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Professores efetivos e substitutos na FAFIDAM

3.5 O campo científico e sua materialidade na FAFIDAM

A FAFIDAM está numa posição periférica do campo acadêmico, tanto em nível

nacional, quanto regional e estadual. Se considerarmos os indicadores apontados ao

longo do capítulo que serviram para dar visibilidade à estruturação do campo científico nacional, poderemos facilmente constatar essa condição. A inexistência de bases e

grupos sólidos de pesquisa, o baixo índice de publicações acadêmicas, a debilidade do

acervo da única biblioteca existente, a inexistência de pós-graduação, mesmo em cursos isolados, dentre outros elementos, põem em evidência essa condição, a qual vai influenciar fortemente os sentidos e as práticas relativas á Ciência. Caracteriza-se essa

instituição exclusivamente voltada para o ensino e transmissora de conhecimento

(MIRANDA, 2008, p. 64 grifos nossos)

O fragmento de texto acima transcrito evidencia a estrutura da FAFIDAM, no ano de 2008. Neste ano, iniciou-se um processo de formalização de atividades de extensão, tendo sido criado um laboratório para atividades desta natureza. A criação deste espaço propiciou a institucionalização progressiva das disciplinas ligadas à educação do campo, educação popular, educação de jovens e adultos, fomentando um espaço de práticas comuns entre agentes da FAFIDAM, no âmbito da extensão e, posteriormente ligadas à produção da pesquisa.

Vale dizer que, no ano de 2008, iniciou-se uma experiência significativa com um projeto denominado “Mais um passo na Educação do campo” ligado ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), cuja execução demandou um estreitamento da relação entre os professores da universidade e agentes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. O Projeto foi aprovado pela Câmara de Extensão da UECE e, visava beneficiar 400 educandos jovens e adultos residentes em área de reforma agrária, organizados em 20 salas de aula situadas em 16 municípios cearenses (em anexo o Projeto).

A relação de alguns agentes da FAFIDAM com o MST estava sedimentada, desde 2006, quando o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária iniciou suas atividades na UECE, contudo, não havia um espaço comum destinado a tais práticas no interior da FAFIDAM, voltadas para a extensão, nem havia uma relação clara das disciplinas com as práticas extensionistas. No decorrer destes dez anos, foi se estruturando um campo, que podemos chamar, também, de um campo disciplinar.

Desta maneira, com a reformulação do Projeto Pedagógico de Curso, no âmbito do Curso de Pedagogia, iniciada no ano de 2009 e com as discussões acerca das reformulações curriculares, foram introduzidos os projetos de extensão com a finalidade de instituir a prática extensionista como parte da formação no curso de Pedagogia. No referido Projeto Pedagógico de Curso estão descritos os projetos, que subsidiaram a atividade extensionista no Curso de Pedagogia em parceria com Movimentos Sociais. A seguir, o trecho do PPC, no qual consta a descrição:

Fonte: Projeto Político Pedagógico do Curso de Pedagogia, fluxo 2011.

Isto posto, Silva (2007, p.56) com arrimo em Bourdieu (2004) afirma que:

A institucionalização progressiva das disciplinas no âmbito da universidade, destaca o autor, é produto das lutas independentes visando impor a existência de novas entidades e suas fronteiras destinadas a demarcar os seus limites e proteger-lhes.

Desta maneira, na formação de um campo científico, a autora menciona com fundamento em Gingras (1991) que, em primeiro lugar ocorre a emergência de uma prática de pesquisa, de maneira que sejam criadas as condições favoráveis à produção do saber e à reprodução do grupo. De acordo com a perspectiva a qual se filia, afirma que, na formação de um campo deve haver “[…] a constituição de um grupo reconhecido como socialmente distinto e portador de uma identidade social seja disciplinar, por meio de associações científicas, seja profissional, por meio de uma corporação” (SILVA, 2007, p. 54).

Na época da pesquisa realizada por Miranda (2008), nenhum destes elementos estava posto claramente, mas houve um processo de constituição de um espaço de extensão e de pesquisa que foi se consolidando. Nesse sentido, vale observar que a distribuição dos capitais é fundamental para a estruturação de um campo e foi necessário o transcorrer de um determinado o qual, a institucionalização das práticas foi se constituindo a partir de um jogo de disputas no interior do espaço pesquisado. Na época da pesquisa realizada por Miranda (2008), a FAFIDAM ainda não tinha sequer o auditório reformado, era o antigo auditório que funcionava desde a fundação da instituição. Na descrição que a pesquisadora faz do espaço, ainda, existia a antiga cantina, que foi demolida para construção do Restaurante Universitário. Podemos dizer, que, no período da pesquisa realizada por Miranda, a FAFIDAM já pretendia ser um campo, contudo, as condições estruturais eram bastante limitadas.

Nesse sendito, outro elemento contribuiu para a estruturação da FAFIDAM como uma instituição do campo universitário do Estado do Ceará: foi a participação de dois professores em estágio de pós-doutorado, na École des Hautes Études en Sciences Sociales- EHESS/Paris, com a supervisão do Prof. Michel Löwy (2012/2013). Estes dois professores estiveram, diretamente, envolvidos com a instituição da extensão no espaço da FAFIDAM, não limitada ao Curso de Pedagogia e, com o uso de seus capitais conseguiram congregar um conjunto de agentes, em torno da ideia de implantar a pós-graduação na FAFIDAM. Portanto, a emergência de um espaço próprio para a pesquisa se deu a partir de uma vinculação institucional das práticas de ensino e extensão e, foram sendo garantidas a partir de recursos científicos acumulados no campo. O capital científico bem estruturado, de maneira que “[…] a estrutura da distribuição do capital científico está na base das transformações do campo científico e se manifesta por intermédio das estratégias de conservação ou subversão da estrura...” (BOURDIEU, 1976, p.13).

Nesses termos, compete destacar em acordo com Bourdieu (2004, p. 24) que, a “[…] estrutura...determinada pela distribuição do capital científico num dado momento” desta maneira “os agentes (indivíduos ou instituições) caracterizados pelo volume de seu capital determinam a estrutura do campo em proporção ao seu peso, que depende do peso de todos os outros agentes” (BOURDIEU, 2004, p.24). Isto significa que “[…] aquilo que define a estrutura de um campo num dado momento é a estrutura da distribuição do capital científico entre os diferentes agentes engajados” (idem).

Uma década após a pesquisa realizada por Miranda (2008), é possível afirmar que houve uma mudança significativa na instituição, constituindo-se uma reconfiguração deste espaço. A consolidação da pós-graduação na FAFIDAM, instituída a partir de 2011, por um grupo de professores, que se organizou para pleitear o Mestrado, tendo as aulas iniciadas em 2014, constituiu a principal reconfiguração deste espaço. Com a pós-graduação, houve um impulso na pesquisa científica na instituição. No início desta pesquisa, nós realizamos um levantamento buscando mapear o ingresso de ex-alunos da FAFIDAM em cursos de pós-graduação. Fizemos um recorte temporal de 1998 a 2019 e, por meio deste mapeamento, identificamos que houve uma significativa repercussão do ingresso de ex-alunos na FAFIDAM, a partir de 2014, tal como se pode observar no gráfico abaixo:

Figura 14: Evolução do número de ingressos na Pós-Graduação FAFIDAM/UECE 1998 a 2019

Elaborado pela autora.

É possível observar uma discreta regularidade de ingresso de ex-alunos a partir do ano de 2004, tendo oscilado, maiormente entre 4 e 5 ingressos até 2012. O mapeamento exposto no gráfico acima foi realizado a partir da busca por nomes dos ex-alunos da FAFIDAM e da localização de seus Currículos Lattes, bem como de seus trabalhos de dissertação ou tese publicados. É possível que este levantamento não seja perfeito, porque o fizemos com base no recurso da memória e da

0 1 0 0 2 1 5 0 2 4 4 1 4 4 3 0 9 10 9 9 7 13

Evolução do Número de ingressos na Pós-

Graduação

1998 - 2019

colaboração de uma ex-aluna do curso de Geografia67, que, também, por meio de sua memória indicou alguns nomes para que fosse feita a busca. O levantamento revela a repercussão da pós- graduação na FAFIDAM, de maneira que o número de ingressos aumentou a partir de 2014, sobretudo, pela presença da pós-graduação em nível local. Na oportunidade deste mesmo levantamento, identificamos que, dos ex-alunos ingressantes na pós-graduação, um número significativo tornou-se professor efetivo em diferentes universidades, principalmente no Nordeste. Abaixo o gráfico com o quantitativo de ex-alunos da FAFIDAM que se tornou professor efetivo em universidades:

Figura 15: Alunos egressos da FAFIDAM/UECE efetivos em universidades brasileiras

Elaborado pela autora.

A seguir apresentamos um Quadro onde constam os nomes, as instituições onde os egressos atuam, suas respectivas titulações e os cursos aos quais se graduaram na Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM/UECE. O levantamento foi realizado por meio de busca (por nome) na Plataforma Lattes.

67 A ex-aluna Bernadete Freitas fez uma lista com os nomes de colegas de sua época que ingressaram na pós-

graduação (Mestrado e/ou Doutorado) e, nos repassou.

UECE 28% IFCE 16% UFPI 8% UFCA 4% UERN 8% UFERSA 4% IFRN 4% UESPI 4% IFAL 4% IFPA 4% UFC 8% URCA 4% UNILAB 4%