A teoria dos dois circuitos da economia urbana surge no começo da década de 1970, no contexto de renovação do pensamento geográfico, aproximando a análise geográfica do materialismo dialético. Nesse ponto, o espaço é analisado a partir da contradição entre o circuito inferior e o superior.
O caráter inovador dessa teoria se encontra no recorte espacial: os países subdesenvolvidos. Até então, era comum geó- grafos utilizarem teorias desenvolvidas nos países do primeiro mundo para explicar a realidade do terceiro mundo, muitas vezes resultando em análises desastrosas, pois esses estudos até então interpretavam o terceiro mundo como países em desen- volvimento, países que estão “[...] numa situação de transição para o que são hoje são desenvolvidos”. Porém, “a situação dos países subdesenvolvidos não é nada comparável à dos países hoje ‘avançados’ antes de sua industrialização” (SANTOS, 2008, p. 19).
A relação entre os atuais países desenvolvidos e subde- senvolvidos não se dá na ordem evolutiva, sendo o primeiro o estágio final deste último, mas sim numa relação dialética, quando a existência relacional entre esses países se contradiz, de forma desigual e combinada. Sendo assim, é preciso incorporar, na análise dos processos urbanos que originaram as cidades do terceiro mundo, as suas interpelações com a escala global.
Após os eventos que resultaram no fim da divisão bipolar do mundo, entre o final da década de 1980 e começo da década
de 1990, a geopolítica mundial passou por um novo modelo de organização, uma nova ordem mundial. No entanto, as rugo- sidades dos processos passados permaneceram presentes na configuração territorial. Mesmo o mundo caminhando para o novo milênio, a essência dos processos que estruturam o espaço geográfico continua presente nas formas e funções.
A contradição dialética entre os dois circuitos da economia ocorre por meio de uma relação de “[...] dependência do circuito inferior em relação ao circuito superior” (SANTOS, 2008, p. 39). Ainda sobre essa questão é importante ressaltar que:
um dos dois circuitos é o resultado direto da modernização tecnológica. Consiste nas atividades criadas em função dos progressos tecnológicos e das pessoas que se beneficiam deles. O outro é igualmente resultado da mesma modernização, mas um resultado indireto, que se dirige aos indivíduos que só se beneficiam parcialmente ou não se beneficiam dos progressos técnicos recentes e das atividades a eles ligadas (SANTOS, 2008, p. 38).
O surgimento da atividade econômica do turismo está diretamente relacionado à modernização tecnológica. Segundo Boyer (2003, p. 66-67):
chegar às altas montanhas era, no século 19, uma cansativa proeza individualista. No século 20, isto se tornou acessível às massas graças aos engenhos mecânicos de subida da mon- tanha. Acompanhando a difusão do turismo de montanha, elevaram-se as estradas de ferro de cremalheira, das quais os suíços se tornaram especialistas no último quarto do século 19.
A atividade turística não está apenas relacionada com a aptidão geográfica, com o imaginário de um lugar a ser con- quistado. Para um lugar tornar-se turístico, há uma realidade tautológica: “são os turistas que estão na origem do turismo” (KANFOU, 1996, p. 70), pois “sem turista, o lugar turístico não tem razão de ser” (CRUZ, 1999, p. 19).
Essa característica obrigatória e tautológica do turismo implica uma racionalização do espaço. Os Alpes suíços, conforme
Boyer (2003), só se tornaram turísticos a partir do desenvol- vimento de uma infraestrutura, ou seja, depois que o espaço geográfico foi dotado com a modernidade da técnica para atender as necessidades de lazer do turista.
A realidade geográfica brasileira é muito diferente da encontrada naquela região europeia, pois a racionalização e a especialização da atividade turística no espaço instalou, no lugar, o circuito superior dessa economia, que tem como base de seu funcionamento “[...] acumular capitais indispensáveis à continuidade das atividades à sua renovação em função dos progressos técnicos”, ao mesmo tempo em que instalou o circuito inferior, cuja base consiste, “antes de tudo, em sobreviver e assegurar a vida cotidiana da família, bem como tomar parte, na medida do possível, de certas formas de consumo particulares à vida moderna” (SANTOS, 2008, p. 46).
O circuito superior do turismo no Brasil materializa-se no espaço por meio das formas e funções presentes na organização do turismo, envolvendo, por exemplo, serviços de hospedagem, agenciamento de viagens, alimentação e loja de souvenir.
O circuito inferior do turismo surge a partir do circuito superior e tem como público-alvo os mesmos clientes do circuito superior, porém com outra escala de atuação e outra necessidade final: a sobrevivência.
A atividade turística nos moldes de “sol e mar”, praticada no litoral do Nordeste brasileiro, tem, como aptidão paisagística, as características naturais do litoral nordestino, como as altas taxas de luminosidade solar e belas praias4. Essas paisagens são
reproduzidas massivamente nas publicações especializadas em
4 A noção de beleza das praias nordestinas é um atributo valorativo socialmente criado, pois nenhuma praia é bela a priori, a sua beleza surge no contexto valorativo da inserção das praias nordestinas no ciclo do turismo internacional, havendo uma fetichização da imagem do litoral, geralmente associando as praias à ideia de paraíso na Terra.
viagens turísticas que despertam o interesse do consumidor para visitar o lugar cuja imagem está estampada na capa da revista.
Ao chegar ao lugar exibido pelas revistas especializadas, o turista não se depara apenas com a praia ensolarada, mas com uma realidade geográfica pronta para recebê-lo. Há, nesses lugares, uma configuração territorial pronta para ser usada, de boates a vendedores ambulantes nas praias, e é nessa realidade que consistem os circuitos superior e inferior do turismo.
A convivência dos dois circuitos é uma realidade unânime no litoral nordestino, onde ocorre a prática do turismo. Para proceder à análise da estrutura dos dois circuitos em Natal e na APAJ, dois princípios essenciais para a definição dos circuitos serão levados em consideração: “1) o conjunto de atividades reali- zadas em certo contexto; 2) o setor da população que se liga a ele essencialmente pela atividade do consumo” (SANTOS, 2008, p. 42).
Nessa perspectiva, as atividades econômicas realizadas estão relacionadas com os estabelecimentos comerciais do circuito inferior e do superior. Quanto ao setor da população que se liga ao circuito inferior, há uma diferenciação em relação à teoria dos circuitos da economia urbana, pois, nesta, o circuito inferior tem como público-alvo a população com baixo poder aquisitivo; e, no circuito inferior do turismo, o público-alvo são os mesmos clientes que consomem nos estabelecimentos do circuito superior do turismo, diferenciando entre os estabele- cimentos do circuito inferior e superior do turismo a densidade de capital, técnica, ciência e informação.