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Frequência e tipo dos atendimentos realizados pelo NAI 2002

4. Entrando no mundo dos jovens

4.1 O campo: procedimentos e primeiros contatos

Para atender ao quarto objetivo realizou-se a pesquisa de campo que consistiu em observação não-participante cujas técnicas de observação consistiram em: entrevistas guiadas por roteiro estruturado; diário de campo (protocolo de observação) no qual se registrou sistematicamente a percepção geral do campo: as características do bairro, vizinhança, moradia onde habitavam os jovens; contexto familiar; reações do entrevistado frente ao entrevistador.

A pesquisa de campo permitiu alcançar um conhecimento mais aprofundado do universo dos adolescentes em situação em conflito com a lei que passaram ou passam pelo NAI. É importante esclarecer que a pesquisa de campo teve caráter exploratório. Embora pesquisas sociológicas sobre o tema em tela já tenham sido realiz adas em diversas localidades tanto no Brasil quanto no exterior, no município de São Carlos ainda não havia sido realiz ada. Em outras áreas do conhecimento como Educação e Psicologia já foram realiz adas pesquisas que focaram adolescentes em conflito com a lei em São Carlos, porém, uma abordagem sociológica sobre a questão ainda não havia sido realiz ada. Da mesma forma, o acesso às informações que se teve bem como o contato com os jovens entrevistados permitiu uma leitura inédita que agregará mais subsídios aos resultados das pesquisas já realiz adas. A pesquisa de caráter quantitativo e qualitativo foi realizada por meio de entrevistas com adolescentes selecionados orientadas por questionário estruturado16 composto de questões fechadas e abertas. Visou traçar o panorama de como é o convívio no ambiente familiar, no bairro em que o adolescente vive, os círculos de amiz ades, as expectativas de futuro, a leitura que o adolescente faz de si próprio e do mundo que o cerca etc., enfim, objetivou contextualizar o mundo do adolescente e, dessa forma, faz-se um exercício de penetração neste mundo. P ermitiu realizar o exercício descrito

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O q ue st i o ná r i o fo i d e f i n i d o p r e v i a me n t e p a r a a t e nd e r à s e x i gê nc i a s d o C o mi t ê d e É t i c a a o q ua l o p r o j e t o fo i s ub m e t i d o . O me s mo se e nc o nt r a na p a r t e p ó s - t e xt u a l d e st e t r a b a l ho , no c a mp o d o s a n e xo s .

por Da Mata (1997) de confrontar o familiar e o exótico e assim poder não só ter melhor entendimento do universo do adolescente, mas também perceber o mundo a partir do olhar do mesmo. A pesquisa de campo recorreu também a princípios da etnografia e, nesse sentido, alguns referenciais desta foram buscados.

Os dados qualitativos obtidos nas entrevistas foram ordenados e agrupados por temas e analisados segundo as teorias discutidas no início deste trabalho.

A fundamentação teórica discutida na revisão bibliográfica orientou a compreensão da problemática e definição dos objetivos e norteou metodologicamente a observação e, consequentemente, a interpretação das informações. As conclusões que daí resultarão terão como base os referenciais discutidos na revisão bibliográfica.

A hermenêutica está presente na pesquisa, uma vez que não só se observou e caracterizou o mundo do adolescente, mas isso foi feito com o intuito de compreender um pouco o seu agir. A base epistemológica e metodológica para tanto foi encontrada em Clifford Geertz (2002, 2003), que nos esclarece que o agir humano é dotado de simbolismo, que expressa um significado que pode ser interpretado, ou seja, quando em ação, o ser humano nos transmite informações, dados, que dizem respeito especificamente às particularidades do contexto de vida daquele ser e do grupo ao qual pertence. Interpretar essa carga simbólica nos permite, portanto, ter melhor compreensão do indivíduo e do grupo. Como defende Geertz (2003), o simbólico não está dissociado do real e é compreendendo o que está na esfera do dramático, da face incorporada ou construída que, por ser esta de natureza construída17, recorrerá ao simbólico para se compor e se apresentar ao real. Percebendo e interpretando essa carga simbólica, pode-se chegar a um dos elementos que se pretendeu que são os referenciais valorativos presentes no universo do adolescente que entra em conflito com a lei.

Seguindo o norteamento de Geertz , o método para se alcançar os elementos desse mundo simbólico de maneira a ter maior familiaridade com o contexto no qual está inserido o tema de interesse é a descrição densa, que se

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pauta na compreensão não apenas do objeto, mas de seus significados em determinado grupo ou sociedade, ou seja, contextualizado. Identificar os elementos de significação é um passo inicial fundamental para se chegar à percepção mais precisa do objeto. Entretanto, isso tudo é um constante jogo entre o mundo do “eu” e o mundo do outro, quer diz er, cabe ao pesquisador saber que o entrelaçamento desses mundos, e isso dando a tônica da interpretação, é não só possível, mas presente em todo o momento da pesquisa e causando certa confusão entre o que realmente pertence ao outro e o que pertence ao eu e foi atribuído ao outro.

O trabalho de compreender, digamos, a cultura do outro permite que se possa compreender contextualiz adamente o agir do outro, e não julgar o mesmo. Nesse sentido, é pertinente proceder uma análise breve do mundo do adolescente em situação de risco pessoal e social, sendo que o aprofundamento dessa análise se completará no capítulo no qual os elementos do trabalho de campo serão apresentados.

Um elemento prévio e importante que deve ser destacado é que a lei é um conjunto de normas que norteiam a conduta humana numa estrutura de poder organiz ada como a do Estado Moderno. Porém, numa sociedade existem outros tipos de normas de conduta que não se expressam com a mesma formalidade da lei. Isso quer diz er que quando se analisa o adolescente, e este estando em conflito em relação à lei, está-se colocando o problema a partir de um referencial, primeiramente o Estado e das instâncias competentes e instituídas para garantir o cumprimento da lei. Porém, se a lei é a norma principal para o Estado e seus agentes, isso nada garante que o seja para os indivíduos.

Isso posto, o que se quer trazer à tona é a seguinte questão: qual importância a norma jurídica tem na vida e nos valores do adolescente que comete algum ato infracional?

Há, ao que parece, uma contradição latente. O que ocorre é que de um lado está o Estado, impondo a norma, regendo a vida da pessoa, utilizando o chamado biopoder, exercendo o controle sobre a vida do indivíduo e regrando seu comportamento. A lei é a expressão pura do biopoder uma vez que é genérica e, assim, descontextualiz ada da ação e do contexto que leva a essa ação. A lei traz consigo um conjunto de valores de quem a cria, do grupo

social que a cria e seguramente, dele não faz parte o sujeito em questão, o adolescente, qualquer que seja.

Por outro lado, em um universo da precariedade, e de distanciamento da formalidade, que é o da maioria dos adolescentes que entram em conflito com a lei, esta não tem para eles a mesma importância que para o Estado, até mesmo em situações em que a autoridade da lei, encarnada pelas Varas Especiais da Infância e da Juventude (VEIJ ) se colocam frente ao adolescente. Miraglia (2005) em pesquisa sobre uma VE IJ, deixa evidente essa dissociação entre o mundo formal, legal, do Estado e seus agentes, e o mundo do indivíduo e, sobretudo, do adolescente. Ao mesmo tempo, no ambiente forense, o adolescente sente a presença clara do biopoder e da capacidade deste deter o controle sobre sua vida. Miraglia descreve como o adolescente é tratado na VE IJ. P rimeiramente, do lado de fora do fórum, há um aglomerado de pessoas, pais, mães, irmãos etc dos adolescentes que serão julgados, aguardando a hora da audiência ou então, caso não possam entrar, o resultado da mesma. Ingressando ao interior do edifício, após passar pelo detector de metais e de revista, tem-se acesso ao andar superior, ainda um ambiente confuso e tenso. Esse é o contato entre o indivíduo e o Estado, aquele que terá o poder de decidir seu futuro. A tensão assim é permanente, seja o medo de ser internado, de permanecer internado na FEBEM, seja pela sensação de impotência e pelo fato de que não se pode faz er nada para mudar tal sorte, e contar apenas com a assistência judiciária gratuita, sobrecarregada de casos para atender.

Os adolescentes, e até mesmo seus defensores, são meros expectadores de todo o processo. Pouquíssimas vez es têm espaço para a defesa, diferentemente do que ocorre em outros tipos de Varas Judiciais.

A percepção de que o simbólico é um elemento de análise rico para se compreender a dinâmica do jogo de poder que se estabelece entre, de um lado, o Estado, suas estruturas e agentes e, de outro, o adolescente, nos permite afirmar que é criado um ambiente de encenação dual. Os agentes do Estado, sejam as instituições de ressocializ ação, como a Fundação CAS A, sejam as instância judiciárias, assumem um papel de estar ao lado da lei, portanto de aparência boa e, por conseguinte, de um modelo a ser seguido pois trata-se do correto. Por sua vez, o adolescente deve incorporar o papel de

bom, de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Estado. Ou seja, será preciso ao adolescente muito mais que agir dentro da norma estabelecida pelo Estado, mas ter capacidade de convencimento aos agentes do Estado de que está, agora, agindo de acordo com o que o mesmo pressupõe.

Turner (1975) compara a vida a um teatro e, como neste, o dram a aparece na vida real na forma do conflito, e este, por sua vez, expõe as regularidades e as contradições existentes na sociedade. O conflito expressa, dessa forma, a contestação em relação às normas, regras, leis que regem determinada sociedade. Seguindo a perspectiva der Turner (op. cit.), os melhores momentos para se observar o jogo social são exatamente os d e conflito, pois, dessa forma, ficam perceptíveis as estruturas que guiam e normatiz am o agir e evidentemente as contradições da mesma. Associando essa linha à anteriormente debatida, a de Geertz e Goffman, no momento de conflito fica perceptível a face que cada um constrói, o papel que cada um assume, os elementos simbólicos que se utilizam para fazer o outro crer que a face construída é real.

Isto posto, é possível supor que os adolescentes em conflito com a lei vivem uma situação de desequilíbrio, segundo conceito de Turner, em relação à ordem imposta pelo soberano, o mercado, pois ao mesmo tempo em que se tem uma sociedade consumista, para alguns, não se abre espaço pelas vias legais ou até mesmo formais para que este adolescente possa se inserir satisfatoriamente neste universo.

O conflito fica evidente quando o adolescente infringe as regras para sobreviver. É necessário o embasamento empírico maior ainda, porém, das leituras já realizadas sobre os adolescentes em conflito com a lei, na maior parte dos casos, o conflito em relação à lei vem do fato de se estar tentando inserir de alguma forma, e neste caso será ilícita, na ordem consumista. Exemplos, como adolescentes roubarem 16 reais para poder jogar em um fliperama. Qual é a contradição aí evidenciada? Ao mesmo tempo em que se tem uma avalanche de estímulos ao consumo, este depende de uma inserção de alguma forma a mecanismos de acessibilidade à renda. S e não se consegue se inserir na engrenagem do consumo pela via legal, pode-se tentar a via ilegal . Porém, ao agir assim, o adolescente corre o risco de ter sua vida regrada pelo

Estado, através das estruturas e ordenamento jurídico, como o ECA, que imponha medidas sócio-educativas ao adolescente.

Como interpretar as medidas sócio-educativas de acordo com Turner? Tais medidas seriam um rito com a função de reequilibrar essa ordem contraditória, demonstrando ao indivíduo que ele não vai ser excluído do mundo do consumo, uma vez que algumas dessas medidas visam até mesmo “dar” uma profissão ao adolescente, por meio das oficinas de panificação, marcenaria etc., (o NA I tem uma estrutura bem fundamentada nesse princípio da formação profissional do adolescente) mostrando, portanto, a ele quais são os caminhos para se atingir o mundo do consumo e, ao mesmo tempo, não entrar em conflito com a lei.

Nota-se como a tentativa de reequilibrar o comportamento do adolescente está presente em algumas falas e decisões do juiz. Ao cobrar que o adolescente esteja trabalhando ou estudando está cobrando do adolescente uma atitude de ingresso no mundo da legalidade, da norma e, consequentemente, da lei.