Em entrevista concedida em 196624, no período em que estava empenhado na elaboração da Ontologia, perguntado sobre o andamento do seu trabalho, e questionado sobre a pertinência de uma ontologia marxista, Lukács começa a responder, inusitadamente para a filosofia tradicional, com exemplos “simples” da vida cotidiana.
23 Recentemente publicados no Brasil. LUKÁCS, G. Prolegômenos Para uma
Ontologia do Ser Social: questões de princípio para uma ontologia hoje tornada
possível. Trad. de Lya Luft e Rodnei Nascimento; supervisão editorial de Ester Vaisman. São Paulo: Boitempo, 2010.
24 Entrevista concedida aos professores alemães Wolfgang Abendroth, Hans Heinz Holz e Leo Kofler. No Brasil, a entrevista foi publicada no livro: Conversando com
Lukács. São Paulo: Paz e Terra, 1969. Daqui em diante, ao longo da dissertação, as
Ele sugere uma situação corriqueira, o “simples” atravessar a rua por um sujeito, argumentando que em tal situação este sujeito deve orientar-se pela realidade, considerando, por exemplo, a existência de um automóvel que eventualmente venha em sua direção. Já neste nível da realidade algumas lições fundamentais estão dadas. O automóvel, no caso, é um ente objetivo, tem uma existência material, seu ser e seus movimentos são reais e, neste sentido, é primário em relação às representações subjetivas cotidianas, científicas, filosóficas, artísticas etc., que eventualmente se façam dele. O exemplo demonstra, pois, que o ser é primário em relação às representações, em relação à consciência. Assim, na vida cotidiana, nem mesmo um sujeito que seja, como diz Lukács, “no plano da teoria do conhecimento, um obstinado neopositivista, capaz de negar toda a realidade” (CCL, p. 12), pode desconsiderar a “faticidade ontológica” do automóvel, sob pena de “sofrer realmente” um “atropelamento real”. Já a realidade da vida cotidiana exige uma consciência e um comportamento ontologicamente orientados pela objetividade do ente, pelo seu ser, sua materialidade.
O complexo do ser na sua atualidade sensível é anterior e muito mais amplo do que qualquer categoria teórica, gnosiológica, epistêmica, qualquer ciência particular etc. As representações em seus diferentes níveis e em suas especificidades podem reproduzir idealmente o ser das coisas, não podem jamais elidir a realidade, tampouco produzir outras realidades. Pela consciência podem se formar “novas objetividades”, não “novas realidades”, como diz Lukács em sua
Ontologia. Podem-se formar, por exemplo, diversas
representações a partir do automóvel, do seu ser, pode-se pensar e calcular (acertada ou equivocadamente) o seu deslocamento, os movimentos que percorre num espaço e tempo determinados etc. Independentemente de tais representações, o ente e seus movimentos dão-se objetivamente, continuam a existir e operar faticamente na realidade.
Desenvolvendo sua resposta, Lukács sugere um outro exemplo, também partindo da vida cotidiana. Ele menciona a situação na qual vai-se a uma loja e compra-se lenços, uma operação relativamente simples que, considerada e pensada mais a fundo, comporta uma série de mediações e processos diversos, “variados” e “complexos”. Lukács defende que “esses
processos não podem vir excluídos da compreensão realidade” (CCL, p. 13). Para ele, “na nossa vida, as diversas formas de ser estão sempre unidas e entre elas o inter-relacionamento constitui o dado primário” (CCL, p. 12).
Afirma-se, assim, a partir de situações e fatos da vida cotidiana, que os entes e suas relações têm uma realidade objetiva, bem como atualizam em si processos e relações (naturais e sociais) “variados” e “complexos”, históricos, igualmente objetivos.
A partir destas considerações acerca da vida cotidiana, do ser, da consciência e de suas relações, Lukács destaca um problema metodológico, aí compreendido. Segundo ele, “não é possível descer de uma forma mais alta a uma forma mais baixa” (CCL, p. 13), ou seja, alcançar a partir das “altas objetivações”, científicas, por exemplo, o ser total das coisas, dos entes em sua complexidade constitutiva. “A ciência que progride tem de fato tendência a compreender cada aspecto, cada maneira de manifestar-se da vida, nas mais altas formas de objetivação e acredita que este seja o melhor tipo de análise” (CCL, p. 14). Ocorre que “a ciência desenvolveu-se pouco a pouco em um aparato autônomo de mediações, no qual os caminhos que conduzem às últimas decisões práticas são extraordinariamente longos /.../” (CCL, p. 14).
Diante desta situação Lukács defende que “há, pois, uma prioridade da realidade do real, se assim se pode dizer” (CCL, p. 14), como o atesta o exemplo do automóvel, onde desde “baixo”, ou seja, da realidade da vida cotidiana, se orientam e regulam as objetivações “mais elevadas”, os complexos parciais abstraídos razoavelmente do ser total.
Contrapondo-se às impostações teórico-metodológicas que postulam um itinerário inverso, Lukács defende o “caminho da pesquisa genética”, o qual busca “/.../ pesquisar as relações nas suas formas fenomênicas iniciais e ver em que condições estas formas fenomênicas podem tornar-se cada vez mais complexas e mediatizadas” (CCL, p. 13). O ente é imanentemente histórico, constitui a atualidade complexa de um processo que compreende uma gênese e desenvolvimento peculiares, os quais podem e devem ser investigados, a fim de se esclarecer o seu ser total. Lukács afirma que “se quisermos compreender os fenômenos em sentido genético, o caminho da ontologia é inevitável, e que se deve chegar a extrair das várias
circunstâncias que acompanham a gênese de um fato qualquer os momentos típicos necessários para o próprio processo” (CCL, p. 14). Conforme o exemplo importante oferecido por Lukács, ao tratar desses problemas:
De fato, se considero o fator 'ciência' devo perguntar-me: qual é a sua origem? Em cada posição teleológica – e o trabalho é uma posição teleológica – temos um momento no qual o homem que trabalha, mesmo que se trate de um homem da idade da pedra, pergunta-se se o instrumento com que lida é apropriado ou não ao fim que se propõe. Se me reporto a um tempo anterior à produção dos instrumentos de trabalho e penso em uma época na qual o homem primitivo, para satisfazer a certas funções, limitava-se a recolher as pedras mais adequadas, posso imaginar este homem primitivo que diz, observando duas pedras: esta é própria para arrancar um ramo, esta não. /.../ Com esta escolha da pedra inicial começa a ciência. /.../ Creio que é muito mais seguro reconstituir o caminho da gênese da ciência começando pela escolha da primeira pedra utilizada para funções de trabalho e terminando com a ciência, ao invés de começar pela matemática superior e tentar retornar depois à escolha da pedra (CCL, p. 13-14).
A quantidade pura, numericamente expressa, por exemplo, é uma construção histórico-social, uma abstração humanamente útil e necessária que se constitui, enquanto tal, como dimensão parcial de seres qualitativos e, portanto, muito mais amplos do que esta sua expressão. Os altos níveis de abstração com os quais a matemática opera com êxito problemas concretos não explicam por si a realidade do ser total refletido, nem de sua gênese. Pelo contrário, o exame do processo histórico da gênese e do desenvolvimento da capacidade humana de elaborar e operar abstrações e homogeneizações quantitativas fecundas para o cálculo e a resolução de problemas complexos da vida
prática dos homens esclarece as formas mais altas de objetivações, a matemática pura, a lógica, a geometria etc.
Lukács defende que “o ser e suas transformações são o fundamental” (CCL, p. 12). A tarefa do pensamento consiste na reprodução ideal dos processos reais de entificação do ser. A pesquisa genética reconstitui as mediações e os processos constitutivos do ser e do seu evolver, alcançando e esclarecendo as formas mais altas e desenvolvidas de objetivações.
Citando N. Hartmann, Lukács destaca e defende o enunciado ontológico segundo o qual “os fenômenos complexos têm uma existência primária” e preponderante em relação a seus elementos constitutivos. É o ser complexo que explica os seus elementos, não o contrário. “O complexo deve ser estudado como complexo, para depois chegarmos aos seus elementos e processos elementares” (CCL, p. 15). O ser complexo existe e opera por relações e interações internas e externas, as quais o instituem e identificam, determinando e esclarecendo o lugar e a função que os elementos assumem na dinâmica do todo. Acompanhando Hartmann, Lukács ilustra que:
Uma ciência biológica não é possível se não entendemos a vida como um complexo primário. A vida do organismo inteiro representa a força que, em última instância, determina os processos singulares. A síntese dos movimentos de cada músculo, dos nervos, e de todo o resto, mesmo que os conhecêssemos um a um com precisão científica, a soma destas partes, diz [Hartmann], nunca poderia fazer surgir um organismo. Ao contrário, os processos parciais só são compreensíveis como partes do organismo completo (CCL, p. 15).
São, pois, as relações e interações complexas internas e externas que esclarecem o lugar e a função dos elementos no todo. O ser atua como complexo, e como tal deve ser considerado real e idealmente.
No caso da vida humana, dos seres humanos, do ser social, o problema ganha novas dimensões. A sociedade constitui-se como “complexo de complexos”, o que o atesta já o fato de que os indivíduos que a formam são eles próprios
complexos, por um lado, biológico-naturais, por outro lado, sociais. Lukács afirma que o indivíduo social, “como complexo humano, não pode ser decomposto. Por isso, se quero compreender os fenômenos sociais, devo considerar a sociedade, desde o princípio, como um complexo de complexos” (CCL, p. 16). Destaca que “o problema decisivo está em como são constituídos estes complexos e como podemos chegar à essência real de sua natureza e da sua função” (CCL, p. 16).
Também aqui a pesquisa genética é o caminho adequado a ser percorrido, sustenta Lukács. O desafio consiste em identificar o que institui e peculiariza o complexo em questão, pesquisar suas formas histórico-genéticas e seu desenvolvimento. Lukács destaca o trabalho como um atributo especificamente humano, um complexo social, destituído de analogia com o ser natural. A capacidade teleológica de pôr em movimento séries causais constitui-se como evidência sensível e certidão do nascimento e do desenvolvimento do ser social, do mundo humano. A análise deste complexo, de suas formas genéticas e seu desenvolvimento, faculta a decifração radical dos “elementos” e categorias que compõem o ser social.
Os problemas e categorias da ontologia, conforme concebidos pelo pensamento maduro de Lukács, são, pois, desidentificados e distinguidos do campo da metafísica e das impostações gnosiológicas stritu senso, onde permaneceram durante o medievo e por quase toda a modernidade filosófica, e onde permanecem, salvas exceções, na contemporaneidade filosófica. Para ele, “o objeto da ontologia é o que existe realmente; a tarefa é a de investigar o ente com a preocupação de compreender o seu ser e encontrar os diversos graus e as diversas conexões no seu interior” (CCL, p. 15).
3.2 ACERCA DAS “QUESTÕES METODOLÓGICAS