• Nenhum resultado encontrado

O CAPITALISMO, “O VIVER COM” E A PERSPECTIVA DA INTEGRALIDADE

HORIZONTE METODOLÓGICO

EDUCAÇÃO E CONTEMPORANEIDADE: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOB UM NOVO OLHAR ORIGINAL

2.3 O CAPITALISMO, “O VIVER COM” E A PERSPECTIVA DA INTEGRALIDADE

O que atualmente chamamos educação é um processo consistente em acumular informações e conhecimentos, tirados dos livros, e isso qualquer um que saiba ler pode conseguir (KRISHNAMURTI, 1953, p. 15).

Estamos cônscios de que a educação na atualidade possui infinitas possibilidades, entretanto, centra atenção ainda no conteúdo e, por vezes, este não é problematizado, configurando-se como mera aquisição de conhecimento, sem sentidos mais significativos50. Este se configura como um dos pontos mais

problemáticos por nós considerado, uma vez que aparta o educando da sala de aula por não conseguir estabelecer vínculos de importância entre o que está estudando e a aplicabilidade do conteúdo. Não queremos entrar em um discurso vazio ou reducionista sobre quais conteúdos trabalhar ou coisas afins, nem estamos discutindo o processo de construção de abstração do sujeito. O que estamos trazendo a cume para discussão é o processo de construção de aprendizagem proposto pela educação formal que se debruça sobre a quantidade de conteúdo e nem sempre problematiza a qualidade deste e também, ao que se percebe, do pouco desenvolvimento (ou da inexistência) deste sistema específico de formação do indivíduo-cidadão, talvez, igualmente por isso, focalize a formação técnica e o método a ela vinculado.

50 Vocês têm professores que lhes ensinam matemática, literatura e assim por diante; mas educação é algo mais

profundo e amplo que mero acúmulo de informações. Educação é o cultivo da mente, de modo que a ação não seja egocêntrica. É aprender a derrubar durante toda a vida, os muros que a mente ergue a fim de ficar em segurança, e dos quais surge o medo com toda a sua complexidade. Para serem educados corretamente, vocês não podem ser preguiçosos, precisam estudar muito. Sejam bons nos esportes, não para derrotar um ao outro, mas por divertimento. Comam de maneira adequada e mantenham-se fisicamente em forma. Deixem a mente alerta e capaz de lidar com os problemas da vida, não como hindus, comunistas ou cristãos, mas como seres humanos. Para serem educados adequadamente, vocês precisam compreender a si próprios, precisam continuar a aprender a respeito de si mesmos. Quando alguém pára de aprender, a vida se torna feia e triste. Sem bondade e amor vocês não serão educados corretamente (KRISHNAMURTI, 2007, p. 126).

Podemos, ainda, suscitar algumas meditações: a quem interessa uma educação focada no conteúdo e na formação técnica, conteudista, pouco reflexiva? Por que em pleno século XXI estamos subordinados a esta lógica educativa centrada em ‘preencher’ o estudante51 de conteúdo? Na hodiernidade, com a internet, as

informações encontram-se de forma fácil e direta, apesar de, na maioria das vezes, ser de qualidade duvidosa. Qual o atrativo para o luzente permanecer na sala de aula frente a tantas outras distrações? Pensamos em uma educação que vá além dos conteúdos, sem negligenciá-los, mas tendo em vista que ao ser do homem cabe muito mais do que simplesmente locupletar-se de informações:

Vemos que o acúmulo de conhecimento é necessário para dirigir um automóvel e fazer coisas desse gênero. Se quiser construir uma ponte, você tem de conhecer as tensões e desgastes, bem como a qualidade do terreno. Isto é, a mente foi informada, adquiriu conhecimento e agiu a partir disso. Trata-se do eterno movimento do homem: reunir informações e conhecimentos e agir. Assim, o conhecimento é o passado. É evidente. E a partir desse conhecimento nós agimos. Estamos afirmando que há um tipo diferente de aprendizagem que não tem suas raízes no conhecido. No conhecido significa ter conhecimento e agir a partir disso. Vocês percebem a diferença? Vou explicar [...]. Há a aquisição de conhecimento e a ação a partir desse conhecimento; logo, a ação modifica o conhecimento e o conhecimento altera a ação. É isso o que fazemos o tempo inteiro; por isso, esse modo de proceder se torna rotineiro, mecânico, e nunca temos a liberdade de examinar algo que não seja conhecido, uma liberdade com relação ao conhecido a fim de observar algo que não o seja (KRISHNAMURTI, 1996, p. 97-98).

Entendemos a relevância e a imprescindibilidade do conhecimento técnico, contudo, estamos sinalizando que há mais que o acúmulo de informação e conseqüente “formação” do intelecto. É importante também constituir um processo para educar o homem, contemplando mais que suas necessidades profissionais. O profissional também precisa estar em equilíbrio e com a inteligência desperta para cumprir suas habilidades e competências de maneira ‘útil’ e harmoniosa.

51 ¿Y qué es un estudiante? ¿Es un muchacho - o una muchacha - que va a la escuela y lee unos cuantos libros

a fin de aprobar algunos exámenes? ¿O sólo es estudiante el que está aprendiendo todo el tiempo y para quien, por consiguiente, el aprender no termina jamás? Por cierto, la persona que solamente lee por encima un tema, aprueba un examen y después abandona eso, no es un estudiante. El verdadero estudiante está estudiando, aprendiendo; explorando, no sólo hasta que cumple veinte o veinticinco años, sino a lo largo de toda su vida. Ser estudiante es aprender todo el tiempo; y mientras uno está aprendiendo, no existe el maestro, ¿verdad? En el momento en que usted es estudiante, no hay nadie en particular que le esté enseñando, porque usted está aprendiendo de todas las cosas (KRISHNAMURTI, 1992, p. 22).

Nossa educação submetida aos caprichos do capital fomenta no sujeito uma dualidade sucesso X fracasso, onde o indivíduo é programado para alcançar títulos, vencer etapas que o conduzam a estabilidade econômica e esta projeção se configurará como seu sucesso profissional e pessoal. A escola é reduzida ao lugar que adestra pessoas para angariarem esta projeção. Nesta busca importa apenas conteúdos que coadunem na aquisição deste ‘sucesso’:

De acordo com a organização da sociedade atual, mandamos nossos filhos à escola para que aprendam uma técnica, com a qual possam um dia ganhar a vida. Queremos antes de tudo fazer do nosso filho um especialista, crendo que assim lhe garantimos uma segura situação econômica. Mas o cultivo de uma técnica habilita-nos a compreender a nós mesmos? (KRISHNAMURTI, 1953, p. 16)

O intuito é ir além da lógica do capital que se configura com uma perspectiva da radicalidade da proposta de transformação, oportunizando ao sujeito análises sobre o seu existir, sua caminhada e, em especial, o reflexo e as interações desta na sua vida profissional, nas palavras de Mészáros:

Limitar uma mudança educacional radical às margens corretivas interesseiras do capital significa abandonar de uma só vez, conscientemente ou não, o objetivo de uma transformação social qualitativa [...]. É por isso que é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente (2005, p. 27).

Encontramos autores que compartilham deste entendimento de apreensão de realidade sob novas perspectivas e de compreensão que a educação e, nós, educadores, carecemos de novas e efetivas transformações, não podemos continuar a fazer da educação mero meio preparatório para vestibulares, títulos e acúmulo de conhecimentos que apartados da existência e do vínculo com a realidade reduzem- se a meras informações conteudistas. Para Mészáros,

Educar não é mera transferência de conhecimentos, mas sim conscientização e testemunho de vida. É construir, libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um campo aberto de possibilidades. Esse é o sentido de se falar de uma educação para além do capital: educar para além do capital implica pensar uma sociedade para além do capital (2005, p. 13).

Educar é muito mais do que aquisição de conhecimento, é uma construção de possibilidades para o sujeito cognoscente se (re)ver e as suas práticas no mundo e

nas suas intervenções. Marx também defende a necessidade de uma prática educacional transformadora para irmos além deste estado de coisas configurado pelo capital:

A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade [...]. A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora (1991, p. 58).

Gostaríamos, reiteradamente, de esclarecer que entendemos a relevância do conteúdo para a construção de saberes, mas o que estamos questionando e sugerindo é se poderíamos acrescentar algo a este processo como agente sedutor do luzente, assim como uma educação que discutisse questões concernentes a sua existência, como uma maneira de trazê-lo para novas possibilidades e reflexões?

Com efeito, o intuito é fazer pensar para que não confundamos processo formador intelectual com acúmulo de informações que nos apartam de nós mesmos, gerando concepções prontas, fechadas, acerca da realidade, da existência, propagando verdades quase irretorquíveis. A informação técnica é importante para produzir conhecimento, entretanto, julgamos salutar trazer a cume algumas questões como, por exemplo, a possibilidade de fomentar a arrogância por deter o conhecimento, a constituição do desrespeito à alteridade pela presunção do conhecimento, suscitando o menosprezo ao outro por sua suposta ignorância, tal condição pode se instituir como realidade, uma vez que o cultivo do saber apenas sem outras vertentes axiológicas pode tornar-nos seres frios e vaidosos. Ademais, tais coisas confluem para nos distanciar do ser complexo que somos e de todas as questões daí engendráveis, bem como habilitar ao uso da verdade absoluta o qual pode gerar conflitos de toda ordem.

Efetivamente, de forma sucinta, poderíamos asseverar que da maneira como está posta a educação mais parece ocupar-se do processo formador do sujeito cognoscente, sugerindo fazer apenas o necessário para a aquisição de conhecimento técnico. Carecemos de uma educação que propicie uma formação

além do básico, para além do estabelecido pelas padronizações dominantes, precisamos de uma educação que contemple a totalidade que é o ente humano e as especificidades que tal reconhecimento requer. O que sustentamos é uma educação que vá além da técnica e das necessidades impostas pelo mundo do trabalho, mas uma educação que nos forneça seres humanos para produzir, relacionar-se e sair do conflito existencial que nos parece hoje, neste contexto, como normalidade normativa. Com efeito, a educação correta não descurando do cultivo da técnica, deve realizar algo de importância maior e que consiste em levar o homem a experimentar o processo integral da vida. Tal experiência colocará a capacidade e a técnica nos seus devidos lugares (KRISHNAMURTI, 1953, p. 19).

Intentamos, deste modo, apenas discutir educação além do esperado, do já concebido, do já refletido, do simplesmente pensado pela racionalidade formante, intentamos uma racionalidade (ratio) patológica (pathos) libertante (libertas) do psiquismo (psyche) subjetivo do ser-sendo humanidade fundante do existir enquanto plena possibilidade de ser.

CAPÍTULO III

REFLEXÕES ACERCA DO SENTIDO E SIGNIFICADO DE EDUCAÇÃO