• Nenhum resultado encontrado

Por universidade entende-se o lugar onde ―se pensa‖, onde se produz o conhecimento. Já a sociedade, por sua vez, é o lugar ―onde as coisas realmente acontecem‖; é o lugar para o qual, ao menos teoricamente, devem estar voltadas às preocupações da academia, que tem por objetivo encontrar as soluções mais apuradas para solucionar os acidentes de percurso da tal realidade. Na universidade, teoriza-se; na sociedade, tem-se a prática (ROCHA, 2001).

Além disto, a universidade é tida como uma instituição social e como tal exprime de maneira determinada a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade como um todo. Ela tem como matéria-prima o conhecimento e existe para servir à sociedade e contribuir para o seu desenvolvimento (CHAUÍ, 2003).

Contudo, com o surgimento da Era do Conhecimento, mudanças foram geradas na sociedade e, consequentemente, nas organizações (ANGELONI, 2003; DRUCKER, 1993; SANTOS, 2008b). O desenvolvimento da sociedade baseia-se, cada vez mais, na capacidade de criar, disseminar, compartilhar e utilizar o conhecimento. Assim, sabendo que o conhecimento é algo dinâmico e que acontece por meio da interação social, as universidades não devem ficar à margem destas mudanças (SANTOS, 2008b). Tais instituições possuem uma particularidade que as diferencia dos demais tipos de organizações: elas podem ser consideradas como verdadeiras ―fábricas de conhecimento‖, onde o conhecimento é ao mesmo tempo classificado como insumo e produto em suas atividades de ensino, de pesquisa e de extensão (ANTUNES, 2008).

Neste contexto, é que se insere a gestão do conhecimento, já que ela está ligada aos seguintes fatores interdependentes: criação, compartilhamento e utilização do conhecimento. Por se situarem no ponto de interseção destes três elementos, as universidades detêm um papel fundamental na economia do conhecimento, já que são organizações de conhecimentos. Logo, os princípios da gestão do conhecimento aplicados aos mecanismos que fazem parte da interface da universidade, da sociedade, do governo e das empresas deverão proporcionar um aumento da competitividade, bem como melhoria da qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão nas universidades e que ajudarão a suprir as necessidades das sociedades. Diante disso, vários estudos foram desenvolvidos, envolvendo a gestão do conhecimento no contexto das IES (quadro 4).

Quadro 4 (2): Teses e dissertações relacionadas ao tema gestão do conhecimento em IES Fonte: Dados da pesquisa

O que se pode perceber, primeiramente, conforme diagnosticado por Leite (2006), é que a maioria da literatura especializada e as pesquisas sobre gestão do conhecimento no âmbito de universidades lidam em geral, com os conhecimentos que circulam na universidade na mesma perspectiva do conhecimento organizacional. Leite (2006, p.210) acrescenta:

Muito embora a construção teórica desenvolvida por Nonaka e Takeuchi (1997) e outros autores tenha sido elaborada sob a perspectiva das organizações empresariais, suas contribuições extrapolam esses limites, podendo ser aplicados a outros contextos que não o original. Tendo isso em mente, e a despeito do ambiente natural da GC, chama-se atenção para a ideia de que existem outros contextos, cada um com suas especificidades e características culturais

AUTORIA TÍTULO ANO INSTITUIÇÃO CURSO TIPO

MÜLLER, João R.

Desenvolvimento de modelo de gestão aplicado à universidade,

tendo por base o Balanced Scorecard. 2001 Universidade Federal de Santa Catarina Engenharia de Produção Dissertação MACCARI, Emerson A. Gestão do Conhecimento em Instituições de Ensino Superior

2002 Universidade Federal de Blumenau Administração Dissertação PIETROVSKI, Eliane F. A gestão do conhecimento e a cooperação universidade- empresa: o caso da unidade de

Ponta Grossa do Cefet-PR.

2002 Universidade Federal de Santa Catarina Engenharia de Produção Dissertação CASTRO, Gardênia de Gestão do conhecimento em bibliotecas universitárias: um instrumento de diagnóstico. 2005 Universidade Federal de Santa Catarina Ciência da Informação Dissertação GALLUCCI, Laura Gestão do Conhecimento Em Instituições Privadas de Ensino Superior: Bases Para Construção

de Um Modelo de Compartilhamento de Conhecimento Entre os Membros

do Corpo Docente. 2007 Universidade Católica de São Paulo Administração Dissertação DE SOUZA SILVA, Cláudio Luiz.

Gestão Universitária Frente à Sociedade do Conhecimento. 2007 Universidade Católica de São Paulo Administração Dissertação ANTUNES, Liane S.M.R.

Reflexões Sobre A Aplicação da Gestão do Conhecimento Pelas Universidades: O Caso da Escola

de Engenharia. 2008 Universidade Federal Fluminense Engenharia de Produção Dissertação CAJUEIRO, Joyce L. G. Modelo de Gestão do Conhecimento Para Instituições de Ensino Superior.

2008 Universidade Federal de Pernambuco Engenharia de Produção Tese SCHENKEL, C. Compartilhamento do Conhecimento Científico em Instituição Estadual de Ensino

Superior:

O Caso do Centro de Ciências Humanas e da Educação da UDESC. 2008 Universidade Federal de Santa Catarina Ciência da Informação Dissertação

próprias, onde há produção em grande escala de conhecimento, com atributos peculiares. Um deles é o ambiente acadêmico, corporificado principalmente pelas Universidades.

Observa-se que a maioria dos estudos que envolvem a gestão do conhecimento estão relacionados, não só aos conhecimentos organizacionais, mas também estão relacionados, a outros conhecimentos, como o científico. Nesse sentido, foram desenvolvidos estudos, propondo modelos de gestão do conhecimento para IES privadas que se encontram em um ambiente mais competitivo (CAJUEIRO, 2008); sobre o compartilhamento de conhecimentos entre membros dos departamentos (ANTUNES, 2008), (CASTRO, 2005); sobre o compartilhamento de conhecimentos entre docentes (GALLUCCI, 2007); sobre a gestão do conhecimento na relação universidade-empresa (PIETROVSKI, 2002); sobre a gestão do conhecimento entre centros de pesquisas (LEITE, 2006), entre outros estudos.

Nota-se, desta forma, que os estudos foram desenvolvidos com foco nas atividades de ensino, pesquisa e serviços de apoio. Contudo, tratando-se de uma organização que produz e dissemina conhecimentos e cujo processo não se limita apenas a estas atividades, nem ao espaço interno da universidade, bem como não se limita aos atores internos que compõe a organização, algumas lacunas existem e devem ser exploradas.

A primeira lacuna se constitui no estudo da gestão com foco no compartilhamento do conhecimento no âmbito da extensão. Essa atividade que tem sido deixada de lado, não só como prática no ambiente universitário por alguns atores, mas também no campo de estudos empíricos voltados para gestão do conhecimento, conforme dados supracitados.

Dentre as atividades universitárias, a extensão se destaca, já que a mesma tem tradicionalmente servido de ponte entre a universidade e a sociedade, além de estar sendo responsável pela concretização do compromisso social da universidade e a reflexão ética sobre a dimensão social do ensino e da pesquisa. Além disso, a mesma é tida como atividade acadêmica capaz de imprimir um novo rumo à universidade e de contribuir significativamente para a mudança da sociedade (SANTOS, 2002a).

De acordo com uma pesquisa preliminar sobre a extensão (será abordada no tópico 2.2.3) acredita-se que as diretrizes que norteiam a mesma, hoje, estejam alinhadas com a Era da Sociedade do Conhecimento, já que ela lida tanto com os saberes científicos quanto os não científicos e bem como, com a troca entre saberes.

Dentro do campo dos estudos organizacionais, tal prática nos remete ao compartilhar que faz parte da gestão do conhecimento, estando a atividade de extensão inter- relacionada com esta prática.

Isso pôde ser percebido no discurso contido no documento elaborado no fim da década de 80, pelo “Fórum Nacional dos Pró-Reitores da Extensão Universitária‖, (p.1), em cujo início encontra-se um dizer de autoria de Boaventura de Souza Santos, como segue:

Numa sociedade cuja quantidade e qualidade de vida assentam configurações cada vez mais complexas de saberes, a legitimidade da universidade só será cumprida quando as atividades, hoje ditas de extensão, se aprofundarem tanto que desapareçam enquanto tais e passem a ser parte integrante das atividades de investigação e de ensino.

Esse fato reforça, de certa forma, que as discussões corroboram com as propostas de Santos (2005), que indicam uma intenção de mudança que fuja à lógica dominante, cuja ideia está presente em todo o documento elaborado pelo “Fórum Nacional dos Pró-Reitores da Extensão Universitária‖, conforme alguns trechos (p.1- 12):

[...] a universidade não pode se imaginar proprietária de um saber pronto e acabado, que vai ser oferecido à sociedade. [...] A produção do conhecimento, via extensão, se faria na troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, tendo como consequência a democratização do conhecimento, a participação efetiva da comunidade na atuação da universidade e uma produção resultante do confronto com a realidade.

[...] A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade. [...] a Extensão é uma via de mão-dupla, [...] cujo fluxo, que estabelece a troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, terá como consequências a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional, a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade.

[...] a prestação de serviços deve ser encarada como um trabalho social, ou seja, ação deliberada que se constitui a partir da realidade e sobre a realidade objetiva, produzindo conhecimentos que visem à transformação social.

Vale salientar que as sugestões acima, contidas no documento do Fórum, foram inseridas no Plano Nacional da Extensão Universitária 1998/1999/2000/2001.

Outro ponto, a ser ressaltado, é que as diretrizes que norteiam a atividade de extensão se alinham a outra lacuna relacionada ao campo da gestão do conhecimento no contexto das universidades, que consiste em uma lacuna no campo epistemológico, existente em virtude de se ter observado que os conhecimentos trabalhados nos estudos sobre a gestão do conhecimento e pela teoria dos estudos organizacionais, conforme observado, se restringem aos conhecimentos tácitos e explícitos.

Alguns estudos, como o de Leite (2006), trataram de outros conhecimentos que circulam na universidade, além do conhecimento organizacional, como o conhecimento científico, visto que este era o foco do seu estudo; no entanto, observou-se, que não existem estudos sobre gestão do conhecimento, envolvendo, além do conhecimento científico, outros tipos de conhecimentos que permeiam as atividades universitárias, sobretudo a extensão, que lida tanto com conhecimentos tácitos e explícitos como também com conhecimentos científicos e não científicos.

Diante disso, no contexto da universidade, convém inserir um complemento epistemológico coerente com os tipos de conhecimentos que a universidade vem lidando e que podem ser compartilhados e gerenciados. Assim, acredita-se que a inserção, na teoria da gestão do conhecimento, da teoria epistemológica da ecologia de saberes (sociologia das ausências e das emergências) desenvolvidas por Boaventura de Sousa Santos, que consiste em um novo tipo de relacionamento entre os saberes científicos e não científicos, possa contribuir com um avanço teórico-empírico dentro do campo dos estudos organizacionais, no que se refere à gestão do conhecimento, com foco específico em sua prática de compartilhamento do conhecimento.

Outra lacuna, trata-se da conceitualização do que se entende por compartilhamento do conhecimento, nos estudos organizacionais, que acredita-se ser inadequada às organizações universitárias, visto que ao analisar a conceitualização do que se entende por compartilhamento do conhecimento, na literatura pesquisada sobre gestão do conhecimento, nota-se que os termos compartilhamento, transmissão, troca, partilha, transferência são utilizados com frequência de forma intercambiável.

Independentemente das variações de terminologia, observou-se que prevalece a visão do compartilhamento do conhecimento, como uma prática mecanicista e funcionalista, da busca da eficiência e da produtividade por meio da apropriação dos conhecimentos que estão nas pessoas, ou ainda pode ser entendido como um processo de disponibilizar o conhecimento, de modo que ele seja absorvido, ou seja, recebido,

memorizado para ser reproduzido e difundido por alguém, a fim de servir aos interesses organizacionais (figura 7).

Nesse contexto, cabe ressaltar que se percebeu, a partir da análise do que se define por compartilhamento, nas literaturas sobre gestão do conhecimento, que o compartilhamento do conhecimento no âmbito das organizações, é apoiado por uma ideologia cujas bases consistem no acúmulo de capital, no reforço da alienação, na opressão e na exploração do ser humano.

Receber Reproduzir EU ISSO Memorizar Difundir Dar

conh

ecim

ento

conh

ec

im

en

to

co

nhe

ci

me

nto

Figura 7 (2): Compartilhamento do Conhecimento – Visão Funcionalista Fonte: elaboração própria

Relacionando a visão acima com a produção teórica nos estudos organizacionais, pode-se associá-la à ideia de que as teorias desenvolvidas nos estudos organizacionais, ainda hoje, reproduzem as condições de opressão do homem pelo homem; seu discurso muda em função das determinações sociais, sendo o capital ainda encarado como bem de produção inerente ao processo produtivo, trabalho, maximização do lucro e objetivo da empresa (TRAGTENBERG, 1998).

No caso específico da gestão do conhecimento, a citação acima se caracteriza pelo fato de se entender que as teorias que envolvem a gestão do conhecimento têm o conhecimento como uma forma de capital que deve ser transplantado da mente das pessoas para os repositórios organizacionais, e posteriormente devem ser disseminados, para serem absorvidos, memorizados e reproduzidos.

Contudo, quando se está buscando alternativas ao sistema dominante, que fomenta no âmbito organizacional, a alienação, a exploração, a exclusão social, entende-se que compartilhar pode ir além desta visão, principalmente em uma organização do conhecimento, como é o caso das universidades que devem ter suas ações voltadas para um interesse social.

Sendo assim, emergiu a necessidade de se fazer uma ampliação teórica do que se entende por compartilhamento na gestão do conhecimento, de modo a conceber um compartilhamento condizente com o contexto das universidades e com a realidade dos estudos organizacionais que, em particular, têm buscado acompanhar as mudanças sociais fazendo uso de novos aportes teóricos que possam auxiliar na reflexão teórica da sociedade. Isso significa que não apenas novas abordagens são necessárias, mas também novas possibilidades de reflexão e análise (MORGAN, 1996).

Contudo antes de conceber a ampliação do que se entende por compartilhamento do conhecimento, de modo a conceber um entendimento de um compartilhamento adequado ao contexto universitário, cabe discorrer sobre alguns aspectos que influenciam o mesmo, de modo a constituir uma barreira para a consecução do mesmo que esteja de acordo com a realidade universitária, para em seguida discorrer sobre o estado da arte do compartilhamento do conhecimento na extensão universitária.

O compartilhamento de conhecimento é influenciado por inúmeras variáveis, que podem impactar no mesmo de diferentes maneiras (DAVENPORT; PRUSAK, 1998; NONAKA & TAKEUCHI, 1997; SZULANSKI, 2000). Entre as variáveis que se destacam, estão aquelas relacionadas com o conhecimento transferido, com o transmissor e o receptor do conhecimento, e com o contexto em que ocorre o compartilhamento do conhecimento. No tocante a variáveis que configuram barreiras ao compartilhamento, temos também os paradigmas do conhecimento e os modelos mentais, que serão discorridos a seguir.

2.2.1.1

Os paradigmas: O conceito científico-social

Para que possamos saber como os paradigmas podem interferir no entendimento do conhecimento e, por conseguinte, na gestão e no compartilhamento do conhecimento, é necessário que contextualizemos nossa análise. Qual é o nosso entendimento acerca do conhecimento? O que é e não é conhecimento? De que forma o conhecimento é compartilhado e construído? Por que é importante refletirmos sobre essa questão?

Durante toda a história da humanidade, ocorreram diversas mudanças que influenciaram a forma de pensar, dos homens, sobre a concepção de mundo, o entendimento sobre conhecimento, como também o entendimento sobre eles mesmos.

2.2.1 Barreiras do compartilhamento do conhecimento: