teve a oportunidade de que um advogado redigisse sua petição, narrando os fatos que decorrem os seus direitos.
A reclamada possui elementos que podem demonstrar a verdade do contrato de trabalho que gerou aquela reclamatória trabalhista, porém o que se observa na realidade desses casos é que, ainda que detenha os documentos e testemunhas que possam levar por terra o que foi narrado pelo procurador do reclamante, por ausência de conhecimento jurídico, acaba por não apresentá-los.
1 8
Uma vez que não tem conhecimento do texto do artigo 845 da CLT, o qual expõe que tanto o reclamante quanto o reclamado deverão comparecer em audiência levando suas testemunhas e, inclusive, apresentando nessa ocasião as demais provas, o que seria o caso da preclusão do direito de apresentar documento posterior a este momento.
Chegado o momento da audiência o juiz por força do artigo 764, cominado com o artigo 846, ambos da CLT, submete as partes à opção da conciliação.
Conforme Mauro Schiavi (2014):
a conciliação é obtida em juízo, com a presença do juiz ou do conciliador que participa ativamente das tentativas, inclusive fazendo propostas para a solução do conflito. A conciliação pode implicar renúncia ao direito ou reconhecimento do pedido” (SCHIAVI, 2014, p.139, grifo nosso) .
Na maioria das vezes a reclamada não assistida por advogado, ao ver o valor da causa que foi arbitrado apenas por questão de alçada, assusta-se com a possibilidade da procedência e, ato contínuo, da condenação ao pagamento daquele valor.
Feita pelo juiz a proposta de conciliação, o procurador do reclamante, ao perceber que a reclamada vem a juízo sem a presença de um advogado capacitado, oferta uma proposta de acordo na qual pode, inclusive, o valor ofertado estar muito acima da realidade que os fatos trariam ao direito pretendido.
Ocorre que a reclamada, acuada pela possibilidade de condenação, em valor já elevado, acaba por aceitar a conciliação, renunciando assim ao direito ao contraditório e ampla defesa, o que permitiria que, ao demonstrar os fatos, apresentasse as provas e os argumentos por profissional com capacidade jurídica, podendo, as sim, alcançar a improcedência dos pedidos ali narrados, ou, por eventualidade, que fosse condenada apenas no que fosse justo e de direito.
Na hipótese da reclamada recusar a conciliação, procederia aos próximos passos do caminhar processual e os prejuízos causados ao reclamante na primeira situação
estariam disponíveis agora para a reclamada, pois com a ausência do conhecimento e com a procedência da ação, esbarraria novamente nas dificuldades de recorrer daquela decisão, sem a assistência de um advogado, o que logo causaria ofensa ao direito ao contraditório e ampla defesa.
Vislumbrando a situação de sentença procedente ao reclamante, e na hipótese da interposição de recurso ordinário por parte da reclamada não assistida, com força no artigo 554 do CPC que expõe que é direito das partes sustentar oralmente as razões aludidas em seu recurso, essa prerrogativa dificilmente seria usufruída por meio do instituto do Jus Postulandi, pois o ato de sustentar oralmente aquilo que foi redigido em sua peça recursal é uma atividade de notória complexidade para a parte leiga, consubstanciando mais um momento em que o direito das partes sofre ofensas por ausência de profissional técnico capacitado.
Superada a fase recursal, passamos a uma breve análise da fase de execução do processo trabalhista. Com o trânsito em julgado da decisão, o juiz, por meio de provocação da parte vencedora, ou ainda com fundamento no art. 878 da CLT, intima as partes para apresentarem seus cálculos de liquidação.
Primeiramente, o reclamante que não se encontra assistido por profissional capacitado, se vê, mais uma vez, diante de uma interrogação: como proceder com essa apresentação de cálculos? Um leigo não possui habilidade para a realização dos cálculos e, caso assistido fosse, o advogado iria direcionar os próximos passos.
Ocorrendo o fato da não apresentação dos cálculos por parte do reclamante vencedor nessa reclamatória, seria precluso seu direito e somente a reclamada iria apresentá-los, e esta na qualidade de vencida. Assim, na ausência de cálculos realizados pelo reclamante, poderia a reclamada levar a juízo cálculos a menor do que foram deferidos ao reclamante, ocasionado então prejuízos reais sobre as verbas que foram pleiteadas e deferidas.
Por fim, após o pagamento das verbas compreendidas naqueles cálculos, a expedição do alvará, por si só, não traz ao reclamante a ideia de que é chegado o momento do levantamento do valor da condenação depositado, pois não é pratica
2 0
usual da sociedade leiga lidar com o meio jurídico, ou seja, não é esse o meio usado pelos indivíduos para adimplir com suas obrigações de pagar, tornando difícil ao reclamante o saque do valor devido.
Em um segundo momento, o qual quem fez a opção pelo Jus Postulandi foi a reclamada, vencida nessa reclamatória, esta se depara com a mesma dificuldade na fase de execução, pois os cálculos apresentados pelo reclamante assistido de profissional técnico, podem parecer estranhos para a reclamada por ausência de conhecimento, e esta pode também deixar de apresentar os seus cálculos e ainda ter a obrigação de pagar por verbas que foram deferidas em fase de conhecimento, mas que não foram apuradas de maneira justa em tempo de execução.
É importante destacar ainda, que os recursos na fase de execução, os chamados Embargos à execução, por força do artigo 884 e do Agravo de petição, consubstanciado no artigo 897, ambos da CLT, são recursos de grande complexidade. Inclusive, é requisito essencial para a oposição de embargos que o executado garanta a execução, e o leigo, baseando-se na visão geral da sociedade não detém ciência deste requisito.
Observa-se, portanto, pela análise do Jus Postulandi na esfera trabalhista é que o instituto não atende as necessidades atuais na sociedade, não é suficiente para resguardar os direitos das partes e não garante aos litigantes a certeza de que a justiça será plena diante a relação trabalhista, pois para isso é preciso que os fatos levados a juízo sejam comprovados por força do artigo 333 do CPC e, para tanto, é preciso e indispensável a atuação de um advogado capacitado para representar as partes, como garantia fundamental do reconhecimento dos direitos pretendidos.
Desse modo, podemos perceber que o instituto do Jus Postulandi não causa prejuízos apenas ao reclamante, mas a ambas as partes.