3. O BJETIVOS DA PESQUISA
5.1 O CENÁRIO DA PESQUISA
Cabe à presente pesquisa conceber as perspectivas para a construção de uma escola inclusiva que leve em consideração o diálogo entre escola regular e especial, contribuindo para a construção da cidadania; que compreenda a educação como realidade em movimento e a escola como um espaço de inclusão. Esta escola deve reconhecer diferentes competências, talentos e possibilidades, sendo um lugar onde se respeita a vida, o desenvolvimento pessoal e coletivo (MORAES, 2004) para a realização plena da cidadania, rompendo com desigualdades e preconceitos.
Com estes pressupostos, os questionamentos emergiram na busca de respostas que possibilitem o diálogo entre os espaços regular e especial e entre as áreas de saúde e educação na elaboração de ações significativas que garantam a percepção do outro como parte legítima de um processo que visa garantir a eqüidade.
aqueles cuja incapacidade não lhes permita conseguir um emprego comum no mercado profissional;
Proporcionar aos alunos de graduação espaço de estudos e pesquisas sobre reabilitação;
Cooperar com outras instituições, similares ou afins, contribuindo para a melhoria dos serviços em benefício do deficiente físico;
Promover parcerias, convênios e acordos não onerosos à instituição com entidades nacionais ou internacionais, públicas ou privadas.
5.1.1 Escola de Educação Especial do Lar Escola São Francisco/UNIFESP
É neste cenário que iniciamos nosso diálogo: uma escola de educação especial inserida em um centro de saúde que tem como objetivo a reabilitação de pessoas com deficiência.
A escola de educação especial do Lar Escola São Francisco teve sua fundação em 1943. Atualmente conta com 11 salas de aula e 90 alunos com deficiência física, decorrente de patologias diversas. A proposta pedagógica que orienta a ação educativa (ANEXO 1) do Lar Escola São Francisco tem como objetivo principal o desenvolvimento do aluno, seu preparo no exercício da cidadania e sua qualificação para o mercado de trabalho, norteada pelos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana.
Com base na Lei n° 9394/96 – L.D.B. - de 20/12/96, o ensino é ministrado dentro dos princípios de igualdade de condições para acesso à educação e permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar, divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber, cultivando o pluralismo de idéias e as concepções pedagógicas, articulando educação, trabalho e práticas sociais.
A proposta pedagógica do Lar Escola São Francisco foi construída a fim de qualificar e garantir processos educativos que levem em consideração a
singularidade do público atendido, os quatro pilares da educação para o séc XX sugeridos pela UNESCO, bem como auxiliar a inclusão dos alunos na escola regular, como identificamos no excerto extraído da Proposta Pedagógica:
Nos pautaremos na comissão internacional de educação da UNESCO que cita as seguintes possibilidades a saber:
Desenvolver competências para que o aluno possa continuar aprendendo ao longo da vida. Competências e habilidades para ser um indivíduo com personalidade própria e ao mesmo tempo coletivo, solidário, tolerante e que seja flexível frente às mudanças. Para tanto sugere quatro pilares da educação, como princípios norteadores das políticas educacionais do mundo: Apresentar a conhecer/Aprender a fazer/Aprender a ser/Aprender a conviver. Esta é pois, a grande tarefa dos educadores:
primeiro - desenvolver em nós mesmos estas qualidades;
segundo - olhar para nossa prática educacional, rever eressignificar os conteúdos, as estratégias, a organização da sala de aula, da escola, a relevância dos temas abordados, os recursos didáticos adotados. Terceiro - refletir e decidir como vamos diminuir o vazio que se estabelece entre o conteúdo ensinado e as exigências da vida moderna para o desenvolvimento de nossos alunos.
(ANEXO 1)
Pelo excerto acima, observamos como a instituição concebe os processos de aprendizagem, assumindo que o conhecimento é processo e não resultado. Destaca o respeito e a tolerância como fatores essenciais para a convivência social. De acordo com esta dimensão, aponta que o educador deve atuar junto ao aluno, auxiliando-o em seu processo de aprendizagem considerando os quatro movimentos:
conhecer, fazer, ser e conviver.
Em segundo lugar, preconiza uma atuação em que o olhar do educador constantemente revise seu fazer pedagógico, avaliando diferentes estratégias de ensino. Não existem fórmulas prontas, pois isto significaria deitar os alunos e o próprio conhecimento no Leito de Procusto, sob a pena de destruirmos ambos.
Finalmente, atenta para a necessidade de se pensar o conteúdo em congruência com as exigências da vida moderna.
Importante salientar que o texto da Proposta Pedagógica não informa que tipo de vazio existe entre o conteúdo a ser ensinado e as exigências da vida moderna, o
que, em certo sentido, cria um paradoxo: se a educação atingir as metas supracitadas de coletividade, solidariedade e tolerância, qualquer educando formado dentro destes princípios terá respostas compatíveis a toda e qualquer mudança. O conhecimento, concebido como dinâmico, permite que o seu detentor pense em diversas possibilidades.
O Lar Escola São Francisco acredita que a escola especial é uma espécie de
“passagem” com recursos diferenciados, que procura auxiliar o aluno com deficiência a ser incluído na educação regular. Nesta dará continuidade ao seu processo educativo, conforme citação a seguir:
A Proposta Pedagógica da escola de educação especial do Lar Escola São Francisco – Centro de Reabilitação, tem no seu propósito, práticas voltadas para a busca do saber, transformando-o em matéria prima e adequando às condições reais de seus alunos nos diferentes contextos sociais, transformando o conhecimento em competências e formando o cidadão para o próximo milênio. (ANEXO 1)
Pelo documento, toda a atuação do Lar Escola São Francisco é de adaptação de seus educandos aos diferentes contextos sociais. Historicamente observa-se que, num primeiro momento, o deficiente deveria ser segregado da sociedade, em virtude de sua diferença. A proposta atual considera que o ajuste é responsabilidade de todos. Reitera-se a importância da ação coletiva neste processo de inclusão social.
Neste contexto, encontramos contribuições dos profissionais da saúde, especificamente uma equipe multiprofissional de reabilitação composta por fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, médico fisiatra e psicólogo.
A atuação destes profissionais no serviço de educação especial do LESF é caracterizada pela transposição de saberes específicos de cada área ao contexto escolar no que diz respeito à adaptação de mobiliários; posicionamento adequado dos alunos nas diferentes atividades propostas pela escola; formação e orientação aos cuidadores25 quanto à alimentação. Também incluem ações conjuntas entre professores e fonoaudiólogos na construção de instrumentos para comunicação
25 Denominação de uma equipe de 5 profissionais que atuam na Escola de Educação especial do LESF, fornecendo suporte aos professores, no que diz respeito as questões referentes a higiene e alimentação dos alunos,
alternativa, bem como adaptações de materiais pedagógicos que contemplem a especificidade de cada aluno como identificamos na citação a seguir:
Definimos como apoio, os recursos e estratégias que promovem o interesse e as capacidades do aluno, bem como oportunidades de acesso a bens e serviços, informações e relações do ambiente em que vive. O apoio tende a favorecer a construção da autonomia, a produtividade, a integração e a funcionalidade no ambiente escolar comunitário. Contamos no Lar Escola São Francisco com uma equipe multidisciplinar de apoio na reabilitação global: Serviço Médico/Psicologia/Serviço Social/Fisioterapia/Fonoaudiologia/Terapia/Ocupacional/
Odontologia Especializada/Psicopedagogia/Nutrição.
Esses serviços de apoio são constantes, envolvendo equipes e diferentes ambientes de atendimento. A família também está envolvida no sistema de apoio. (ANEXO 1)
Vislumbramos aqui uma pedagogia com influências marcantes nos processos de aprendizagem e um perspectiva terapêutica como condição para a construção de conhecimento. Esta afirmação tem o objetivo de apontar a relevância da equipe de saúde nos processos educacionais, pois os aspectos supracitados são relevantes para uma situação de aprendizagem adequada, pois se o aluno não possui mínimas condições como mobiliário, adaptações físicas e pedagógicas muitas propostas educativas não são alcançadas. Por outro lado, quando se tem esta perspectiva terapêutica como condição sine qua non para a construção do conhecimento, como pensar a inclusão de pessoas com deficiência nas escolas regulares baseada no tripé lousa, giz e apagador?
5.1.2 Parceria entre Lar Escola São Francisco/UNIFESP e Secretaria de Educação
Em 2002, o Lar Escola São Francisco estabeleceu um diálogo, por meio de um projeto de Assessoria ao Município de Santo André, na tentativa de estruturar ações que contribuíssem na inclusão de pessoas com deficiência física nas escolas regulares. Temos aí o início de reflexões sobre a problemática da pesquisa.
Este diálogo apontou para a necessidade de estruturação de um projeto que levasse em consideração algumas ações que contribuíssem para as políticas públicas de inclusão em Santo André que, desde 1997, vinha construindo ações de inclusão após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases de 1996 e o fechamento das classes especiais no município.
A estruturação do projeto permeou as demandas por meio 3 eixos:
1. Diagnóstico de 154 alunos com deficiência física;
2. Formação de professores da rede regular de Santo André;
3. Acessibilidade física e pedagógica para auxiliar na ação educativa.
Dos eixos apontados detive-me especificamente nos dois primeiros. Mediante as práticas diagnósticas, procurei compreender as relações necessárias e possíveis entre educação e saúde na construção de processos inclusivos e por meio da análise da estrutura curricular das duas propostas de formação de professores e das avaliações dos participantes destas formações, busquei as concepções que as permearam e procurei levantar indicadores para ressignificar a interface entre a educação regular e especial na formação de professores.