2.2 CINEMA: INTERFACES DO CORPO QUE DANÇA COM A
2.2.2 Interface Cinema/Dança
2.2.2.1 O cinema experimental de Maya Deren
No gênero experimental, a dança encontrou um suporte conceitual para lidar com a imagem cinematográfica, o que se concretizou nas narrativas surrealistas de Maya Deren,
25 Aqui cabe um parêntese: o Oscar não é um parâmetro para se entender a dança ou suas transformações na
relação entre essa forma de arte e o cinema. Trata-se, entretanto, de uma referência para se entender a incursão da dança na cultura de massa, designada, inclusive no jargão da produção cinematográfica de “indústria do entre- tenimento”.
transformando a imagem do corpo que dança. Ao recortar partes do corpo dos seus dançari- nos, pela lente da câmera, a judia Eleanora Derenkovskaya26 evidenciou outros aspectos téc- nicos da imagem, como as perspectivas convencionais de tempo/espaço. Com formação em jornalismo e Mestrado em Literatura Inglesa, Deren se aproximou da dança a partir do traba- lho que desenvolveu como assistente de Katherine Dunham, uma coreógrafa, dançarina e an- tropóloga que pesquisava danças africanas. As pesquisas de Dunhan inspiraram Maya Deren no ensaio literário Religious Possession in Dancing. Foi ainda graças ao trabalho com Du- nham que Deren conheceu Alexander Hammid, fotógrafo e operador de câmera, com quem viria a se casar, e que lhe ensinou técnicas de fotografia e cinema.
O primeiro filme de Deren, Meshes of the Afternoon (1943), realizado em Hollywo- od, é também seu título mais célebre. Trata-se de uma obra considerada referência no movi- mento de vanguarda do cinema underground, entre as décadas de 1940 e 50, assinalada pela crítica como uma poesia visual e marco no campo do cinema experimental. Em 1947, o filme ganhou o Grande Prêmio Internacional para Filmes de 16mm (Classe Experimental), no Fes- tival de Cinema de Cannes, o primeiro, nessa categoria, concedido a uma mulher.
Em sua pesquisa, que privilegiava a interface cinema/dança, Deren realizou ainda, no formato 16mm, filmes como At Land (1944) e Study in Choreography for Camera (1945). No primeiro, o olho da personagem (interpretada pela própria Deren) funciona como narrador, a partir do recurso da câmera subjetiva27. Já Study in Choreography for Camera, em parceria com o bailarino Talley Beatty, foi definido pela camerawoman do filme, Hella Heyman, “co- mo inovador e herético. Uma espécie de geografia do espaço acontece com base no movimen- to do bailarino, característica que também constrói a idéia de tempo” (apud SPANGHERO, 2003, p.34).
Conforme o tipo de pensamento que a artista propunha, a coreografia se dava pela edição do movimento da câmera, que recortava partes do corpo: um mesmo movimento era mostrado, numa mesma sequência, em espaços distintos, criando uma espécie de simultanei- dade alternativa, possível apenas a partir de uma reconstrução espacial levada a cabo pela câmera. Seus roteiros eram desenvolvidos conforme esse desígnio.
26 Se tornou Maya Deren por motivos políticos, em razão da fuga de sua família para os EUA, na década de
1920, como consequência das políticas anti-semitas do Estado soviético.
27 Trata-se de um recurso em que a câmera (controlada pelas mãos do operador, sem tripé) assume, como foco
narrativo, o olhar de um personagem. Cf. Portal Tela Brasil – Glossário. Disponível em: <http://www.telabr.com.br/glossario/index.php?title=P%C3%A1gina_principal>. Acesso em jun. 2010.
Figura 17: Frames de Study in Choreography for Camera, Maya Deren, 1945
Fonte: YouTube. Disponível em : <http://www.youtube.com/watch?v=LGz6HuDM9R4>
Em Study in choreography for câmera, a dança do bailarino Talley Beatty transita em cenários diversos, na execução de movimentos que, a partir da edição, reorganizam as tradicionais noções de espaço e tempo. Essa narrativa, que intervém diretamente na concep- ção de linearidade, alterando-a de modo significativo, desloca o sentido do espectador. O dan- çarino dá um passo em um ambiente e, na continuidade desse movimento, já está em outro cenário. Também aqui são observadas alterações nas dimensões do corpo: em um momento, o corpo está pequeno, podendo ser visto por inteiro; em outros momentos, somente a mão ocupa todo o espaço da tela. O que acontece, sem nos darmos conta, é a escala do corpo em relação à câmera, o que vai influenciar diretamente em como percebemos essas imagens.
Vale ressaltar, mais uma vez, que esse é um tipo de atuação de dança só exequível a partir do suporte da câmera. Assim, através das possibilidades de uso da câmera e da monta- gem cinematográfica (com recursos como a câmera lenta, por exemplo), as coreografias de Deren criaram um tipo de narrativa, tanto para a dança quanto para o cinema, em que a conti- nuidade espacial convertia-se em tema a ser explorado.
Um dos recursos de edição experimentados por Maya Deren, a dupla exposi- ção (que formata noções de temporalidade), deu origem à idéia da montagem como composição o que supostamente transformaria os filmmakers em ver- dadeiros coreógrafos. Como se ao editar o filme o cineasta estivesse mon- tando uma coreografia das imagens, trabalhando com o tempo e o espaço [...]. SPANGHERO (2003 p.34-35)
ção das sequências na montagem – o corpo era seu principal foco, tendo a dança como moti- vo. Na construção de sua proposta estética, a artista acabou por criar uma relação de interface entre corpo e câmera.
Em 1946, num esforço pessoal para a divulgação de sua obra, Deren promoveu o T- hree Abandoned Films, no Teatro de Provincetown (alugado pela própria artista), em que fo- ram exibidos Meshes of the Afternoon, At Land e Study in Choreography for Camera. Esse evento encorajou outros realizadores à autodistribuição dos seus trabalhos pessoais, assim como estimulou a disseminação do cinema independente norte-americano do pós-Guerra.
Além do seu trabalho como coreógrafa e cineasta, Maya Deren foi também uma pen- sadora do campo da arte. Suas próprias obras podem ser tomadas como ensaios, no sentido de que nos fornecem meios para pensar tanto a linguagem da dança como a do cinema. Mas, além disso, Deren abordou aspectos da estética da imagem, em textos paradigmáticos como “Um anagrama de idéias sobre a arte e o cinema” (An anagram of ideas on art form and film, 1946), em que discute e apresenta reflexões sobre a interface arte-ciência, numa espécie de tratado sobre essas instâncias e o processo criativo, como assinala Spanghero (2003, p.35).
O trabalho empreendido por Maya Deren introduziu mudanças fundamentais nos pa- drões de criação artística em dança. Ela transpôs para o cinema o lugar da criação artística em dança quando explorou transformações do tempo e do espaço. Depois de Deren, ocorreu “uma mudança radical ao se propor uma interface tecnológica entre duas linguagens – o cinema e a dança – que não fosse apenas documentação, registro ou simples entretenimento (WOSNIAK, 2006 p.76).
Na obra de Maya Deren a dança não aparece apenas pelo registro, mas a partir de al- go maior: trata-se de uma maneira de utilizar a técnica do cinema para transformar o corpo, o tempo/espaço e, nessa direção, o próprio ato coreográfico. Ao fragmentar o corpo para cons- truir a dança, Deren cria condições para que, num tempo mais adiante, seja desenvolvida a linguagem da videodança.