Diante das transformações acima discutidas, sendo a principal delas a secularização da religião, o Colégio, por sua vez, também ia vivenciando essas transformações, visto que esse é formado por essas pessoas.
As mudanças de nomes e endereços são algumas dessas transformações mais palpáveis. Seu primeiro nome, Ídish Shul (1918), foi substituído por Colégio Hebreu Ídish Brasileiro; logo após, Ginásio Israelita de Pernambuco; Colégio Israelita Moysés Chvarts, desde 1967, localizando-se na Rua Dom Bosco, 687, em um prédio novo, especialmente construído para o funcionamento dele.
Figura 15. Os primeiros professores (morim e morót), 1930. Fonte: AHJPe.
Podemos pensar nas transformações que devem ter ocorrido justamente para causar essas mudanças de nomes. O primeiro nome, Ídish Shul (1918), revela a ligação que os imigrantes ainda tinham pela terra natal abandonada: as crianças não eram brasileiras; os adultos ainda não dominavam o português; e devia haver o desejo de dar continuidade à vida que levavam na Europa.
De qualquer modo, logo se provou que a vida em Recife seria diferente: os hábitos sacralizados, como por exemplo, o “guardar o shabat” (ou seja, um dia na semana, o sábado, para orações, reflexões, e nenhum tipo de trabalho secular) era comum nas cidadezinhas em que viviam, mas em Recife isso não era possível: como os primeiros imigrantes sobreviviam pelo comércio (os Klientelshik), o sábado é o dia de maiores vendas. Os hábitos dessa forma deveriam ser mudados.
Sobre isso, podemos refletir sobre a afirmação de Elias (1994:8), em que “o repertório completo de padrões sociais de auto-regulação que o indivíduo tem que desenvolver dentro de si, ao crescer e se transformar num indivíduo único, é específico de cada geração e, por conseguinte, num sentido mais amplo, específico de cada sociedade”. O autor analisa que as mudanças em si próprias não são feitas por apenas alguns indivíduos, mas refletem as influências e desenvolvimento da sociedade como um todo, pelo fluxo do processo social.
Nessa idéia de Elias, podemos analisar a mudança para o segundo nome, Colégio Hebreu Ídish Brasileiro (1925). Em poucos anos, a iniciante comunidade percebia que suas crianças deveriam ter a oportunidade de uma maior integração à sociedade recifense – além de haverem na época sentimentos de tensão entre esses imigrantes, pelo fim da I guerra mundial. Alguns anos após, Colégio Hebreu Brasileiro e Ginásio Israelita de Pernambuco. Sobre isso, a depoente Clarice afirma que
Quando eu entrei para o colégio, em 1939, ainda chamava- se Colégio Hebreu Ídish Brasileiro, mas era na época da guerra, e quando se começou uma certa pressão, descriminação por estrangeiros, ele passou a se chamar Colégio Hebreu Brasileiro, depois ele se tornou Colégio Israelita de Pernambuco, acho que já para evitar toda a descriminação que víamos todos os dias contra estrangeiros39.
De tal feita, mudanças externas, como a xenofobia que a depoente nos conta, também contribuíram para as transformações: a apreensão de viver na tensão que era
39 Vale lembrar que entre na metade dos anos 1930, o Movimento Integralista Brasileiro teve
uma maior repercussão no país. O integralismo foi em parte um movimento de negação: anticomunista, antiliberal, antiimperialista. Assim como as ideologias fascistas na Europa, ele teve um caráter de oposição a uma série de elementos que na época dominavam a cena política e cultural, em muitos casos elementos que estavam desacreditados (os ideais burgueses, o pacifismo, a própria democracia). Mas não devemos exagerar: esse componente "anti", nem na Europa, nem no Brasil - por motivos diferentes.
cotidiana em seus países levou os imigrantes a pensarem em alternativas para essa assimilação. O que contribuiu para a mesma.
Entretanto, o Colégio continuava sendo na mesma sede que o Clube Israelita. Com a comunidade crescendo, fez-se necessário ter um espaço próprio. Para realizar a obra da construção do prédio, várias pessoas da comunidade se empenharam, destacando-se o nome do líder Moysés Chvarts, que faleceu um pouco depois de sua inauguração. A partir de então o colégio passou a chamar-se Colégio Israelita Moysés Chvarts, em sua homenagem.
Figura 16. O sr. Moysés Chvarts, na inauguração do Colégio que levaria seu nome, com o então governador pernambucano, Nilo de Souza Coelho, em 1967 (Fonte: AHJPe).
A depoente confirma explicando a mudança para o último nome, que ficou até os dias atuais:
Quando foi construída uma nova sede que é ali na Rua Dom Bosco, que hoje é sede de um cursinho, a pessoa que mais se esforçou na campanha para arrecadação de fundos, para angariar visando fazer aquela edificação se chamava Moysés Chvarts, e ele era muito dedicado ao colégio, e o colégio passou a ter o nome dele: Colégio Israelita Moysés Chvarts, que é o nome que vigora até hoje. Ele foi muito importante para a comunidade, se esforçava muito, especialmente para o colégio. Tudo o que ele pôde fazer para a escola, ele fez, então a comunidade achou justo pôr seu nome no Colégio para homenageá-lo.
Entretanto, o novo espaço não oferecia um local para atividades artísticas, esportivas, e a comunidade sentiu a necessidade desse ambiente. Assim, em 1992, o Colégio foi novamente transferido, dessa vez para a Federação Israelita de Pernambuco, como afirma Sigmund:
E essa foi uma grande mudança que a Escola passou, ter se mudado para cá. Porque era uma necessidade que as crianças sentiam, a de ter um espaço maior, melhor, mais livre. E então viemos dividir o ambiente com a Federação, e o antigo prédio foi alugado, o que contribui com algumas despesas da Escola. E é muito confortável estar em uma área de lazer tão completa como essa, onde temos campos de futebol, piscina, é muito arborizado...
Atualmente, o Colégio continua dividindo o espaço com a Federação Israelita de Pernambuco e funciona na Rua José de Holanda, 792, Torre, congregando também o clube, a biblioteca, outras entidades, e eventualmente os serviços religiosos das principais datas: Pessach, Rosh Hashaná, Chanuká40.
40 Hebraico. Festa das Luzes. É na mesma época que o natal cristão, mas é comemorado em torno de