O COLETIVO COMO OBJETO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM: UMA ABORDAGEM QUALITATIVA
1. O COLETIVO COMO OBJETO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM
A interpretação dialética do processo saúde-doença, utilizada às vezes erroneamente como sinônimo do conceito da determinação social do processo saúde-doença, em conformidade com a visão histórica e dialética, funda-se no entendimento de processo, de dinâmica entre contradição e superação, dos processos de produção da saúde e do cuidado. A intervenção práxica nos processos de saúde-doença 2 Diretório de Pesquisa inscrito no CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação do Brasil) subordinado ao título “Bases conceituais e metodológicas da enfermagem em saúde coletiva.
portanto, não pertence exclusivamente a profissionais da saúde, mas ela é exatamente dos sujeitos implicados nela: o ser cuidado e o cuidador. Por sua vez, a interação entre o ser-cuidado e o ser- cuidador, que por vezes é uno, ou seja, implicado no próprio autocuidado, também traz a unidade e luta dos contrários no seu cerne. Por isso é superável, mutável e não perene.
Em saúde coletiva, entende-se que a saúde-doença é determinada pela forma que os seres humanos se inserem numa dada sociedade para produzir sua existência. De acordo com o tipo de inserção constituem-se os grupos sociais diferenciados entre si por classes sociais, gênero, geração, raça e etnia. Os grupos sociais assim divididos são homogêneos entre si e heterogêneos em relação aos outros grupos. A cada um deles correspondem maneiras específicas de produzir e reproduzir socialmente. As diferentes formas de produção e reprodução social, embora sejam faces de uma mesma moeda, resultam em potenciais de desgaste e de fortalecimento diferenciados que, ao passar por recodificação interna dada pela singularidade do indivíduo (códigos genéticos, imunológicos, sexo, idade, cor da pele, origem étnica) resultam em processos biopsicossocial do coletivo, através da recodificação externa (Egry, 1996). “A saúde coletiva é, portanto, fundamentada no Materialismo Histórico e Dialético, por sua vez, corrente filosófica fundada por Marx para superar a visão da ciência positivista (...) A visão positivista concebe a sociedade como uma máquina e os seres humanos como engrenagem dela, cada qual com funcionamento previamente dado, cuja adesão ao social é mais um fator e não determinante” (Egry, Oliveira, Fonseca & Cubas, 2010, p.66).
A teoria que interpreta os fenômenos da saúde e doença, na perspectiva da saúde coletiva é a da determinação social, ou seja, a saúde e a doença estão inexoravelmente articuladas à qualidade de vida, reflexo da forma histórica com que os grupos sociais se inserem, se constroem e se reproduzem na sociedade. A teoria interpretativa determinação social do processo saúde e doença é uma das vertentes da interpretação dialética da saúde-doença (Oliveira & Egry, 2000).
No Brasil contemporâneo, em que pesem as contradições dialéticas contidas no Sistema Único de Saúde (SUS), reconhecem-se os avanços dos conhecimentos nesta área, aperfeiçoando instrumentos e referenciais teóricos orientados por esta vertente. O SUS, como uma política de Estado, ampliou e diversificou as práticas em saúde por conceber a saúde como interligada à qualidade de vida. Em outras palavras, considerando que as condições de habitação, transporte, saneamento e de trabalho, entre outros, resultam em dado perfil de produção e reprodução social que vai implicar em um dado modo de viver, o que imediatamente influi no perfil de saúde-doença da população.
A adoção de um conceito ampliado de atenção à saúde que considera os princípios da universalidade, do acesso, da integralidade, da regionalização, da participação popular, o polo saúde e não somente o polo doença, resultou na ampliação dos fazeres dos profissionais de saúde, especialmente da enfermagem. Aliado a isto, a Estratégia de Saúde da Família, estruturante do SUS na ampliação de
cobertura e de acessibilidade, e na qual as equipes devem contar com um enfermeiro, um médico, dois auxiliares de enfermagem e seis agente comunitários de saúde, provocou um aumento significativo do trabalho e das competências dos profissionais, principalmente da Enfermagem. Isto porque é no território que os fenômenos sociais expressos no perfil de saúde-doença se manifestam de forma explícita, demandando dos profissionais conhecimentos, competências para o reconhecimento das necessidades em saúde e o enfrentamento das vulnerabilidades. Sendo as necessidades em saúde (e a vulnerabilidade) o objeto da TIPESC, torna-se imprescindível visibilizar as contradições da realidade objetiva, quer da assistência, da gestão, do gerenciamento ou da pesquisa, para que instrumentos de intervenção possam ser utilizados visando à transformação. Entretanto, não bastam os instrumentos. É preciso que eles sejam acompanhados do saber instrumental capaz de operar nos processos de trabalho. Por sua vez, esta capacidade de se recorrer ao saber instrumental é dada pelas competências profissionais, críticas e reflexivas onde o trabalhador compreende o fenômeno de forma totalizante, na sua dialética e historicidade (Egry, Oliveira, Fonseca, Cubas, 2010; Egry & Oliveira, 2008).
É preciso entender que no Objeto Coletivo estão presentes o indivíduo e as singularidades dos processos de viver a vida e de adoecer ou desenvolver potenciais de desgaste mostrando, de um lado a face coletiva e do outro a face individual do mesmo objeto. Tais faces são indivisíveis, ou seja, intervir em uma significa intervir imediatamente na outra.
Ademais, o complexo objeto de investigação para descortinar as faces do coletivo, exige a precisão e a explicitação de categorias de análise potentes para a interpretação do fenômeno, tais como classes sociais, gênero, geração e etnia, para mencionar as mais utilizadas atualmente (Egry, Fonseca & Oliveira, 2013). Ao discutir o objeto epistemológico do trabalho da enfermagem, Leopardi, Gelbcken & Ramos (2001) ressaltam que o “processo de trabalho cuidar(...) se realiza a partir de necessidades de saúde concretas ou potenciais, caracterizado pela sua especialização profissional, como consequência analítica da ciência, pela capacidade de formulação de problemas, pela sua comunicabilidade como objeto epistemológico, preditibilidade na intervenção de cuidado terapêutico [diria melhor, cuidativo] por ter técnica e arte em sua realização”(p. 34). Concorda-se com essas autoras que o “cuidado não pode ser entendido como objeto do trabalho, mas pode ser o objeto epistemológico da enfermagem, sobre o qual desenvolvemos o conhecimento. (...)”. Como “objeto epistemológico, todo o desenvolvimento teórico e tecnológico sobre o cuidar deve privilegiar a lógica da necessidade (...) em saúde dos grupos sociais dos territórios” (Leopardi, Gelbcken & Ramos, p.35). “No núcleo do sentido das necessidades em saúde encontra-se a concepção de processo saúde- doença determinado historicamente pela forma de inserção social dos seres humanos na sociedade, em última instância, pela forma como se relacionam com a natureza e com os demais seres humanos. Processos saúde-doença são a síntese do conjunto de determinações que acabam por resultar em vulnerabilidades ou potencialidades diferenciadas” (Egry et al, 2009, p.1182).
No tocante às metodologias de estudo de objeto coletivo, uma última consideração importante é a compreensão de que, marxianamente, a qualidade encerra as quantidades que a definem (Egry & Fonseca, 2015). Dito em outras palavras, estudos epidemiológicos críticos que lidam com dados empíricos quantitativos (porque são quantificáveis) não se completam sem a síntese final, dada pela hermenêutica crítica, na qual as categorias empíricas são reconfiguradas à análise e à interpretação, abstraindo-se de meros “blocos” quantitativos e de suas correlações, para “devolver” as características ou perfis aos grupos sociais que são as legítimas fontes de dados empíricos, não mais em números, mas em relevância categorial.
2. O OBJETO COLETIVO E A CONFORMAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DAS