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2.3 A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO E SUA RELAÇÃO COM O MEIO

2.3.2 O Comitê sobre o Comércio e Meio Ambiente

Durante a realização da Rodada Uruguai, entre os anos 1986 e 1994, o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente tornaram-se temas relevantes para o comércio internacional. Dessa maneira, em 1994, com a criação da OMC, adotou-se uma Decisão Ministerial, na Reunião Ministerial

ambiente. Entrevista de Roseli Ribeiro. 18 ago. 2009. Observatório Eco. Direito ambiental.

Disponível em: http://www.observatorioeco.com.br/index.php/omc-quer-conciliar-comercio- sustentavel-e-meio-ambiente/. Acesso em: 20 nov. 2009.

100 BARACAT, Fabiano A. Piazza. OMC quer conciliar comércio sustentável e meio

ambiente. Entrevista de Roseli Ribeiro. 18 ago. 2009. Observatório Eco. Direito ambiental.

Disponível em: http://www.observatorioeco.com.br/index.php/omc-quer-conciliar-comercio- sustentavel-e-meio-ambiente/. Acesso em: 20 nov. 2009.

101 JUNQUEIRA, T. OMC - meio ambiente: uma questão transversal. 25 Fev. 2007.

Disponível em: http://analisereflexiva.blogspot.com/2007/02/omc-meio-ambiente-uma- questo.html . Acesso em: 25 nov. 2009.

de Marrakech, sobre o Comércio e Meio Ambiente que pedia o estabelecimento de um Comitê sobre o Comércio e Meio Ambiente (CTE),103 o qual foi criado como parte de sua Secretaria Geral. Nesse sentido, para promover a interação harmônica entre comércio e meio ambiente foi criado então o CTE, que representa um fórum específico e permanente no âmbito da OMC, em que são discutidas e podem ser tomadas decisões sobre a relação entre comércio internacional e meio ambiente.104

A partir da criação do CTE, foram realizadas várias conferências, conforme aponta Henry Silva:105

Vale ressaltar que ocorreram cinco Conferências Ministeriais desde a criação do CTE (Cingapura – 1996; Genebra -1998; Seattle – 1999;

Doha – 2001; Cancún – 2003; e Hong Kong - 2005), mas em

nenhuma delas se conseguiu encaminhar qualquer recomendação que implicasse na alteração das regras do sistema multilateral de comércio. Contudo, o trabalho desenvolvido por esse Comitê não pode ser desprezado, pois dele podem ser extraídos subsídios importantes para a análise de inúmeras questões que envolvem

comércio internacional e meio ambiente, inclusive pode-se verificar

os posicionamentos dos Membros da OMC sobre tais matérias. (grifos não do original)

Há se colocar ainda que o CTE tem uma ampla responsabilidade sobre todas as esferas do sistema multilateral de comércio, tendo como propósito analisar as relações existentes entre comércio e meio ambiente e propor as mudanças necessárias nos acordos comerciais. Apregoa-se que as restrições ao comércio não são as únicas soluções, havendo outras possibilidades como a ajuda aos países para obtenção de tecnologias favoráveis ao meio ambiente, assistência financeira e a capacitação e formação de recursos humanos.106 Defende-se ainda que o controle ambiental, desde que dentro de parâmetros adequados, não causa prejuízo aos países, “mas se for utilizado de maneira extremada, desarrazoada ou disfarçado de protecionismo”, com certeza pode desestabilizar o comércio.107

103 Em inglês: Committee on Trade and Environment (CTE).

104 SILVA, H. I. P. Comitê de comércio e meio ambiente da OMC: informações sobre o seu

papel, atribuições e funcionamento. Pensar, Fortaleza, v. 13, n. 2, p. 206, jul./dez. 2008.

Disponível em: www.unifor.br/notitia/file/2833.pdf. Acesso em: 20 dez. 2009.

105 Ibidem. Acesso em: 20 dez. 2009.

106 JUNQUEIRA, T. OMC - meio ambiente: uma questão transversal. 25 Fev. 2007.

Disponível em: http://analisereflexiva.blogspot.com/2007/02/omc-meio-ambiente-uma- questo.html . Acesso em: 25 nov. 2009.

107 BARACAT, F. A. P. OMC quer conciliar comércio sustentável e meio ambiente.

A intenção da OMC, no entanto, é continuar liberalizando o comércio e garantir que as políticas ambientais não venham a se transformar em barreiras ao comércio. A Organização incentiva o uso de outros instrumentos para a solução de problemas ambientais, como, por exemplo, os mecanismos de cooperação internacional, não havendo interesse de seus Membros que a relação entre comércio e meio ambiente seja equacionada mediante a imposição de medidas que impeçam a circulação de bens e serviços entre países.108

O CTE, por sua vez, não proíbe que recomendações proponham a criação de medidas protecionistas, porém existe apenas uma advertência para que sejam evitadas. E nesse sentido, alguns Acordos Multilaterais sobre Meio Ambiente (AMUMAs) vêm prevendo a utilização de tais medidas que visam ao cumprimento dos seus objetivos.

O Comitê conta também com um programa de trabalho que estabelece, de modo específico, os temas que deverão ser discutidos pelos Membros durante as reuniões, que identifica objetivamente a competência material do CTE. Nesse norte afirma ainda Paiva Silva que:109

[...] o mandato do CTE menciona a possibilidade do sistema multilateral de comércio aderir às disciplinas multilaterais que o torne apto a cumprir com os objetivos ambientais prescritos na Agenda 21 (1992) e no Princípio 12 da Declaração do Rio (1992).110

Por sua vez, os formuladores de políticas ambientais e comerciais reconhecem de forma ampla que as soluções multilaterais para os problemas

http://www.observatorioeco.com.br/index.php/omc-quer-conciliar-comercio-sustentavel-e-meio- ambiente/. Acesso em: 20 nov. 2009.

108 SILVA, H. I. P. Comitê de comércio e meio ambiente da OMC: informações sobre o seu

papel, atribuições e funcionamento. Pensar, Fortaleza, v. 13, n. 2, p. 209, jul./dez. 2008.

Disponível em: www.unifor.br/notitia/file/2833.pdf. Acesso em: 20 dez. 2009.

109 Ibidem. Acesso em: 20 dez. 2009.

110 A Agenda 21, como principal documento da ECO/92, possui um programa estratégico e

universal, com propostas concretas para se buscar o desenvolvimento sustentável. E o Princípio nº 12 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento estabelece [...] “os Estados devem cooperar na promoção de um sistema econômico internacional aberto e favorável, propício ao crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável em todos os países,” e “as medidas de política comercial para fins ambientais não devem constituir um

meio de discriminação arbitrária ou injustificável, ou uma restrição disfarçada ao comércio internacional. Devem ser evitadas ações unilaterais para o tratamento dos

desafios internacionais fora da jurisdição do país importador. [...]” (destaques não do original) In

Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Disponível em:

http://64.233.163.132/search?q=cache:F65i5c7KWMAJ:www.ana.gov.br/AcoesAdministrativas/ RelatorioGestao/Rio10/riomaisdez/documentos/1752-

Declaracadorio.doc.147.wiz+declara%C3%A7%C3%A3o+do+rio+prinipio&cd=1&hl=pt- BR&ct=clnk&gl=br. Acesso em: 10 dez. 2009.

ambientais transfronteiriços, regionais ou globais, são mais aceitáveis do que as unilaterais, que apresentam riscos de discriminações arbitrárias e protecionismos disfarçados, e podem prejudicar o sistema multilateral de comércio.111

Nesse sentido, pode-se enfatizar, conforme expõe Camila Pires,112 que:

A Organização Mundial do Comércio (OMC), que hoje simboliza as relações multilaterais, se tornou um dos principais fóruns de

discussão sobre comércio e meio ambiente. Apesar de a

Organização não prever regras específicas para a proteção do meio ambiente, ela vem incorporando, cada vez mais, o tema “meio ambiente” nas relações comerciais internacionais. (grifos não do original)

Na Conferência Ministerial de Singapura, em 1996, por exemplo, o CTE afirmou que apóia as soluções multilaterais para os problemas de poluição global e transfronteiriças, e incentivou seus membros a evitar ações unilaterais para essas questões. E mais tarde, na conferência Ministerial de Doha, em 2001, acordou-se que seriam lançadas negociações sobre questões relacionadas ao comércio e meio ambiente, com um impulso ao tema e trazendo novas recomendações,113 entre outros.

Relevante frisar assim que a OMC vem assumindo “um papel importante na conciliação entre desenvolvimento e proteção do meio ambiente”.114 É fato então que as políticas ambientais não podem ser “eficientes sem um processo de integração bem coordenado,” e assim acredita-se “que é a partir das negociações na OMC que os Europeus tem a verdadeira chance de demonstrar sua real contribuição para uma governança ambiental internacional.”115

111 PIRES, C. F. B. Comércio e meio ambiente e a organização mundial do comércio. 2006,

p. 24. Disponível em: http://www.google.com.br/#hl=pt-.

BR&rlz=1R2GGLL_en&q=camila+faria+braga+pires&meta=&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=&fp =644995bb3e17c07e . Acesso em: 20 nov. 2009.

112 Ibidem. Acesso em: 20 nov. 2009. 113 Ibidem. Acesso em: 20 nov. 2009.

114 BARACAT, F. A. P. OMC quer conciliar comércio sustentável e meio ambiente.

Entrevista de Roseli Ribeiro. 18 ago. 2009. Observatório Eco. Direito ambiental. Disponível em: http://www.observatorioeco.com.br/index.php/omc-quer-conciliar-comercio-sustentavel-e-meio- ambiente/. Acesso em: 20 nov. 2009.

115 DOMINGOS, N. P. O Protocolo de Kyoto: a União Européia na liderança do regime de

mudanças climáticas. Dissertação de mestrado. São Paulo. 2007. Pontifícia Universidade

Católica de São Paulo. Disponível em: http://www.qprocura.com.br/dp/61332/O-Protocolo-de- Kyoto:-a-Uniao-Europeia-na-lideranca-do-regime-de-mudancas-climaticas.html. Acesso em: 03 dez. 2009.

3 O QUADRO JURÍDICO MULTILATERAL E A QUESTÃO AMBIENTAL

A qualidade de vida dos seres vivos está diretamente associada a um meio ambiente sadio, e a degradação ambiental, fruto das próprias atividades do homem, está alterando o planeta, principalmente quanto ao seu clima, o que leva os animais e as plantas a mudarem de comportamento e serem ameaçados de extinção. Contudo, para que se possa desfrutar de um meio ambiente sadio, é necessário ter a clara definição e delimitação de quais são os problemas ambientais e sua extensão.

É nesse instante que a intervenção do Estado se torna imprescindível, por intermédio da criação de normas, programas de orientação, políticas direcionadas, em que se busca a prevenção, através de atividades antecipativas, para reduzir e eliminar as causas que interferem e degradam o meio ambiente.116

Referindo-se aos limites da intervenção estatal no meio ambiente, Ricardo Lobo Torres117 assinala que:

O problema consiste, antes de tudo, em definir os próprios limites

da intervenção estatal sobre a sociedade civil; de um lado estão

aqueles que entendem ser tarefa do Estado Democrático de

Direito disciplinar o uso das riquezas coletivas e coibir os abusos e as ofensas praticadas contra o meio ambiente; outros,

todavia, optam pelo controle através dos próprios órgãos da

comunidade, com receio de que a intervenção estatal prejudique a

livre iniciativa das indústrias. (grifos não do original)

O Estado possui várias formas de intervenção, e utiliza diversos instrumentos para esse fim, entre os quais, podem ser citados, os mecanismos de direção, com normas proibitivas ou permissivas, que definem os instrumentos de comando e controle, e impõem os limites de poluição, de emissão de gases e do uso dos recursos naturais, acompanhados de uma fiscalização, com a aplicação de penalidades aos infratores. Há ainda os

116 SILVA, Marcelo. A defesa do meio ambiente e os instrumentos econômicos. Análise da

preocupação ambiental internacional e os meios para essa proteção ambiental. 15 jan. 2009. Disponível em: http://www.artigonal.com/direito-artigos/a-defesa-do-meio-ambiente-e-os- instrumentos-economicos-723795.html. Acesso em: 10 dez. 2009.

117 TORRES, R. L. Valores e princípios no direito tributário ambiental. In Direito Tributário

indutores de comportamento, que são mecanismos de indução que levam a um determinado objetivo vislumbrado pelo Estado, como a prevenção ou a repressão. Como exemplos de indutores de comportamento, podem ser citados os instrumentos econômicos,118 que são ferramentas essenciais para o combate à poluição e uma das chaves para a luta pela preservação do mundo moderno, com vistas à indução do comportamento social, e que são encontrados nas políticas ambientais, por meio de medidas financeiras.119

Antes, porém, da efetiva intervenção estatal, o Poder Público deve normatizar os mecanismos de direção, impondo limites de poluição e regulamentando o poluidor e os tipos de instrumentos possíveis e cabíveis, na busca de metas estipuladas de proteção, conservação, prevenção e reconstituição do meio ambiente.

Há se ressaltar, no entanto, que sem a interação de fatores como a pressão de toda a sociedade, a vontade política dos governos e sua intervenção, por meio de normas reguladoras, em conjunto com a disponibilidade de recursos financeiros e técnicos, não há como se pensar em melhoria das condições ambientais.120

Desse modo, uma das soluções viáveis, envolvendo os planos econômico, ecológico e social, está na busca de uma racionalidade econômica que forneçam incentivos para encorajar os comportamentos ambientalmente sensatos,121 alcançados, entre outros, por meio da normatização.

118 No princípio 16 da Declaração do Rio de 1992, há o princípio do poluidor pagador, que

anuncia: “As autoridades nacionais deveriam procurar fomentar a internalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, tendo em conta o critério de que o que contamina deveria, em princípio, arcar com os custos da contaminação, tendo devidamente em conta o interesse público e sem distorcer o comércio nem as inversões internacionais.”

Disponível em:

http://blog.clickgratis.com.br/ale/80068/DECLARA%C7%C3O+DO+RIO+DE+JANEIRO+SOBR E+MEIO+AMBIENTE+E+DESENVOLVIMENTO.html. Acesso em: 25 nov. 2009.

119 SILVA, Marcelo. A defesa do meio ambiente e os instrumentos econômicos. Análise da

preocupação ambiental internacional e os meios para essa proteção ambiental. 15 jan. 2009. Disponível em: http://www.artigonal.com/direito-artigos/a-defesa-do-meio-ambiente-e-os- instrumentos-economicos-723795.html. Acesso em: 10 dez. 2009.

120 GONÇALVES, Reinaldo. O Brasil e o comercio internacional. Transformações e

perspectivas. São Paulo: Editora Contexto, 2000, p. 75.

121 CARNEIRO, Ricardo. Direito ambiental. uma abordagem econômica. Rio de Janeiro:

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