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4 COTISTAS E NÃO COTISTAS DOS CURSOS DE DIREITO E

4.2 Um olhar sobre o campo da pesquisa: aspectos metodológicos

4.2.3 O campo e suas interfaces: algumas observações

A realização da pesquisa de campo nem sempre é uma tarefa fácil. Por isso, o pesquisador deve desenvolver algumas estratégias que permitam sua inserção no local de investigação e no recrutamento dos participantes da pesquisa.

Ter a Universidade Federal de Alagoas como campo de investigação, ao mesmo tempo me despertou dois tipos de sensações: o conhecimento e o desconhecimento. A primeira medida pela familiarização com o local, pelo desenvolvimento de uma intimidade e afeição, em razão da convivência na e com a instituição há aproximadamente seis anos, quando em 2008 ingressei como aluno de graduação. Aliás, essa relação de convívio com o local é mais antiga, quando em meados de 1999, aos nove anos de idade estudei por dois anos (cursando a 3ª e a 4ª série do ensino fundamental) na escola municipal127 que fica na entrada do campus. Naquela época, várias atividades pedagógicas eram desenvolvidas no interior da universidade, quando a professora levava a turma, todas as sextas-feiras ao cinema que ocorria no auditório do prédio da reitoria, e quando íamos fazer atividades de pesquisa na Biblioteca Central.

Paralelamente a essa intimidade, surgiu o sentimento de dúvidas e incertezas, já que agora passaria a ocupar um papel diferente daquele de aluno da escola e da graduação em Ciências Sociais. Precisava agora de um olhar de fora, de um olhar mais aguçado, de um olhar de pesquisador atento às façanhas que ocorriam na instituição.

126 O objetivo desta seção está longe de compor uma etnografia, mas de apontar algumas observações sobre o campo investigado, como o acesso aos entrevistados, a relação do pesquisador com os sujeitos e o campo, as dificuldades e os obstáculos para a realização da pesquisa e o modo e as condições em que ocorreram as entrevistas. Por isso, peço licença aos leitores para descrever o meu contato com o campo pesquisado, especificando os principais eventos que considero significativos no processo relacional pesquisa-campo-sujeitos- pesquisador.

Por sua vez, era a primeira experiência de contato direto com os cursos de Direito e Medicina da UFAL. Surgia, então, a primeira dificuldade em consequência desse distanciamento por não ter desenvolvido nenhuma rede de relacionamentos, seja com os alunos ou com os professores dos referidos cursos.

Despertado o interesse em analisar os efeitos da política de cotas no interior de dois cursos com características bem distintas dos cursos da área de humanidades, com os quais eu estava mais habituado, foi importante atentar para as estratégias de inserção no campo para o recrutamento de estudantes voluntários que pudessem conceder as entrevistas.

Teria, desse modo, que fazer com que os estudantes estivessem disponíveis para falar sobre um tema tão caro à comunidade acadêmica nos últimos anos, que desde os anos 2000 vinha gerando conflitos e desacordos quando a questão das cotas, principalmente aquelas com recorte racial, estava em pauta. Percebi, então, a partir da convivência na universidade, pela repercussão na mídia e pela literatura, que as cotas nos cursos mais “populares”, como os de humanas, por exemplo, têm um impacto diferente das cotas em cursos de maior prestígio social e de alta concorrência. Assim, essa situação me instigava e me impulsionava para o desafio em estudar esse fenômeno nos cursos de Direito e Medicina da UFAL.

Como era de se esperar, várias foram as dificuldades de acesso aos estudantes dos dois cursos. Como estava trabalhando com dois grupos de alunos, os cotistas e os não cotistas, a recepção não seria a mesma. Primeiro, porque os cotistas dos cursos mais elitistas têm várias dificuldades de identificar-se ou assumir publicamente que é aluno cotista. São várias as razões e isso será mostrado nas análises das entrevistas.

Segundo, temia que os alunos não cotistas assumissem um discurso politicamente correto sobre as cotas, para não causar má impressão, visto que mesmo predominando uma oposição forte à política de cotas, o Supremo Tribunal Federal (STJ) já havia votado a favor dessa questão, afirmando a sua constitucionalidade, vindo posteriormente a se tornar lei (nº 12.711), sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff no dia 29 de agosto do ano de 2012.

Como identificar os cotistas dos cursos de Direito e Medicina? Isso só foi possível com a grande contribuição do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFAL), em especial na pessoa da Professora Clara Suassuna, que desde as primeiras conversas informais sobre o projeto de pesquisa esteve disposta a auxiliar na execução da pesquisa com o fornecimento de materiais e dados sobre as cotas e os cotistas da universidade.

A partir de uma lista cedida pelo NEAB, com os nomes, e-mails e telefones de contatos de todos os cotistas dos cursos de Direito e Medicina que haviam ingressado desde 2008 a 2011, foi possível identificá-los.

A primeira estratégia de recrutamento desses estudantes para o consentimento das entrevistas ocorreu por e-mail. Essa estratégia constituiu-se um fracasso total, pois dos trinta e-mails enviados aos cotistas dos cursos de Direita e Medicina apenas quatro estudantes responderam. Desses quatros, duas estudantes de Direito se disponibilizaram a dar entrevistas, mas que no meio do caminho acabaram desistindo e não mais responderam aos outros e- mails. E no curso de Medicina também dois estudantes deram retorno. No entanto, um deles estava nos Estados Unidos fazendo um intercâmbio e disse que só podia conceder a entrevista via Skype, o que não ocorreu. No final das contas, a estratégia de recrutamento via e-mail resultou apenas uma entrevista com um estudante do curso de Medicina.

As dificuldades de contato por e-mail podem ser explicadas por dois fatores principais: o desinteresse do estudante com a pesquisa ou o não recebimento do e-mail, já que os endereços eletrônicos poderiam estar desatualizados, uma vez que alguns e-mails retornaram por estarem errados ou não existirem mais.

Em razão disso, outras estratégias foram pensadas, como o contato por telefone (mas o risco seria o mesmo) ou o contato direto com os estudantes ao abordá-los em suas salas de aulas ou nos corredores das faculdades.

Mas, a partir de uma ex-aluna do ensino médio que estava cursando Direito, pude montar uma rede de contatos e chegar até os estudantes cotistas e não cotistas. Disponível a ajudar no recrutamento dos participantes da pesquisa, essa ex-aluna passou a indicar e abordar seus colegas e amigos dos cursos de Direito e Medicina, que possivelmente não teriam nenhum problema em participar da pesquisa. Ela foi uma figura importante para que eu pudesse entrar em contato direto com os estudantes, já que mantinha uma rede de relacionamentos extensa, primeiro por ser aluna do curso de Direito e segundo por fazer parte do Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFAL, o que possibilitava uma proximidade e comunicação com vários outros estudantes da universidade.

A formação da rede de contatos ocorreu da seguinte maneira: a partir das primeiras indicações dos estudantes cotistas e não cotistas feitas por minha ex-aluna, os próprios entrevistados indicavam outros colegas que estariam disponíveis para participar da pesquisa. Das oito indicações, todos aceitaram dar as entrevistas. Não houve nenhum tipo de resistência.

A partir das primeiras indicações de estudantes para participar da pesquisa, pude abordá-los pessoalmente, por e-mail e telefone, para convencê-los a conceder a entrevista. Foi uma tarefa fácil, já que os estudantes indicados já haviam se comprometido com minha ex- aluna e os seus colegas a dar as entrevistas. Assim, não precisei fazer esforço para convencê- los. Minha tarefa agora seria organizar os dias e horários para o agendamento das entrevistas. Esse processo foi mais demorado, dada a dificuldade de disponibilidade dos estudantes no momento em que o calendário da universidade estava apertado, em consequência da greve de 2012 dos professores que havia paralisado as aulas durante quatro meses.

A realização das entrevistas só foi possível em novembro de 2013. Das oito entrevistas, apenas uma foi realizada em uma sala de aula da Faculdade de Direito (FDA), e as demais foram realizadas em uma sala de aula do Centro de Educação (CEDU). Os locais para a realização da pesquisa deviam ser sugeridos por cada entrevistado. Dessa maneira, cada participante podia escolher um local que se sentisse mais confortável, sem nenhum tipo de constrangimento e de fácil acesso. Como os estudantes preferiram que as entrevistas fossem realizadas no campus da universidade, sugeri que as realizássemos num local reservado que tivesse menos chances de sermos interrompidos.

Portanto, as entrevistas foram realizadas somente com a presença do pesquisador e do entrevistado. Todas foram gravadas com a autorização dos participantes. Temia que o gravador pudesse inibir e intimidar os estudantes, mas desde o primeiro contato com cada um deles essa questão foi apresentada.

No momento de encontro para a realização das entrevistas, tentei construir um ambiente de descontração antes do início da entrevista, no qual explicava para cada um que não era um jogo de perguntas e repostas, mas apenas uma conversa, da qual ele poderia ficar a vontade para falar o que desejasse sobre o tema da pesquisa. Alertava-os que o meu papel seria apenas de estimular e provocá-los para conseguir o maior número de informações possível.

Conversamos sobre assuntos variados como, a sua relação com o curso; se gostava do curso; sobre amigos; sobre família; as exigências da vida acadêmica; sobre movimento estudantil; para os que estavam morando em Maceió e tinham vindo de outros estados ou cidades do interior, perguntei como tinha sido o processo de adaptação na nova cidade; quais os planos para o futuro ao término do curso. Esses assuntos surgiram espontaneamente durante a conversa.

A construção desse ambiente descontraído ou conversa inicial ou aquecimento, foi importante, para diminuir a tensão e fabricar um clima relacional entre os pares, já que o dia da entrevista foi o primeiro contato pessoal com sete dos oito entrevistados, pois, como disse anteriormente, os contatos ocorreram por e-mail e telefone.

Das oito entrevistas, cinco foram realizadas com um atraso entre 20 a 40 minutos da hora marcada. Costumava chegar uma hora antes no local da entrevista para a espera dos estudantes. Apenas uma entrevista ocorreu 40 minutos antes da hora marcada, pois a estudante chegou cedo ao local. No entanto, nem o atraso nem a antecipação prejudicaram o andamento das entrevistas.

Em nenhuma das entrevistas ocorreu qualquer tipo de tensão. Os participantes me surpreenderam ao falar abertamente sobre um tema polêmico. Em alguns casos percebi que a conversa foi um tipo de “cano de escape”, do qual perceberam que podiam falar abertamente suas opiniões sobre as cotas sem ser avaliados ou criticados. Por exemplo, um fato que me chamou a atenção foi que nos primeiros minutos de encontro com uma estudante de Medicina ela me questionava se eu era favorável ou contra a política de cotas. Falei que era favorável, e ela afirmou que também defendia as cotas. Com isso, percebi que a estudante abrandou-se e um canal de diálogo mais aberto foi criado. Outros estudantes perguntaram meu posicionamento em relação às cotas depois do término das entrevistas.

Outro caso importante a ser relatado também aconteceu com um estudante de Medicina. Quando do término da entrevista, ele tentava se justificar porque era um cotista que se posicionava contra as cotas.

No entanto, as entrevistas foram assinaladas por um clima de tranquilidade, entre sorrisos, trocas de olhares e gestos bem marcados pelos participantes. O único desconforto que ocorreu, era quando os estudantes tinham que falar, se quisessem é claro, sobre a renda familiar. Isso causou certo desconforto.