PARTE II – O USO DO PASSADO
4.1 O CINQUENTENÁRIO DO ATAQUE
Considerado por décadas como a “Página Negra da História de Mossoró”394, o ataque dos cangaceiros ganhou um novo sentido com as comemorações de seu cinquentenário, em 1977. De acordo com O Mossoroense, o intuito era comemorar o acontecimento dando ênfase às particularidades sobre a “resistência” da cidade à Lampião. As discussões iniciais, feitas por João Newton da Escóssia (prefeito de Mossoró), Lauro da Escóssia (diretor do Museu Municipal) e Lauro Monte Filho (assessor municipal de turismo), apontam existir, junto à rememoração dos “resistentes”, interesse das autoridades municipais em promover o desenvolvimento do turismo local.
Entre as preocupações dos organizadores do evento, apontadas pelo jornal O
Mossoroense, estavam a montagem de uma encenação teatral da luta entre
mossoroenses e cangaceiros, a realização de concursos de música/poesia,
392 CONNERTON, Paul. Como as sociedades recordam. Tradução de Maria Manuela Rocha. 2. ed. Oeiras: Celta Editora, 1999, p. 07.
393 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo; Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 30.
394 Desde as primeiras matérias após o ataque dos cangaceiros, o 13 de junho foi anunciado no jornal
O Mossoroense como “a página negra da história de Mossoró”. Mesmo sendo lembrado como
efeméride desde 1927, foi somente com as comemorações do cinquentenário que ganharam vulto as narrativas sobre as particularidades da resistência. Essas narrativas funcionaram como elemento definidor da identidade de Mossoró como cidade que lutou contra o cangaceirismo.
exposições de artistas potiguares, feira de artesanato, solenidades religiosas, lançamento de livros e apresentações folclóricas.395
De pronto, os rumores sobre esse conjunto de atividades, que se convencionou chamar de “semana da resistência”, se deslocaram das páginas de notícias às colunas sobre política, onde foram recebidas com certa apreensão por Jaime Hipólito Dantas. Entre as argumentações publicadas, ressaltam-se como as principais dificuldades para a encenação pública sobre o passado da cidade “as questões técnicas envolvendo o público, os espaços destinados aos atores e as condições de execução da teatralização do ataque dos cangaceiros”.396
Esse deslocamento mostra a importância política das comemorações do cinquentenário do ataque dos cangaceiros na cotidianidade do jornal O Mossoroense. As informações sobre comemorações ressaltavam as particularidades de sua organização e evidenciavam que seus objetivos foram além do sentimento coletivo sobre o passado, e que seu lugar nas páginas do jornal teve como principal característica a produção da “resistência mossoroense” como um novo sentido para o 13 de junho. Esse novo sentido tem no jornal, enquanto um “operador sócio simbólico”, seu veículo de circulação e apreensão (ou não), por parte do leitor, das mudanças que se apresentam na narrativa sobre o passado.397
Na edição de 05 de abril, O Mossoroense, divulgou os nomes da Comissão do Cinquentenário. O governador Tarcísio Maia398 e o prefeito João Newton da Escóssia eram os presidentes de honra e Lauro Monte Filho o coordenador. Os demais membros representavam as escolas públicas e particulares, universidades, Igreja Católica e imprensa.399
395 SEMANA da Resistência já tem programa oficial. O Mossoroense, Mossoró, p. 03, 17 abr. 1977. 396 DANTAS, Jaime Hipólito. Lampião em Mossoró. Ibid., Mossoró, p. 01, 01 abr.1977.
397 MOUILLAUD, Maurice. A crítica do acontecimento ou o fato em questão. In: PORTO, Sérgio Dayrell (Org.) O jornal: da forma ao sentido.2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002. p. 51. 398 Paraibano de Catolé do Rocha, o médico Tarcísio de Vasconcelos Maia era primo de Vingt e Dix- Huit Rosado. Segundo Marlene da Silva Mariz, Tarcísio Maia se “estabeleceu em Mossoró como pecuarista. Foi Secretário de Educação no governo de Dinarte Mariz, em 1956, Deputado Federal em duas legislaturas e Presidente do IPASE no governo Castelo Branco. Sua indicação pelo governo dos militares para a sucessão de Cortez Pereira, foi articulada pelo General Golbery do Couto e Silva”. MARIZ, Marlene da Silva; SUASSUNA, Luiz Eduardo B. História do Rio Grande do Norte. 2. ed. Natal, RN: Sebo Vermelho edições, 2005, p. 363.
399 Além dos já citados, faziam parte da comissão “o professor e jornalista Dorian Jorge Freire (Diretor de O Mossoroense), Lauro da Escóssia (diretor do Museu Municipal e colunista de O Mossoroense), o reitor Elder Heronildes da Silva (da Universidade Regional do Rio Grande do Norte), professor Laplace Rosado Coelho (presidente da Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte), Padre Sátiro Dantas (diretor do Colégio Santa Luzia), vice-reitor Genivan Josué Batista (representando os colégios
A presença dessas instituições nas comemorações do cinquentenário tanto evidenciou “a capacidade de mobilizar e tocar a vida cotidiana das pessoas” quanto referendou o papel na construção e partilha de um sentimento coletivo sobre o passado.400 Articulado em meio aos interesses do presente, o uso do passado no cinquentenário do Ataque de Lampião a Mossoró, ressignificou o acontecimento, à medida que fez emergir com maior intensidade a imagem dos cangaceiros como protagonistas do ato comemorativo. Desse modo, a memória como presente do passado encontrou, no tempo da comemoração o sustentáculo para a efetivação do interesse: rememorar os resistentes.
Para Paul Ricouer,401 ao problematizarem os fenômenos sociais em sua dimensão temporal, os historiadores reformulam o papel da memória como algo seletivo, de forma que recordar ou esquecer é sempre uma ação erigida a partir dos interesses do presente. Nesse sentido, as comemorações do cinquentenário iniciaram uma nova relação com a narrativa histórica de O Mossoroense. Elas afloraram uma memória que se pretendeu oficial e que, em seu conjunto, ressignificou lugares e sujeitos envolvidos no ataque de Lampião a Mossoró.
Cangaceiros e resistentes passaram a compor lugares que até então não possuíam. Por consequência, os homens que ajudaram na defesa de Mossoró tornaram-se resistentes ao cangaceirismo, enquanto os cangaceiros deixaram de ser caso de polícia e foram inseridos na comemoração como figuras exóticas, sem qualquer vestígio de perigo. Esse novo perfil a eles atribuído era direcionado aos interesses da cidade em alavancar as atividades turísticas, e permitiu sua inserção
estaduais), Antônio da Graça Machado (secretário municipal de Educação e Cultura do Município), Genésio Filgueira Neto (do Colégio Dom Bosco), monsenhor Américo Simonetti (da Rádio Rural), Canindé Alves (da Rádio Tapuyo), Ivonete de Paula (da Rádio Difusora), professor Vingt-Un (diretor da Escola Superior de Agricultura- ESAM), vereador Milton da Silveira (presidente da Câmara Municipal), professores José Cesário (da Escola Técnica de Comércio União Caixeiral) Natália Bezerra (da CIAM) e Manuel Duarte Filho, Gilbamar Lopes e Irmã Maria Aparecida (do Colégio Sagrado Coração de Maria)”. MOSSORÓ relembrará durante 7 dias luta contra cangaço. O Mossoroense, Mossoró, p. 03, 05 abr. 1977.
400 CORDEIRO, Janaina Martins. As comemorações do Sesquicentenário da Independência em 1972: uma festa esquecida? In: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho de 2001, p. 03. Disponível em:
http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300478234_ARQUIVO_ANPUH2011.pdf. Acesso em: 25/04/2016.
401 RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François et al. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007, p. 140-141.
como representantes da Região Nordeste, bem como a caracterização de um novo tipo sociológico.402
Juntamente com os beatos, os cangaceiros passaram a simbolizar uma região narrada como selvagem, onde o misticismo e a “imaginação popular mitologizou os cabras mais valentes e os cangaceiros mais audazes”.403 Diante da demanda do uso da imagem dos cangaceiros no cinquentenário do ataque de Lampião, a narrativa jornalística de O Mossoroense apresentou mudanças ao ressignificar os lugares desses sujeitos no tempo comemorativo. Os desdobramentos dessas mudanças foram perceptíveis a partir do uso do passado e da intenção de justificá-lo diante dos interesses do presente.404 Entende-se, então, que além de mobilizar a função pedagógica da memória, as comemorações de cariz cívico podem romper, mesmo que parcialmente, com a memória oficial, no momento em que propõe um outro olhar sobre o acontecimento. Olhar que aparece em O Mossoroense ao partir da escrita do jornalista Lauro da Escóssia, autor da coluna Lampião em Mossoró. O jornalista rememora acontecimentos e os relaciona às demandas do presente, tendo como referência a relação entre o ato de comemorar o cinquentenário do ataque de Lampião e os interesses em desenvolver o turismo local.405
Essas (res)significações surgiram através da criação artística, concretizada no teatro. Em Mossoró, foi o escritor e teatrólogo Tarcísio Gurgel um dos responsáveis pela espetacularização do 13 de junho. Ao visitar a cidade, em abril de 1977, ele concedeu entrevista a Jaime Hipólito Dantas e esclareceu que o objetivo da encenação teatral não era fazer a reprodução do tiroteio entre “os cangaceiros e os defensores de Mossoró, até porque, como espetáculo teatral, que interesse poderia despertar uma troca de tiros que, ao que parece, não durou mais de 15 minutos e não deixou mais que duas vítimas? ”406
402 ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. Nordestino: invenção do falo -uma história do gênero masculino (1920-1940). 2. ed. São Paulo: Intermeios, 2013, p. 199-203. (Coleção Entregêneros). 403 MONTENEGRO, Abelardo. Fanáticos e cangaceiros. Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1973, p. 207.
404 Sobre o uso do passado e da história com temática do oficio do historiador, ver: HARTOG, François. REVEL, Jacques. Note de conjoncture historiographique. In: Les usages politiques du passé. Paris, Éditions de l’EHESS, 2001, p. 13-24.
405 Sobre a função pedagógica da memória e sua relação com o ato comemorativo, ver: CATROGA, Fernando. Nação, mito e rito: religião civil e comemoracionismo (EUA, França e Portugal). Fortaleza: Edições NUDOC/Museu do Ceará, 2005, p. 106.
Para Tarcísio Gurgel, o “Espetáculo da Resistência”, enquanto criação artística, tinha como objetivos fazer a população “reviver o acontecimento” e, ao mesmo tempo, divertir o turista que estivesse em Mossoró durante as comemorações.407 O espetáculo foi uma adaptação da narrativa jornalística ao teatro. Por seu caráter lúdico, a arte cénica expressa um diálogo coletivo que “serve também para enaltecer mitos, heróis, exemplos a serem seguidos”.408 Sua dimensão pedagógica funcionou duplamente. Por um lado, continuou a enaltecer as imagens do prefeito Rodolfo Fernandes e do cangaceiro Lampião, não apenas como referências do acontecimento, mas como sujeitos “folclorizados”, a partir da figura do coronel409 e do cangaceiro, isto é, como tipos regionais do Nordeste brasileiro nas décadas de 1920 e 1930.410
Por outro lado, a exposição do conhecimento histórico sobre o acontecimento foi além de sua matriz jornalística e expressou-se por outros meios de circulação pública, como o teatro, as cantorias de viola, declamações de poesia de cordel e danças, como o xaxado. Essas apresentações artísticas mostram que, no final da década de 1970, o uso do passado foi pensado, de maneira estratégica, como ponte para o turismo em Mossoró.
Mesmo não sendo diretamente contemplada com os primeiros investimentos voltados à promoção do turismo no nordeste brasileiro,411 a cidade contou com a força
407 DANTAS, Jaime Hipólito. Teatro para Lampião. O Mossoroense, Mossoró, p. 02, 13 abr. 1977. 408 ARAUJO, José Ricardo da Silva. A dimensão pedagógica do teatro: reflexões sobre uma proposta metodológica. 2006. Dissertação. (Mestrado em Educação Brasileira) – Universidade Federal de Alagoas/Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Maceió, p.10.
409 Sobre a construção da imagem do coronel e sua relação com o poder local no Nordeste do Brasil, ver: FORTUNATO, Maria Lucinete. O coronelismo e a imagem do coronel: de símbolo a simulacro do poder local. Tese (Doutorado História) - Programa de Pós-graduação em História Social. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de História. Campinas, SP: UNICAMP. 2000.
410 Ao analisar a invenção do nordestino a partir da produção discursiva pela literatura regionalista, Durval Muniz de Albuquerque Junior defende que a produção imagética dos cangaceiros como uma figura mítica tem, na morte de Corisco, o marco simbólico do fim do cangaço, no início da década de 1940. Para este autor, a justificativa apresentada foi relacionada a maior presença do Estado na região, bem como no papel da grande imprensa no silenciamento das ações desses sujeitos. É nesse sentido que os cangaceiros vão sendo tecidos como “símbolos de um passado, vencidos pela ordem e pela civilização” e “se torna um mito, no momento que deixa de fazer história”. ALBUQUERQUE JUNIOR. Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011. p. 230. 411 Segundo o relatório do Banco do Nordeste, os investimentos no turismo na região Nordeste deveriam contemplar, através de eventos culturais, os “festejos, feiras, congressos, folclore, etc., que se realizam no decorrer de todos os meses do ano. Essas atividades, muitas delas tradicionais, são, todavia, desconhecidas de grande parte da população, até mesmo da própria área”. O objetivo era investir em eventos dessa natureza para atrair o turista interno, especialmente aqueles da região sul e do eixo Rio –São Paulo. Ministério do Interior. Banco do Nordeste do Brasil. Departamento de estudos econômicos do Nordeste (ETENE). Perspectivas de desenvolvimento do Nordeste até 1980. Turismo. Fortaleza, 1971, p. 49.
do deputado federal Vingt Rosado (ARENA), junto aos governantes militares, para atrair recursos a serem aplicados na estrutura urbana e na edificação de uma mínima infraestrutura hoteleira.412 Por esse caminho, delineou-se a estratégia dos Rosados e seus aliados de potencializar as ações dos órgãos governamentais (federais e estaduais) que tratavam das políticas de promoção do turismo.413
Criados no governo dos militares, esses órgãos tinham como objetivos: vender uma imagem totalmente diferente da experienciada pela população no tocante à política e à economia do período;414 investir em infraestrutura e hotelaria nas áreas com maior potencial turístico.415 No Nordeste, esse trabalho foi realizado em parceria com a SUDENE, que, junto ao Banco do Nordeste do Brasil (BNB), iniciou a captação de verbas para bancar os projetos voltados à exploração dos recursos naturais para o turismo de lazer, especialmente no litoral das capitais estaduais.
A política de turismo para a região teve como foco o público interno, preferencialmente a população do Centro-Sul.416 Para atrair essas pessoas, algumas ações foram desenvolvidas, como “a primeira campanha de incentivo ao turismo no
412 Os órgãos responsáveis pelo desenvolvimento do turismo na região (EMBRATUR e EMPROTURN) apontam esses investimentos como as primeiras ações voltadas ao incremento da atividade turística na região. Em Mossoró, o principal empreendimento estatal voltado ao setor hoteleiro foi a construção do Hotel Thermas. Projetado no governo de Tarcísio Maia (1975-1979), o hotel ainda hoje conta com uma estrutura de “60 apartamentos, 4 suítes, 9 piscinas termais, 3 bares, saunas, quadras de basquete, tênis, futebol de salão, minicampo de futebol, restaurante climatizado, salão de convenções, cozinha regional e internacional, parque infantil, lago artificial, lavanderia industrial, frigobar, ar condicionado e televisão em todos os apartamentos, além de pessoal especializado”. Com essas características o empreendimento estava voltado ao turismo de lazer e dentro do projeto para incrementar o turismo da cidade na década de 1980. Sua inauguração ocorreu em dezembro de 1979, sob as bênçãos do bispo D. gentil Diniz Barreto e show de Luiz Gonzaga. Estavam presentes nesse momento o governador Lavoisier Maia Sobrinho e o presidente da EMPROTURN, Jussier Santos. Cf. ESCÓSSIA, Lauro da. Cronologias Mossoroenses: quando, como e onde aconteceram os fatos. Mossoró, RN: Fundação Vingt-Un Rosado, 2010, p. 285-286.
413 As primeiras iniciativas a uma política de melhoria nas condições urbanas da cidade, como o calçamento e asfaltamento de ruas, construção de praças e as tentativas de solucionar os problemas do comércio ambulante no centro da cidade, tudo voltado ao incremento do turismo, tiveram em Vingt Rosado o seu principal beneficiário político. No jornal O Mossoroense, as constantes matérias sobre os recursos que o deputado conseguia para as melhorias urbanas, bem como a divulgação de seus contatos com os dirigentes da Comissão Nacional de Política Urbana e da Empresa Brasileira de Transportes Urbanos, eram um mecanismo de aproximação do político com sua principal área eleitoral. VINGT – mais de 2 milhões para projeto de João. O Mossoroense, Mossoró, p. 06, 21 abr. 1977. 414 MÜLLER, Dalila. et al. O despertar do turismo no Brasil: a década de 1970. International Conference on tourism e management studies. Book of Proceedings. v. I, Algarves, 2011, p. 692-700. 415 BENI, Mário Carlos. Política e planejamento de turismo no Brasil. São Paulo: Aleph, 2006, p. 24. (Série Turismo)
416 BRASIL, Ministério do Interior. Banco do Nordeste do Brasil. Departamento de estudos econômicos do Nordeste (ETENE). Perspectivas de desenvolvimento do Nordeste até 1980. Turismo. Fortaleza, 1971, p. 13.
Nordeste, realizada em 1971, sob a liderança do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), com a colaboração de estados da área e empresas privadas, sob a chancela da EMBRATUR”.417
Como dito acima, as ações governamentais do período só contemplavam as capitais nordestinas, por conseguinte, as cidades médias, como Mossoró, ficaram fora dos projetos. Essa realidade foi o pontapé para a publicação de matérias jornalísticas relacionadas aos interesses pelo desenvolvimento do turismo em Mossoró e, consequentemente, com cobranças direcionadas às autoridades, no sentido de buscarem alternativas compensatórias para a falta de investimentos. Em meio ao entusiasmo do Governo Federal diante das atividades turísticas, foi algo premente no jornal O Mossoroense, desde o início da década de 1970, textos de colunistas como Jaime Hipólito, Lauro da Escóssia Filho e Rafael Negreiros, que alertavam as autoridades municipais para a necessidade de melhorarem as condições urbanas e investirem no acesso ao litoral. Além disso, propuseram o embelezamento das praças, a propaganda das potencialidades turísticas naturais e a valorização dos acontecimentos históricos como forma de fomentar a atividade turística na cidade.
Em matéria intitulada “Indústria do Turismo”, Rafael Negreiros teceu críticas à relação do turismo com a situação dos espaços públicos de Mossoró. Entre as exigências expostas nas páginas do impresso estavam: o embelezamento dos espaços públicos e criação de Lugares de Memória; melhoria das condições de vida da população por meio da construção do calçamento de ruas, chafarizes públicos e estradas que ligassem o centro urbano às zonas rurais; e melhoria nos serviços de abastecimento de água e energia. Esta foi a mensagem expressa pelo colunista:
Devemos preservar de maneira possível a praça onde se encontra o maior feito dos mossoroenses, a abolição. A Praça da Redenção tem sido abandonada nos últimos anos. Sabemos que já houve tentativa para melhorá-la. Acontece que isso precisa de conservação. E o resultado é aquele. A Praça de Paulo Leitão e de Almino Afonso está esquecida, abandonada, horrível, sendo, talvez, das nossas muitas praças, a que apresente pior estado.
Depois, vamos preservar todos os nossos feitos, com aposição de placas comemorativas em todos os locais onde a intrepidez, a bravura e o espírito libertário do nosso povo se fez sentir vitoriosamente, porque isso é história e isso é o que fica para os pósteros nos museus.
417 BRASIL, Ministério do Interior. Banco do Nordeste do Brasil. Departamento de estudos econômicos do Nordeste (ETENE). Perspectivas de desenvolvimento do Nordeste até 1980. Turismo. Fortaleza, 1971, p. 13-14.
Quanto ao mais, deixemos a história de lado, é lutar para que o Brasil todo conheça a praia de Tibau, com uma boa estrada e com um bom hotel. No nosso entender é o que temos a mostrar. Vamos, pois, preparar esse ambiente para que os visitantes saiam satisfeitos. Para tudo isso o Governo Federal está chamando a atenção de todo o Brasil, concedendo, inclusive, os recursos necessários.418
Ligados a Aluízio Alves (MDB),419 os proprietários de O Mossoroense não mediram as críticas à política dos Rosados. Por toda a primeira metade da década de 1970, foi o jornal dos Escóssias o lugar onde se configurou a maior oposição aos Rosados. As críticas gravitavam em torno do uso das instituições públicas municipais como espaço das práticas paternalistas e clientelistas e da alternância político- partidária, o que reiterou o argumento de que Vingt e Dix-Huit Rosado apoiavam quem estivesse no poder420.
O acirramento político chegou a tal ponto que Lauro da Escóssia Filho candidatou-se em oposição a Dix-Huit Rosado (ARENA) na eleição municipal de 1972. Dessa disputa saiu vitorioso Dix-Huit, que passou a investir nos melhoramentos urbanos e nas comemorações das datas cívicas da cidade. Entretanto, foi na administração de João Newton da Escóssia(1977-1982)421 que algumas ações no campo cultural incentivaram a atividade turística local. A reforma e reorganização do acervo do Museu Municipal e o incremento das comemorações dos principais acontecimentos históricos da cidade, realizados em sua gestão, apareceram em O
Mossoroense como parte das estratégias do desenvolvimento de atividades turísticas.
Mesmo com esses avanços, os jornalistas do periódico ainda questionavam as condições do turismo. Em matéria “Turismo em Mossoró”, Jaime Hipólito Dantas
418 NEGREIROS, Rafael. O Mossoroense, Mossoró, p. 03, 22 maio. 1971.
419 Advogado e jornalista, Aluízio Alves foi o principal opositor político dos Rosados. Udenista, ocupou