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5 POLÍTICA LOCAL E REPRESENTAÇÕES POLÍTICAS NAS ASSOCIAÇÕES DE AGRICULTORES

5.1 O clientelismo nas relações sociopolíticas

As relações entre o poder local e as associações de agricultores, revelam práticas comuns ao clientelismo caracterizando-se pela “distribuição de cargos oficiais, sobre a concessão de proteção e outros favores, em troca de lealdade política e pessoal” (PASE; MÜLLER; MORAIS, 2012:186). Para Leal (1997), o clientelismo surge no Brasil como resultado das relações de dependência dos camponeses apoiadas no domínio dos posseiros de grandes extensões de terras, os “coronéis”. Conforme o mesmo autor, com os abalos nas bases do poder dos grandes proprietários rurais e com a desarticulação do poder público, o coronelismo ganha força em esfera municipal (LEAL, 1997). O golpe final nos alicerces desse tipo de poder privado se dar com o processo de fortificação do Estado.

Nisso, Leal (1997) defende que o “coronelismo” é na verdade o decaimento do poderio dos grandes proprietários de terra, presente em municípios interioranos; e não o ápice do domínio desse grupo. A relação desses latifundiários com o Estado se dar a partir do apoio político e troca de favores entre os mesmos, que resultou numa tentativa de continuidade do poder privado local representada pelos “coronéis”. Por sua vez, os proprietários de grandes extensões de terras manifestam sua vitalidade por meio do sacrifício da autonomia municipal, da qual, eles mesmos se alimentaram, para permanecerem com boa parte de seus privilégios políticos sociais (LEAL, 1997: 78). Essa parceria empreendida entre o poder privado (coronéis) com o poder público (Estado) desembocou no processo de fortificação desse último. Ainda segundo Leal (1997), o contexto histórico social do “coronelismo” foi também um processo marcado pela elevação dos centros urbanos e do surgimento de um eminente eleitorado nesse mesmo espaço, resultante na quebra do isolamento da população rural através dos meios de comunicação. Somados, esses fatores impulsionaram novos comportamentos políticos que foram ofuscando as práticas políticas/eleitorais ditas coronelistas (LEAL, 1997).

O conceito de clientelismo, conforme Avelino Filho (1994) é inicialmente utilizado pela Antropologia, e somente entre as décadas de 1950 e 1960, passa a ser de interesse também da Ciência Política. A partir dessa apropriação do conceito de clientelismo por parte da Ciência Política, surgem pertinentes desafios metodológicos considerando que na Antropologia esse conceito era visto em meio a estudos de caso, envolvendo elementos como questões de reciprocidade e afabilidade, por exemplo. Por esse lado, a Ciência Política

legitima o conceito de clientelismo partindo de uma perspectiva metodológica que se apoia nas generalizações, tendo o clientelismo como manifestação do sistema político de forma integral (AVELINO FILHO, 1994: 226). Por clientelismo Carvalho (1997: 03) entende que:

De modo geral, indica um tipo de relação entre atores políticos que envolve concessão de benefícios públicos, na forma de empregos, benefícios fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto.

Percebe-se que o clientelismo em sua forma mais comum, procede de relações sociais de reciprocidade caracterizada pela disparidade das partes envolvidas no intercâmbio de favores. Logo, os recursos estão nas mãos de um grupo menor seguido de uma maioria que vive sob condições de dependência para com o primeiro. Bourdieu (2003), em sua análise sobre o campo político67, defende que as relações voltadas para a esfera política são orientadas pela regra do consumo dos bens oferecidos. A lógica do campo político se dar através da relação entre dois grupos: um representado pelos sujeitos envolvidos na disputa política; e o outro grupo, bem mais amplo, representado pelo restante da população, os fregueses. Nessa conexão não há uma distribuição igualitária dos adornos simbólicos e materiais específicos a um grupo dominante, que se apropria dos bens políticos (BOURDIEU, 2003). De acordo com Bourdieu (2003: 166) a competição no campo político acontece da seguinte forma:

[...] o acesso às escolhas entre produtos políticos oferecidos, estão acrescidos dos efeitos da lógica oligopolística que rege a oferta dos produtos. Monopólio da produção entregue a um corpo de profissionais, quer dizer, a um pequeno número de unidades de produção, controlados elas mesmas pelos profissionais; constrangimentos que pesam nas opções dos consumidores, que estão mais condenados à fidelidade indiscutida às marcas e à delegação incondicional nos seus representantes quanto mais desprovidos estão de competência social para a política e de instrumentos próprios de produção de discursos ou actos políticos; o mercado da política é, sem dúvida, um dos menos livres.

A restrição do número de detentores dos meios de produção no campo político é mencionada constantemente por Bourdieu. Requer-se do indivíduo, apto na disputa política, toda uma soma de apetrechos específicos que vão desde uma retórica competente à expectativa dos consumidores desses bens políticos, como também dados econômicos expressivos. Esses são protótipos relevantes de como se comportar diante a concorrência entre os profissionais detentores do poder político. É através dessa competição que os profissionais

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O conceito de campo para Bourdieu está relacionado às instâncias sociais onde são produzidas as relações de poder orientadas de acordo as divergentes posições e perfis sociais dos indivíduos.

políticos, como negociadores de serviços públicos68, incorporam uma amarra de afinidades

com seus clientes69 (BOURDIEU, 2003: 177). Bourdieu (2003: 177) completa dizendo que esses profissionais:

[...] servem os interesses dos seus clientes na medida em que (e só nessa medida), se servem também ao servi-los, quer dizer, de modo tanto mais exacto quanto mais exacta é a coincidência da sua posição a estrutura do campo social.

Demonstra-se ainda que, dependendo da amplitude da disputa entre os grupos de interesses no jogo político, é que se estabelece o perfil das relações imerso nessa concorrência. Nessa trama o capital político compreende as táticas e atributos individuais que giram em torno da credibilidade focalizada no princípio de fazer valer o enunciado. Outros elementos são representados pelo valor da autoridade através do carisma - o capital pessoal é assim também referido, e longamente projetado na figura profissional política que é representada sinteticamente como capital simbólico, desenvolvido pelos profissionais e direcionado a seus fregueses.