II. FAUSTO E POMPA INSTALAM-SE NO ESTORIL: 1929-
5. Inaugurações estivais e Hotelaria (1930-1931) 1 O Hotel Palácio e as Arcadas do Parque
5.3. O Casino do Estoril e o Jogo concessionado
A dualidade do Jogo tem por base o conflito intemporal entre as questões moral e económica inerentes: se, por um lado, o maior risco se chama «vício», por outro, o maior trunfo denomina-se «lucro», e a natureza humana sempre foi afoita à aposta, deva-se esta a questões lúdicas ou a acirrada competitividade entre egos. Este era um tópico delicado para a sociedade europeia desde o final de Oitocentos, tomando como exemplo a oposição do Bispo de Gibraltar463 e da Rainha Vitória perante a prosperidade do Mónaco, após a abertura, na década de 1860, do Casino de Monte Carlo, por François Blanc. Por outro lado, os espaços de Jogo cativavam pela novidade que significavam as salas e os equipamentos cheios de apelos sensoriais, pois “the tables fascinated even those who didn’t bet; they became a tourist attraction themselves”464. Desde finais do século XIX que o Jogo era prática social comum em Cascais; em 1906, o ministro Hintze Ribeiro suprimi-lo-ia, apesar de veementes protestos. Os apoiantes da decisão também se manifestariam, caso de Norberto Teixeira que, em conferências no
459
Laivos de superioridade cultural são perceptíveis na constatação do autor de que a composição que observara detinha a indicação de Made in Birmingham. Cf.John Gibbons, Op. Cit., p.170.
460 M.F. Smithes – Things Seen in Portugal, London, Seely Service & co. Limited, 1931, p.53. 461 Paulo Pina, Op. Cit., p.63.
462
Indústria Portuguesa, Outubro de 1933, p.39.
463 Julian Hale – The French Riviera: A Cultural History, Oxford, Signal Books, 2009, pp.39-40. 464
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Atheneu Comercial do Porto, definiu o Jogo como “um dos vícios mais ruinosos que os
homens teem cultivado desde a mais remota antiguidade… este verdadeiro cancro, um dos que mais tem corrompido a humanidade.”465
Na brochura de Figueiredo indicava-se a construção de um casino com salas para a prática de esgrima, bilhar, dança, e peças de teatro466; em suma, um espaço dedicado a actividades de lazer. Subtilmente, nos parágrafos seguintes hipotetizava-se a possibilidade de o Jogo ser regulamentado, podendo, num futuro próximo, ser praticado, de forma legal, na estância pensada, embora não fosse esse o “objecto do plano de transformação do Estoril que n’este momento nos ocupa.467” Mas Figueiredo não recuaria, sugerindo até que, a concretizar-se, “o jogo, arrendado no Estoril de hoje, daria uma determinada verba; no futuro Estoril essa receita será pelo menos triplicada.468” De facto, Maxine Feiferdefende ter sido o Mónaco469 a primeira nação a resolver os seus problemas económicos através de essa actividade. Certo é que, a 16 de Janeiro de 1916 iniciar-se-ia o Casino e, entre outras, a pompa do momento contou com a colaboração da banda de música da Sociedade Musical de Cascais (SMC), a quem Figueiredo oferecera fardamentos anos antes.470
Em 1927 a ditadura militar definiria a Lei do Jogo471 pelo decreto nº14:643 de 3 de Dezembro, após a proibição imposta durante a Monarquia. Criar-se-iam então duas zonas permanentes (Estoris e Madeira) e seis temporárias (artigo 3º); as primeiras teriam permissão para explorar Jogos de fortuna ou azar durante todo o ano, ao invés da
465
Norberto Teixeira (ed.) – O Projecto de Lei sobre a Regulamentação do Jogo em Portugal: os Perigos
do Jogo de Roleta, Porto, 1909, p.7.
466
Estoril, Estação Marítima, s/p..
467
Idem.
468
Ibidem. Em 1934 Figueiredo afirmaria que o Jogo lhe desagradava, mas, pragmaticamente, “é utopia
pensar-se no desenvolvimento do turismo em Portugal sem a exploração do jogo, devidamente regulamentada.” Cf. O Século, 14 de Dezembro de 1934, p.2.
469
Maxine Feifer – Tourism in History: From Imperial Rome to the Present, New York, Stein and Dey, 1986, p.206.
470
Manuel Eugénio Fernandes da Silva – Sociedade Musical de Cascais, 92 anos ao Serviço da Arte e da
Cultura Popular, Cascais, Sociedade Musical de Cascais, 2006, p.13. Fundada a 11 de Maio de 1915 a
SMC teve como primeiro líder António Augusto Rodrigues; a 23 de Fevereiro de 1930 ser-lhe-ia cedida, por José Nunes Ereira, sede em prédio na Praça Costa Pinto. A SMC levava ao palco do Teatro Gil Vicente peças várias, organizava merendas no pinhal da Marinha, bailes na sede e participava nos corsos de Carnaval, concorrendo com carros alegóricos.
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Que não reuniu consenso, ao ponto do picaresco opinativo ser impresso, em finais de 1929, em periódico local dirigido pelo médico Alberto Madureira. Nele se apresentava uma entrevista onírica a Fausto Figueiredo, onde este reconhecia o autoritarismo, os maus conselheiros e o peso na consciência sobre o futuro, admitindo: “eu ouço os meus filhos lá ao longe, pela vida fóra, a dizerem-me que o dinheiro da batota lhes queima as mãos, que o nome que herdaram da exploração de um vício que incita aos crimes os vexa e envergonha!”. Cf. Jornal de Cascaes, 1 de Dezembro de 1929, p.2. Note-se a quase alusão ao Mito de Fausto e à venda alma, neste caso, ao Jogo, em troca do sucesso da estância.
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sazonalidade imposta às segundas, e, excepto nas cidades do Funchal e da Figueira da Foz, não era permitida a exploração do Jogo em tecido urbano, por isso o casino no concelho de Cascais devia ser erguido a Oeste de São João do Estoril. A exploração do Jogo permanente seria adjudicada por um período de 30 anos (artigo 15º). Enquanto o artigo 26º defendia que os casinos das zonas permanentes teriam de ser sumptuosos, o artigo único seguinte definia que a zona em causa deveria ter um hotel de tipo Palace, incluindo áreas interiores para actividades múltiplas de lazer. Por outro lado, o artigo 30º era peremptório nos prazos em que casinos e hotéis das zonas permanentes de Jogo teriam de estar prontos: cinco anos para os casinos e três anos para os hotéis. O decreto definia ainda condicionamentos, boas práticas e impostos que os concessionários pagariam ao Estado. Quanto ao último ponto, o artigo 50º estipulava a percentagem da receita a dividir entre: modalidades de assistência pública, câmaras municipais do concelho e das regiões de turismo, acessos rodoviários a estas áreas e o próprio Estado.
Aberto concurso para a adjudicação do exclusivo do Jogo por aviso publicado no
Diário do Governo de 17 de Abril de 1928, dois meses depois seria o mesmo canal
oficial a divulgar a «Acta do contrato entre o Governo e a Estoril Plage»472 e, nos seguintes, vários seriam os diplomas complementares relativos à repressão do Jogo ilegal e à nomeação de fiscais para as zonas autorizadas. Quanto à orgânica institucional do Turismo, em Portugal, desde 1911 que a actividade era coordenada pelo Conselho de Turismo, coadjuvado pela Repartição de Turismo473. Contudo, a publicação da Lei do Jogo de 1927 deu origem à renomeação da última em Repartição de Jogos e Turismo (RJT)474, então subjugada ao CNT, o qual dependia directamente do MI. Não estando, à data de início da concessão (1 de Julho de 1928), terminado o Casino do Estoril, a SEP firmaria acordo com a SAI, gestora do Casino Internacional do Monte e, para demarcar- se das práticas agora ilícitas, o concessionário divulgaria anúncios nos Media onde se lia: “COSTA DO SOL Jogos autorisados por concessão do Govêrno, no Casino Internacional do Monte Estoril durante todo o ano”475. Em Agosto de 1931, outro decreto subordinaria as disputas das concessionárias aos tribunais, sendo que a maioria dos elementos dos conselhos de administração deveriam ser cidadãos portugueses.476
472 Cf. Diário do Governo, II Série, nº147, de 29 de Junho de 1928. 473Paulo Pina, Op. Cit, p.17.
474 Licínio Cunha – Economia e Política do Turismo, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 2006, p.80. 475
Diário de Lisboa, 4 de Janeiro de 1930, p.2.
476
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Obedecendo aos preceitos legislados, em 1930 inaugurar-se-ia o Hotel Palácio e, um ano depois, abriria ao público o Casino do Estoril477. Na edição de 15 de Agosto de 1931 o Diário de Lisboaanunciaria a inauguração do espaço, informando que as receitas da festa reverteriam a favor da Assistência Nacional aos Tuberculosos478, numa manobra subtil para aplacar os que apelidavam de antros de degradação moral tais locais de convívio479. Por seu turno, o Notícias da Costa do Sol listou o programa de abertura, o qual começou no salão-restaurante com o jantar de gala e o espectáculo de variedades com a bailarina Rosita, de Espanha, e os bailarinos modernos Jim e Dolly Oko; na sala de espectáculos fruiu-se o concerto de Paulo Manso, a récita de versos de João Penha e Júlio Dantas, por Erico Braga, e a encenação da peça «Serão Romântico» pela Companhia Teatral Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro480. Quanto aos ilustres presentes, notícias contraditórias eram facultadas quanto à estada (ou não) do Duque de Westminster e de Winston Churchill na Costa do Sol481. Desde cedo o Casino do Estoril conceberia outdoors promocionais onde exibia a legalização na frase «Jogos autorisados pelo Governo» (vide Anexo VI), bem como organizaria inúmeras actividades lúdicas, pois, como recorda Paulo Pereira, “nos anos 30 os casinos vinham substituir os clubes nocturnos, extintos pela legislação oficial que, desde 1927, regulamentava o jogo.482” O autor revela que a imprensa ficara maravilhada com as linhas Art Déco impressas por Raoul Jourde à estrutura de gosto europeu, cujas mobílias (mesas, cadeiras e barfornecidos pelos Armazéns Nascimento do Porto), impressionavam pelo recurso a materiais como couro, vidro e tubo cromado. Para Raquel Henriques da Silva, “a principal «vantagem» do ponto de vista artístico do atraso na realização das obras foi a modernização que Jourde lhes introduziu.”483
477
Não sem antes ter sido publicado no jornal O Figueirense, da Figueira da Foz, artigo que falava de despedimentos devido a dificuldades financeiras da construtora. O boato seria esclarecido pel’O Estoril que ironizaria ser o primeiro a informar o congénere sobre a inauguração que, em breve, teria lugar. Cf. O
Estoril, 22 de Fevereiro de 1931, p.3.
478
Diário de Lisboa, 15 de Agosto de 1931, p.4.
479
Outras festas organizadas no Casino e cujo produto reverteu para a Misericórdia de Cascais decorreram em Março e Outubro de 1933. Cf. Diário da Manhã, 21 de Março de 1933, p.4 e Diário de
Lisboa, 4 de Outubro de 1933, p.13, respectivamente.
480
Notícias da Costa do Sol, 22 de Agosto de 1933, p.3.
481
Enquanto o Notícias da Costa do Sol afirmava as presenças (edição de 22 de Agosto, p.4), o Diário de
Lisboa duvidava (19 de Agosto, p.4).
482 Paulo Pereira, Op. Cit., p.469. 483
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Além do Jogo, o Casino do Estoril assegurava chás dançantes, concertos, sessões de cinema e festas cíclicas484 associadas ao final do ano (ceias de Natal e bailes cotillon no réveillon), Carnaval485 (com destaque para matinés infantis). Inaugurado a meio de Agosto de 1931, o espaço acolheria, a 20 do corrente, a «Eleição da rainha das costureiras de Portugal», iniciativa do Diário de Lisboa486 e, no mês seguinte, os delegados do Congresso da Crítica. Em Setembro de 1932 teria lugar o «1º Salão do Estoril» graças a Augusto Pina e à Sociedade Nacional de Belas Artes: entre telas e esculturas, contavam-se criadores como Carlos Reis, Roque Gameiro, Dórdio Gomes, Jorge Barradas, Carlos Bonvalot e Fred Kradolfer487. Ciente do sucesso do Casino, a direcção criaria um dancing488 no terraço, o que atrairia clientes nas noites de Verão489. A nível musical, o menu oferecido ao frequentador do espaço polivalente em causa era igualmente variado, como se depreende: (1) pela apresentação de músicos americanos de Jazz como Willie Lewis490; (2) pelos concertos ao jantar tocados pela orquestra do Maestro Fabre491; (3) pelos concertos do trio Paulo Manso492; (4) pelas actuações de tenores como o russo Constantin Sadko493 ou de barítonos como o brasileiro Paulo Amorim494; (5) pelo «Trio Beethoven» apresentado pelo Professor Viana da Mota.495
O cariz internacionalista dos programas anuais incluía a presença de companhias como a alemã Deutsche Ausland-Gastspiele496 ou o grupo teatral amador da colónia
484
Uma das noites temáticas era dedicada a Santo Humberto (Saint Hubert), patrono dos caçadores, cuja época começava a 1 de Setembro. Cf. Diário de Lisboa, 14 de Novembro de 1932, p.8.
485
A partir do Carnaval de 1932 seria prática comum a realização de Batalhas de Flores e confettis no Parque Estoril.Cf. Idem, 6 de Fevereiro de 1932, p.8. No ano seguinte, O Dever publicou um artigo contundente após a direcção do Casino ter preferido contratar pessoas impróprias a preços reduzidos (entre 80$00 e 100$00 diários) ao Cardoso («O Minhoca»), após a Associação da Classe dos Empregados na Indústria Hoteleira ter enviado a tabela solicitada quanto a profissionais reconhecidos, mas que custariam 120$00/dia. O articulista lastimava a atitude do Casino e recordava o pandemónio do serviço realizado aos clientes foliões. Cf. O Dever, 10 de Março de 1933, p.3.
486
Nomeação ocorrida a 20 de Agosto e que nos recorda Beatriz Costa e o seu papel de actriz-cantora no primeiro filme sonoro português, A Canção de Lisboa, de 1933.
487
Diário de Lisboa, 25 de Setembro de 1932, p.8. No ano seguinte seria organizado o «II Salão do
Estoril». Cf. O Estoril 27 de Agosto de 1933, p.4. Adisparidade de numeração advém das fontes.
488
Werner Sundmaker era o instrutor de dança do Casino, conhecido por ensinar o «Estilo Inglês», cujas virtudes assentavam no treino de todos os músculos. Cf. Idem, 10 de Setembro de 1933, p.4.
489
Ibidem, 19 de Novembro de 1933, p.4.
490
Hélder Bruno de Jesus Redes Martins – Jazz em Portugal (1920-1950), Anúncio-Emergência-
Afirmação, Coimbra, Edições Almedina, 2006, p.75.
491
Diário de Lisboa, 22 de Abril de 1932, p.3.
492
Formado pelo violinista Manso, o violoncelista Fernando Costa e o pianista Doria Menssier. Cf. Idem, 11 de Dezembro de 1932, p.4. Esta era a orquestra residente do Salão de Jantar do Hotel Palácio. Cf. O
Século, 30 de Setembro de 1934, p.10.
493
Idem, 25 de Janeiro de 1933, p.3.
494
Diário da Manhã, 22 de Março de 1933, p.9.
495
O Estoril, 10 de Setembro de 1933, p.1.
496
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inglesa do Porto497. Também se preparavam eventos de cariz patriótico de vertente turística e colonial498 ou de vertente cultural e regional499. A que se deveu esta longa apresentação do cartaz de animação do Casino? À necessidade de contestar a afirmação que a edição comemorativa dos 50 anos da Estoril-Sol apresenta de que só aquando da sua implantação no Estoril, para a gestão do Casino, “a aposta na cultura tem sido pioneira e está reflectida em inúmeros eventos promovidos pelo Casino [da Estoril-Sol]. Não é impunemente que este é o maior casino da Europa.500” Os mercados-alvo podem ter sido diversificados na sequência da democratização das práticas turísticas no pós- Guerra, mas já anteriormente a oferta era de fôlego diverso. Cumpre recordar como, em 1933, o teatro popular zombava das práticas snobs de espaços como o Tamariz ou o Bar Americano do Casino e, para tal, recorremos à revista A Cascais uma vez… ou Mais501, peça destinada ao Teatro Gil Vicente. No oitavo quadro a plateia era transportada a um bar/cabaret de luzes encarnadas, onde Satanás seria o bartender que servia como especialidade da casa, o «Cocktail Infernal», cantando-se os seguintes versos:
Cocktail
é bebida infernal estranha original está na moda faz furor. Cocktail
mistura sem sentido de gosto confundido na confusão está o valor. Bem sentido
497
Que representaria a peça em três actosThe Middle Watch. Cf. Idem, 5 de Abril de 1933, p.3. Tratava-se de um romance ligado à Marinha, escrito em 1931 e da autoria de Ian May e Stephen King-Hall, que The
Oporto Repertory Company exibiria. Cfr.ANTT/SNI/DGSE, proc.982.
498
Em Março de 1933, a SPCS e a Agência Geral das Colónias fomentariam uma palestra por António Eça de Queiroz (futuro membro do SPN) e o visionamento de filmes sobre as colónias. Cf. Diário da
Manhã, 2 de Março de 1933, p.5.
499
«A Noite das Canções e Dansas Regionais de Portugal» apresentou artistas e exemplos da herança etnográfica e do património imaterial nacionais aos diversos clientes do Casino, no Verão de 1933. Cf.
Diário de Lisboa, 22 de Novembro de 1933, p.2.
500 Estoril-Sol (ed.) – Uma História, 50 Anos Estoril-Sol: 1958-2008, Estoril, 2007, p.54. 501
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bem mexido
só para que melhor fique não percebem
o que bebem
mas gosta-se porque é chique.502
Para melhor entender-se o local de implantação do primevo Casino recorra-se ao «Estudo urbanístico da zona do novo Casino do Estoril»503, de 2 de Janeiro de 1964, do arquitecto Filipe Nobre de Figueiredo. Na planta de conjunto impressa a cartolina azul nota-se que o primitivo edifício se situava no parque de estacionamento a Norte do actual, sendo que o erguido pela Estoril-Sol504 absorveria a esplanada do dancing. Inaugurada a nova casa do Jogo em 1968, no ano seguinte Correia de Morais publicaria um conjunto de crónicas, numa das quais reflectia, saudosista, sobre o arrasado Casino faustino, admitindo que “o Velho Casino era um mamarracho… chamávamos-lhe «O Tasco», mas tínhamos por ele uma certa ternura”505. A questão do Jogo ilegal daria azo a queixas, como revela carta de 26 de Setembro de 1932506 endereçada pelo administrador-geral da SEP a Araújo Correia, chefe do gabinete do ministro do Interior. A esta seriam anexadas a carta remetida pela Sociedade à Caixa Nacional de Crédito, a 20 de Setembro, e ofícios enviados ao Chefe de Gabinete do ministro do Interior e ao Presidente do Conselho Administrativo de Jogos, “reclamando contra o facto de, com grave prejuízo das Emprezas Concessionárias e desrespeito das condições de escritura de concessão, se estarem jogando em vários locais de Lisboa e da província jogo de fortuna ou azar.507” No seu desagrado o queixoso debatia-se sobre os prejuízos das concessionárias, as quais pagavam pesados encargos ao Estado, pelo que “não é justo que seja o próprio Govêrno a dificultar pela inobservância das condições de concessão que nos foi por ele adjudicada.508” Se a SEP assumira responsabilidades perante a CGDCP, o Estado deveria também zelar pelos interesses de quem seguia a lei. Para uma ideia dos valores revertidos para o Estado, observe-se oseguinte quadro:
502 ANTT/SNI/DGSE, proc.101 [folha 20].
503 ANTT/AOS/CO/OP-10, cx.848, pt.17 [folha 208].
504 A concessão de alvará competia ao Estado e o contrato celebrado com a SEP terminaria em 1957. 505 Correia de Morais (ed.) – Crónicas da Costa do Sol, s/l, 1969, p.14.
506 ANTT/MI/GM, mç. 462, pt 19/11. 507
Idem.
508
90
1928 1929 1930 1931 1932 1933
458.388$80 894.954$00 1.017.120$75 1.019.010$30 1.494.930$19,5 511.656$05 Quadro 14 – Valores dos impostos pagos ao Estado (1928-1933).509
(Fonte: ANTT/AOS/CO/FI-5, pt.18 [folha 524])
Em suma, entre 1 de Julho de 1928 e 26 de Março de 1933, em avenças, fiscalização e renda fixa, foi entregue ao Estado pela SAI510 o valor de 5.396.060$09,5. O documento acedido revela ainda que, a este valor, se deveria acrescentar uma média anual “de 200 contos em impostos.511” Se até então o Jogo se cingia a apostas em cartas ou roleta, a 16 de Setembro de 1933 o decreto nº23:028 legalizaria as apostas em corridas de galgos. Meses antes O Estoril referia ser antiga a ideia de erguer-se um estádio no Parque e o rumor de um grupo estrangeiro ter pedido a adjudicação e o exclusivo da corrida de galgos.512