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O CICLO DE FESTAS LOCAL

No documento Vista do Volume integral (páginas 36-40)

RESUMO

2- O CICLO DE FESTAS LOCAL

As comunidades negras rurais contemporâneas brasileiras possuem suas especificidadades culturais e religiosas que foram sendo sendimentadas ao longo dos anos a partir de sua realidade social, econômica, afetiva, organizacional enquanto grupo. E no caso de Vicentes, a identidade quilombola se interrelaciona à Identidade de ser povo ribeirinho do Vale do São Francisco e sertanejo da Bahia.

Nessa Comunidade, o ciclo de festas ocorre voltado à celebração de datas religiosas, como, por exemplo, o Santo Reis, a Trezena de Santo Antônio, Celebração à Nossa Senhora Aparecida, o Auto de Natal e, neste contexto, se é realizado, em alguns momentos, a roda de São Gonçalo à frente da igreja, e o Samba de roda ou batuques, como os moradores amplamente o denominam, no interior da igreja local.

A Trezena de Santo Antônio, no mês de junho, festividade dedicada ao Santo Padroeiro da comunidade, compreende o evento que mais movimenta o lugar, atraindo pessoas de povoados vizinhos, da sede da cidade e de demais cidades da região, representando para seus moradores a oportunidade de reafirmação de seus valores, identidade, bem como de

Figura 1- Louvor ao Santo . Momento final da celebração religiosa em em dedicação ao Santo Antônio na Trezena de junho de 2014. Foto Itamara Damázio

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Dadas danças, ritmos, como o samba de roda, dentre outros, fazem parte de um conjunto de práticas de influências africanas na cultura brasileira usados em discursos antropólogicos para reconhecimento das comunidades quilombolas da contemporaneidade brasileira, e não foi diferente com a caracterização de Vicentes, pois a antropóloga, Sheila Brasileiro, que produziu o laudo dessa comunidade, em 2012, utilizou o samba de roda como um dos elementos principais para o preenchimento do requisito exigido para reconhecimento legal e do processo em andamento para obtenção do título de terra.

Situação obviamente válida e compreensível, pois segundo Patrícia Pinho (2004) apud Damázio (2006), cultura e política são interpenetrantes e interdependentes e buscam transformar, dentre outras coisas, a ordem hegemônica vigente. Assim, faz-se necessário que os grupos quilombolas valorizem e reafirmem a herança histórica dos elementos africanos presentes em suas formas culturais como elemento importante para sua afirmação identitária, constituindo estratégia de luta e enfrentamento contra o preconceito racial e a pouca visibilidade no contexto social e político de nosso país.

A devoção ao Santo Antônio em Vicentes surgiu com os fundadores do lugar, o casal Vicente e Joventina, que, segundo narrativa dos moradores, trouxeram a crença no Santo, porque na cidade de onde eram originários, Pajeú da Flor, em Pernambuco, o santo também era padroeiro.

Joventina começou a organizar a Trezena e depois passou para que outras outras mulheres da comunidade a dessem seguimento, como ocorreu com Maria da Caixa [2] . E, no caso atual, Bertulina é a mulher que está à frente de tal prática, uma das lideranças mais importantes, que ao longo dos anos, lutou junto ao grupo pelo Reconhecimento Quilombola junto à FCP.

Nesta região, é comum encontrarmos uma pequena igreja com um cruzeiro fincando à frente, ao centro do lugar, onde todos os anos, geralmente, são celebradas novenas ou trezenas para os santos padroeiros. E, mesmo com o crescente aumento de adeptos de igrejas neopentecostais nestas localidades, há ainda muitos católicos, inclusive participantes ativos nestes eventos. A esse respeito, Antonacci (2014) afirma que influxos desde o século XVIII dos missionários católicos nos sertões nessa área, como pregadores das Santas Missões [3] , são ainda parte importante do contexto social e religioso destas pequenas comunidades rurais.

Em Vicentes, há apenas a visita de um padre da paróquia central do muncípio para a celebração da missa no dia de aniversário do Santo, em 13 de junho, na realização da procissão, quando há um maior número de pessoas presentes.

Na verdade, poucas são as visitas de membros do clero nestas comunidades rurais distantes da sede da cidade. Dessa forma, os próprios moradores, geralmente mulheres lideram as atividades religiosas previstas no calendário católico.

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E, segundo os organizadores da Trezena de Vicentes, em 2017, esses não recebem apoio financeiro da Paróquia, apenas procuram angariar fundos para a festa e obter melhorias para a igreja na realização do evento, através de doações de moradores da localidade e de outros dos povoados circunvizinhos, através do “pedido de esmola” ao Santo, ao passarem uma bandeira nas casas das pessoas com a imagem do mesmo e ao entoarem cantos nos dias anteriores à celebração da Trezena, o que seria considerado também um processo de publicização da festa.

A grande parte dos moradores participa ativamente dessa festa, mas evidentemente que as mulheres são a maioria, principalmente na condução do momento religioso (na apresentação de cantos, orações, rituais de pedidos e agradecimentos ao Santo).

Figura 2- A Procissão de Santo Antônio. Imagem da chegada do Santo à Igreja, após a procissão para Santo Antônio no período da Trezena. Vicentes, 2014. Foto Itamara Damázio.

Os homens, jovens e também crianças começam a estar mais presentes, numa segunda etapa, quando do início da parte profana, quando estes iniciam a performatização da dança de São Gonçalo à frente da Igreja ou quando da distribuição de alimentos e do vinho no interior da igreja e no instante da performatização do samba de roda, também dentro da igreja.

Figura 3 - Grupo de pessoas de Vicentes em visita ao Povoado do Rumo para a realização do pedido de esmola em nome do Santo Antônio. Rumo, 2015. Foto Itamara Damázio

A dança de São Gonçalo é uma atividade bastante comum nesta região e é considerada uma cerimônia coreográfica-religiosa de origem portuguesa em louvor ao Santo Gonçalo do Amarante, sendo coreaografa em roda e destinada, especialmente para se pagar promessas ao Santo[4], tomando características

específicas em cada região brasileira.

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É necessário destacar que em Vicentes esta dança apenas compõe-se enquanto elemento tradicional da Trezena que foi se constituindo ao longo dos anos, mas que não possui caráter de promessa religiosa para o grupo.

Em minha experiência de campo, na pesquisa de mestrado, sintetizo o momento de performatização do grupo na apresentação da roda de São Gonçalo, na qual até mesmo crianças de variadas idades acompanham os passos dos adultos, representando um momento de embricamento afetivo entre todos, reforçado através de laços da memória comum:

Aqueles que não participam da roda de São Gonçalo, aglomeram-se na calçada da igreja, sentam-se em cadeiras ou mantêm-se de pé obmantêm-servando a performance do grupo. E entre gestos, voz, ritmo, o corpo performatiza e simboliza os anseios, angústias, contam histórias, atualizam velhas esperanças, reexperimentam os ritos de fé sedimentados ao longo de anos, reafirmam identidades, reativam quadros de memória construída no social necessária a continuidade do grupo no seu processo de diferenciação com outros grupos. (DAMÁZIO, 2016, p. 74).

Figura 4: A roda de São Gonçalo Início da roda de São Gonçalo na Trezena. Vicentes, 2014. Foto Itamara Damázio.

As demais atividades religiosas desenvolvidas, ao longo do ano, como mencionado, seguem o calendário católico, como o Santo Reis, realizado em janeiro e celebrado também na igreja local. A celebração da Quaresma, do mesmo modo, é feita, a partir da quarta-feira de cinzas e segue até o domingo de páscoa, através do rito contínuo de rezas de terços e benditos a santos. Na Semana Santa, acontece outras atividades, como por exemplo o rito do lava-pés, a procissão da imagem do senhor morto. Sendo que, nesta mesmo data ocorre também a prática dos penitentes na sexta-feira, enquanto rito não mais oficialmente aceito pela igreja católica.

Esse ato de homens marcarem seus corpos no sentido de auto-flagelar-se com o significado de salvação de suas almas é um rito penitencial ainda expressivamente forte, pois todos os anos acontece na comunidade de Vicentes e atrai um número

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expressivo de pessoas. Contudo, segundo narrativa desses moradores, muitos aparecem mais por curiosidade de que por algum tipo de expressão de fé ao ato.

A respeito desse rito, segundo Cariry (1982) apud Antonacci (2014), a prática de homens pertencentes às camadas populares do campo de se reunir para o ato penitencial é comum desde o século XVII no Nordeste do Brasil, remontando às atividades de flagelação praticadas na Igreja Medieval, assemelhando-se aos movimentos também experimentados por grupos sociais da Europa. Entretanto Antonacci (2014) acredita que esta prática no Brasil remonta mais especificamente ao período inicial da colonização aqui implantada por ordens religiosas da Igreja Ibérica.

Interessante observar que Bertulina, numa etapa final da minha pesquisa de campo, informou-me que pensava em ampliar a manifestação do samba de roda, antes restrita à Trezena de Santo Antônio, também para para 12 de outubro, na celebração de Nossa Senhora, bem como, em dezembro, no Auto de Natal.

Na verdade, desde que o samba de roda foi indicado enquanto sinal diacrítico para o reconhecimento da identidade quilombola na comunidade, o grupo buscou ampliar tal prática, mesmo que já estivesse acontecendo dentro dos parâmetros do seu cotidiano.

No documento Vista do Volume integral (páginas 36-40)

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