2.2 A POLÍTICA INDUSTRIAL E O COMPLEXO ECONÔMICO-INDUSTRIAL DA
2.2.2 O complexo econômico-industrial da saúde (CEIS)
Para Gadelha (2012a), no âmbito da economia política, há uma necessidade de recuperação do pensamento desenvolvimentista, de refletir sobre aprendizado e inovação para garantia do desenvolvimento. Nesse aspecto, segundo o autor “a saúde como qualidade de vida implica pensar em sua conexão estrutural com o desenvolvimento econômico, a equidade, a sustentabilidade ambiental e a mobilização política da sociedade”.
Assim, a saúde, além de ser um elemento estruturante do bem-estar, inerente à dimensão social do desenvolvimento, passou a ser vista como um espaço econômico interdependente, que configura um sistema de inovação e um sistema produtivo, sendo parte inerente também do desenvolvimento econômico do país.
Dessa maneira, propôs-se o conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) como uma forma de explicar a característica sistêmica da saúde, reconhecendo que para o atendimento da demanda da sociedade por bens e serviços inerentes a esse setor, existe uma base produtiva que se responsabiliza pela sua oferta (GADELHA; COSTA; MALDONADO, 2012b).
Portanto, o CEIS se caracteriza por essa dinâmica que converge determinados setores industriais e serviços sociais destinados à prestação de cuidados em saúde, evidenciando uma visão integral que compreende que o capital e o social devem afluir em prol de um objetivo comum, que é a prestação equânime e universal da saúde. Buscando uma definição de Complexo Industrial da Saúde (CIS ou CEIS)4,
verifica-se que Gadelha (2003) introduz esse conceito ao buscar uma junção da área da saúde e do complexo industrial, mostrando que não há como pensar em desenvolvimento nacional sem articular as políticas industriais e tecnológicas com a política de saúde, reconhecendo dessa forma, inclusive, a natureza capitalista da área da saúde, algo essencial para a busca do lucro e de mercados e o atendimento às necessidades sociais e individuais.
O autor afirma, inclusive, que as políticas sociais não podem ser dissociadas do sistema capitalista, pois é por meio do sucesso deste que aquelas podem ser adequadamente atendidas. E é por isso que a dinâmica industrial e competitiva que envolve o setor de saúde representa um grande desafio acadêmico e político, em virtude da tensão ocasionada entre o interesse público e o privado, exigindo uma visão sistêmica desse setor, de maneira a evitar privilegiar apenas a dimensão econômica ou apenas a social, mas sim buscando aliar esses conceitos em prol do desenvolvimento.
O conceito de CEIS se sustenta, ainda, pela teoria neoschumpeteriana5,
privilegiando a atividade produtiva e a capacidade inovativa, medida pela capacidade
4 A conceituação do Complexo Industrial da Saúde (CIS) ou Complexo Produtivo da Saúde,
proposta por Gadelha, 2002 e 2003, é rigorosamente idêntica à do conceito de Complexo Econômico- Industrial da Saúde (CEIS). Esta nova terminologia é proposta em decorrência do fato de que parte da aplicação do termo “CIS” acabou restringindo-se aos segmentos industriais, atenuando o caráter sistêmico da abordagem que incorpora também o segmento de serviços em saúde (GADELHA, 2010). E é exatamente em virtude da limitação inerente à terminologia do CIS que neste trabalho será adotado o conceito de CEIS.
5 A teoria neoschumpeteriana considera que compreender os contextos social, econômico, tecnológico
e institucional – dentro dos quais os agentes econômicos estão inseridos – e sua evolução é de fundamental importância para a explicação das trajetórias de um sistema econômico (Freeman e Perez 1988 apud FELIPE, 2008). A teoria ressalta o papel das inovações como elemento fundamental para o entendimento da dinâmica de todo o sistema capitalista (FELIPE, 2008).
empresarial de transformar conhecimento em novos produtos e/ou processos, ou melhorar de forma significativa os já existentes, imprimindo à saúde um papel multifacetado, colocando-a como um dos eixos principais do desenvolvimento nacional (ALMEIDA, 2018).
Gadelha e Temporão (2018) afirmam, ainda, que “a dinâmica captada por Marx e Schumpeter para caracterizar o capitalismo como um sistema em permanente transformação é apreendida no âmbito da saúde” ao compreender a inovação como um verdadeiro processo de transformação política, econômica e social.
Assim sendo, o CEIS oportuniza uma nova visão da relação existente entre a lógica social e a produtiva, pois é por meio da expansão da base produtiva em saúde que se pode atingir o objetivo do acesso universal à saúde (GADELHA et al., 2010). A concepção do CEIS, aliada à percepção da saúde como fator chave para o crescimento e desenvolvimento nacional, torna-se extremamente relevante em um país no qual a saúde tornou-se, a partir da sua última Constituição, promulgada em 1988, um direito de todos e dever do Estado e que, para esse fim, criou o SUS, pois seu potencial econômico e social pode auxiliar a reduzir a vulnerabilidade do SUS, ajudando-o a cumprir seus princípios, considerando, especialmente, a alta demanda por saúde no Brasil e a pressão da sociedade pela garantia do acesso indiscriminado e melhorias em sua qualidade.
Faz-se necessário, ainda, considerar as próprias características recentes do país, como o aumento da população e seu envelhecimento (transição demográfica) e o comprovado aumento da incidência de doenças crônicas (transição epidemiológica). Isso, aliado ao estabelecimento da saúde como um componente de proteção social, inserida na constituição brasileira como direito universal, conforme apontado anteriormente neste trabalho, torna o CEIS um componente estratégico na busca de garantir saúde com qualidade à população (SILVA, 2014).
E, para que os serviços possam ser realizados e o atendimento à população seja efetivado, é necessária a produção de uma grande quantidade de bens oriundos de setores industriais diferentes, que, dentro do CEIS, são organizados em dois grandes blocos: as indústrias de base química e biotecnológica (indústria farmacêutica, vacinas, hemoderivados e reagentes para diagnóstico), e as de base mecânica, eletrônica e de materiais (equipamentos e materiais médicos).
Além disso, o CEIS é formado pelo segmento de serviços, que nada mais é do que a confluência dos dois grandes segmentos industriais, pois a prestação do serviço
requer os bens e inovações trazidos pela indústria. Conforme explica Almeida (2018, p. 68), “é justamente essa organicidade que o setor de serviços possui, ao utilizar a produção dos setores industriais, que cria a possibilidade de defini-los como um complexo econômico-industrial da saúde”.
Especificamente neste trabalho, o enfoque se direciona ao segmento de base química e biotecnológica, em especial a indústria farmacêutica e a produção e comercialização de medicamentos, vacinas e hemoderivados.
Cabe ressaltar que o setor de saúde respondia, até 2016, por cerca de 20% do gasto mundial com Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), sendo uma das mais importantes frentes de inovação e uma área de alto interesse estratégico para a sociedade (HASENCLEVER et al., 2016).
Inclusive, segundo Gadelha et al. (2012b), as atividades do CEIS constituem uma das maiores áreas de dinamismo econômico, correspondendo, em 2009, a 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Hasenclever et al. (2016) reforçam essa informação, mostrando que a participação do CEIS no PIB nacional se manteve estável no período entre 2000 e 2013, oscilando entre 7,5% a 9%.
Assim, em face da visão neoschumpeteriana aliada à ideia de desenvolvimento capitalista nacionalista em detrimento ao desenvolvimento dependente que vigora atualmente no país6, entende-se a importância do CEIS para a base produtiva
nacional no setor de saúde, como forma de fomentar a industrialização do país em um segmento que é essencial não apenas para a alavancagem econômica da nação, mas também para a prestação social contínua e obrigatória que emana da Constituição Federal.