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2 – O RITO E SEU CONTEXTO

2.3. O Ciclo da festividade

Narrada a história da Lavagem das Escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Aracaju a partir da festa da padroeira tendo como base documentos históricos, e o processo de consolidação nos primeiros anos dela. Os objetivos agora são: explicar os eventos organizados pela umbanda e candomblé em Aracaju que antecedem a Lavagem e elucidar o contexto espacial e temporal da Festa a Oxum.

O ciclo da festa dos orixás é influenciado pela nação, pelas diferenças entre os terreiros e pela própria religião na qual os orixás são classificados de maneira diferente (no Candomblé e na Umbanda). Esse ciclo compõe um conjunto de três fases temporais importantes: a anual, a mensal e a diária.

No candomblé nagô temos festas para os orixás: Olorum, Oxalá, Exu, Ogum, Oxóssi, Omolu, Xangô, Iansã, Nanã, Iemanjá, Oxum, Oxumaré, Iroco e Ibeji. Já na Umbanda temos Oxalá ou Zambi e a divisão em sete linhas: linha de Iemanjá, linha de Xangô, linha de Oxóssi (ou Caboclos), linha de Ogum, linha de Pretos-velhos, linha de Criança e linha de Exu. Cada linha é subdividida em sete falanges. Portanto, há em cada linha Orixás com vários nomes que são classificados dentro das falanges. No caso, existe na linha de Iemanjá uma falange comandada por Oxum.

Segundo Édison Carneiro (1961, p. 81), “os orixás femininos, as iabás, são quase todos orixás das águas e em geral gozam de larga popularidade entre o povo de santo”. Em termos gerais encontramos Nanã, festejada em 26 de julho, considerada a mais velha das mães d’água, mãe de todos os orixás. Temos Iemanjá, festejada no dia 2 de fevereiro, Iansã, festejada no dia 4 de dezembro, e, por fim; Oxum, festejada no dia 8 de dezembro, deusa das fontes e dos regatos, é uma deusa menina. (op. cit., p. 81/82).

A mitologia oficial de Oxum varia conforme os grupos religiosos. Para o babalorixá Fernando a mitologia de Oxum seria:

“Oxum conheceu Oxossi banhando-se no rio. Oxum vivia no reino das iabás onde nenhum homem, exceto Oxalá, podia entrar. Oxossi se travestiu de iabá para entrar no reino e não ser descoberto por Oxalá. Acontece que Oxum ficou grávida. Oxalá reuniu todas as iabás e ordenou que tirassem as saias para saber quem era o intruso. O único que resistiu à ordem foi Oxossi. Oxalá expulsou-o do reino e Oxum deu a luz à Logun Edé. Oxalá permitiu que Logun passasse seis meses com o pai e seis meses com a mãe. Antes, Oxum havia negociado durante seis meses para que o menino permanecesse no reino. Ao parir Logun Edé, Oxum abandonou-o num jardim e Iansã pegou-o para criar. Quando Logun ficou rapazote saiu para caçar. Ele viu uma moça bonita se banhando. Era Oxum. Quando percebeu que estava

sendo observada por um homem, Oxum encantou-se e transformou-o num cavalo-marinho. Iansã que estava passando, percebeu e disse-lhe que era seu filho. Oxum se desfez em pranto e suas lágrimas ampliaram cada vez mais os rios. Ela desfez o feitiço e, a partir daquele momento, ela rejeitou mais Logun que passou a ser paparicado tanto por Iansã quanto por Oxum. (Entrevista do Babalorixá Fernando)40

De acordo com a tradição, o orixá Oxum representa as águas doces, rios, lagos e cachoeiras, representa a beleza, dona da aliança, da união, do amor, do casamento, da alegria e da felicidade. Oxum é a rainha da nação Ijexá. Ela é deusa da fertilidade, é dona do ouro e de todas as jóias preciosas. Oxum é a iabá mais vaidosa do panteão africano. Tudo que se relacione a alegria e a riqueza tem a ver com Oxum. Foi Oxum que ajudou a criar todos os filhos de Iemanjá, ela controla a fecundidade, o ventre materno e protege as crianças. Oxum é a deusa da prosperidade e da fartura. Como todos os outros orixás, existem diversos tipos de Oxuns, de acordo com cada nação.

Há, também, diversas imagens de Oxum. Elas a mostram como sendo maternal, jovem ou guerreira. Oxum exerce uma ampla influência no comportamento do povo de santo, regendo o lado teimoso, manhoso e maldoso. A forma comportamental materializada pela influência de Oxum sobre as suas filhas-de-santo corresponde a fofocas, arrogância, intrigas, comentários etc. Oxum mexe com o charme, tudo que está ligado à sensualidade, sutileza, dengo, flerte, carinho, amor. Oxum está muito intimamente ligada à magia, pois é a divindade africana mais ligada às yámi oxorongá.

As festas dos orixás femininos (Oxum e Iemanjá), conhecidos como iabás, como já apontei em geral, costumam acontecer em dezembro, devido ao sincretismo religioso. As festas religiosas nas comunidades afro-brasileiras dão o ritmo da vida social. É a partir do calendário de festas que se organiza o ano de atividades nos terreiros. A fixação do calendário com as datas festivas, que diferem de terreiro para terreiro, tem como origem a combinação de três calendários: o africano, o cristão católico e o civil. Em Aracaju, as comemorações referentes à Festa de Oxum ocorrem geralmente no mês de dezembro, acompanhando o calendário da festa católica de Nossa Senhora da Conceição. No entanto, não quer dizer que a preparação da festa não se estenda a outros meses. Assim, como os santos na Igreja Católica representam “causas”, os Orixás representam elementos, personalidades e comportamentos.

No caso de Oxum podemos enumerar um conjunto simbólico de elementos que a difere e identifica dos outros orixás. Na verdade, são referências simbólicas que fornecem os

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Entrevista transcrita do livro O literário no discurso cosmogônico do candomblé, pg. 38 retirada do anexo, feita por Jaci dos Santos no final do ano de 1994.

parâmetros audiovisuais, através de oferendas, sacrifícios e linguagens simbólicas para os que processam o culto a este orixá. As suas principais qualidades são apresentadas logo abaixo em uma tabela que informa as correspondências desse orixá, segundo o Candomblé Nagô.

Tabela 1: Correspondências segundo o Candomblé Nagô

ORIXÁ OXUM

COR AMARELO

DIA DA SEMANA SÁBADO

DOMÍNIO BELEZA

ELEMENTO ÁGUA DOCE