4 A CONDUTA DA VÍTIMA E SUAS REPERCUSSÕES NA ESFERA DE
4.2 O RISCO DO COMPARTILHAMENTO DE IMAGENS ÍNTIMAS
4.2.2 O compartilhamento pela vítima e a análise do risco gerado
Outra situação fática se apresenta quando se está diante da hipótese em que a vítima, por livre e espontânea vontade decide compartilhar material íntimo com um terceiro. Neste caso, ainda que se verifique o exercício de uma liberdade individual,
na busca do alcance de uma experiência sexual, resta evidenciado que o risco gerado ganha novos contornos.
Nesses casos, a vítima contribui de maneira direta para a realização da conduta do perpetrador, uma vez que possibilita a este, o acesso ao conteúdo que virá a ser objeto de exposição. Desta feita, é preciso analisar até que ponto a vítima contribui para a prática do revenge porn.
No momento em que registra uma imagem de cunho sensual e realiza o seu compartilhamento com um terceiro, diante da velocidade das interações digitais, a vítima tem ciência que está sujeita à possibilidade de que suas imagens sejam compartilhadas e difundidas no âmbito da Internet, propiciando que um terceiro venha a lhe causar um dano à honra. Na hipótese em análise, a mulher, na busca do exercício de sua sensualidade, atua de maneira ciente da situação de perigo que seu comportamento gera.
Neste ponto, faz-se mister a análise da atuação da vítima na proteção de seu bem jurídico. Conforme aponta Roxin (2002, p. 6), o que a teoria finalista apresentou como dever objetivo de cuidado, na análise dos delitos culposos, o funcionalismo engloba na análise da produção de um risco juridicamente desaprovado.
Desta feita, o dever de cuidado está baseado na ideia de que o agente deve agir de maneira diligente, prudente e de acordo com o seu grau de habilidade na prática do ato, desautorizadas as práticas de condutas que se apresentem aptas à realização de um dano a um bem jurídico. Em uma análise puramente finalista, inobstante a produção do resultado seja indispensável para caracterização da culpa, o que se pune em essência não é esse último, mas antes a violação do dever de cuidado.
As liberdades individuais dos cidadãos são garantidas por meio da elaboração de um contrato social e as normas penais funcionam como meio de assegurar o exercício daquelas, evitando que um indivíduo venha a intervir de maneira negativa no exercício da liberdade de outro. Com a maior produção de riscos, inerente a uma sociedade moderna, passa-se a analisar não mais puramente a produção de um resultado, mas antes o incremento de um risco através de um comportamento desaprovado. Na sociedade atual, o uso da liberdade é perigoso por si só, de modo que se anteriormente o direito penal buscava impedir um comportamento comissivo
que violasse liberdades alheias, agora há uma mudança de paradigma e se passa a exigir dos indivíduos uma atuação em conformidade com um dever geral de cuidado (GÜNTHER, 1986, p. 503).
Neste ponto, o funcionalismo, ao analisar o dever objetivo de cuidado, considera-o insuficiente para determinar a realização do tipo, acrescentando a este elemento, o fato de que a violação a este dever, além de juridicamente reprovada, incremente um risco e em decorrência deste, ocorra um resultado danoso (ROXIN, 2014, p. 26).
Assim, na esteira do pensamento funcionalista, as condutas que criem riscos permitidos ou diminuam os riscos já existentes não são passíveis de imputação ao agente, ainda que exista um nexo causal entre a conduta e o resultado. Neste sentido, ainda que o comportamento da vítima dê ensejo à prática delitiva, não há que se imputar qualquer grau de culpa, quando observados os deveres de cuidado.
Face ao apresentado, resta evidenciado que a pessoa que deseja exercer a sua sexualidade e compartilhar material de cunho sexual com um parceiro ou pessoa de seu interesse, tem ciência dos riscos que seu comportamento traz a um bem jurídico de sua titularidade e, portanto, cuja proteção é de seu interesse. Diante da facilidade no fluxo e disseminação de informações no ambiente virtual, um compartilhamento de conteúdo erótico pode trazer prejuízos à honra da pessoa exposta, bem como danos psicológicos que interfiram na sua esfera social.
Ao compartilhar conteúdo íntimo com uma pessoa, a vítima demonstra entender os perigos de seu comportamento, aceitando a exposição a um risco, mas tem convicção de que o resultado danoso não se configurará, pois espera que o receptor mantenha aquele conteúdo dentro do âmbito da relação estabelecida entre eles. Assim, verifica-se que a conduta isolada da vítima de compartilhar a imagem não caracteriza um risco proibido pelo direito e tampouco representa uma autolesão, uma vez que não possibilita por si só, a geração do resultado.
Neste ensejo, apesar de incidir na prática de um risco permitido, o comportamento da vítima contribui para a ocorrência do revenge porn, uma vez que, ao fazer o registro e compartilhar material erótico próprio, possibilita que o perpetrador dissemine o conteúdo compartilhado, em desacordo com o que se espera dele.
Não se pode olvidar que, conforme apontado anteriormente, a maior parte das ocorrências de compartilhamento indevido ocorrem por ex-companheiros das vítimas, que desfazem o vínculo de confiança criado durante o relacionamento, no momento em que realizam a divulgação não autorizada da imagem. Neste ponto, deve se destacar que no momento do compartilhamento, a vítima possui um sentimento de afetividade para com o receptor, de forma que a confiança está intrínseca às circunstâncias de convivência dos envolvidos.
Mais do que confiança, o compartilhamento da imagem pressupõe uma relação de confidencialidade, de maneira que a vítima acredita que a sua intimidade se confunde com a do seu companheiro, dando lugar à intimidade do casal. Inobstante tenha convicção de que aquele conteúdo enviado dentro do contexto de confidencialidade recíproca não sairá da esfera de conhecimento do casal, possui pleno conhecimento dos riscos que a exposição virtual possa vir a gerar.
Neste sentido, Mônica Castro (2002, p. 46) aponta que a intimidade é direito da personalidade reservado ao próprio titular que guarda em si uma gama de segredos da vida privada e por óbvio, a confissão destes somente se dá face àquelas pessoas que o titular acredite firmemente que estão aptas a mantê-los afastados do conhecimento dos outros. Insere-se na esfera desse direito, a imagem do corpo, tão íntimo e particular, o qual deve ser revelado apenas perante o cônjuge ou companheiro, e uma vez violada a confiança, o titular sofrerá prejuízos direitos ao seu direito (CASTRO, 2002, p. 47).
Diante do apresentado, aquele que recebe imagens de cunho íntimo de terceiro, deve agir de maneira a preservá-las e manter a relação de confiança construída anterior. Ao passo que o receptor da imagem age em desconformidade com o direito e viola a confiança estabelecida anteriormente com a vítima, quando divulga um conteúdo do qual tivera acesso em regime de total confidencialidade.
De outra parte se verifica, no entanto, que a pessoa exposta atuara de maneira displicente, sem atentar para as regras mínimas de segurança na Internet para preservar a sua intimidade, de maneira que a análise do fato passa a ganhar novos contornos e a conduta do divulgador deve ser encarada de uma nova forma.
Assim como na situação apresentada no tópico anterior, o comportamento do titular do bem contribui para a ocorrência do resultado. Contudo, a vítima confia que
se o receptor da imagem agir conforme o direito e atender à confiança nela depositada, sua conduta não produzirá nenhum resultado danoso contra si.
Neste ensejo, o comportamento da vítima situa-se na esfera do risco permitido, de maneira que o resultado só ocorrerá se um terceiro agir de modo a violar uma expectativa de comportamento em conformidade com o direito. Dentro dessa perspectiva, torna-se essencial delimitar
4.3 A ANÁLISE DO COMPARTILHAMENTO COMO UMA HETEROCOLOCAÇÃO