• Nenhum resultado encontrado

2. Reação, capacidade de reação

2.5. O Colapso Económico

O sistema bancário colapsou em outubro de 2008 quando se esgotaram as reservas de divisa estrangeira. Dois dos grandes bancos islandeses, Landsbanki e Glitnir, colapsaram a 7 de outubro. O terceiro banco, Kaupping, recebeu a maioria das reservas de moeda emprestadas do Banco Central, numa tentativa desesperada de o manter vivo, porém, tais reservas mostraram-se insuficientes e dois dias depois, a 9 de outubro, colapsou igualmente. O empurrão final para o colapso desta instituição foi a aquisição forçada da filial britânica pelas autoridades britânicas, o que retirou toda a credibilidade aos esforços da instituição.

Em outubro de 2008 o governo nacionalizou os 3 maiores bancos da Islândia num esforço de estabilizar o sistema. Pouco depois disso a Islândia tornou-se o primeiro país ocidental, após um logo período de crescimento, a pedir ajuda ao FMI.

Assim feito o enquadramento da situação económica que degenerou no colapso da economia Islandesa, pode dizer-se que o capítulo final da bolha económica Islandesa é bastante similar ao do colapso do esquema de Ponzi. Ao evaporar-se a confiança no sistema o fluxo de novos fundos é interrompido. Os investidores antecedentes tentam em vão retirar os seus fundos e o sistema colapsa. Assim o fazem notar alguns autores, como Gylfi Magnusson, no seu artigo,

Lessons from a small country in a financial crisis (2010), que indica que o processo funciona

de maneira similar a um esquema de Ponzi: Os que entram e saem numa fase inicial têm ganhos e os que entram tarde e não saem enquanto o sistema está em expansão perdem todo o dinheiro investido.

35

Esta atitude, não esquecida pelos Islandeses, é associada à pouca vontade dos Islandeses em aderir à União Europeia. De facto, o Banco Central Europeu, e consequentemente, a União Europeia, contribuíram sem contemplações para o colapso do sistema.

2.6. A Inevitabilidade

No início do século XXI o até então insípido sistema bancário cresceu exponencialmente no estrangeiro e as divisas externas entravam no país alimentando um crescimento excecional. Antes da bancarrota do sistema bancário os bancos islandeses tinham ativos estrangeiros num valor 10 vezes maior que o seu PIB, com dívidas de igual montante, as empresas da Islândia também fizeram grandes investimentos no estrangeiro.

A sociedade Islandesa beneficiou com o forte crescimento económico existente entre 1998 e 2008. Um período de expansão da economia é favorável a todas as classes sociais e inevitavelmente todos são favoráveis à manutenção das politicas que lhe deram origem. Ainda que existam avisos de que esse crescimento não é sustentável e é fruto da especulação.

Este crescimento rápido teve grandes consequências nos tradicionais sectores de produção, como por exemplo, o sector das pescas e o sector de transformação, designadamente em termos de mão-de-obra, que se dirigiu toda para a área dos serviços.

Neste período, o consumo disparou e o número de milionários chegou a números históricos. Foi o período de ouro no consumo em que todos compravam Range Rover e em que, em Londres, a capital do consumo destes novos milionários, os Islandeses eram conhecidos pelos

“Buy kings”, expressão humorística em clara alusão aos seus antepassados viquingues.

Gráfico 8 – Crescimento anual da Islândia entre 1994-2014. Fonte: OCDE

A crise financeira global no seu pico de 2008 expôs a dependência económica Islandesa e a do seu sector bancário, deixando-a particularmente vulnerável ao colapso.

Os detalhes desta história estão documentados no relatório de nove volumes da Comissão de Investigação Especial36criada em dezembro de 2008 pelo Althinghi (http://sic.Althinghi.is). 2.7. Pressão social para a mudança

Pode dizer-se com segurança que um dos fatores que desencadearam os reiterados pedidos de transparência e de responsabilização das instituições decorre da própria crise.

Hoje, como sempre, mas mais do que nunca, as sociedades e os cidadãos pedem mais transparência aos seus Governos. O exercício da cidadania, ainda que alegadamente insípido, evoluiu e com ele as exigências do cidadão normal. Exige-se informação sobre quem tomou cada decisão com que fundamentos e porquê. O escrutínio é mais amplo, mais exigente. Os órgãos de soberania são postos à prova e é usual escutar que fazer política é cada vez mais complicado e exigente.

Para uma boa prestação de contas das instituições e para manter a confiança nessas intuições públicas é vital assegurar transparência e igualdade de circunstâncias no acesso a negócios com o Estado.

Uma sociedade com índices de riqueza elevados e em que a riqueza vai chegando a todos, não questiona, tendencialmente, enriquecimentos súbitos e inusitados nem investiga situações de favorecimento uma vez que todos estão bem, o que não deixa de ser incorreto. No entanto, numa altura de crise, em que os cortes nos rendimentos atingem a maioria, qualquer sinal contracorrente de riqueza é por todos apercebido e questionado, havendo um escrutínio muito superior.

Neste contexto, a crise traz ao de cima o papel, muitas vezes esquecido, de escrutínio, que cabe ao cidadão e que é imprescindível para a garantia de uma democracia que represente todos e não apenas alguns.

No início de 2009, três meses depois da falência dos três principais bancos, os Islandeses perante a aparente apatia do poder político, saíram à rua e manifestaram-se até o governo cair. De facto, em Janeiro de 2009, o Primeiro-Ministro resignou e foram convocadas eleições antecipadas. Como se viu, as eleições tiveram lugar em Abril de 2009 delas resultando o governo da Aliança Social Democrata e do Movimento Esquerda Verde. Em Julho de 2009, sob proposta do Governo, o Althinghi votou por uma maioria estreita solicitar a adesão à União Europeia. A opinião pública e os partidos sempre estiveram divididos na Islândia no que se refere à questão da adesão à União Europeia.

36A criação de uma Comissão de Investigação Especial por parte do Althingi foi uma das primeiras reações das instituições políticas ao colapso financeiro.