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O ceptro e a máscara:

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Discursos de identidade, reificação e poder1

A realidade dos fenómenos de identidade é inquestionável. Comple- xos, espessos e díspares, eles percorrem as orgânicas e as dinâmicas colec- tivas. Propagadas pela comunicação social, as imagens e as vozes relativas às raças, às etnias, às nações, às regiões, ao género, às religiões e a outros referentes identitários animam a interacção quotidiana e a experiência subjectiva. Assiste-se a uma moda das identidades, tanto no discurso sociológico como na prática social. A voga, por exemplo, do tribal, do étnico e do típico concita vontades, promove ambientes, inspira músi- cas, talha artefactos e propõe destinos de viagem e de vida. A ubiquidade, a acuidade e a hiper-ritualização dos fenómenos de identidade erigem- nos em objecto privilegiado de investigação. Subsiste, no entanto, algum incómodo no recurso à noção de identidade como ferramenta ou conceito operatório. Neste domínio, todo o cuidado parece ser pouco. Vários moti- vos, interligados, justificam esta prudência.

Os discursos de identidade comportam efeitos que o sociólogo pode reproduzir, ampliar e legitimar. Entre estes, sobressaem três: os efeitos de reificação, de desdialectização e de dominação.

Como ocorrem? Como se processam? Como se consolidam?

Concentremo-nos apenas em algumas lógicas e propensões genéricas: 1) Sob múltiplas formas, os discursos de identidade remetem para essências, refiram-se estas a estados (e.g., a lusitanidade) ou a des- tinos (e.g., o V Império). Fazendo-o, absolutizam o que é relativo, substantivam o que é relacional, fundamentam na natureza ou no mito o que é histórico. Neste sentido, propiciam efeitos de reificação. 2) O ser identificado, reificado, fica refém da identidade (re)criada. A instituição da identidade, ao enunciar a verdade ou a vocação de uma entidade, torna-se constrangedora. Uma vez (pre)dita, à enti- dade resta-lhe cumprir a predição. Uma vez “minhotos”, ou seja, tipificados e estilizados como tais, os homens e as mulheres do Minho devem fazer jus, por atributos, modos e obras, à sua “si(g)na”: as casas devem condizer com o genius loci e a herança patrimonial;

os produtos, os usos e os costumes, tais como o traje, a gastronomia ou a olaria, passam a carecer de certificação de autenticidade… O ser identificado, genuíno, perde, deste jeito, espaço de jogo e de liber- dade. O rótulo (in)veste a personagem, que não se pode (re)negar, sob pena de indexação de desvio, mestiçagem, fraude ou poluição. O que se ganha em unidade e cristalização de sentido perde-se em vida, por obra e graça de uma projecção auto ou hetero determinada. A este propósito, dois reparos. Primeiro, este processo lembra a teo- ria da alienação de Feuerbach e do jovem Marx: uma abstracção do sujeito que se autonomiza e acaba por o dominar. Segundo, os dis- cursos de identidade são, por excelência, discursos performativos. Têm a capacidade de gerar a realidade que anunciam. Produzindo e legitimando uma (di)visão do mundo, comportam uma capacidade notável de mobilização (ou imobilização). Aplica-se-lhes, assim, o princípio de W. I. Thomas relativo às predições criadoras: uma crença, falsa nos seus fundamentos, pode revelar-se verdadeira nas suas consequências.

3) Os discursos de identidade tendem a suspender ou a exorcisar a negatividade. Provocam, assim, um claro efeito de desdialectização e normalização. Centrada na mesmeidade, a identidade ou se repete ou se actualiza. A contradição, a negatividade e a diferença acabam exiladas em distâncias e alteridades fantasmáticas, estereotipadas e enclausuradas no seu alheamento. Escamoteia-se, assim, o complexo, o plural, o inacabado e o imperfeito, a dobra, o reverso e a sombra, a errância e o contrabando das margens e dos interstícios. Esmorece a vida, a criatividade e o movimento. Perde-se, porventura, em “ânimo” o que se ganha em “alma”.

4) Os discursos de identidade podem almofadar os passos da subsun- ção, no sentido, empregue por Marx no Capítulo Inédito do Capital, de integração subordinada. Tanto a hetero-identificação, que cate- goriza o outro, como a auto-identificação, que reconhece o seme- lhante, diluem e atropelam a diversidade. Se esta asserção é pacífica no que se refere à definição do outro, ela não é menos verdadeira a propósito da auto-percepção. Quando o grupo engendra a sua iden- tidade, costuma ser apenas uma parte que “inventa” e controla essa identidade. Uma parte que detém ou persegue a hegemonia, sub- sumindo as demais “compartes” com a bênção da autoridade acres- cida. A dominação exerce-se, naturalmente, sobre o outro, o estranho fora de nós, mas também sobre os diversos mesmos, os outros que

O CEPTRO E A MÁSCARA

coexistem dentro de nós. No todo simbolicamente comungado, uma “ficção bem fundada”, os discursos de identificação encantam as relações de poder entre as partes identificadoras (significantes) e as partes identificadas (significadas).

5) Socialmente construídas, as identidades, sempre polémicas, envol- vem bricolages ideológicos. Os discursos de identidade cortam e recortam, categorizam, incluem e excluem, evidenciam determina- dos traços e negligenciam outros, enxertam mais alguns, recriam, estilizam, (re)inventam raízes, tradições e molduras, tecem afini- dades e marcam distâncias, propõem, em suma, uma (di)visão do mundo. Estas construções podem ser mais ou menos bem sucedidas consoante os casos e as circunstâncias. Convém, contudo, não esque- cer que relevam de estratégias de poder que, operando com arbi- trários culturais, implicam o recurso à violência simbólica. Relativas e questionáveis, as propostas identitárias tendem a converter-se, pela fé e pela crença, em princípios absolutos. Reencontramos, mais uma vez, a alquimia da dominação e o efeito de reificação. O meio ultrapassa o fim e a essência trava a potência. Como num quadro de James Ensor, a parada e a paródia hiper-realizam-se num desfile de máscaras e pregões que reduz a tragédia da vida a uma alegoria do poder.

1Uma versão deste texto foi publicada em Martins, Moisés; Gonçalves, Albertino & Pires,

Helena, A Romaria da Srª da Agonia. Vida e Memória da Cidade de Viana, Viana do Cas- telo, Grupo Desportivo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, 2000, capítulo 1, “A conquista da cidade” (pp. 21-58), e capítulo 2, “Tempos difíceis” (pp. 59-69).

2Jornal A Aurora do Lima.

3De notar já a presença de um dos nomes mais emblemáticos da história das festas, o piro-

técnico José Rodrigues da Silva.

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