1 UMA ANÁLISE HISTÓRICA DA CRÍTICA POLÍTICA CHARGE
2 O CONTEXTO LINGUÍSTICO DO DEBATE POLÍTICO SOBRE O GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
2.1. O candidato do Plano Real e o Consenso de Washington
Na manhã daquele mesmo domingo, a edição do jornal Folha de S.Paulo publicava o texto que se tornaria paradigmático da discussão erigida em torno do governo Fernando Henrique Cardoso. Em Os moedeiros falsos24, José Luís Fiori (1994) – doutor em ciência
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política pela USP (Universidade de São Paulo), com pós-doutorado em economia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra – apresentou uma análise da situação da economia brasileira perante as transformações em curso na economia internacional e, dessa forma, teceu inúmeras considerações acerca dos significados e das possíveis implicações do Plano Real para o país em meio a esse novo contexto.
Fiori iniciou sua explanação mencionando a realização, em janeiro de 1993 em Washington, a capital estadunidense, do seminário internacional A política econômica da
reforma política (The Political Economy of Policy Reform), em que se debateu o documento
elaborado por John Williamson, Em busca de um manual de Tecnopolíticos (In Search of a
Manual for Technopols). Segundo o autor, para John Williamson, aos tecnopolíticos caberia a
tarefa de auxiliar na readequação das economias nacionais às novas demandas do capital financeiro globalizado, preconizadas pelas agências financeiras internacionais como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, em 1989, no chamado Consenso de Washington.
No entanto, o restabelecimento dos fluxos de capitais internacionais para as nações que dele dependiam para dinamizarem as suas economias, condicionava-se ao seu devido credenciamento aos recursos. Este se cumpriria na medida em que fossem atendidos os critérios dos programas de estabilização econômica, apresentado pelas referidas agências internacionais de financiamento. Dessa forma, de acordo com José Luís Fiori, no mencionado Congresso realizado em 1993,
durante dois dias de debates, executivos de governo, dos bancos multilaterais e de empresas privadas, junto com alguns acadêmicos, discutiram com representantes de 11 países da Ásia, África e América Latina “as circunstâncias mais favoráveis e as regras de ação que poderiam ajudar um ‘technopol’ a obter o apoio político que lhe permitisse levar a cabo com sucesso” o programa de estabilização e reforma econômica, que o próprio Williamson, alguns anos antes, havia chamado de
“Washington Consensus” (Consenso de Washington)25
.
Os parâmetros que regiam as políticas econômicas de tais programas relacionavam-se às medidas econômicas introduzidas na Grã-Bretanha no início da década de 1980, com a ascensão de Margareth Thatcher ao poder. José Luís Fiori caracteriza as medidas irradiadas pelo autodenominado Consenso de Washington como,
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um programa ou estratégia sequencial em três fases: a primeira consagrada à estabilização macroeconômica, tendo como prioridade absoluta um superávit fiscal
primário envolvendo invariavelmente a revisão das relações fiscais
intergovernamentais e a reestruturação dos sistemas de previdência pública; a segunda, dedicada ao que o Banco Mundial vem chamando de “reformas estruturais”: liberalização financeira e comercial, desregulação dos mercados, e privatização das empresas estatais; e a terceira etapa, definida como a da retomada dos investimentos e do crescimento econômico26.
Segundo o autor, essa também foi a orientação do programa econômico introduzido no país quando do lançamento do Plano Real e da criação da nova moeda. Afirma José Luís Fiori que o próprio Williamson – ao tratar das dificuldades de implantação dos programas de estabilização econômica inspirados no Consenso de Washington – “reconheceu os perversos efeitos sociais e econômicos das medidas de austeridade e liberalização sobre as economias e populações nacionais”. Diante disso, apresentou uma série de “táticas ou artifícios políticos” voltados para minar eventuais resistências ou obstáculos para a implantação das medidas econômicas do seu programa de estabilização. Entre elas o autor salienta a prática de “insular” os “tecnopolíticos” diante das “demandas sociais”27
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Infere também o economista e cientista político que a instabilidade resultante das sucessivas e fracassadas tentativas de controle da inflação na década anterior “introduziu nos debates econômicos a importância crucial para o sucesso no combate anti-inflacionário do ‘fator credibilidade’”. Além disso, em função do prolongado tempo para que todas as etapas previstas no programa fossem levadas a termo, recomendava-se a formação de amplas coalizões parlamentares nas economias nacionais que garantissem a concretização das “reformas estruturais”. A estratégia apresentava-se como necessária em face da possibilidade de o interregno entre o caráter “recessivo” das medidas fiscais – introduzidas na primeira etapa do Plano, e a “retomada do desenvolvimento econômico”, vislumbrada na última – ser demasiadamente longo para o que se demandava a amplitude e coesão dessas alianças políticas28.
Nesse texto, José Luís Fiori afirma, ainda, que a sugestão em favor da conformação de amplas alianças políticas nas economias nacionais que adotassem o programa econômico constava do estudo de J. Nelson e S. Haggard, que comparou as implicações das medidas econômicas do programa de Washington em 25 países que já o haviam adotado antes do
26
FIORI, José L. Os moedeiros falsos. Folha de S.Paulo: São Paulo, 3 jul. 1994.
27
Idem.
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Brasil. De acordo com Fiori, a natureza recessiva das políticas ensejadas em tais países provocou uma série de implicações. “No caso das “experiências bem comportadas, as etapas de estabilização e reformas tomaram de três a quatro anos cada uma, e até uma década para a retomada efetiva do crescimento”. E, continua o autor, “mesmo ali onde houve retomada do crescimento, esse tem sido lento e absolutamente incapaz de recuperar os empregos destruídos pela reestruturação e abertura das economias”29
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Entretanto, as consequências mais drásticas das medidas econômicas adotadas precipitaram a economia desses países em “profundas recessões, perdas significativas da massa salarial e aumento geométrico do desemprego, os famosos ‘custos sociais’ da estabilização”. Dessa forma, no entender de Fiori, a estratégia assentada na formação de amplas coalizões parlamentares adviria da compreensão de que as consequências das medidas recessivas seriam profundas e longevas, demandando, assim, uma aliança política que, analogamente, fosse duradoura e coesa o suficiente para evitar que as suas implicações sociais negativas impedissem a consecução dos objetivos das “reformas estruturais” propostas pelo Banco Mundial e o FMI no Consenso de Washington30.
Muitas das questões discutidas por José Luís Fiori nesse texto pautaram o debate em que se desdobrou a discussão acerca da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. A Fiori atribuiu-se, inclusive, o fato de ter sido o primeiro a relacionar a coerência existente entre a economia política do governo de Cardoso e as suas reflexões sociológicas acerca da dependência econômica dos países latino-americanos (TEIXEIRA; PINTO, 2012, p. 9).
A partir de então, no debate que se seguiu, observou-se que muitos dos interlocutores dessa discussão exibiram um entendimento bastante próximo ao exposto por José Luís Fiori, com a publicação do seu texto em três de julho de 1994 no periódico Folha de S.Paulo. Tais abordagens se fizeram em torno de diferentes aspectos e pontos de vista. Suas inferências, desdobramentos e resultados conformaram a miríade de questões responsáveis por instituir o debate político que se travou acerca dos significados e das consequências do governo de Cardoso para a formação social brasileira.
Por exemplo, o cientista político também formado pela USP, Brasílio Sallum Júnior, em texto intitulado O Brasil sob Cardoso (2000), ao analisar a correlação de forças que caracterizou as disputas no interior do governo de Cardoso em torno da política econômica adotada pelo governo, enfatiza a existência de duas posições divergentes no interior do
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FIORI, José L. Os moedeiros falsos. Folha de S.Paulo: São Paulo, 3 jul. 1994.
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governo: uma de viés “liberal desenvolvimentista”, representada por Bresser Pereira e José Serra (PSDB-SP), e outra, de viés liberal e conservador, denominada de “liberal fundamentalista”, cujo principal representante seria o então ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan. Com a proeminência adquirida pelo último no governo, Sallum Jr. infere que, no programa de “estabilização” de Cardoso, prevaleceram medidas econômicas de caráter fiscal em detrimento de políticas que estimulassem o crescimento econômico. Para este cientista político, a predominância da política anti- inflacionária levou, inclusive, até mesmo, a um processo de desindustrialização da economia brasileira (SALLUM JR., 2000).
Por outro lado, o uruguaio Bernardo Sorj, Ph.D. em sociologia pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, em obra intitulada A construção intelectual do Brasil (2001), analisa o que entendeu ser o protagonismo de Fernando Henrique Cardoso na criação do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), criado no início da década de 1970, depois da aposentadoria compulsória que muitos professores da USP, entre eles, Fernando Henrique Cardoso, sofreram depois da instauração da ditadura civil-militar de 1964. Nessa obra, Bernardo Sorj, ao abordar o significado histórico do Plano Real no que diz respeito à questão das políticas de combate inflacionário levadas a termo pelo governo de Cardoso, inferiu que,
a luta contra a inflação, independentemente de ir ao encontro dos interesses dos investidores estrangeiros, foi uma política que favoreceu os setores sociais mais pobres. As críticas aos eventuais erros ou à rigidez na aplicação desta política contém muitas vezes uma boa dose de ambiguidade quanto à prioridade que deveria ter a luta anti-inflacionária (SORJ, 2001, p. 122).
Sobre a política de combate à inflação ensejada pelo Plano Real em meados de 1994, o sociólogo formado pela USP, Paul Singer, em capítulo intitulado O processo econômico (2011) e publicado no último volume da coleção Modernização, ditadura e democracia, a seu turno, depreendeu que o efeito sobre a inflação no primeiro ano do governo de Cardoso, em 1995, “foi imediato”. Ao comparar a introdução da nova moeda com as anti-inflacionárias empreendidas até então, infere que,
o Plano Real não congelou os preços nem veio sob a forma de “pacote-surpresa”. Foi submetido à discussão pública e à aprovação pelo Parlamento. Nesse sentido, teve caráter democrático e contou com o apoio da sociedade. [...] O efeito sobre a inflação foi imediato. Em abril, 45,57%; maio, 43,77%; junho, 49, 10%. Já em julho, a inflação desceu a 32,45%; em agosto despencou para 2,60%; em setembro, para 1,46%, subindo em outubro para 2,65%; em novembro, 3,11%; e, em dezembro, caiu para 1,11% (SINGER, 2011, p. 223).
Paul Singer, no entanto, não deixa de apontar que outro dos efeitos provocados pela política anti-inflacionária assentada na “âncora cambial” – além das implicações sobre a produção industrial, como indicou Sallum Jr. (2000) – foi ter provocado o aumento do custo de vida, atribuindo à estratégia de “estabilização dos preços” a responsabilidade por uma “certa crise industrial e social” (SINGER, 2011, p. 224).
Assim, para que se possa compreender o sentido e os significados das argumentações elaboradas e defendidas pelos interlocutores que participaram do debate político sobre o governo Fernando Henrique Cardoso, torna-se fundamental apreender a percepção que o sociólogo engendrou na sua produção intelectual – durante as décadas de 1960 e 1970 – acerca das temáticas relativas à dependência econômica que países como o Brasil, por exemplo, historicamente estabeleceram nas suas vinculações com a economia capitalista internacional.