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2 CAPÍTULO – OS FENÔMENOS MIGRATÓRIOS, A MIXOFOBIA E O DIREITO PENAL DO INIMIGO

2.2 O complexo da vida nua do imigrante e a mixofobia

Os imigrantes, impulsionados pela pobreza, pela seca, fome, subdesenvolvimento do seu país e também, em razão das guerras ocorridas neste, buscam melhores condições de vida nos países que, ao seu ver, poderiam suprir as suas necessidades e, principalmente, onde suas chances de sobrevivência seriam maiores, acreditando, assim, no consumismo global.

Ao imigrar para o desconhecido, o imigrante leva consigo, toda a bagagem histórica e cultural de seu país, que forma a sua identidade. E é essa questão do pertencimento à sua cultura “original” “local”, do lugar a que pertencia anteriormente a migração que faz com que o indivíduo seja considerado um ser “diferente” do que aquele nativo.

Desta forma, o Estado passa agir de forma defensiva, a fim de preservar e manter inalterada a sua identidade local. Este agir do Estado faz com que ocorra o chamado de “racismo cultural”, onde há uma superioridade na cultura local, tratando a “que vem de fora” como diferente e de forma menosprezada. Ao migrarem, muitas vezes passam a ser vistos como intrusos em terras estranhas para disputar trabalho com a população local, reproduzindo-se, assim, estereótipos e preconceitos.

Além disso, ao manter preservada a sua identidade original, o imigrante passa a ser visto de como diferente e fora dos padrões locais, o que vem a contaminar a sua imagem, associando a ele a figura de terrorista, de criminoso, delinquente, visto que não é igual (e nunca vai ser) aos nativos.

Assim, os países ao estereotipar e assimilar a imagem de delinquente ao imigrante, passam a assumir uma postura defensiva, o que traz à tona a xenofobia e a mixofobia, visto que causa temor para a sociedade. Diante disso, o Estado associa ao imigrante todas as mazelas da comunidade, e desta forma, segundo Bauman (2005, p. 2) “o ‘mascaramos’ como diferente, e tratamos ele como estranho, aquele que não merece viver e muito menos, estar na mesma sociedade que eu habito, principalmente em razão dele ser o causador do mal da minha comunidade”

Neste liame, quando o cidadão nativo e o estrangeiro (visto como inimigo) são tidos diferentes perante a sociedade, visto que este (sujeito de não direitos) oferece um risco a toda a comunidade, devendo, por conseguinte, ser combatido, é que o Estado passa a utilizar-se do Direito Penal do Inimigo, a fim de eliminar o “mal” da sociedade. Ocorre que, com a criação de inimigos faz com que o Estado passe a atuar de forma autoritária, visto que suprime todos os direitos e garantias do indivíduo.

Ademais, o que se depreende é que o inimigo passa a ser tratado de qualquer maneira, visto que este não possui direitos a serem assegurados, o que se torna totalmente contraditório dentro do Estado Democrático de Direito, de acordo com Zaffaroni (2007, p. 153)

Por isso, a admissão jurídica do conceito de inimigo no direito (que não seja estritamente de guerra) sempre foi, lógica e historicamente, o germe ou o primeiro sintoma da destruição autoritária do Estado de direito, posto que se trata apenas de uma questão de quantidade – não de qualidade – de poder. O poder do soberano fica aberto e incentivado a um crescente incremento a partir da aceitação da existência de um inimigo que não é pessoa

Desta forma, criamos a identidade do imigrante em cima de uma figura terrorista, clandestina e criminosa, ao qual direcionamos olhos preconceituosos e de reprovação. Ademais, ao ver o imigrante desta forma, onde não possui direitos e garantias, os quais são suprimidos pelo Estado, é que impulsiona a mixofobia e a xenofobia. Pois, se até mesmo o Estado trata o estrangeiro como diferente, porque o nativo não o trataria assim também.

Martínez Escamilla (2007, p. 25-26) chama a atenção para o medo que é associado à figura do imigrante, quando fala que: “la inmigración se percebe como una amenaza para nuestra paz social y para nuestro sistema de bienestar y, por lo tanto como um fenómeno frente al que hay que defenderse”.

Para Lucas (2016, p. 95) “o imigrante é portador daquilo que não sou, por isso desafia minha presença” e assim, relaciona-se a ideia de que ele utiliza um espaço que não é seu, ou que não lhe é devido, ensejando uma ameaça para a população autóctone, principalmente para as classes mais vulneráveis.

Na mesma senda, para Zygmunt Bauman (2009, p. 45)

Eles vem para a cidade e transformam-se em símbolos dessas misteriosas – e por isso mesmo inquietantes – forças da globalização. Vêm sabe-se lá de onde e são – como diz Bertold Brecht – “ein Bote des Unglücks”, mensageiros de desventuras. Trazem consigo o horror de guerras distantes, de fome, de escassez, e representam o nosso pior pesadelo: o pesadelo de que nós mesmos, em virtude das pressões desse novo e misterioso equilíbrio econômico, possamos perder nossos meios de sobrevivência e nossa posição social. Eles representam a fragilidade e a precariedade da condição humana, e ninguém quer se lembrar dessas coisas horríveis todos os dias, coisas que preferíamos esquecer. Assim, por inúmeros motivos, os

imigrantes tornaram-se os principais portadores das diferenças que nos provocam medo e contra as quais demarcamos fronteiras. (grifo nosso)

A partir disso, evidencia-se que surge na sociedade a mixofobia, seja ela o “medo de misturar-se com imigrantes” trazendo à tona a ideia que se tinha no século passado, onde o diferente era tido como menor em dignidade e direitos, que de acordo com Flávia Piovesan (2012, p. 1-2) “um ser esvaziado mesmo de qualquer dignidade, um ser descartável, um ser supérfluo, objeto de compra e venda (como na escravidão) ou de campos de extermínio (como no nazismo)”, feitos estes que marcaram a história da humanidade de formas desumanas.

Neste sentido, para Wermuth (2014, p. 16) “a mixofobia alimenta a desconfiança em face do “estranho”, do “diferente”, impondo a necessidade constante de estabelecimento de um espaço de “segurança” que precisa ser delimitado em relação ao da insegurança”.

Bauman (apud SOUZA, 2016, p. 67) afirma com propriedade a suposta falta que é atribuída aos estrangeiros/nômades, ao referir que estes significam falta de clareza, pois não possuímos a certeza do que eles farão e como responderão aos nossos atos e assim, não podemos dizer se são amigos ou inimigos, sendo que desta forma, não poderemos deixar de olhá-los com suspeita.

Uma analogia ao medo do desconhecido e a mixofobia, ao fato de querer excluí-lo do lugar em que eu me encontro, pode ser verificada no Episódio 5 (cinco) da 3ª (terceira) temporada da série Black Mirror. No episódio, O soldado Striper em uma batalha contra as “baratas” mata duas delas que estão escondidas dentro de uma residência.

Porém, antes de mata-las, uma lhe atinge com um “flash”, que faz com que seja desconfigurada a sua programação (visto que o soldado é treinado para matar), passando assim, a ver as “baratas” como seres humanos e não mais como monstros, como quando estava configurado para tal.

No final do episódio, Striper está em uma cela e o médico lhe explica os motivos de que eram usadas estas máscaras, a fim de que determinadas pessoas fossem vistas como monstros e não mais como pessoas: matar sem dó. Essa foi a resposta do médico: “precisamos

que os soldados vejam monstros e não seres humanos para que possam matar mais facilmente”.

De forma analógica, pode-se aproximar este episódio à realidade, visto que se “mascara” o diferente, e o trata como estranho, como aquele que não merece viver e muito menos, estar na mesma sociedade que “se habita”.

Assim, todos os medos e inseguranças que o imigrante traz para o novo ambiente ao qual migrou, faz com que fique cada vez mais evidente a mixofobia, que nada mais é do que o medo de misturar-se, ou, na ótica de Bauman (2009, p. 44) é visto como “um impulso em direção a ilhas de identidade e de semelhança espalhadas no grande mar da variedade e da diferença”. O referido autor, ainda afirma que a mixofobia é uma:

Difusa e muito previsível reação à impressionante e exasperadora variedade de tipos humanos e de estilos de vida que se podem encontrar nas ruas das cidades contemporâneas e mesmo na mais “comum” (ou seja, não protegida por espaços vedados) das zonas residenciais. Uma vez que a multiforme e plurilinguística cultura do ambiente urbano na era da globalização se impõe- e, ao que tudo indica, tende a aumentar -, as tensões derivadas de “estrangeiridade” incômoda e desorientada desse cenário acabarão, provavelmente, por favorecer as tendências segregacionistas. (BAUMAN, 2009, p. 43)

Estas tendências segregacionistas, da qual Bauman infere, alimentam a mixofobia ao ponto de que, quanto mais se exclui o estranho, mais o meu ambiente está protegido, e mais medo do desconhecido eu tenho. Assim, as pessoas buscam somente conviver com os nativos, ou ainda, com as pessoas que são iguais à ela, em razão de não querer misturar-se com o diferente.

Desta forma, Wermuth (2014, p. 153) é sensato ao destacar que “o grau de mixofobia de uma determinada sociedade vai determinar o alcance da sua obsessão por segurança. Isso porque a mixofobia alimenta a desconfiança em face do ‘estranho’, do ‘diferente’”.

Souza (2016, p. 67) faz uma perfeita relação entre a antiguidade e a atualidade, ao dizer que antes os campos de concentração representavam a morte, hoje, a prisão; em ambas, representa a condenação ao sedentarismo; a ser igual ao sedentário.

Na sociedade capitalista em que se vive, as pessoas se veem forçadas a possuir um emprego bom, a possuir bens, um domicílio, forçadas a participar da sociedade de acordo com os padrões impostos. Desta forma, a incapacidade de participação da sociedade de consumo e dos padrões impostos por ela trazem o castigo da permanência sob as pontes, calçadas, ruas, praças e estações de metrô (SOUZA, 2016, p. 68).

Nesse sentido, Bauman (apud SOUZA, 2016, p. 68) traz a reflexão sobre esses “seres” que não se adaptam e não se enquadram adequadamente na sociedade de consumo

(...) os estrangeiros – “os forasteiros”, as pessoas que “não são como nós” – podem ser confinados a seus próprios alojamentos, de modo que possamos contorna-los e evita-los; podem ser designados para certos empregos e serviços, a serem usados apenas em tempos e lugares claramente definidos; e podem ser mantidos separados, a uma distância segura do fluxo da vida diária normal.

No processo repressivo, o qual é determinado pela mixofobia, há uma relação entre o que se chama de “moral sedentária” e “moral nômade”. Para Souza (2016, p. 72) a moral sedentária tem origem na ideia nacionalista contra os nômades-cosmopolitas, quando estes dizem sim à própria vida e procuram realizar seus sonhos, saem em busca da pouca perspectiva que possuem, mas que mesmo assim, desenterram-se e lutam por aquilo que desejam. Já os nacionalista-sedentários, dizem não aos que vêm de fora, sendo estes diferentes do povo que ali permanece, os autóctones, sendo estes repressores daqueles.

Os sedentários dizem não ao novo, ao diferente, ao que vem de fora, dizem não ao outro, que de certa forma, são iguais a eles. Dizem não à busca vital pela vida, pela dignidade e pela liberdade que tanto buscam os nômades-cosmopolitas. Essa repressão feita por aqueles, é a “manifestação política da rebelião escrava no plano moral; é o movimento do ressentimento, criando e gerando valores”.

Para Nietzsche (apud SOUZA, 2016, p. 72) “enquanto toda moral nobre brota de um triunfante dizer-sim a si próprio, a moral dos escravos diz não, logo de início, a um ‘fora’, a um ‘outro’, a um ‘não-mesmo’: e esse ‘não’ é seu ato criador”.

E nessas repressões que o Estado passa a olhar o imigrante de uma forma cada vez mais excludente, partindo do pressuposto de que ele traz risco à sociedade, e por isso deve ser tratado com inimigo desta, expandindo suas punições, como resposta ao medo e a insegurança populacional.

Desta forma, faz-se necessária a utilização da estrutura de direitos humanos a fim de ajudar a identificar onde o racismo, a xenofobia e a discriminação contribuem para a migração, e também para fornecer critérios de identificação e medir onde o racismo, a discriminação e a xenofobia afetam o tratamento dos migrantes e refugiados.

2.3 O Direito Penal do Inimigo e o recrudescimento das leis a fim de conter os fluxos