CAPÍTULO 3 – SEGUNDA ETAPA DA RESPOSTA CORRETA
3.1 RAZÕES PARA ACREDITAR NA OBJETIVIDADE
3.1.4 O ceticismo interno: indeterminação e incerteza
Apesar do ceticismo interno não levantar a série de problemas do externo, Dworkin apresenta algumas elucidações a seu respeito que são importantes para sua tese da resposta correta.64
64 Necessário apontar, ainda que brevemente, o fato de Dworkin rejeitar certos tipos de ceticismo
interno no domínio valorativo. Ele o faz identificando como padrão ético a responsabilidade das pessoas de viver bem, conectada com uma concepção da dignidade humana, formulada a partir de dois princípios: “O primeiro é um princípio de respeito por si mesmo. Cada pessoa deve levar a sério sua própria vida: deve aceitar que é importante que sua vida seja uma execução bem-sucedida, e não uma oportunidade perdida. O segundo é um princípio de autenticidade. Cada um tem a responsabilidade pessoal e especial de identificar quais devem ser os critérios de sucesso em sua própria vida; tem a responsabilidade pessoal de criar essa vida por meio de uma narrativa ou de um estilo coerentes com os quais ele mesmo concorde” (DWORKIN, 2014a, p. 311).
Existe um tipo de ceticismo interno que precisamos diferenciar do externo. Alguns céticos externos, de um ponto de vista arquimediano, afirmam que juízos morais não podem, em nenhum caso, ser verdadeiros ou falsos. De outro modo, uma pessoa adotando o ponto de vista interno da moral poderia pensar que alguns posicionamentos morais são verdadeiros e outros são falsos, mas que o problema do aborto não possui uma resposta correta, porque é indeterminado. Nesse sentido, a resposta que ela pensa ser certa e verdadeira ao caso é a de que ele é indeterminado. A indeterminação é identificada como a tese do “juízo-padrão” nos campos avaliativos, da moral ou do direito. Nas diversas situações em que as pessoas esforçam-se, mas não encontram um argumento convincente capaz de encerrar suas dúvidas em favor de um dos lados de um tema, então, simplesmente em virtude disso, concluem que não há uma resposta correta para a questão.
Alguém pode ter dúvidas acerca do aborto ser certo ou errado. Por vezes, argumentos sólidos em prol da prática envolvendo a liberdade de escolha das mulheres em relação ao seu próprio corpo podem parecer muito sólidos e definitivos, em contrapartida, as razões que envolvem a preservação da vida do feto também podem parecer atraentes. Pela tese do “juízo-padrão”, essa pessoa deveria concluir que o aborto não tem uma resposta correta, é indeterminado.
Para Dworkin, esse modo de pensar é muito comum no âmbito do direito, “os professores constroem elaborados argumentos pró e contra determinada alegação jurídica; depois, para o fascínio dos alunos embasbacados, declaram que a questão em disputa não tem resposta correta” (DWORKIN, 2014a, p. 137).
Todavia, o problema com a tese do “juízo-padrão” é que ela chama de indeterminado, um posicionamento que, na verdade, é de incerteza. Esta última é uma afirmação teórica menos ambiciosa que a primeira. Se, mesmo depois de analisar os diversos posicionamentos acerca do aborto, um indivíduo ainda não conseguir se alinhar a um dos lados, o máximo que poderá dizer é que não tem certeza a respeito de quem tem razão no debate ou que não conseguiu sedimentar seu pensamento. Em casos como esse, a falta de persuasão é a razão pela qual o juízo de incerteza se instaura.
Diferentemente, juízos de indeterminação não decorrem da ausência de convencimento. Se “não existir uma resposta correta” é a resposta verdadeira para
determinado caso, então essa alegação deve se basear numa defesa substantiva tão consistente quanto as outras sobre o “certo ou errado”.
Saindo do domínio da moral e do direito, podemos pensar no seguinte exemplo: a jogadora de futebol Marta foi melhor e maior atleta do que a jogadora de basquete Hortência?65 Suponha que um indivíduo defenda não haver como afirmar
que uma jogadora foi melhor que a outra, que não é possível determinar qual delas foi a maior atleta.
Ele precisaria justificar sua defesa com argumentos a favor desse juízo de indeterminação. Poderia dizer, por exemplo, que a realização e o sucesso no esporte dependem das respostas aos seus diversos desafios. Marta e Hortência foram, historicamente, as melhores jogadoras brasileiras de cada modalidade porque apresentaram as melhores performances diante de tais desafios: demonstraram capacidades técnica, física e psicológica ímpares, exerceram funções importantes nos clubes em que atuaram, participaram de forma decisiva em torneios internacionais com as seleções, bem como tiveram papéis importantes na divulgação de esportes cuja atenção midiática está predominantemente voltada para a prática masculina. Entretanto, ele seguiria afirmando, não faz sentido traçar uma comparação entre ambas porque cada uma é o maior destaque de sua respectiva modalidade. Embora consiga avaliar cada uma em sua respectiva atividade, não é possível hierarquizar as atletas que estão no mais alto nível, mas em modalidades distintas, como o futebol e o basquete.
Nosso comentarista esportivo não possui incerteza perante argumentos que dizem que Marta foi melhor que Hortência ou vice-versa, ele acredita que esse debate é indeterminado, dentre outros motivos, em razão dessas atletas serem do mais alto nível em modalidades diferentes.
No campo jurídico, afirmações de indeterminação também estão presentes. Dworkin acusa um tipo de positivismo “grosseiro” de se alinhar a uma espécie de ceticismo interno ao apoiar a visão de que casos difíceis não possuem respostas corretas. Para o autor, isso acontece porque essa visão referenda uma teoria
65 Embora lancemos mão de um exemplo diferente, vale a pena consultar o de Dworkin envolvendo
Picasso e Beethoven: “se me perguntasse, [...], se Picasso era mais genial que Beethoven [...]. Eu negaria tanto que um foi maior que o outro quanto que ambos tiveram exatamente o mesmo mérito. Diria que Picasso e Beethoven foram ambos grandes artistas e que não se pode traçar uma comparação exata entre eles” (DWORKIN, 2014a, p. 139).
específica sobre o que é o direito, segundo a qual apenas padrões jurídicos historicamente estipulados por alguma autoridade, seja ela judicial ou legislativa, determinam a solução em casos concretos. Assim, quando surgem situações inéditas, não abarcadas por nenhum desses padrões anteriores, nenhuma das partes pode dizer que está juridicamente certa ou errada.66
Nesse sentido, afirmações de indeterminação sobre o direito não podem seguir a tese do “juízo-padrão”, ou seja, não podem ser formuladas se estamos incertos sobre qual das partes apresenta a melhor justificação do direito aplicável ao caso, elas devem estar aliadas a uma teoria jurídica específica a respeito dessa prática. Entretanto, alguns juristas continuariam confundindo indeterminação com incerteza: “afirmam ser evidente por si que as questões jurídicas controversas não têm resposta correta [eles] não se aliam nem ao positivismo jurídico nem a outra teoria que ofereça argumentos jurídicos positivos em prol da indeterminação” (DWORKIN, 2014a, p. 143).