REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Composição Corporal: Princípios, Conceitos, e Aplicações.
2.1.6 O Componente de Massa Magra e seu metabolismo
Assim como a quase totalidade dos parâmetros relacionados com o desenvolvimento estrutural do ser humano, a massa magra também depende de
estímulos ambientais e de fatores genéticos. No entanto, considerando que os sistemas
constituição óssea e muscular é estabelecida durante a vida embrionária, as principais alterações observadas posteriormente na quantidade absoluta de massa magra se processam dentro de uma certa faixa preestabelecida geneticamente, mesmo quando o desenvolvimento da massa magra venha a receber influência direta de programas específicos de atividade física (ASTRAND, 1980). Por outro lado, a massa magra entre pessoas fisicamente ativas e sedentárias, ou ainda durante as diversas fases da ontogênese de uma mesma pessoa, não se diferenciam apenas em termos de quantidade, mas também no que diz respeito a sua composição (GUEDES, 1990). Em outras palavras, o envelhecimento orgânico e o exercício físico podem provocar não só um maior ou menor desenvolvimento no sistema muscular e esquelético, como também alterações na composição dos tecidos muscular e ósseos.
Segundo ETNSTNGBACH (1990), o desenvolvimento da musculatura de um
indivíduo traduz seus esforços normais e diários. Para NAHAS (1989), músculos
usados com freqüência e de forma adequada, tomam-se mais fortes; músculos inativos se tomam fracos e flácidos. A hipertrofia muscular envolve a síntese de constituintes celulares adicionais, utilizando os padrões de DNA já existentes, e a hiperplasia muscular requer uma réplica adicional dos padrões de DNA através de um processo de divisão celular, logo que o conteúdo celular tomar-se relativamente fixo, tanto o crescimento natural como qualquer resposta do meio ambiente, como o exercício físico (tarefas motoras), dependem unicamente de um aumento no conteúdo citoplasmático das células já existentes (GUEDES & GUEDES, 1997).
Na realização de esforços musculares, durante o trabalho corporal, o provedor de energia primário é o ATP (trifosfato de adenosina) intracelular. O desdobramento do ATP em ADP (difosfato) e energia, é suficiente para uma contração muscular máxima de 2 a 3 segundos. O ATP rico em energia toma-se imprescindível para a realização do trabalho muscular, e só é possível prosseguir esse processo quando se produz a resíntese do ATP. O primeiro processo de resíntese se produz através do fosfato de creatinina, que ressintetiza o ADP em creatinina e em ATP necessário para a contração muscular de forma imediata. O corpo humano consegue armazenar fosfato de creatinina suficiente para executar em média 20 segundos de trabalho muscular máximo. Em um tempo de contração muscular máxima maior, a produção de ATP se dá mediante o intercâmbio anaeróbico-láctico de hidratos de carbono e o consumo anaeróbico-láctico destes, assim como de ácidos graxos livres. A velocidade de contração de uma musculatura,
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corresponde a sua produção energética, ou seja, quanto mais rápida é a contração de um músculo mais energia primária deverá ser produzida e colocada a disposição (ETNSTNGBACH, 1990).
Exemplificando a teoria exposta por ETNSTNGBACH (1990), podemos citar o estudo de O’HARA e col.(1979), no qual observaram perdas notáveis na massa gordurosa e ganhos na massa magra, em soldados, após exercícios realizados em baixas temperaturas, durante dez dias. Estes autores relatam uma perda de 3,9 Kg de gordura e um ganho de 3,9 Kg de peso livre de gordura (massa muscular), em 55 soldados submetidos a trabalho intenso em regiões Árticas e Subarticas. Os pesquisadores sugeriram que a exposição ao frio e os exercícios físicos produziram reduções nas espessuras das dobras cutâneas e na gordura corporal, além de gerarem um aumento no peso livre de gordura (massa muscular). A firmaram ainda que a perda de gordura observada com a exposição ao frio poderia ser explicada a partir da síntese de novas proteínas, cetose e por um pequeno déficit energético.
Pode-se citar ainda o estudo realizado por GETCHELL & MOORE (1975), onde analisaram as adaptações sofridas por homens e mulheres de meia idade, quando submetidos a um programa de treinamento físico de 10 semanas. Ambos os grupos perderam uma quantidade de peso desprezível, -0,7 e -0,8 Kg para homens e mulheres, respectivamente. A soma das medidas de suas dobras cutâneas reduziu-se substancialmente, saindo de 144,6 mm para 115,4 mm, nas mulheres, e de 148,8 mm para 110,6 mm nos homens. Tais alterações sugerem que ocorreram perdas de gordura corporal total e ganhos nos pesos livres de gordura.
Observando-se estes estudos, pode-se certamente transferi-los para a ergonomia como experiência prática, e adaptá-los a uma realidade comum à algumas profissões, ao analisar-se aspectos ergonômicos relacionados ao trabalho executado sob temperaturas extremas e com alto grau de exigência física.
Tmportante ainda aqui apresentar os estudos descritos por ASTRAND (1980) em seu livro, onde relata as pesquisas realizados por alguns clássicos da fisiologia como LAUBACH, W1LMORE, HOSLER E MORROW.
LAUBACH, comparou as habilidades básicas relacionadas a força muscular entre homens e mulheres. Este autor relatou o seguinte: (1) as medidas de força dos membros superiores nas mulheres variavam entre 35 e 79 % daquelas registradas para os homens, com uma média de 55,8%; (2) as medidas de força para os membros
inferiores em mulheres variavam entre 57 e 86% daquelas registradas para os homens, com uma média de 71,9%; e (3) as medidas de força do tronco em mulheres variavam entre 37 e 70%, em relação àquelas assinaladas para os homens, com uma média de 63,8%.
WILMORE, comparou a força absoluta de homens e mulheres em idade universitária tanto para a porção superior do corpo, quanto para a inferior, registrando para as mulheres um percentual de apenas 36,9% da força dos membros superiores registrada para os homens, e 73,4% da força dos membros inferiores da população masculina. Quando a força era expressa em relação ao peso corporal, as mulheres apresentavam apenas 46,2% da força dos membros superiores da população masculina, mas 92,4% da força dos membros inferiores registrada entre os homens. Quando estes percentuais eram expressos em relação ao peso corporal magro, removendo-se a influência do tecido adiposo corporal, as mulheres revelavam somente 53,4% da força masculina para os membros superiores, porém 106% da força masculina relacionada às pernas. Em outras palavras, as mulheres se mostraram tão forte quanto os homens, quando se corrigia a força para o peso livre de gordura, mas isto somente se mostrava válido no que diz respeito a força das pernas.
HOSLER E MORROW, encontraram achados semelhantes entre mulheres e homens jovens, no que se refere à força isocinética de braços e pernas. Estes autores observaram que, uma vez que a composição corporal e o tamanho haviam sido controlados, o sexo do indivíduo era responsável por apenas 2% da variação da força dos membros inferiores e por somente 1% da diferença de força para os membros superiores. Assim parece que a qualidade da musculatura é semelhante entre homens e mulheres, porém o maior tamanho dos homens sempre se constituirá numa vantagem distinta em termos de força absoluta.