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O CAPITAL CULTURAL UM DESAFIO A SER ADQUIRIDO

No documento Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho (páginas 135-141)

5 RELATOS DE VIDA DE COTISTAS NEGROS

5.2 O CAPITAL CULTURAL UM DESAFIO A SER ADQUIRIDO

Ao chegar à escola os estudantes demonstram possuir habilidades e conhecimentos adquiridos no seio de suas famílias, que facilitaram a progressão dos mesmos no meio escolar ou comprovaram não terem desenvolvido tais habilidades e, consequentemente, o aprendizado para estes será mais difícil. Estudantes que aprenderam com seus pais o hábito da leitura foram acostumados a visitar museus, frequentar cinemas e teatros, ouvir músicas clássicas, isto é, estarem expostos à cultura que a escola exige, não apresentarão maiores dificuldades, pois o conhecimento adquirido na escola se parece muito com a bagagem cultural que trazem de casa. No entanto, aqueles estudantes provenientes das camadas populares, cujas famílias não lhes forneceram essa bagagem cultural, chegam à escola em situação de desvantagem. É a educação que propicia o capital cultural requerido pela universidade, o qual é materializado na forma de livros, certificados, diplomas e conhecimentos adquiridos. Este capital cultural se refere ao acúmulo de riqueza cultural erudita e de cultura escolar, que para Bourdieu (2008b, p. 74) explica a desigualdade de desempenho escolar entre crianças provenientes de diferentes classes sociais. Santos (2015) destaca a íntima convergência entre capital cultural, renda familiar e acesso ao ensino superior, ilustrando que a bagagem cultural e social incorporada pelo estudante,

Como a capacidade de falar e escrever bem, a educação formal e/ou os conhecimentos acadêmicos, técnico e científico, o domínio das regras de etiqueta, as boas maneiras, a sensibilidade e/ou familiaridade com as artes culturais, o charme, as posturas corporais, a entonação de voz, entre outros, podem ser considerados capital cultura (SANTOS, 2015, p. 246).

No relato da colaboradora Alíca, a seguir, destaco evidências sobre a importância do capital cultural. Ao ingressar na Universidade, Alíca trabalhava, à tarde e à noite, como comerciária em um shopping, saindo do emprego após as 22h. Restava-lhe estudar no turno da manhã, período em que eram oferecidas as Disciplinas Complementares de Graduação (DCG‟s). Por desconhecer os componentes curriculares que constituíam a grade curricular, com disciplinas obrigatórias e complementares, pois certamente, por estar trabalhando, não comparecera às orientações fornecidas pela Coordenação do curso aos calouros, cursou

somente DCG‟s, o que mais tarde acarretou-lhe atraso no curso. Ao chegar do trabalho, dedicava-se às tarefas da faculdade, dormindo pouco, acordava cansada e retornava à faculdade, sentindo-se exausta, resultando muitas vezes, em ter dormido em aula, como descreve:

Foi muito difícil, muito árduo, porque eu vinha pra Universidade cansada, e eu era taxada de preguiçosa, porque eu dormia. Não tinha como. Eu dormia. Durante a noite, chegava em casa de noite, tinha que fazer trabalho pra faculdade, então muitas e muitas noites, muitas vezes eu dormi durante as aulas no 1º semestre. (...) Meu curso é integral, mas as disciplinas da tarde eu tranquei todas, o que me acarretou assim mais dois anos de graduação (Alíca, Entrevista em 20/12/2016).

A colaboradora relatou que nunca foi questionada por colegas ou professores sobre as razões de dormir em sala de aula, mas recebeu, como se fosse um carimbo em sua testa, o estigma de preguiçosa, o que será superado, quando passa a integrar um grupo de cotistas PPI e organizam o Coletivo de Estudantes Negros e Negras - AFRONTA.

Para Alíca, o desafio (educação especial) dizia respeito à dificuldade de conciliar estudo e trabalho, além de não ser detentora de capital cultural e do ethos46 naturalmente transmitidos, por via indireta, pela família a seus filhos, a que Bourdieu (2008b, p. 30) chama de herança cultural.

Entre as mães dos colaboradores apenas 1 cursou Ensino Superior incompleto e 2, o Ensino Superior Completo, enquanto que entre os pais, somente 1 cursou o superior completo. As pesquisas de Bourdieu (2008b) e colaboradores comprovaram que existe uma relação entre o nível cultural das famílias e o sucesso dos filhos na vida escolar; relacionando renda familiar, diploma dos pais e ser bom aluno, a pesquisa indicou que “é o nível cultural global do grupo familiar que mantém a relação mais estreita com o êxito escolar da criança” (BOURDIEU, 2008b, p. 42). Tais informações não condenam taxativamente filhos de famílias pobres ao fracasso. Há como reverter essa situação, sendo a atuação do professor

empático decisiva, pois o estudante necessitará de orientação.

46 Para Bourdieu (2008b, p. 30), esse ethos é um “sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados,

Figura 20 – Escolaridade dos pais dos colaboradores

Fonte: Google Docs Acessado em 13 de mar/2018.

As figuras acima reproduzem os gráficos referentes à escolaridade dos pais dos colaboradores, de acordo com o questionárioenviado aos colaboradores via Internet (Google docs). Observe nos dois gráficos, que metade dos pais (tanto pai, quanto mãe) possui até o Ensino Fundamental Incompleto, indicando que os colaboradores não possuem a herança cultural familiar, no sentido pensado por Bourdieu (2008b).

Ao ingressar na Universidade, compete às coordenações dos cursos recepcionar e orientar aos calouros. Oferecer informações sobre o currículo a ser cumprido e a possibilidade de validar como carga horária de DCG‟s, a participação em palestras, seminários com comprovação da frequência são importantes, em especial para àquele estudante trabalhador, que permanece um tempo menor na Universidade, chegando, às vezes, somente no horário da aula, perdendo informações ou avisos importantes passados em outros momentos, como se pode confirmar no testemunho de Geneviève a Coulon (2008, p. 96), ao confessar não dispor de tempo sequer para comparecer à secretaria do curso, que permanecia fechada, durante o horário em que ela estudava.

Ao concluir o Ensino Médio e ingressar na vida acadêmica, o estudante passa por uma fase de estranhamento, e a seguir uma ruptura com tudo que entendia por ensino e aprendizagem, até então; o estudante acessa um ambiente de estudos com novas exigências, totalmente diferenciado ao que estava anteriormente acostumado. Se não houver algum tipo de informação ou orientação, o estudante corre o risco de ficar perdido.

Odé (história) passou por um período de estranhamento, quando começou a estudar, e reconhece que não possuía erudição, segundo ele, em decorrência de lacunas na sua formação básica, por ser egresso de escola pública. A partir do referencial que venho trabalhando, entendo que Odé (história) se ressente da falta de uma cultura da elite, a qual a escola também não ofereceu. No caso da relação dos professores universitários com a linguagem, entendo

como Bourdieu (2008b, p. 55) que o uso tradicional da linguagem universitária expressa um veículo da cultura, perfeitamente compreensível, como se todos fizessem parte de uma mesma comunidade linguística e de cultura. O mesmo autor percebe a cultura escolar como uma cultura aristocrática, pensada, transmitida e mantida pelo próprio sistema de ensino. A partir desse viés e sob o olhar de Bourdieu (2008b, p. 56) entendo a afirmação de Odé (história): existe imensa distância entre a linguagem do ensino (expressa nas aulas) e a língua falada pelas diferentes classes sociais, o que gera, com frequência, uma pressão sobre estudantes provenientes de outro meio social, que não o dominante, em decorrência do distanciamento entre as diversas formas de linguagem. A esse fato Bourdieu e Passeron (1975) chamam de

violência simbólica - quando a cultura do grupo dominante é imposta de forma arbitrária a

outro grupo.

Ainda sobre dificuldades ao ingressar na Universidade, alguns estudantes não detentores do hábito de leitura, enfrentam problemas com o vocabulário corrente empregado tanto por professores, quanto em uso nos textos estudados, palavras que parecem vir do além, como afirmou Elsa a Coulon (2008, p. 98), o que exige que recorram a um dicionário ou enciclopédia, ou ao celular, facilmente ao alcance do estudante, um problema que ultrapassa a dimensão da etnia do calouro, mas sim à qualidade da sua formação. O mundo da Universidade não é o mundo de todo o mundo, afirma Coulon (2008).

Entendo que uma das funções da educação é reproduzir as desigualdades sociais, pois o sistema escolar é gerador de capital cultural que distingue seus membros, justamente por possuírem ou não tal capital. Cabe ao sistema manter a ordem social vigente, selecionando alunos portadores de diferentes quantum de capital cultural. Como reprodutora da ordem social, a educação garante êxito aos estudantes portadores de capital cultural, ao mesmo tempo estabelece fronteiras sociais entre aqueles provenientes de famílias cujos pais portem ou não diplomas. Nos estudos feitos por Bourdieu (2008b, p. 42) o fator determinante do sucesso escolar não era a renda, mas sim, a posse de diploma pelos pais. Estudantes cujos pais possuíam curso superior tiveram melhor desempenho escolar, do que aqueles oriundos de famílias cujos pais possuíam diploma de nível técnico, evidenciando, como refere Dutra (2012, p. 26) que “a posse de capital cultural dos pais é decisiva para a valorização da experiência escolar dos filhos, e a posse de capital econômico, não significa necessariamente investimento na educação da descendência”.

O capital cultural aparece em três formas ou estados: incorporado, objetivado e institucionalizado. No estado incorporado, o indivíduo internaliza através da aprendizagem - é um tipo de transmissão hereditária, em que a acumulação ocorre desde cedo, pois as famílias

detêm e transmitem essa forma de capital cultural (BOURDIEU, 2008b, p. 76). Para ilustrar, Dutra (2012, p. 27) reitera que é uma acumulação gradativa, que passa por uma inculcação e assimilação, resultando, depois de determinado tempo de investimento, em incorporação. É individual e não pode ser transmitida por doação, por compra ou troca. No estado objetivado, o capital cultural exige apoio de uma ferramenta sensível, podendo ser um livro, obras de arte, coleções, monumentos, máquinas, etc., podendo, como exemplifica Bourdieu (2008b, p. 77) ter sua propriedade jurídica transferível, uma vez que posso doar um livro, vender uma tela de Picasso ou uma filmadora, contudo não consigo transferir o gosto em apreciar uma obra de arte ou o domínio no manejo de uma máquina, para tanto necessito possuir capital incorporado. No estado institucionalizado, o capital cultural abarca diplomas, certificados e títulos conferidos por instituições de ensino, que outorgam a seu detentor o reconhecimento jurídico da posse de (BOURDIEU, 2008b, p. 78).

Dentre os colaboradores, encontrei estudantes com um quantum de capital cultural, suficiente para lidar com a problemática da vida acadêmica, como também cotistas destituídos desse capital, ingressando em um meio totalmente estranho, como considero as situações vivenciadas por Anaya (Veterinária) e Alíca (Ed. Especial). Entendo que o tempo e as interações do estudante ao novo meio lhe propiciarão a aquisição de capital cultural.

No curso de Medicina Veterinária, Anaya narra que foi pontual, indicando que entre as dificuldades encontradas na graduação, com relação a seu futuro profissional, foi a experiência nos estágios, pois é no estágio que ela conhecerá o campo no qual poderá se dedicar mais tarde. O estudante precisa conhecer a área de abrangência do curso, pois ele precisará escolher um campo de trabalho com diversas possibilidades. Outra dificuldade é a falta de capital econômico, uma vez que o cotista negro normalmente não possui recursos financeiros para abrir uma clínica, por exemplo. Chama atenção a profunda percepção que Anaya tem sobre seu futuro profissional, ao apresenta três questões que um estudante do curso de Veterinária deveria responder: o que eu vou fazer? Eu gosto de fazer? Vou conseguir trabalhar? Assim relata:

No momento em um curso como o nosso, que é um curso tão variado, tu pode trabalhar desde saúde, tu pode não tocar em animais, mas trabalhar com saúde das pessoas e ser Médica Veterinária. Porque todos os produtos de origem animal são inspecionados por médicos veterinários, então podemos atuar em frigoríficos, em tambos de leite, até clínicas de pequenos animais. Então tu conseguir te encaixar dentro desse curso e pensar o que eu vou fazer, eu gosto de fazer e vou conseguir trabalhar? Bah, se eu for por aí, é mais difícil, não vou conseguir, ou se eu for pra tal área. Tem áreas que exigem um certo capital. Tá vou abrir uma clínica. Aí, tu tens que ter um dinheiro de saída, que no meu caso não tinha e não tenho. Então assim pra

trabalhar com clínica, porque todo mundo fala não, depois de formada tu abre a tua clínica, como se fosse uma coisa simples. Como se fosse um consultório dentário! – É simples: -abriu! É muito complicado, tem todas as questões da vigilância, de normas que tu precisas seguir, todo o material caríssimo, então depois tem toda aquela questão de criar uma clientela, você é recém saída da Universidade. A chance de você fazer coisas erradas é maior, porque você acabou de se formar, né, então, até você passar por todas as situações para aquilo criar uma bagagem de realmente saberes como é que tu vais proceder, leva um tempo. Então eu acho que a maneira como eu tentei me preparar foi realmente tentando achar os estágios na área (Anaya, Veterinária).

Os programas de extensão são a espinha dorsal na formação dos futuros profissionais, porque é no decorrer do estágio que o estudante tem a oportunidade de aliar teoria, prática, e antever a futura profissão, como se percebe na narrativa de Anaya, que buscou se integrar em estágios na área da veterinária. Alíca (Educação Especial), ao buscar estágios em sua área de formação, conseguiu em escolas, sempre no turno da tarde, justamente no horário em que deveria estar frequentando as disciplinas obrigatórias do curso de Educação Especial, em decorrência disso, mais tarde, precisou trancar o curso, pois não havia frequentado disciplinas consideradas pré-requisitos. Alíca atribui esse fato ao seu desconhecimento da estrutura e da grade curricular do curso, concluo, porém, que faltou a ela capital cultural, que o ensino superior supõe que todo estudante ingressante acumule. A colaboradora sugere que a PRAE tomasse a si a tarefa de acolher os novos calouros, de modo a aproximá-los de uma realidade estranha, completamente diferente do Ensino Médio, com alteração na relação que o estudante mantinha com o tempo, espaço e regras de saber, modalidades até então presentes na vida de todo estudante.

Coulon (2008, p. 35) argumenta que o tempo não é mais o mesmo, mudou a duração das aulas, a carga horária semanal aumentou e o ano, agora é recortado em dois semestres. O ritmo de cobrança é intenso, com provas, apresentações de trabalhos, congressos, seminários, tudo acontecendo no mesmo período. Além disso, a relação estudante – espaço, para aquele que deixou as instalações de uma escola de porte médio ou até mesmo grande, para a universidade é de profundo estranhamento. Na universidade tudo parece imenso; podendo o aluno sentir dificuldade de localizar prédios e/ou salas de aula. Odé (História) relata que ao chegar à UFSM ficou completamente deslumbrado. Segundo Coulon (2008, p. 35) as mudanças mais profundas residem na relação com as regras e com o saber. Em determinados pontos, as regras estão articuladas e o desconhecimento de uma, implica em ignorar uma série de outras. O autor salienta que além da relação das regras com o saber, o “sentido do jogo” é diferente, costumando aconselhar aos novatos “tornem-se estudantes profissionais”, não no

sentido pejorativo do termo, mas de se dedicarem, conhecerem e dominarem suas ferramentas e regras (COULON, 2008, p. 36). Assim registra Alíca (Educação Especial):

Nunca ninguém fez isso. Inclusive eu só descobri que precisava de pré- requisitos nas disciplinas quando não consegui me matricular em disciplina nenhuma. Então eu fiquei um semestre inteiro, só consegui me matricular em duas disciplinas. Foi assim que descobri. E foi assim que eu perdi minha Bolsa, inclusive, porque aí acontece de estar fazendo a bolsa aqui e consegui uma disciplina de História em Museu. Olha só onde fui parar para conseguir manter minha Bolsa e ter meu benefício socioeconômico. Eu tinha uma bolsa na PROGRAD, no Afirme. Era com o Professor Zeca Moura. Aí quando foi no 2º semestre de 2011, eu tive que largar a bolsa, porque eu não tinha mais disciplinas para fazer. Eu não tinha mais onde me matricular, e eu não ia me matricular num curso tão distante do meu, de novo, né. Eu não tinha conseguido nenhuma DCG na área da saúde. Eles são muito fechados na área da saúde pra fazer alguma coisa parecida com o meu curso. Não conseguia DCG na Pedagogia, nada. Nada na Educação Especial. Aí eu tive que largar a bolsa e perdi o benefício socioeconômico (Alíca, Educação Especial).

Quando Alíca se refere a não ter conseguido matrícula em DCG na área da saúde, era em virtude de seu interesse de aprofundar conhecimentos na Educação Especial em autismo ou alguma síndrome. No relato Alíca anuncia a perda da Bolsa que acarretou a perda do Benefício Socioeconômico – BSE, o que se traduz em perda do auxílio transporte e desconto no RU, passando a pagar o valor integral do almoço, que apesar de barato (R$ 2.50), para o cotista é mais um gasto no orçamento. Para poder continuar estudando, sem o BSE, Alíca precisou buscar um novo trabalho.

No documento Cotistas negros da UFSM e o mundo do trabalho (páginas 135-141)