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An external security even more national?

III. O clima de segurança

O fim do período da Guerra-Fria é, indiscutivelmente, um dos períodos mais marcantes da agenda da segurança internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial e do início da era nuclear, marcando um novo começo.

18 BUZAN (1983), distinguia entre ameaças militares (apreensão de território, invasão, ocupação, mudança de governo, manipulação de políticas), ameaças eco-nómicas (exportação práticas, restrições de importações, manipulações de preços, inadimplência na dívida, controle de moeda) e ameaças ecológicas (danificando a base física do estado).

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O desaparecimento da bipolaridade sistémica obrigou à revisão da agenda para os direitos humanos, da paz internacional, da cooperação e da estabilidade. O fim da Guerra Fria desencadeou o surgimento de novas ameaças e desafios para a segurança internacional, e o avanço da globalização levou à redistribuição de poderes no sistema internacional (Baylis, 2007). Com a globalização, a capacidade de intervenção dos Estados e as relações Estado-Estado mudaram drasticamente (Strange, 2002). As guerras clássicas foram gradualmente transformadas em

“guerras modernas” (Shaw, 2005 e Smith, 2006).

Neste período, os desafios aumentaram e o mundo tornou-se mais perigoso, devido à multiplicidade de atores na cena internacional e à mudança de perceção da força militar, da guerra e da segurança.

O surgimento da energia nuclear, o colapso da URSS, a substituição da bipolaridade do mundo da Guerra Fria por um mundo multipolar19, a emergência de novas potências económicas asiáticas e a proliferação de armas nucleares e biológicas em países como Irão, Israel e Iraque, alteraram a ordem mundial e desafiaram a estabilidade do princípio da dissuasão nuclear, garantido e sustentado pela política de blocos e pelo equilíbrio das duas super potencias, durante a Guerra Fria (Hammes, 2006). Por seu turno, o terrorismo e o surgimento de atores sub-estaduais (Smith, 2006), como a Al Qaeda e o Hamas, tornaram-se uma nova fonte de ameaça à segurança, devido à sua elevada capacidade de operarem internacionalmente (Shaw, 2005).

Neste contexto, Baldwin (1995), considera que o final do período da Guerra Fria se caracterizou pela apreciável diminuição da impor-tância do poder militar em termos de política internacional, não apenas porque as ameaças militares são menos prevalentes, mas ainda porque a força militar é menos útil como ferramenta do Estado. Por essa razão, observa o autor, que deverá ser reexaminada a forma como pensamos as relações internacionais e a segurança nacional, que necessita de uma visão mais ampla do seu conceito de forma a incluir problemas domés-ticos na national security agenda, ou ainda tratar ameaças externas não-militares, como questões domésticas.

19 Terminologia utilizada para demonstrar que a centralidade do poder já não está claramente identificada.

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Com a globalização, o foco passou a incidir sobre a análise da capaci-dade do Estado em observar a segurança humana e os direitos humanos.

No contexto de um mundo com fronteiras cada vez mais diluídas, em virtude dos acordos internacionais celebrados entre Estados, a agenda internacional dos direitos humanos é, inevitavelmente, reaberta e repre-sentada também por um conjunto de atores não-estatais, provenientes da sociedade civil global, designadamente organizações internacionais não-governamentais (ONG’s) (Boutros-Ghali, 1992).

Como salientou Mary Kaldor (1999), no pós-Guerra Fria assistiu--se ao surgimento das guerras modernas, que carecem de tempo e de espaço, porque se baseiam em demandas não quantificáveis, muitas vezes relacionadas com ideologias, etnias, religiões e a própria construção social da história. As velhas guerras foram substituídas por novos tipos de ameaças e conflitos, como o crime organizado e as guerras religiosas e civis (Kaldor, 1999).

A crescente presença de non-state actors20 coloca novos desafios para as perceções clássicas de segurança, por meio de variáveis não tangíveis, como a perceção, contrariamente às antigas ambições mili-tares relacionadas com a invasão territorial e as vantagens económicas.

Para enfrentar estes novos desafios da segurança, a comunidade internacional teve que elaborar uma nova agenda na era do pós-Guerra Fria. A intervenção humanitária, a segurança dos estrangeiros (Jackson, 2003), as intervenções autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU na década de 199021, seguindo, por exemplo, as operações na República Democrática do Congo em 1996 e no Kosovo em 1999 (Baylis, 2007), a imposição de sanções económicas, com o objetivo de exercer pressão política, em vez de militar, sobre Estados e comunidades em desequilíbrio, denotam uma tendência de passagem de uma noção de segurança centrada no Estado para uma segurança humana22, centrada

20 Clapham (2009), define atores non-state actors (atores não-estatais) como todas as entidades diferentes dos Estados.

21 Exemplo, as operações na República Democrática do Congo em 1996 e no Kosovo em 1999.

22 O conceito de “segurança humana”, surgido nos anos 1990, alarga a noção tradicional de segurança, antes centrada na segurança dos Estados. O valor funda-mental é, agora, o próprio indivíduo. A segurança humana visa, pois, proteger os

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no indivíduo, na qual a dimensão humana extravasa a dimensão terri-torial da ameaça (Kerr, 2006).

A agenda do pós-Guerra Fria para a paz envolveu também a reorga-nização das forças militares, onde o desvio ao conceito clauswitziano23 de guerra foi óbvio na tentativa de melhorar e conter24, em vez de destruir ou, simplesmente, conquistar (Smith, 2006). Além disso, o papel da sociedade civil global e a crescente influência das ONG’s como defensores da paz e dos direitos humanos, e formuladores de políticas globais, merecem atenção e destaque.

Não menos relevante, e mais recentemente, os eventos do 11 de setembro de 200125 e a utilização de meios civis, dentro do território de um país ocidental, vieram marcar de forma irreversível a agenda para a segurança. O terrorismo passou a ser uma realidade à escala global.

Como resposta, foi necessário proceder à introdução e aplicação de medidas de segurança em todos os aspetos do dia a dia do cidadão comum. Detetores de metais protegem as entradas das escolas, agentes

indivíduos contra ameaças como a pobreza, a fome, a doença, a criminalidade, as catástrofes naturais, as violações dos direitos humanos, a arbitrariedade, a violência sexual, a imigração, as deslocações internas, o tráfico de pessoas ou o desemprego.

“Segurança de emprego, segurança de rendimento, segurança da saúde, segurança do ambiente, segurança face à criminalidade, são as formas que assume a problemática da segurança humana”, explica o Programa das Nações Unidas para o Desenvol-vimento (PNUD), no seu relatório anual sobre desenvolDesenvol-vimento humano de 1994.

BAN KI-MOON, 8.º Secretário-Geral da ONU, entre 2007 e 2017, no seu discurso na Conferência de Tóquio sobre Segurança, sublinhou a necessidade de promover o conceito de segurança humana, que coloca o indivíduo no centro das prioridades e da ação da ONU. “Mais do que nunca vivemos num mundo interligado. As crises atuais ameaçam as vidas de milhões de homens, mulheres e crianças. Aumentam a insegurança humana e comprometem os avanços rumo à realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Todos têm o direito de viver em liberdade, sem sentir medo, e de poder viver livres e com dignidade. Estas aspirações estão no centro da segurança humana e da nossa missão de construir um mundo melhor para todos.” (www.onu.com).

23 Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz, General Prussiano, nascido a 1 de junho de 1780, é considerado um grande estrategista militar e teórico da guerra com a obra, Da Guerra (Von Kriege) (1976). Ficou conhecida a frase em que Clausewitz associa guerra e política: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.

24 Exemplos de guerras de contenção são os conflitos no Iraque e no Afeganistão.

25 Na história dos Estados Unidos, não existia uma agressão estrangeira às frontei-ras do país desde o ataque a Pearl Harbor, e sobretudo com a utilização de meios civis.

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de segurança andam a bordo de aviões, as tropas dispersam-se pelo mundo procurando um inimigo que não reside num lugar, antes numa crença ou ideologia.

Como se combate uma crença ou uma ideologia?

Em resposta à tragédia do 11 de setembro, o Congresso dos EUA aprovou em 25 de novembro de 2002, a The Homeland Security Act26, uma lei de segurança interna que procurava combinar esforços, autori-dades e poderes de mais de vinte agências federais27 numa única entidade que a responsabilidade pela segurança dos cidadãos americanos e das fronteiras. As atividades diárias dos cidadãos passaram a ser vigiadas pelo governo, as conversas privadas deixaram de o ser, os registos de bibliotecas, os dados de origem étnica e, até mesmo a cor favorita de uma pessoa, passaram a ser vigiados28. Em nome da segurança, todos os americanos sacrificaram as suas liberdades individuais.

No entanto, não tardou a contestação a esta lei de segurança interna.

Os grupos de liberdades civis referiam-se a esta Patriotic Act como uma lei de consequências não desejadas. Em 16 de janeiro de 2003, o Senador Russ Feingold liderou um processo de análise das questões de privacidade dos cidadãos dos Estados Unidos, que temiam abusos e violações de direitos constitucionais básicos, e que culminou na apro-vação do “The Terrorism Information Awareness Program”29.

À medida que o choque decorrente do ataque terrorista do 11 de setembro se dissipava, e os americanos, mais especificamente os

26 Homeland Security Act of 2002, Public Law 107–296.

27 Entre as agências incluídas estão the Federal Emergency Management Agency, the U.S. Secret Service, the U.S. Customs Service, the U.S. Coast Guard, the Immi-gration and Naturalization Service.

28 Vide in, www.uscis.gov.

29 Aprovado pelo Congresso em maio de 2013, este Programa de Sensibilização para a Informação do Terrorismo, mais tarde renomeado para The Terrorism Infor-mation Awareness (TIA), baseava-se num conceito de predictive policing, de recolha de informação detalhada dos indivíduos para antecipar e prevenir crimes, como parte dos esforços para conquistar esta guerra contra o terror. O programa procurou todo o tipo de informações pessoais na busca de terroristas em todo o mundo. De acordo com o senador Ron Wyden, o TIA foi o maior programa de vigilância da história dos Estados Unidos (vide in, http://usatoday30.usatoday.com/news/washington/2003-09--25-pentagon-office_x.htm).

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departamentos governamentais do Estado, começavam a compreender a realidade da situação global, uma nova arquitetura da informação antiterrorista surgia no seio das agências de segurança, e o uso de um software de agregação de dados e outras tecnologias avançadas passaram a ser utilizadas, não obstante as contestações permanentes30.

Porém, cerca de duas décadas volvidas, a situação pouco ou nada mudou. Os ataques terroristas prosseguiram com a utilização de meios civis: 11 de março de 2004 em Madrid, 7 de julho de 2005 no metropo-litano de Londres, 15 de novembro de 2015 numa sala de espetáculos em Paris, 22 de março de 2016 em Bruxelas, entre outros. Os Estados Unidos e outros países que vêm enfrentando este problema, não estão em guerra com um lugar ou com um país. Eles estão em guerra com uma ideologia, com uma crença31.

As ameaças e os desafios mantêm-se e as lutas contra o terro-rismo continuam ainda, nomeadamente, quanto ao mais recente grupo conhecido como ISIS (Islamic State in Iraq and the Levant (Isis))32. Os cidadãos comuns não estão seguros e continuam limitados no seu dia a dia. As viagens de metro, de autocarro, passeios de rua, passaram a estar largamente condicionados e vigiados. Daí que haja, por exemplo, cada vez mais americanos a favor do uso da tortura, como método para obter informações de suspeitos de terrorismo, bem como de medidas de maior escrutínio e seleção, para pessoas oriundas do Médio Oriente.

Os eventos do 9/11 já fazem parte da história americana, e o terro-rismo, por seu turno, já faz parte da história global recente.