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PARTE 2 ANÁLISE DAS OBRAS: FAMÍLIAS TERRIVELMENTE FELIZES

1. Uma mulher, dois tratamentos

1.1. O casulo protector da mãe

Na maioria dos contos de Aquino, a figura da mãe está sempre presente ou é mencionada pelas personagens, sobretudo as masculinas. Poder-se-ia concluir que ela assume uma relevância especial na família e constitui o pilar da estrutura familiar. Porém, o lugar de destaque dado às mães de família é ilusório e, na verdade, constitui mais um modo de demonstrar a fragilidade feminina, também no seu nobre papel de mãe. Como mãe, a mulher caracteriza-se pela fraca densidade psicológica de personagem plana e mantém a subalternidade que a transforma num eterno bicho-da-seda. A maioria das mães não tem nome próprio. É pertença de alguém. Ela é a mãe do narrador, em «Onze jantares», em «A família no espelho da sala», em «Visita» (ibid., 2003); em «Matadouro» e em «Novas cartas paraguaias» (ibid., 1999). É a mãe presente de diversas personagens, ainda que, por vezes, seja apenas aludida. Mãe de uma menina morta que se «se estivesse viva…teria um par de seios tristes igual ao da mãe» em «Jogos iniciais» (Aquino, 2003:51); mãe da «menina loira», cuja vida sentimental a menina relata ingenuamente ao pai numa tarde de sábado destinada à sua companhia, em «Cicatriz»; mãe de Boi, no conto com o mesmo nome: Boi «sonhou com a mãe» (ibid.: 192) que nunca conheceu; mãe do chefe do gang de «A face esquerda»: «Damião (…) era um homem de gestos amplos, dramáticos, mas estava amuado, triste. Havia enterrado a mãe no dia anterior» (ibid.: 199); mãe da acompanhante do narrador que, num quarto de hotel, fala sobre o seu pai, apenas para dizer que ele «espancava a mãe todos os dias», no conto ao «Ao lado do fogo» (ibid.: 223); mãe do guerrilheiro paraguaio, Hector Medina, que visitou a mãe que morava no «interior» «num vilarejo na beira do rio Apa» (Aquino, 1999:47), ainda que fosse apenas para ter um álibi na data do assassinato de Somoza, em «Novas cartas paraguaias».

Não são conhecidas as características físicas da mãe. A idade, quando é aflorada, constitui um termo comparativo sempre em relação ao homem («mais nova», «mais velha»), ou a idade do homem em relação à mulher («mais novo», «mais velho»). Ela é protegida, intocável.

Nas famílias dos contos «A família no espelho da sala» (Aquino, 2003:33), «Visita» (ibid.: 99) e «Sábado» (ibid.: 85), a mãe é também esposa dedicada, cumprindo o papel de submissão ao marido dominador, que apoia, com uma cumplicidade estratégica, para manter o equilíbrio e a harmonia familiares. Em «A família no espelho da sala», até os

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carinhos eram ponderados em função dos do marido: «ele era avarento nos carinhos e ela cuidadosa» (ibid.: 33). Consciente ou inconscientemente, a mulher é cúmplice, ou vítima do silêncio e do medo que lhe cala a vontade de viver. «A vida trapaceou com eles» e sobretudo com ela que «apenas dava conselhos» (ibid.: 38), numa atitude passiva, sem se opor, sem intervir, de tal modo que o narrador, o filho, só se lembra «de uma vez em que os dois discutiram» (ibid.: 38). A mãe cala-se e reparte-se entre o papel de mãe de família e de esposa que se submete à vontade do marido, e até a sua confunde com a dele:

Não tinham planos, desejos, vontades ou sonhos. Essas coisas pequenas que não têm importância. Ou têm? Acho que ninguém parou para pensar nisso. Ou se parou, preferiu ficar quieto. (ibid.: 36)

A mãe silencia-se e aniquila-se, como pessoa, em detrimento do bem-estar e da ordem familiar. A mãe do narrador, em «Visita», limita-se a chorar e a gritar perante a brutalidade com que um dos filhos trata a própria irmã. A mãe representa, ainda que num pequeno e quase imperceptível pedaço da história, a inconsciente felicidade do seu tradicional e doméstico lugar na cozinha e na família: «cantarolando, preparava o almoço» (ibid.: 100). A mãe no conto «Sábado» obedece a um padrão ligeiramente diferente. Tem nome, mas um nome apenas para ser gritado pelo marido: «Olga!». Tal como as anteriores, ela cumpre apenas um papel na família: o de dona de casa, e de mãe extremosa com os filhos e com o marido. Antes de dar a sua opinião sobre o namorado «mulato» da filha, adivinha a do marido e enceta uma conversa que servirá apenas para confirmar as suas suspeitas e para confirmar a prepotência e o racismo latente do marido, bem como a inutilidade da opinião da mulher, cujos argumentos caem inevitavelmente no saco roto do típico patriarca preconceituoso.

A mãe, esposa que, por qualquer circunstância, separação, ou viuvez, perde o companheiro, resvala na vida, ou perece como mulher, anulando-se como ser humano, vagueando por uma existência seca de sentido como um ramo separado do tronco. A ideologia que conduziu o pai do narrador de «Onze jantares» ao exílio e à morte também atingiu a mãe. Esta, entre o filho, escritor e celibatário, e a filha casada, «preferiu ir morar com» (ibid.: 27) a segunda e refugiar-se na segurança que o casamento da filha lhe poderia proporcionar. Helena, a irmã mais velha do narrador de «A família no espelho da sala», depois do divórcio regressa à casa paterna e envereda levianamente por uma vida de

relações livres, fechando a porta a compromissos sérios. O suicídio terá sido a solução para duas mulheres que terão sentido o abandono ou a traição iminentes, em «A casa» (Aquino, 2003) e em «Pai» (Aquino, 1999). A mãe do narrador em «Novas cartas paraguaias» (1999) foi uma vítima indirecta da guerrilha da América Latina. Morto o pai, a família ficou na miséria, e a mãe «morreu de tanto beber» (Aquino, 1999: 50). Ester, a mulher de Bob Mendes, depois de acabado o casamento, deambulou pelos recantos tristes do amor e «andou com uns caras aí. Nada que durasse» (ibid.: 79). «Matadouro» é o título do conto que pôs fim às ilusões da mãe do narrador. Trocada por um homem, vai saltando de parceiro em parceiro, («era o terceiro homem diferente que eu encontrava em casa depois da morte do meu pai» [ibid.: 95]) até se conformar com uma vida ao lado de um homem que não respeita os seus sentimentos, que a maltrata, que a aprisiona, proibindo-a até de acompanhar o pai do filho à sua última morada. Ilusões roubadas e sepultadas numa aliança já sem anelar, ocultas na negação de um abraço do filho, acompanham a mãe do narrador pelo trilho da vida, possuindo como bem apenas «um sorriso triste». Outra mulher se oculta, neste conto, atrás da cegueira, sua e alheia: a mãe de Ezequiel, o companheiro do pai do narrador. Apesar da cegueira física, conseguiu recordar as marcas das feições do rosto do companheiro do filho e compará-las com as do filho dele: «“Você é muito diferente do seu pai”» (ibid.:98). Talvez tivesse enxergado mais do que dissemelhanças físicas, poderia até ter adivinhado as diferenças de carácter gravadas nas suas almas.