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século xvm

1.5. O "CANIBAL" DE SHAKESPEARE

Em "The American Principle from More to Locke" (1976), Arthur Slavin alega que na origem do discurso utópico de The Tempest (1611), apresentado pela personagem Gonzalo, se encontram as ideias de Montaigne. Gonzalo, um velho e honesto conselheiro, torna-se apologista do estado natural, também ele por oposição às instituições europeias. Ao advogar a criação de uma comunidade perfeita Gonzalo é ridicularizado pelos outros:

I' th' commonwealth I would by contraries Execute all things; for no kind of traffick

Letters should not be known; riches, poverty, And use of service, none; contract, succession, Bourn, bound of land, tilth, vineyard, none; No use of metal, corn, or wine, or oil; No occupation - all men idle, all; And women too, but innocent and pure; No sovereignty.

All things in Common nature should produce (Act II, i, 151-164)

Em "Des Cannibales" Montaigne tivera um discurso semelhante, que uma vez mais define as sociedades ameríndias pela ausência quando comparadas com a

Europa.25 Neste ensaio Montaigne tinha já começado a moldar a experiência

americana numa doutrina do estado natural, no qual as pessoas viviam em harmonia com as leis da natureza acessíveis através da razão. O comunitarismo de Gonzalo e o próprio Caliban, o qual se encontra em perfeita sintonia com a natureza, são, neste sentido, símbolos do estado natural. Contudo, se no caso de Montaigne este pretende abolir o sistema hereditário, pelo contrário a alegação de direito à ilha de The Tempest que o nativo Caliban faz sob o argumento da hereditariedade (Act I, ii, 332) é ignorada pelo Branco europeu, Próspero, e não vai ter qualquer resultado no desfecho da obra.

Conforme apontado aqui, em 1580 Montaigne chamara a atenção para a grande diferença cultural existente entre Europeus e Ameríndios, nomeadamente no que diz respeito à linguagem. De facto, verificou-se que era impossível traduzir para as línguas nativas da América conceitos como conversão, encarnação e trindade. Em

The Tempest (1611), William Shakespeare vai retratar o encontro entre um Europeu

letrado, cuja fonte de poder são os seus livros enquanto símbolo da civilização, e um selvagem iletrado, o qual, aquando desse encontro entre culturas e à semelhança do índio para Colombo, não se considera ter um discurso articulado. Caliban sabe que a fonte de poder de Próspero são os seus livros e é por isso que quando conspira contra

"C'est une nation, dirais-je à Platon, en laquelle il n'y a aucune espèce de trafic; nulle connaissance de lettres; nulle science de nombres; nul nom de magistrat, ni de supériorité politique: nuls usages de service, de richesse ou de pauvreté; nuls contrats; nulles successions; nuls partages; nulles occupations qu'oisives; nul respect de parenté que commun; nuls vêtements; nulle agriculture; nul métal; nul usage de vin ou de blé" ("Des Cannibales": 305).

ele avisa: "Remember / First to possess his books, for without them / He's but a sot, as I am," (Act HI, ii, 92-94).26

Caliban sucumbe facilmente ao álcool quando este lhe é fornecido por Stephano, numa previsão de uma das grandes formas de dominar os Ameríndios e uma das suas fraquezas. O álcool é referido por Caliban como o licor celestial, enquanto que era frequente os índios americanos referirem-se a ele como a água santa. Para Terence Hawkes, no artigo intitulado The Tempest: Speaking Your Language in Shakespeare's Talking Animals (1974), o álcool é um estratagema tradicionalmente

colonial que nesta peça é usado com o intuito de "humanizar" Caliban e fazê-lo falar. O vinho é descrito metaforicamente como um "beijar do livro", constituindo ambos meios de alienação e subjugação: "Wine becomes to Caliban what books were to Prospero: a drug." (71). Tal como os Ameríndios, Caliban confundiu os Europeus com os espíritos e, quando bêbedo, julga que Stephano caiu do Céu: "What a thrice double ass / Was I to take this drunkard for a god, / And worship this dull fool!" (Act V, i, 93-95).

Assim, Shakespeare descreve em The Tempest uma situação equivalente à do encontro colonial que se deu na América em 1492. Servindo-se de forma anagramática do primeiro nome étnico que os Europeus absorveram do Novo Mundo e cujo significado actual Colombo inventou -canibal-, Shakespeare reforça com esta peça o estereótipo do selvagem feroz: Caliban é um ignorante com um comportamento violento, constantemente referido como um monstro disforme, um semi-diabo, comparado aos animais, nascido das trevas, bastardo, amedrontado, desonesto, que voluntariamente se joga aos pés quer de Stephano quer de Próspero e que, sem qualquer orgulho próprio, diz "...and I, thy Caliban, / For aye thy foot-licker" (Act IV, i, 218-19). Greenblatt considera que Shakespeare reproduz em Caliban todos os medos típicos do início do século XVII, recorrendo inclusivamente à aliança de Caliban com a classe baixa, representada na peça por Stephano e Trinculo, com vista a derrubar o nobre Próspero do poder. Logo na apresentação das personagens da peça Caliban é referido como selvagem e escravo, e apesar de nunca ser referido como índio, ele ameaça com uma praga "vermelha".

26 Greenblatt refere a este respeito (1976: 569) que também os Índios Huron acreditavam que a fonte do poder ou feitiçaria dos Europeus estava nos seus livros, e que os Brancos vinham para tomar posse da sua terra.

Um outro ponto de contacto entre a peça e as primeiras descrições da América e dos Ameríndios diz respeito à própria descrição que Shakespeare faz da ilha em The Tempest que, tal como em Colombo, é feita pela negação, referindo-se a uma ausência de características por comparação e contraste com a Europa. Relativamente à natureza, Próspero demonstra a alegria por uma caçada com cães, o que remete para o hábito britânico das caçadas por desporto, e usa os animais para punições cruéis, à semelhança dos Espanhóis que se serviram de cães para caçar índios e posteriormente escravos negros. G. Wilson Knight propõe, no ensaio "Caliban as a Red Man", editado em Caliban de Harold Bloom (1992), que Próspero demonstra uma superioridade e Caliban, pelo contrário, uma identidade relativamente ao mundo animal (185). Na sua opinião, Caliban está também em sintonia com um mundo espiritual, um mundo extrasensorial dos espíritos, sons e música que é representado na peça por Ariel, e daí que ele não tenha medo da canção invisível e fantasmagórica de Ariel, a qual, pelo contrário, consegue assustar os Europeus.

Também o facto de Próspero ter poderes mágicos apenas nessa ilha desconhecida terá correspondência no efeito "mágico" que as armas europeias tiveram nos Ameríndios, projectando uma imagem de superioridade tecnológica europeia. No entanto, em The Tempest faltou ao Europeu a tecnologia para ser capaz de produzir a sua própria comida no Novo Mundo. À semelhança do sucedido entre colonos ingleses e índios na colónia de Jamestown, Próspero, quando chegou à ilha, dependeu da hospitalidade e generosidade de Caliban para se alimentar, dando-se um primeiro momento de coexistência pacífica. É neste primeiro momento que o Europeu ensina Caliban a 1er, ou seja, transmite-lhe (impõe-lhe) cultura (a sua).

A uma bondade inicial por parte de Caliban segue-se uma traição, em que a sua violência vem ao de cima trazendo consigo a justificação que Próspero precisava para a apropriação da ilha que, por herança e antiguidade, pertencia a Caliban. Próspero, o Europeu superior, apodera-se das terras do disforme selvagem Caliban com base no argumento de que este teria tentado violar a sua filha, ou seja, o comportamento feroz que o Europeu atribui ao índio vai servir de justificação para o tornar escravo e apoderar-se das suas terras. Uma vez mais a apropriação é feita com base num discurso da selvajaria. Segundo Peter Hulme, o "selvagem" ameríndio vai reagir contra os colonos apenas quando se apercebe de que o Europeu veio para ficar e de que o seu direito à sua terra-natal está ameaçado. Contudo, esta reacção é

percepcionada pelo Europeu como uma traição desonesta, não pondo sequer em causa a legitimidade do Ameríndio defender o seu direito à terra. Na opinião de Hulme, os Europeus só conseguiram lidar com a hospitalidade e violência do índio construindo inconscientemente uma narrativa de traição em que a bondade inicial, a primeira característica a ser notada por Colombo, servia apenas para estabelecer a confiança até que a violência natural dos nativos emergia por detrás das máscaras. Assim, esta interpretação das reacções dos índios americanos é a de Próspero e vai ser o argumento que ele vai usar para justificar a sua usurpação do poder, pelo que Hulme considera que a traição constitui um tópico preferido no tratamento do índio americano.

Deste modo, no acto I Caliban protesta que a ilha é dele por direito e é então que Miranda, filha de Próspero, apresenta a caracterização de Caliban como um monstro disforme, ignorante (até ser ensinado pelo Europeu), e cuja resistência à linguagem demonstra em si uma natureza irremediável, uma inclinação para o mal que resulta da sua própria natureza. Por tudo isso Miranda considera que Caliban é descendente de uma raça vil, não partilhando por isso da mesmo essência dos Europeus:27

Abhorred slave, Which any print of goodness wilt not take- Being capable of all ill! I pitied thee,

Took pains to make thee speak, taught thee each hour One thing or other: when thou didst not, savage, Know thine own meaning, but wouldst gabble like A thing most brutish, I endow'd thy purposes

With words that made them known. But thy vile race. Though thou didst learn, had that in't which good natures Could not abide to be with; therefore wast thou

Deservedly confin'd into this rock, Who hadst deserv'd more than a prison.

(Act I, ii, 353-364) (sublinhado meu)

A resposta de Caliban vai provocar uma quebra no discurso de Próspero, o qual não encontra palavras para lhe responder a não ser com uma ordem seguida de uma ameaça. Greenblatt, de entre outros autores, considera ser esta a grande vitória moral e linguística de Caliban, apesar de momentânea, em que o "selvagem" rejeita a " Greenblatt refere (1976: 569) que aparentemente o discurso de Miranda terá chocado Dryden e outros seus contemporâneos pela indelicadeza e violência da linguagem com que Caliban é descrito.

linguagem europeia e com ela toda uma cultura que o classifica como uma tabula rasa à espera da inscrição da palavra europeia, atitude que servirá de justificação para o processo de educação forçada que se verificou na América relativamente aos seus habitantes originais. A utilidade que Caliban confere à linguagem europeia é, pois, a possibilidade de com ela amaldiçoar, proclamar o seu sofrimento e ressentimento:

You taught me language; and my profit on't Is, I know how to curse. The red plague rid you For learning me your language!

(Act I, ii, 365-367)

No fim da peça Próspero continua a assumir o poder sobre Caliban chamando- o de "seu", um final que será o idealizado pelo colono inglês que vê o seu desejo realizado: o índio reconhece voluntariamente, após esse período de transição para a civilidade que é a escravatura, a superioridade do Europeu. "How fine my master is!" (Act V, i, 263). E, pois, o Europeu que no final irá deter a posse das terras com base nessa alegação de uma maldade inerente ao nativo.

Conforme referido, uma suposta traição de Caliban irá servir para que Miranda conclua que ele tem uma tendência naturalmente má por baixo de uma aparência inicial de bondade, servindo essa conclusão para justificar a sua subjugação a Próspero e a expropriação das suas terras. Um outro exemplo de como os Europeus pretenderam alegar uma maldade inerente ao índio para justificar a sua tomada do poder no Novo Mundo é o modo como encararam e relataram aquilo que apelidaram não como uma batalha, mas como o "massacre" da colónia britânica na Virgínia, Jamestown, em 1622, onze anos após a publicação de The Tempest. Segundo Peter Hulme, este massacre de Europeus pelos nativos constituiu na mentalidade europeia uma enorme violação da lei natural que, como acontecera com Caliban, servirá de legitimação de qualquer atitude por parte das vítimas europeias desse acto cruel. Para Hulme, o entusiasmo e rapidez com que os Ingleses derivaram as consequências do massacre dá ideia de um certo alívio misturado com o horror que acompanhou as notícias desse acontecimento (172). A partir de então a selvajaria dos nativos é pela primeira vez encarada como impossível de ser regenerada, tendo com isso os Ameríndios perdido todos os seus direitos civis e naturais.

Em The Free and the Unfree: A New History of the United States (1977), Peter Carroll e David Noble consideram que o massacre da Virgínia provocou uma imediata retribuição sangrenta, nomeadamente nas excursões punitivas de 1622 e 1623, e libertou sentimentos racistas adormecidos que justificaram toda uma política de genocídio na América (54). Este ataque, considerado brutal, por parte dos nativos servirá como prova da maldade e violência naturais aos índios, mesmo que eles até então não tenham demonstrado hábitos canibais. Para os brancos, o massacre irá servir de justificação para a apropriação das terras dos nativos. Numa altura em que os nativos de Caniba já foram aniquilados, restava encontrar uma justificação para a bondade inicial dos outros índios descritos por Colombo. Assim, esta bondade é interpretada como fingimento e a sua amizade, tal como a de Caliban, considerada falsa, pois o que se seguirá é a traição em Jamestown em 1622. Na perspectiva do Europeu, não fora a sua violência inata, os Ameríndios teriam reconhecido a superioridade dos valores da cultura europeia, possibilitando assim uma relação

harmoniosa entre Europeus e nativos.28 Até este momento os índios eram

frequentemente encarados com o optimismo humanista do século XVI, o qual garantia que o selvagem seria facilmente civilizado, tanto mais que isso era inerente à sua condição humana:

One God created us, they have reasonable soûles and intellectuall faculties as well as wee; we all have Adam for our common parent: yea, by nature the condition of us both is all one, the servants of sinne and slaves of the divell... (Alexander Whitaker, 1613, inPearce: 13).

Os Ameríndios perderam qualquer direito à posse da terra em virtude desse derramamento de sangue numa terra cujo nome é Virgínia, nome que se deve não só à

Curiosamente, no Capitólio em Washington, D.C., o retrato que alude à colónia inglesa de Jamestown mostra exactamente o momento do baptismo de Pocahontas, em que a índia é retratada em trajes e postura europeus: ela encontra-se ajoelhada em sinal de conversão, submissão e recato. Nada na sua figura é revelador da sua raça e só o sabemos pela legenda do retrato e pelos índios em pano de fundo, estes identificáveis pela ausência de roupas e por outros detalhes exóticos. Pocahontas irá servir de exemplo dessa possibilidade de harmonia entre as duas civilizações, mas de um modo que para os Europeus era o ideal, ou seja, pela submissão de uma cultura a outra, ao aceitar ser baptizada, ser renomeada de Lady Rebeca, ao vestir-se como europeia e ir para Inglaterra, algo que simboliza a rejeição da sua própria cultura. Na opinião de Peter Hulme, o mito de Pocahontas simboliza a possibilidade de salvação do índio ao aceitar ser incorporado na cultura europeia e ser assim salvo da sua cultura. Já no século XIX a procura de uma herança nacional americana levou a que se recorresse a este mito de Pocahontas (e daí o seu retrato no Capitólio) como exemplo dessa harmonia entre culturas.

evocação da Rainha Isabel I, "the virgin queen", como provoca a associação com uma inocência e novidade e, consequentemente, aludia à ausência de donos legítimos dessa terra. A lei natural, que até então garantia aos índios o direito de posse, é assim esquecida, uma vez que esse "massacre" deu aos colonos o direito de passar a actuar conforme lhes conviesse, tendo os índios perdido com esse acto violento quaisquer direitos à terra, à semelhança do que acontecera em The Tempest com Caliban. Na opinião dos colonos europeus, a partir desse momento as terras da Virgínia deixam de ter donos legítimos. O Branco europeu passa a encarar o seu direito à posse dessa terra como resultado do seu zelo e piedade religiosa, os quais eram então recompensados com a riqueza dessas terras. Foi na Nova Inglaterra do século XVII que esta visão de recompensa divina adquiriu particular relevância derivada da perspectiva puritana da Terra Prometida. E tal como em The Tempest, a associação que os Puritanos vão fazer entre os nativos e os poderes de Satanás irá servir de justificação para que os Ameríndios percam o direito às terras.