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O Colégio para meninas: Colégio Paranaguense

No documento FERNANDA CRISTINA DE SOUZA PEDRÃO (páginas 122-128)

4. PROFESSORES: INSTITUIÇÕES E LOCAIS DE ENSINO NA PROVÍNCIA DO

4.2 Colégios particulares com formação especifica

4.2.1 O Colégio para meninas: Colégio Paranaguense

Na província do Paraná, o Colégio Paranaguense destinava-se à educação de meninas. Ele foi uma proposta vinda do governo provincial e executada pela Madame Taulois e suas filhas. Promover uma boa educação para as meninas era uma forma de dar aos pais um local seguro e adequado para formar a mulher como boa mãe e esposa.

Na sociedade paranaense da segunda metade do século XIX, as mulheres estavam destinadas às tarefas materna, doméstica e artesanais (bordado e costura). Consideradas como sexo belo, elas deveriam ser doces, amáveis, com bom coração e espírito nobre.

As notícias publicadas no Dezenove de Dezembro sobre o Colégio para meninas foram 13, dão uma noção dos ensinamentos exigidos para uma dita boa formação no Colégio dirigido pela senhora Taulois.

Em um primeiro momento, a iniciativa de promover um colégio para formação de meninas partiu do governo provincial. O governo ofereceu uma quantia de 600$000 réis anuais a uma pessoa que ficasse responsável por estabelecer na província um colégio com tal finalidade. Logo em seguida, a Assembleia Provincial registrou que uma pessoa ficou responsável por tal tarefa.

Ficou sobre a mesa da assembléa provincial, para ser lido amanhã, um projeto de lei concedendo a D. Carolina Taulois um auxilio de

600$000 para abrir nesta capital um colllegio para meninas (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 05/03/1856, p. 4)

Em discussão da Assembleia, datada em 15 de março de 1856, foi aprovado um aditivo financeiro, dobrando o valor de custeio do Colégio para 1:200$000 réis anuais. A suplementação foi justificada para oferecer melhores condições às alunas. O novo valor continuou a ser desembolsado nos anos subsequentes.

Concedeste um subsidio de 1:200U000 réis a pessoa habilitada, que nesta capital estabelecesse um collegio para educaçao de meninas. (DEZENOVE DE DEZEMBRO 07/05/1856, p. 5)

Subvenção ao collegio de meninas da capital .... 1:200$000 (DEZENOVE DE DEZEMBRO 17/04/1858, p. 1)

Para receber o subsídio do governo, como consta em uma publicação de janeiro de 1857, a diretora do colégio deveria comprovar que cumpria com os acordos e obrigações previstos pela lei.

O colégio, inicialmente, localizar-se-ia na capital, em Curitiba, porém por motivos de locomoção dos pianos na Serra do Mar, o estabelecimento instalou-se na cidade de Paranaguá. As aulas de piano tornavam-se essenciais para a formação de uma mulher culta para a sociedade do período.

O Colégio foi aberto em abril de 1856 na cidade de Paranaguá. Meses depois, a pedido de alguns pais, foi aberta outra unidade na Capital.

Collegio Paranaguense

Não existindo ainda na província do Paranã um estabelecimento que proporcione aos paes de família os meios de darem á suas filhas uma educaçao que esteja ao par de preencher seus desejos, e dos deveres que ellas serão chamadas a preencher como mães de família, madame Taulois e seus filhas, madame Gabrielle Jeanne e madame Eugenie V. Cadeac, se propõe a remover esse diffivuldade, fundando na cidade de Paranaguá um collegio de meninas que se abrirá no 1.º de abril deste anno de 1856. (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 02/04/1856, p. 3)

MADAME Taulois desejava retirar-se, porem tendo recebido peditórios de diferentes paes de famílias para ficar no collegio de Curityba com sua filha D. Gabriella, declara que está prompta a satisfazer os desejos dos illms. Snrs., com tanto que no prazo de três mezes da abertura do collegio, que vem a ser em setembro, possao reunir-se, pelo menos, as vinte meninas promettidas. Neste caso se julgará muito feliz por poder provar os illmes, snrs, que merece a confiança que se dignão mostrar-lhe. (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 30/07/1856, p. 4)

O Colégio Paranaguense seguia, assim, as exigências do governo com as aulas de piano e ficaria sob a responsabilidade da Madame Taulois. Já a segunda

unidade em Curitiba, sendo inaugurada alguns meses depois, ficaria sob o comando de sua filha, Dona Gabriella.

No colégio para meninas, o trabalho docente deveria ensinar:

O ensino abrangerá:– leitura, escripta, grammatica nacional, língua franceza e ingleza, elementos da arithmetica, princípios geraes da historia e geografia universal com desenvolvimento especial concernente á historia sagrada, e historia e geografia do Brazil, musica, canto, piano, dansa, desenho, pintura e prendas domesticas, compreendendo todos os trabalhos de agulha, tapeçaria, bordados e crochet. Para que todas as meninas aprendão facilmente a fallar a língua franceza, no collegio não se fallará em outro idioma. (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 02/04/1856, p. 3)

Sobre o funcionamento do Colégio, as alunas externas teriam atividades das 9h às 15h30, seguindo o mesmo cronograma das demais alunas. Já para as alunas internas, as atividades iniciariam às 6h e encerrariam às 20h, contendo programas diferentes, sendo uma para as segundas, quartas e sextas e outra para terças, quintas e sábados, com horários para aulas, refeições e dois momentos para rezar durante o dia, sendo um ao acordar e outro antes de deitar. Havia também previsão de momentos para descanso ou passeio e as aulas de piano eram ensinadas constantemente.

Como consta no regulamento, as alunas internas deveriam levar seus objetos de uso pessoal, roupas, colchão, travesseiro, pente, espelho, sabonetes e demais objetos de higiene. Subentende-se então que valores referentes às mensalidades e subsídios ficariam para pagamento das professoras, cuidadoras, alimentação e demais despesas com o estabelecimento.

Em uma publicação, na seção Aviso do jornal Dezenove de Dezembro, há um registro de contratação de uma pessoa para acompanhar as meninas durante suas tarefas diárias:

PRECISA-se no collegio da capital, de uma senhora, viúva ou solteira, de bom comportamento, que saiba cozer e engomar. É para o serviço exclusivo das meninas, jantando na mesma meza e dormindo na mesma sala [...]” (DEZENOVE DE DEZEMBRO,13/08/1856, p. 4). A candidata não precisaria de uma habilitação ou formação como professora, deveria apresentar boa conduta, saber lidar com os afazeres domésticos e ter disponibilidade pessoal, isenta de cônjuge. Como o Colégio era particular, as contratações poderiam ser feitas diretamente entre as proprietárias e as candidatas ao posto.

Ressalta-se que a experiência do Colégio para meninas não era a realidade e condição de todas as famílias da província paranaense. Embora o governo provincial subsidiasse anualmente com a quantia de 1:200$000 réis, a instituição cobrava mensalidades no valor de 25$000 para alunas pensionistas sem aula de piano, com as lições do instrumento passava a ser 30$000 mensalmente, para as alunas externas o valor da mensalidade era 10$000 e, para incluir as lições de instrumentos, havia um acréscimo de 5$000 mensais. Havia também despesas com livros e papéis que também ficavam sob a responsabilidade dos pais. Além desses valores, as alunas que desejassem ter lições separadamente pagariam 6$000 por doze lições ou 1$500 por hora para aulas particulares em casa.

As famílias residentes em Paranaguá e na Capital, locais onde estavam os colégios, ainda poderiam matricular suas filhas como alunas externas com um valor mais acessível, as demais famílias morando em outras localidades teriam de optar, geralmente, pelo regime de pensionato, elevando os custos com mensalidade.

De fato, o Colégio não era realidade econômica para a maioria das famílias e suas filhas. Por isso, o regulamento do colégio previa a possiblidade de gratuidade

para aulas na opção internato, para isso, contava-se com o financiamento do governo provincial Para as beneficiárias da gratuidade, a única condição imposta era que, depois de formadas, deveriam obrigatoriamente atuar no magistério público como uma forma de retribuir aos cofres públicos.

No Art.1º fala que será obrigatório receber alunas internas gratuitamente, estas que ficaram sobre cargo do governo suas responsabilidade. [...]

Art 4.º Os pais ou tutores das alumnas, que houverem de ser admitidas no collegio como pensionistas da província, se obrigarão, por contracto passado perante o inspector geral, com todas as solemnidades legaes, a destina-las ao magisterio publico, quando, depois de concluída a educação das mesmas, se acharem habilitadas para isso, sob pena de restituírem eles aos cofres da província, com o juro de 6 por % as mensalidades despendidas durante todo o tempo de educação das mesmas (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 21/01/1857, p. 2)

O colégio não tinha disciplinas específicas para a formação de professoras e nem a província tinha ainda escola normal para com essa finalidade. No entanto, o governo provincial encontrou uma maneira para formar professoras que, uma vez em exercício na profissão docente, também disseminariam os valores da boa educação exigida socialmente.

É preciso considerar a hipótese de que para as meninas e mulheres das camadas mais desfavorecidas, a escola primária, ao pretender promover a aprendizagem dos trabalhos de agulha, pode ter representado um meio de preparo para o exercício dos ofícios remunerados, o que era fundamental para a sobrevivência daquelas mulheres e suas famílias. Para muitas meninas, a escolarização também abriu as portas do magistério público. (GONDRA; SCHUELER, 2008, p. 205)

No Dezenove de Dezembro, identifica-se também um anúncio de outro colégio para meninas, localizado na Capital em Curitiba, oferecendo aulas de artesanatos e francês. A professora não se restringe a ensinar meninas, mas a qualquer mulher interessada em aprender.

COLLEGIO DE MENINAS

NO SOBRADO DO SR. ANTONIO FRANCO NO ENGENHO VELHO Madame Mariette, ex- professora de bordados, costuras e trabalhos a crochet em um dos mais afamados collegios da Europa, oferece-se a dar lições de todas as classes de bordados em ouro, seda e lã; assim como de todas as classes de costuras, e quaisquer outras habilidades de agulhas. Outrosim, leccionar em seu collegio o idioma francez a qualquer senhora que queira aprender.

Conhecendo a professora que se tornará diffícil aos paes de família de fora que enviarem diariamente suas filhas ao collegio, declara que receberá pensionista.

No mesmo collegio se aprontam com a maior perfeição quaesquer modas para senhoras, para quem sempre haverá figurinos das ultimas modas de Pariz e do Rio de Janeiro. (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 11/09/1858, p. 4)

O Colégio seria dirigido por Madame Mariette, que é anunciada como ex-professora vinda da Europa e como uma pessoa atenta à moda parisiense e fluminense. O Colégio também receberia alunas internas.

Mais um estabelecimento que propunha a educação para meninas ancorada na economia doméstica e no embelezamento feminino previsto nos códigos de etiquetas europeus. “Para as moças da elite, era obrigatório saber piano, inglês e francês, canto e tudo o que permitisse ‘brilhar’ nas reuniões” (PRIORE, 2016, p. 286). A realidade provoca a pensar que quanto menos a mulher estudasse, melhor seria para o avanço da sociedade patriarcal.

No documento FERNANDA CRISTINA DE SOUZA PEDRÃO (páginas 122-128)