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Na forma tradicional de se fazer embolada o canto é realizado por uma dupla de emboladores (Ver, por exemplo, a maioria das emboladas já citadas neste capítulo, constantes do CD anexo). Muito raramente, encontramos emboladores fazendo suas performances sozinho. E quando isso ocorre, geralmente contam com um coro para responder, cantando o refrão; às vezes um grupo só de mulheres, às vezes só de homens, mas pode-se encontrar também grupos mistos (Ver, por exemplo, a embolada Você venha como está104, de Irmão Tomás (Ex-Caximbinho), com coro feminino (CD – Faixa 28), já citada em 4.4.8.2).

A estética vocal do canto dos emboladores apresenta um canto ritmicamente articulado, de uma forma geral com um timbre bastante anasalado, e em alguns casos carregado de guturalidade, muito similar a um “jeito” de falar do nordestino. O ritmo do canto está constituído basicamente (ou predominantemente) de semicolcheias (no compasso 2/4), tanto nos improvisos quanto nos trabalhos. Uma subdivisão rítmica presente também, e característica, no pandeiro (ou no ganzá, quando era utilizado); o ritmo do instrumento de acompanhamento serve de base para o canto.

O andamento das emboladas é, de uma forma geral, rápido, principalmente nos improvisos, e mais destacadamente nos desafios; nos trabalhos é mais comum um pouco andamento mais lento. Nas emboladas narrativas, por exemplo, o andamento é mais lento e

cadenciado (Ver a embolada O nego que pegou o boi do bode 105, com Manoel Batista e José Batista (Zezinho Batista) (CD – Faixa 22), já citada em 4.3.2.3). Nas emboladas mais rápidas o canto se destaca pela destreza dos emboladores na articulação rápida e desenfreada das palavras constantes dos versos; nas mais lentas, o canto assume, por vezes, um outro tipo de responsabilidade: a de fazer o público entender o texto, a narrativa, a história que está sendo contada ao longo da embolada. É muito comum em algumas emboladas, também principalmente nos desafios, o andamento ser acelerado ao longo da performance, chegando, no final, a um andamento muito superior ao do início, levando a uma maior dificuldade para cantar (Ver, por exemplo, a embolada Desafio em embolada106, com Toinho da Mulatinha e Chico Sena (CD – Faixa 12)).

A forma de cantar as emboladas segue determinados padrões, mas são bastante variáveis. Os emboladores se revezam no canto. Esse revezamento é uma característica importante da embolada, que apresenta um canto com “pergunta e resposta”, como um tipo de canto responsorial, encontrado na tradição católica como uma das formas mais antigas do canto religioso, e também um tipo de canto muito comum nas tradições africanas do canto coletivo. Na música do coco de roda, brincadeira com dança, como em outras manifestações da cultura popular nordestina, o canto também utiliza essa forma de estruturação com pergunta e resposta entre o solista e o coro dos que participam dançando. Na embolada, o revezamento no canto se dá de diversas formas: no refrão, nos versos (estrofes), entre refrão e versos; mesmo que encontremos refrãos cantados pelos dois emboladores juntos em algum momento. Quando um embolador canta um verso e o outro canta o refrão, este está respondendo: o refrão é a resposta; termo utilizado pelos próprios emboladores. O revezamento se dá também nos desafios, quando vão se provocando, um após o outro, no cantar da sequência de versos, característico dos trocados. Mas essa forma de cantar, em que quando um canta o outro se cala, serve também para que cada um possa descansar a sua voz, recuperar o fôlego, para retomar logo em seguida.

Essa forma de cantar as emboladas, com esse revezamento entre os emboladores, se dá em determinados padrões, basicamente três tipos, classificados com as seguintes características:

105 Embolada de Manoel Batista e José Batista (Zezinho Batista), gravada no LP Desafio malcriado (1981). 106 Embolada gravada no LP Desafios e emboladas (CHICO SENA; TOINHO DA MULATINHA, [s.d.]).

• Um embolador canta um verso e o outro canta outro

Essa forma de estruturar o canto, com os emboladores se revezando no cantar dos versos, sem resposta após cada verso, é característica dos improvisos. O refrão só é cantado no início e no final, pelos dois emboladores, se revezando e/ou cantando juntos, funcionando como uma introdução e uma conclusão para os versos (as estrofes). Como exemplo, a embolada, que é um Improviso, e usa o refrão Ô baiana Sulá107, com Curió de Bela Rosa e Barra Mansa (CD – Faixa 17), já citada em 4.3.1.1; outro exemplo, a embolada do tipo Trocado108, que também é um improviso, com Cachimbinho e Zezinho da Borborema (CD –

Faixa 19), já citada em 4.3.1.3.

• Um embolador canta um verso e o outro canta outro, e se revezam no refrão que intercala os versos

Esta forma de cantar também é utilizada nos improvisos, bem como nos trabalhos. Os dois emboladores cantam o refrão no início, se revezando e/ou cantando juntos, e, na sequência se revezam cantando os versos. Após cada verso, a resposta (o refrão) é cantada pelo outro embolador, e repetida pelo que cantou o verso, para que o outro embolador cante o verso seguinte. Algumas vezes o embolador que canta os versos canta junto o início da resposta. No final, os dois emboladores cantam o refrão da mesmo forma que no início. Como exemplos, um Improviso, que usa o refrão Duvido você cantar coco melhor do que eu109, com

Lindalva e Barra Mansa (CD – Faixa 18), já citada em 4.3.1.2; e um trabalho, a embolada Coco do trava língua110, com Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, (CD – Faixa 21), já citada em 4.3.2.2.

• Um embolador canta os versos e o outro responde cantando o refrão (ou parte dele)

Este tipo de estruturação do canto é característico dos trabalhos. Os dois emboladores cantam o refrão no início e no final da embolada, se revezando e, às vezes, também cantando juntos; o último a cantar o refrão deixa a vez para o outro cantar os versos. Um dos emboladores canta os versos e o outro responde com o refrão após cada verso. Como exemplos, a embolada Namoro de hoje em dia111, com Lindalva e Lavandeira do Norte (CD –

107 Embolada improvisada durante apresentação em evento realizado pela Prefeitura Municipal de João Pessoa,

na Praia de Tambaú, no dia 18 de fevereiro de 2006 (CURIÓ DE BELA ROSA; BARRA MANSA, 2006).

108 Embolada improvisada, gravada no CD Zezinho da Borborema e Cachimbinho na embolada, faixa 8

(ZEZINHO DA BORBOREMA; CACHIMBINHO, [s.d.]).

109 Embolada improvisada durante apresentação em evento realizado pela Prefeitura Municipal de João pessoa,

na Praia de Tambaú, no dia 18 de fevereiro de 2006 (LINDALVA; BARRA MANSA, 2006).

110 Embolada de Cachimbinho e Geraldo Mouzinho, gravada no LP Cocos e emboladas (1991). 111 Embolada de Lindalva e Lavandeira do Norte, gravada no CD Os feras da embolada, faixa 2 ([s.d]).

Faixa 20), já citada em 4.3.2.1; e a embolada O nego que pegou o boi do bode112, com Manoel Batista e José Batista (Zezinho Batista) (CD – Faixa 22), já citada em 4.3.2.3. Nesta última, a resposta, cantada entre os versos, utiliza apenas uma das linhas do refrão cantado no início da embolada, com pequenas variantes.

Característico, também, no canto das emboladas, são as adequações de palavras para obter as rimas. Muitas vezes as rimas não são perfeitas (aquelas em que as palavras têm terminações iguais), e os emboladores fazem as adequações necessárias para que a rima dê certo, mesmo que seja uma rima imperfeita (aquelas em que a grafia é diferente, mas a sonoridade da pronúncia é semelhante, ou “quase igual”). Nas rimas em “á”, por exemplo, rimam já com amar; nas em “ê”, rimam dendê com fazer; nas em “i”, rimam saí com dormir, como discutido por Maria Ignez Ayala e Marcos Ayala no livro Cocos (2000, p. 142); ou, ainda, rimam é com mulher ou rapaz com atrás (neste último caso, escritas diferentes e pronúncias iguais). As adequações são, na verdade, na maioria dos casos, extraídas da linguagem popular corrente, de um jeito de falar encontrado pelo interior do nordeste.

No documento Performance musical da embolada na Paraíba (páginas 134-137)