1.2 INSERÇÃO INTERNACIONAL DA CHINA E A QUESTÃO ENERGÉTICA
1.2.3 O cenário internacional e a busca por energia
A área energética dos países busca, constantemente, formas estratégicas na competição por sua segurança no mercado global. Além de garantir o sistema de produção, a energia fornece suporte para vários segmentos das indústrias (BARROS, 2007).
A seguir, de forma descritiva e quantitativa, será realizado um panorama da distribuição energética global, os principais países consumidores de energia, assim como os recursos energéticos mais utilizados.
A distribuição das fontes energéticas mundiais ocorre da seguinte forma:
derivados do petróleo (42,3%), hidrelétricas (16,2%), gás natural (16%), energias renováveis (13,7%), carvão mineral (8,4%) e outras (3,5%), ver figura 1. O recurso energético que obtém maior crescimento no consumo da matriz energética mundial é o gás natural. A participação do carvão, que vinha regredindo historicamente, em 2004, cresceu 1,6% (International Energy Agency - IEA, 2007).
A oferta mundial de energia, em 2004, foi de aproximadamente 11 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep), ficando o consumo mundial em 7,6 bilhões de tep's (IEA, 2007). A IEA estimula o aumento do consumo em 2% ao ano, podendo variar se ocorrer crise na oferta, aonde os preços altos de combustíveis minimizariam a procura por energia (IEA, 2007).
Figura 1 – Distribuição mundial de energia por fonte, em porcentagem (2004) FONTE: Elaboração própria a partir dos dados da International Energy Agency - IEA, 2007.
O produto energético mais procurado pelos países no mercado internacional é o petróleo e seus derivados. O aumento no consumo mundial deste produto é de 7,5% ao ano (SOARES, 2005). O petróleo é um recurso energético abundante na natureza, porém não renovável. Sua pesquisa envolve elevados custos e complexidade de estudos. Além de ser um importante recurso energético, serve ainda como matéria-prima para a fabricação dos mais variados produtos.
As principais bacias petrolíferas do mundo encontram-se no Oriente Médio.
Os países da região colocam-se no cenário internacional de maneira privilegiada, pois, ao não consumirem grandes somas dos hidrocarbonetos extraídos, contrariamente a países como a China e os EUA, exportam para o mundo importantes quantias.
Figura 2 – Maiores reservas de petróleo, em bilhões de barris FONTE: Agência Nacional de Petróleo (ANP), 2008.
O pico no consumo de petróleo aconteceu no início dos anos 2000, quando a humanidade consumiu este recurso energético de forma extremamente acelerada.
Em 1956, Marion King Hubbert, geofísico estadunidense, racionalista e humanista, previu o aumento na produção de petróleo nos EUA na década de 1970. Após os anos 1970, haveria um declínio considerável. Nos anos 2000, a contestada previsão de Hubbert comprovou-se verdadeira. Os EUA, no passado líder mundial na produção e exportação de petróleo, tornaram-se dependente de 70% do petróleo utilizado no país (BARROS, 2007).
Hubbert ainda apresentou estudos prevendo que o ápice na produção do petróleo seria atingido entre os anos de 2000 e 2010. Os motivos que o geofísico norte-americano apresentou em suas pesquisas sobre as dificuldades para obter petróleo seriam: i) a crescente demanda pelo produto; ii) a limitada capacidade de produção; iii) a elevação rápida do preço do barril e, iv) a incapacidade de refinar o produto extraído (BARROS, 2007).
No século XXI, as conclusões sobre os estudos de Hubbert demonstram que estavam corretas, pois a grande parte dos poços de petróleo já foi descoberta e as
novas descobertas caem ano a ano, e as reservas encontradas são cada vez menores, sendo possível calcular o futuro de cada país produtor (BARROS, 2007).
Conforme Rosa e Gomes (2004) é frequente a utilização da relação reservas/produção quando se discute o futuro do petróleo. As estimativas mais comuns são de que as reservas comprovadas atingem cerca de um trilhão de barris, o que, considerando-se a produção do início dos anos 2000, com cerca de 25 bilhões de barris/ano, garantiria o atendimento da demanda por 40 anos.
A ampla divulgação da relação reservas/produção e sua utilização sem ressalvas, além de contribuir de forma decisiva para a falta de preocupação da opinião pública com o suprimento de petróleo a médio e longo prazo, pressupõem que a evolução da produção segue um dos seguintes perfis: aumento até certo patamar, que se mantém por vários anos, seguido de rápido declínio; aumento constante até um pico, seguido de declínio muito rápido (ROSA; GOMES, 2004).
As estimativas apontam que em um século as reservas petrolíferas serão insuficientes para abastecer toda a humanidade. Desta forma, os governos deverão, desde já, procurar e investir em novas fontes de energia para a sua população. O petróleo ainda continuará sendo o principal recurso energético do mundo até que ocorra uma menor oferta do produto, após atingir o ápice da produção mundial (WEIGMANN, 2002).
Figura 3 – Previsão de produção e consumo de petróleo no mundo FONTE: WEIGMANN, 2002.
Porém, a redução no consumo mundial de petróleo não ocorrerá tão breve, uma vez que a maioria dos países utiliza-se crescentemente deste recurso energético a fim de abastecer seu mercado interno. A seguir, serão enumerados os principais países e regiões dentro do contexto internacional que necessitam encontrar a sua segurança energética.
Os EUA realizam a sua política em torno da área energética para continuar mantendo a sua condição de hegemonia e sustentabilidade. O país configura entre os maiores consumidores mundiais de energia e, dentro dessa nova geopolítica, pós-1990, necessita diversificar seus fornecedores e suas fontes internas de geração de energia. No despontar do século XXI, somente a Arábia Saudita contribui com 16% do consumo interno de petróleo nos EUA sendo o seu maior fornecedor (BARROS, 2007).
Tabela 1 – Principais países consumidores de energia no mundo (TEP* PER CAPITA), 1990-2004
Estrategicamente, para diminuir sua dependência de petróleo do Oriente Médio, os EUA movimentaram para dentro de sua “zona de segurança” seu principal fornecimento de energia. Os fornecedores de energia mais importantes para os EUA dentro de sua “zona de segurança” são nomeadamente México, Canadá e Venezuela, este último se configura no quarto maior fornecedor de petróleo aos norte-americanos (BARROS, 2007).
Os EUA têm se movimentado de forma ágil na disputa pelos mercados energéticos. Realizam acordos estratégicos, de longo prazo, com os russos e
avançam competitivamente no mercado do petróleo sobre a África Sub-Saariana, na Ásia Central e no Mar Cáspio. Os EUA competem com os emergentes como a China e Índia por grandes reservas de petróleo com grande potencial. Essa competição acirrada cumpre uma função dinâmica e organizacional em várias regiões no mundo (BARROS, 2007). Dentro desse contexto, a Europa também se desponta como um grande competidor na corrida pelos recursos energéticos.
A Europa se caracteriza como a maior importadora mundial de petróleo e gás. O consumo, principalmente, desses dois tipos de recursos energéticos pelo continente europeu é a metade do consumo mundial, podendo chegar a dois terços no ano de 2030. Os principais fornecedores dos europeus são: o Golfo Pérsico, a Rússia e os países do norte da África, conforme o Instituto Energético Atlântico – IEA, 20102.
No início dos anos 2000, a Grã-Bretanha voltou à sua condição de importadora de petróleo, ao lado dos seus demais sócios da União Europeia, que importavam da Rússia 49% do seu gás (FIORI, 2005).
O Japão, assim como a UE, está inserido no contexto mundial em busca dos recursos energéticos e na procura de parcerias, na área energética. O Japão, país constituído por milhares de ilhas, é considerado um Estado com um pequeno território, com poucos recursos, o que obriga o país a importar diversos produtos de outros países pelo mundo, inclusive os recursos energéticos.
Porém, as inovações tecnológicas do Japão minimizaram o problema relacionado ao seu pequeno território, proporcionando ao país passar sem grandes abalos pela crise energética dos anos 1970. Essas inovações tecnológicas foram cruciais ao perfil energético japonês de pequena intensidade, tendo-se como exemplo as construções de prédios inteligentes, permitindo a diminuição no consumo de energia e, ao mesmo tempo, a redução dos gases nocivos à atmosfera (LUCON; GOLDEMBERG, 2009).
Ainda que o avanço tecnológico no Japão minimizasse seu problema em torno da energia, o governo japonês demonstrou grandes preocupações com a segurança energética de seu país. O governo de Tóquio investe e disputa mercados
2 Informações disponíveis em: http://www.energeticoatlantico.com/.
na Ásia, especialmente com a China, em regiões com importantes reservas de petróleo. Entretanto, a geopolítica energética japonesa se faz presente em todos os continentes, na busca das fontes dos recursos energéticos por todo o globo terrestre (DRUCKER, 1987).
A segurança energética internacional depende, principalmente, de fontes alternativas ao petróleo como fontes de energia renováveis, nomeadamente as fontes de energia eólica, solar e hidrelétrica. Estas fontes requerem grandes investimentos e também interesse mútuo dos governantes de todos os Estados.
No tocante à energia elétrica, correspondente a 16,2% da demanda mundial final de energia, em 2004, colaboram para sua geração diversas fontes de energias primárias, da seguinte maneira: 39,8% de carvão mineral; 19,6% de gás natural;
16,1% de energia hidráulica; 15,7% de energia nuclear; 6,7% de petróleo e 2,1% de outras fontes energéticas (IEA, 2007). O gás natural é a fonte de energia que vem obtendo maior participação na matriz energética mundial graças à escassez do petróleo e à alta poluição gerada pelo carvão mineral.
Rússia e EUA são os maiores produtores mundiais de gás natural, conforme a British Petroleum (2007). Entretanto, há uma considerável diferença entre essas nações pois, de um lado, os EUA consomem todo o gás que produzem, e de outro, a Rússia encontra-se em uma posição confortável configurando-se entre os maiores exportadores mundiais do produto.
Tabela 2 – Maiores produtores de gás natural em 2006
Países produtores (bilhões m³) (%)
A grande demanda pelo gás natural é nos países desenvolvidos, região onde ocorre o consumo de 30% de todo gás natural consumido internacionalmente.
Conforme pesquisas elaboradas na área do gás natural, em 2025 o crescimento anual do consumo do gás será de 2,2%; já a demanda pelo petróleo terá uma ascensão de 1,9% e o carvão mineral 1,7%. A porcentagem de crescimento do gás natural aumentou de 23% para 25% de 2001 a 2005 (International Energy Outlook, 2004).
De forma ilustrativa, a figura 4 mostra o crescimento no consumo do gás natural no mundo desde 1970 até 2025, ano em que ocorrerá o pico do consumo mundial deste recurso.
Figura 4 – Consumo de gás natural no mundo (1970-2025) FONTE: International Energy Outlook – IEO, 2004
Na década de 2010, revelou-se necessário disponibilizar recursos financeiros para a infraestrutura relacionada ao gás natural como: transportes, construção de gasodutos, formação de mercados, etc. Ainda que a poluição gerada por meio do uso do gás natural seja consideravelmente menor que a degradação ambiental causada pela utilização do carvão mineral, os países não têm logrado êxito em substituir um pelo outro.
Na próxima seção será verificada a presença dos chineses no cenário energético internacional e os impactos gerados com o aumento, cada vez maior, da demanda chinesa por energia.