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II. Abordagens teóricas ao estudo da privatização no Estado

3. Modelos de análise económica

4.2. Pressupostos do Contracting out e da Concessão

4.2.1. O Competitive tendering

Um dos pressupostos a ser utilizado através do recurso do mecanismo de contracting out quando qualquer organização, pública ou privada, se socorre da contratação externa, é o competitive tendering, processo pelo qual se decide a qual dos candidatos se vai contratar o bem e/ou serviço que se pretende. Existem duas ou mais organizações a oferecer os seus serviços, pelo que se depreenderá, teoricamente, que a qualidade será maior e o preço de aquisição mais reduzido.

Ascher254, citado por Araújo, defende que o competitive tendering é o processo pelo qual se irá adjudicar – tomar uma decisão oficial – um dos projectos em competição, tendo em consideração a relação preço versus qualidade. É o conceito que Bourn255 defende.

Contrariamente a esta posição encontramos Dunleavy256, que entende o competitive tendering como um mecanismo de privatização. O competitive tendering é o mecanismo utilizado pelas organizações públicas quando decidem transferir a terceiros a produção dos serviços que primeiramente foram realizados na própria.

Johnston e Romzek257 depreendem que a utilização deste tipo de contratos é um mecanismo para que o Governo possa usufruir da eficiência que caracteriza os mercados. A competição aumenta substancialmente a probabilidade de uma produção eficiente.

Dunleavy258 reporta às realidades americana e britânica, onde as agências podem concorrer com os privados no que respeita aos serviços a serem adjudicados. Walsh partilha da mesma ideia porquanto uma organização pública pode também concorrer na oferta pública para a produção e/ou prestação de qualquer bem e/ou serviço. Este facto faz uso da aproximação ao “competitive tendering ou market testing”259, ao invés de contratar aos sectores privado e voluntário ou não lucrativo, apelidado de terceiro

254

Vide ARAÚJO, Joaquim Filipe – A, ob. cit., pág. 11

255

Vide BOURN, John, ob. cit., pág. 28

256

Vide DUNLEAVY, Patrick, Democracy, Bureaucracy and Public Choice. London: Harvester WheatSheaf, 1991, pág. 227

257

Vide JOHNSTON, Jocelyn; ROMZEK, Barbara, “Contracting and Accountability in State Medicaid Reform: Rethoric, Theories, and Reality” in Public Administration Review, Vol. 59, n. º 5, September/ October 1999, pág. 385

258

Vide DUNLEAVY, Patrick, ob. cit., pág. 227

259

sector, como únicas decisões realizáveis. Acrescenta Dunleavy260 que a competição entre as partes – pública versus privada – vai melhorar as capacidades da agência: 1) na especificação do produto e/ou serviço oferecido; 2) no aumento da eficiência; 3) na redução de custos desnecessários. Mesmo não sendo a agência a contemplada com a prestação do bem e/ou serviço, o esforço empregue já é um óptimo indicador na modernização que se quer empreender no Sector Público.

London261 afirma que a competição irá beneficiar o Governo com uma ferramenta importante para a redução dos custos da sua actividade, através do melhor aproveitamento dos recursos que os trabalhadores irão concluir. E para Savas, esta é a única forma de se conseguir a tão desejada diminuição dos custos porque “os empregados do governo são ineficientes por natureza”262.

Savas é da opinião que a competição é o ingredienteUchave para uma privatização de sucesso263. Explica a sua posição: a razão dos elevados custos e falta de qualidade dos serviços prestados pelo Estado não se deve aos colaboradores públicos. De facto os colaboradores públicos em nada são inferiores aos colaboradores das organizações privadas. O facto relevante não é organização pública versus a organização privada mas antes a forma de concorrência imperfeita do monopólio versus concorrência264.

Como pudemos constatar, existe uma discordância entre Savas e London. Savas assegura que é essencial a existência de várias opções no que respeita à entrega dos serviços públicos, porquanto a dependência de um único fornecedor é nefasta ao processo de privatização. O cidadão, sem a possibilidade de escolha e flexibilidade no consumo de serviços públicos, está à mercê do abuso Estatal265. Aponta igualmente uma crítica aos Governos porque a distinção entre a provisão e a produção de bens e/ou serviços públicos nos encaminhou para situações peculiares: “Que estranho. OpomoUnos com vigor aos monopólios do sector privado, e contra a falta de concorrência, através da produção de legislação. Isto acontece porque sabemos que o interesse público é afectado

260

Vide DUNLEAVY, Patrick, ob. cit., pág. 227

261

Vide LONDON, Rossane; “Tools for Governing: Privatization, Public Private Partnerships, and Entrepreneurial Management” in Public Administration Review, Vol. 62, n.º 1, January/ February 2002, pág. 118

262

Idem, pág. 118

263

SAVAS, Emanuel Steve – A, ob. cit., pág. 122

264

Vide SAVAS, Emanuel Steve – A, ob. cit., pág. 155

265

com a falta de concorrência e alternativas no consumo”266. “Mas no sector privado escolhemos a forma de monopólio e a proibição de concorrência em determinados sectores, porque acreditamos que a concorrência é uma duplicação desnecessária”267.

André partilha da ideia de Savas ao defender que grande parte das “falhas” de Mercado que se constatam são provocadas pelo próprio Estado: “Não serão os proteccionismos que impedem a existência de concorrência? Não serão as externalidades o resultado da inoperacionalidade do Estado? A oferta insuficiente e os preços elevados não serão o resultado de proteccionismos mantidos pelo Estado? A insuficiente informação sobre produtos e serviços não será o resultado ou da não imposição de normas aos fornecedores e da não informação por si prestada?”268.

Em suma, “a evidência empírica actualmente disponível não nos deixa margem para dúvidas: o proteccionismo, pelos reflexos negativos que tem na performance económica e na estabilidade política e social, não constitui uma alternativa credível a uma postura de maior abertura à integração internacional das economias”269.

Em conclusão, e reportandoUnos ao ponto 1.2. da nossa dissertação sobre “uma visão económica da intervenção do Estado”, declaramos que os objectivos do Estado, aquando da intervenção no mercado, são a promoção da eficiência e da equidade. Mas estes objectivos podem não ser alcançados devido à existência dos bens públicos puros, de externalidades e/ou de(as) imperfeições de mercado. As imperfeições de mercado dãoUse aquando da existência de um monopólio, oligopólio, etc., em suma não há competição. Ao introduzirmos a competição entre os agentes que actuam no mercado a eficiência irá, teoricamente, aumentar, logo o competitive tendering é um pressuposto do contracting out e/ou da concessão.

266

O autor apresenta um exemplo da necessidade de competição no Sector Público Administrativo: “A refreshing and thought – provoking example of deliberate effort to stimulate. Intergovernmental competition comes from Yugoslavia. The city fathers of Ljubljana, the capital of Slovenia, desired the services of some city planners and solicited formal bids not only from the city planning agency of their city but also from the city planning agency of Zagreb, the capital of the neighboring Croatia Republic. An American observer there at the time remarked that he had never seen city employees anywhere work as hard as Ljubljana´s city planners, who wanted desperately to avoid the humiliation of having their own city’s work contracted out to their professional and regional rivals” – SAVAS, Emanuel Steve, ob. cit., pág. 136. O exemplo não corresponde à rivalidade salutar, digamos que de carácter económico, antes representa uma competitividade étnica – obviamente que o autor não previa o que anos mais tarde viria a suceder na exUJugoslávia, exactamente pela rivalidade étnica

267

SAVAS, Emanuel, ob. cit., pág. 134

268

ANDRÉ, Manuel, ob. cit. pág. 135

269