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3. RELIGIÕES CRISTÃS NO BRASIL: MOVIMENTOS ATUAIS

3.1 O catolicismo brasileiro: características atuais

A religião é um fenômeno cultural, expressado pela fé e adoração de uma ou mais divindades, espalhadas por todo o mundo. Além disso, faz parte de um complexo campo no qual engloba várias outras ciências do estudo social e humano, por tudo que representa e proporciona.

No Brasil, o fenômeno religioso existe desde a presença dos índios em nosso território, com todos os seus rituais e crenças de cunho peculiar. Mas, é fortemente marcada pela influência europeia, devido ao processo de colonização vigente por um longo período de sua história e que difundiu a religião cristã, em maior proporção de cunho católico (ROSENDAHL, 2003).

Em todo o país, a religião de presunção católica é influenciada principalmente pelos portugueses que aqui primeiro chegaram. Mais que, ao longo do tempo, vai abranger marcas de outras nacionalidades e seus respectivos valores e costumes ligados ao fenômeno da religião (ROSENDAHL, 2003). Um forte fator está atrelado a esse contexto envolvendo a religião no aspecto histórico e geográfico do Brasil, que é a sua dimensão política. Pois, aqui, a prioridade era a expansão colonial e depois a missão evangelizadora, seguindo caminho diferente ao europeu, como discutem Rosendahl e Correa (2003).

Ao mesmo tempo, o catolicismo brasileiro ao longo dos anos possui uma forte particularidade e certa irregularidade em seus modos. Os devotos, em sua maioria, por não serem fiéis as regras do modo universal da vertente, apresentam uma originalidade na maneira de ser, quebrando paradigmas instituídas pelo próprio Vaticano. Desse modo, destaca-se no catolicismo do país uma forte influência política e econômica em suas vertentes regionais, conforme debate Azevedo (2002).

Nesse sentido, o catolicismo no Brasil mostra um certo dinamismo quanto à sua atuação e um crescimento da sua estrutura eclesiástica. Ocorrendo toda uma cadeia cronológica e de expansão em sua história, além dos laços identitários e ações sociais atreladas (AZEVEDO, 2002). Porém, as seguidas transformações no mundo e

sua modernidade acelerada possibilitaram novas adaptações e mudanças que deram mais pluralidade religiosa, como também novas características atuais da vertente católica brasileira (AZEVEDO, 2002).

Por exemplo, diferentemente do protestante que apresenta um campo mais diversificado e amplo dentro de sua própria vertente, de forma descentralizada e onde é preciso participar ativamente para tal afirmação, o católico pode muito bem

“participar sem ser” ou participar ao seu modo, num quadro amplo e plural de maneiras de exercer sua vinculação e práticas católicas, conforme afirma Teixeira (2005).

Tal contexto permite inferir que ocorre um profundo processo de ressignificação e modificações na comunidade católica no Brasil, haja visto os últimos censos realizados pelo IBGE, em que evidenciam o aumento dos devotos evangélicos, outras religiões e sem religião, acarretando em uma nova dinâmica e maneira católica de agir na atualidade.

Nesse caminho, a vertente católica é colocada como “doador universal” para outras religiões, no qual tornou-se o principal celeiro em que outras denominações cristãs ganham adeptos, num processo de crescimento da pluralidade religiosa, fazendo surgir novos cenários.

Tal concepção, leva Texeira (2005) a afirmar que o Brasil vem apostando na reinstutialização ou recatolização, por meio de um processo de campanhas bem precisas na linha de uma melhor internalização dos valores religiosos instituídos. Ou seja, uma renovação dos valores identitários católicos: “Pode-se registrar o atual projeto nacional de evangelização promovida pela CNBB, “Queremos ver Jesus”, que busca traduzir na prática as diretrizes da ação evangelizadora da igreja no Brasil”

(TEXEIRA, 2005, p.19).

Para esse autor, hoje, no Brasil, há várias malhas do catolicismo, como o tradicional, santorial ligado aos santos e a tradição histórica, o universal, oficial e, por fim, o midiático, ligado às ações na área da comunicação, principalmente a TV na busca de adesão de fiéis (TEXEIRA, 2005).

Diante de tais fatos e abordagens sobre o catolicismo na atualidade, a de se concordar que devido as consequentes mudanças e novos cenários, principalmente

frente ao avanço tecnológico, essa vertente hegemônica e tradicional no cenário nacional vem, nessa perspectiva que propõe Texeira (2005), de agregar o fiel mais devoto e tradicional, como também, ao devoto mais ligado a essa modernidade.

No tocante a questão envolvendo os meios de comunicação e seu uso, é visto o aumento de canais católicos, a citar: TV Aparecida, TV Canção Nova, TV Rede Vida, TV Século 21, TV Evangelizar, TV Nazaré Católica, TVSC e TV Vaticano. Ao mesmo tempo, muitas dessas emissoras apresentam uma programação que conta com a presença de nomes consagrados do catolicismo brasileiro, a citar, por exemplo, figuras como os Padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que são dois representantes do clero que se encontram dentro de grupo de difundir a fé pelos meios de comunicação em massa.

Por exemplo, no contexto da pandemia da COVID-19, houve uma forte adesão a um processo de inserção as atividades religiosas da Igreja Católica nas redes sociais. Na Arquidiocese de Natal pudemos observar a realização de missas seja a realizadas semanalmente ou as existentes dentro do calendário católico, mantendo a aproximação com o fiel por meio do Facebook, Instagram, Youtube e site oficial da arquidiocese. A Figura 1, a seguir, traz as capas de algumas dessas redes sociais e um momento de missa sendo transmitida de maneira online no formato das lives aqui mencionadas.

Figura 1 – Atuação da Arquidiocese de Natal nas redes sociais

Fonte: Arquidiocese de Natal.

Nesse sentido, as expressivas bandeiras católicas atreladas às ações de cunho sociais também vão ganhando novas dimensões. Por exemplo, é importante destacar que a programação dessas emissoras se encontra em diversas plataformas, que vão desde a canais de TV, emissoras de rádio a diversos aplicativos e redes sociais. Isso faz com que além de grupos de fiéis mais tradicionais, essas novas formas de comunicação possibilitam o engajamento e envolvimento de jovens, ligando a religião e a música, por exemplo, o que possibilita construir caminhos para novos passos existentes dentro da própria igreja de cunho tradicional e identitário.

Mesmo assim, outras linhas de pensamento e estudiosos da temática, como o participativa e comunicadora, utilizando-se da relevância das pastorais sociais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBS).

Outro fator que tem levado a constantes debates em torno da dinâmica católica atual, e indo de encontro a linha estudada por Souza (2004), é o problema de adequação e resposta da instituição aos desafios da evangelização ou da falta de vocações ministeriais para atender as demandas religiosas do povo.

Levando em consideração que há uma passagem grande de gerações e novas maneiras de existência na sociedade brasileira e mundial, onde a religião não fica de fora, há um forte processo de enfraquecimento da relação entre a Igreja Católica e o catolicismo popular. Também, a questão de gênero, não inserida de forma efetiva até hoje, mostra a dificuldade em possibilitar um maior envolvimento e inserção de mulheres nas mesmas funções destinadas apenas para homens (STEIL E TONIOL, 2013).

Um dado que chama atenção é o referente ao aumento das paróquias e sacerdotes, atrelado, ao mesmo tempo, da perda de fiéis (STEIL E TONIOL, 2013).

Segundo os últimos censos realizados pelo IBGE, em 1990, as paróquias totalizavam 7.478 espalhadas pelo país, enquanto que os sacerdotes representavam 14.198. Já no censo de 2010, esses números passaram a 10.720 e 22.119, respectivamente. Nesse mesmo período, a vertente católica teve a perda de aproximadamente 3 milhões de fiéis, evidenciando a questão aqui levantada, de uma contradição interna atualmente em seu núcleo.

Por fim, outro assunto bastante pertinente a essa temática, e que leva diretamente as ações desempenhadas e investidas nos dias atuais, é em relação ao embate com a onda pentecostal e neopentecostal, um dos grandes motivos de

crescimento da vertente evangélica em detrimento da católica nas últimas décadas, mais precisamente nos anos 1980 e 1990, como demonstraremos na próxima seção.

Esse é um dos motivos que há por parte do catolicismo uma revisão crítica da gênese e desenvolvimento de novos estudos nas ciências sociais no Brasil, havendo quase que uma mudança de foco e de perspectiva de um novo objeto de estudo4 (STEIL E HERRERA, 2010).

Portanto, é possível observar e pontuar que a religião católica de grande abrangência nacional e mundial, detentora de milhares de fiéis, passa por transformações as novas dinâmicas apresentadas na atualidade. Assim como qualquer outra religião, tem seu modo tradicional de séculos revisto, conduzindo a novas formas de se adequar às atuais gerações. Porém, não abandonando a sua essência, valores, crenças e costumes. O que nos leva a crer que há um processo de apropriação dessa nova realidade, mesmo que lento.

Nesse sentido, acredita-se que há uma emergência de novas abordagens e diversas maneiras de apresentar a palavra de Deus pela Igreja Católica, seja nas paróquias, capelas, arquidioceses, igrejas e romarias, grupos de pastorais, entre outros. O catolicismo atual no Brasil agrega em suas ações uma visão voltada à participação e inserção em todas as camadas sociais. Para isso, utiliza projetos diversos e abre espaço para uma adesão aos meios tecnológicos de comunicação em massa, no intuito de equiparar e responder as insinuações sobre sua ordem interior, além de reagir ao aumento dos fiéis evangélicos e dos sem religião.